sábado, 30 de abril de 2005

Fugiu tudo da esplanada e enfiaram-se em casa

Deram entrada, há mais ou menos tempo, os seguintes sítios:

O Boato, de Alexandre Borges
Melancómico, do Nuno Costa Santos
Não Sei Brincar, do João Pedro George & cia.
Olha que não, do Filipe Nunes e da Mariana Vieira da Silva

Como é que é? Já se pode apagar o link do Esplanar?

Pianola

Malta, temos teclista.

sexta-feira, 29 de abril de 2005

A intolerância de Ratzinger

João Miguel Tavares diz exactamente aquilo que penso:

(...) Esta falta de tolerância para opiniões opostas, sobretudo se colocadas num tom um pouco mais apimentado, é uma triste consequência da falta de debate interno na Igreja e da mão de ferro que é exercida pela hierarquia sobre todo o pensamento que foge ao cânone estabelecido. Também aqui há um dedinho do ex-cardeal Ratzinger, que como grande guardião da doutrina foi apertando a rede de dogmas até praticamente sufocar toda a palavra divergente.

Ora, o grande mérito dos Evangelhos é a estruturação do discurso de Jesus em parábolas, numa linguagem metafórica que permite a abertura dos sentidos, e que por isso continua a estimular-nos, dois mil anos depois. A transformação da metáfora em dogma é uma atitude violenta e concentracionária, profundamente farisaica, que deixou um rasto de milhões de mortos ao longo dos séculos. Mas há cristãos que continuam sem perceber isso. Chamar "pastor alemão" a Bento XVI é uma piada. Uma graçola inofensiva. E se Deus existir, há-de ter algum sentido de humor.

O pastor alemão (parte II)

São neste preciso momento 11h22

E ainda bem que a censura não se partilha.

quinta-feira, 28 de abril de 2005

Duas sem tirar

Pulula por aí um inquérito literário. Desconhecendo quem inventou a coisa dá mesmo assim para perceber que é alguém que conhece bem o mercado: fazer perguntas sobre livros a bloguístas é a mesma coisa que colocar um microfone a trinta centímetros da boca de Francisco Louçã. Ou um espelho em frente de José Castelo Branco. Ou uma folha de papel por baixo da mão de António Lobo Antunes. Ou... Acho que me fiz explicar. Há no meio disto tudo um fenómeno que me atormenta. Há vários, para ser sincero, mas um eleva-se sobre todos os outros. Falo do número consideravelmente elevado de pessoas que diz estar a ler dois ou mais romances ao mesmo tempo. Que se responda estar a conciliar a leitura das instruções da mesa de cabeceira comprada no Ikea, o último Paulo Coelho e o Portugal, Hoje, o Medo de Existir ainda percebo, pois tratam-se de obras não muito exigentes e que se acabam por se complementar. Mas, senhores, dois romances (ou mais) ao mesmo tempo? Qual é a vantagem de ler dois romances (ou mais) em paralelo comparado com lê-los em série? Mais: qual é o critério? Ler dois (ou mais) romances ao mesmo tempo só se pode explicar pela existência massiva de múltiplas personalidades por essa blogosfera fora. É como se fosse heterónimos leitores. Almas diferentes que exigem palavras diferentes. Alguém que me explique. Agradecido.

Of Human Bondage



Começa a fazer sentido um clube de fãs blogosférico d'A Servidão Humana.

Coisas que melhoram algumas vidas

Museu Marítimo de Ílhavo.

quarta-feira, 27 de abril de 2005

Dia 29 de Abril

Sms 4

Caiu



do

céu.

Sms 3

(Post censurado)

Sms 2

Fiquei sem bateria.

Sms

Às vezes a realidade supera a ficção.

«Alimentamos o culto do objecto estranho»



(...) Gosto muito do modo como trabalham estes dois irmãos. (...)
Produzem sempre dezenas de maquetas: primeiro, de reconhecimento e de palpação pessoal; depois, para discussão com o cliente, hipóteses, alternativas, prós e contras bem ilustrados, preparados para o compromisso da escolha crítica; finalmente trechos, bocados, detalhes elaborados paralelamente aos desenhos e fornecidos durante as obras, facilitando o diálogo, ultrapassando os limites e as insuficiências da representação técnica, recusando o conformismo de dizer «vivemos numa época em que já não se sabe construir», recusando a resignação! (...)

«O Museu do Mar e da Ria», Manuel Graça Dias, 30 Exemplos (pag. 100), ed. Relógio d'Água 2004

Fala-se de Nuno e José Mateus, sócios do atelier ARX Portugal, talvez os arquitectos com a obra mais interessante actualmente em Portugal, que vivem agora o tempo da sua confirmação, com obra construída para além das maquetes esquisitas.

Imperdível

As palavras de Nicolai Ouroussoff sofre a Casa da Música.

Via Quartzo, Feldspato & Mica.

Claro que o digo, assim, à frente de toda a gente. Não é segredo

terça-feira, 26 de abril de 2005

A arquitectura não é para aqui chamada

Desconheço os contornos do caso específico mas a questão da casa de Almeida Garrett é muito interessante em abstracto. Fala-se, percebo eu, de um imóvel que pertence a um particular ao qual é atribuído um valor patrimonial devido à sua história e não tanto à sua arquitectura. Não perco tempo a perceber se esta valorização é justa ou não. Parto do princípio que é. Esta é a situação que me interessa tanto: um particular (individual ou colectivo) é dono de um imóvel que quer demolir para poder construir no terreno respectivo um edifício que lhe traz um benefício bastante superior. Consideremos que o actual valor imobiliário do imóvel é A, e que o potencial valor futuro é B. B é superior a A porque o indíce de construção permitido é superior ao actual. No caso específico da casa onde, dizem as más-línguas, Almeida Garrett defecou um par de vezes, a diferença entre A e B não é assim tão grande, já que dos actuais 2 pisos se passa para 5 (ainda assim deverá corresponder a 3 ou 4 vezes mais). Admitamos a hipótese de, em vez de ser 3 ou 4 vezes, ser 100 vezes maior (como deve acontecer com aquele edifício de esquina na Fontes Pereira de Melo, perto do Imaviz e do Saldanha Residence, o tal que tem um projecto do Bofil preparado). Perante este cenário, o que pode o Estado fazer? Não nos podemos esquecer do interesse do proprietário: classificar o edifício, imobilizando totalmente as hipóteses do proprietário, constituiria uma violação da propriedade privada (há quem diga que isto é uma violação dos Direitos Humanos.) Logo, restaria ao Estado comprar o imóvel pelo valor de B, o que, no caso da diferença entre A e B ser da ordem de 100 para 1, poderia ser considerado um desperdício de dinheiros públicos (o facto de Almeida Garrett aí ter defecado um par de vezes vale B?) Há, portanto, que encontrar soluções alternativas de modo a que seja mais vantajoso para o proprietário manter o actual edifício (claro que nesta situação o que deveria acontecer é o que aqui é dito: «os admiradores da obra de Garrett criam uma associação de amigos de Almeida Garrett, que enceta negociações com o proprietário para comprar, com as quotas que pagam, o dito prédio.») Vamos por esta hipótese de lado, considerando que não há, nem há perspectivas de haver tão cedo, uma associação de amigos de Almeida Garrett. A solução mais inteligente parece-me a seguinte: criar as condições fiscais necessárias que incentivem o proprietário a manter o imóvel. Como? Incentivando o actual proprietário a criar a associação de amigos de Almeida Garrett, com sede no dito imóvel, com benefícios fiscais que justifiquem a não opção pela solução B.

Como é óbvio sou pela manutenção de toda e qualquer construção que, apesar de não ter valor arquitectónico, carregue algum significado histórico relevante. Isto porque me parece ser uma medida eficaz para o melhoramento da relação entre a cidade e os seus habitantes. Uma cidade só pode ser boa se é amada por quem lá (cá) vive. E amar seja o que for precisa sempre de um passado visível*, tal e qual as molduras dos avós que temos espalhadas pela casa. Que se mantenha a casa onde Almeida Garrett defecou um par de vezes (sem prejuízo para o actual proprietário) e espete-se lá uma placa em doirado a dizer AQUI DEFECOU ALMEIDA GARRETT (UM PAR DE VEZES).

*Este passado visível só pode ter reflexo em duas situações: valor arquitectónico ou valor histórico. Preservar o velho pelo velho é um crime.

«Não faço ideia»

Para quem teve o previlégio e a perspicácia suficiente para ouvir o esquisso musical que se apresentou aí na barra lateral durante os últimos dias, reparará na evolução que o dito teve. Ora aí está a versão remasterizada. Não que deixe de ser um esquisso à mesma, mas é, digamos, um esquisso a tinta da china. Para responder à inúmera correspondência que nos tem chegado (dizem-me só comparável à caixa-postal electrónica do Abrupto), posso adiantar que o nome, provisório, a colocar nos cartazes é Les Frères de François (depois explico).

O livro da minha vida

Sempre resisti ao impulso de querer eleger para livro da minha vida um livro que gerasse de imediato temor intelectual nos meus interlocutores. O que me impede (para além da sinceridade e honestidade em desuso) de proclamar que o livro da minha vida é o Ulysses? Aliás, o que é o livro da nossa vida? Deve ser aquele, penso, que consegue maximizar aquilo que esperamos de um livro. O problema está no que esperamos de um livro. Há quem, numa posição inatacável, queira distracção e entertenimento, justificando uma resposta Código da Vinci (que não li, por nenhuma razão em especial, apenas por falta de tempo, mas segundo me dizem é muito divertido). Outros exigem interpelações pessoais fortíssimas, e então o livro tem de ser algo que abra feridas que levem tempo a sarar (ou nunca cheguem a sarar mesmo). Eu não sei o que espero de um livro. Prefiro não o saber e esperar que sejam os livros, cada um, a responder à vez. No entanto, e se me perguntarem qual é o livro da tua vida?, acho que ainda respondo A Servidão Humana, de Somerset Maugham, precisamente por ter ficado apanhado pelo Philip. A intimidade que sinto com essa personagem (relativamente auto-biográfica) é estranha de explicar. Muito do que julgo saber sobre a vida (que, como todos sabemos, é apenas um eufemismo de amor) aprendi-o naquelas páginas. Ou então foi apenas coincidência, o que não deixa de ser também extraordinário.

P.S: Errei. Há de facto uma coisa que me impede de eleger o Ulysses como o livro da minha vida: nunca o li.

amo-te

segunda-feira, 25 de abril de 2005

PREC

O meu problema que com as comemorações do 25 de Abril é que se trata de celebrar o 25 de Abril. Se nos cartazes estive escrito Liberdade Sempre! em vez do patrimonial 25 de Abril Sempre! eu juntar-me-ia ao desfile, sem ter de me lembrar do período que se iniciou com a Revolução e terminou com Soares a impor-se ao democrático Partido Comunista. Mas nessa altura preferiria desfilar no outro 25.

Reparo agora neste post do Blasfémias. Está lá tudo.

domingo, 24 de abril de 2005

Fascinante

O congresso do CDSPP. Sinceramente.

sábado, 23 de abril de 2005

Depois não digam que não avisei



E está desfeito o mistério do nome, o nome, o nome que nenhum locutor da Radar consegue dizer decentemente.

Messanine



Mas o que me intriga mesmo é o "recuperada por arquitecto". Um gajo paga todas as letras que escolhe, e escolhe, sem que ninguém o obrigue, dedicar 23 das 68 letras (aproximadamente um terço) a anunciar que a casa que quer vender foi "recuperada por arquitecto". Há gajos que não querem mesmo sair de casa.

Acho inclusivamente que li qualquer coisa da Susan Sontag sobre esta matéria

Cada dia que passa este blogue parece-me mais uma omolete sem ovos.

As saudades que eu já tinha da minha alegre casinha

No fundo o que todos queremos é uma imagem. A imagem de casa, tão íntima quanto os nossos desejos.

sexta-feira, 22 de abril de 2005

E≠mc2

18 de Abril de 1955 - Morre Einstein, pai da Teoria da Relatividade.
19 de Abril de 2005 - Joseph Ratzinger é eleito Papa, sob o manto do combate ao «relativismo da modernidade».

Descobertas inquietantes

Uma marca de panelas, com versão em inglês.

Geração de 70

(...) Ratzinger é um defensor da "fé clara" (perigosa figura de estilo) e o seu antimodernismo é inquietante. Para afastar o relativismo, o niilismo, o individualismo, Ratzinger rejeita em bloco a modernidade e o que esta representa. Mas o mundo moderno não nos trouxe só egoísmo, materialismo e outras doenças. A este mundo também pertencem a ciência, a medicina, os direitos individuais, a diversidade, a tolerância, a heterodoxia religiosa, a autonomia pessoal, o cepticismo. Se Ratzinger estiver contra tudo isto, será mais o Papa de uma minoria do que o Papa de todos os católicos.

Bento XVI e a modernidade, Pedro Lomba

(...) Evidentemente, houve muita gente que ficou contente com o nome do novo Papa. Os católicos mais fervorosos e o Opus Dei rejubilaram. Os ateus e os agnósticos que votam à direita e que entendem que a função da Igreja é disciplinar o rebanho e levantar o estandarte dos valores ocidentais adoraram. E os católicos obedientes, que aceitariam até se o anel de pescador fosse enfiado no dedo de um guarda suíço, acataram e aplaudiram.

O pastor alemão, João Miguel Tavares

quinta-feira, 21 de abril de 2005

quarta-feira, 20 de abril de 2005

Já deu para perceber

O meu conclave decorre de porta aberta à comunicação social.

A ordenação das mulheres

O que me preocupa é, sabendo que não há nenhum argumento teológico suficientemente sólido que justifique a situação actual*, que muitos católicos não percebam que não é possível advogar papéis diferentes do homem e da mulher seja no que fôr e que, ao fazê-lo, a Igreja projecta uma imagem arcaica da sua organização. Se a Igreja quer continuar a ter um papel importante no mundo tem de se mostrar viva, e não pode adoptar a atitude de orgulhosamente só, como parece estar a preparar-se para fazer com o espírito de combate aos relativismos modernos.

* O argumento, último e categórico, é a escolha de apenas homens para discípulos por parte de Jesus.

Paradoxo

Falo do que me inquieta no Vaticano. Os assuntos são os de sempre, os óbvios. Respondem-me, recorrentemente, com um «mas isso são questões menores». Ora aí está: se são questões menores então deviam ser mais facilmente alteráveis, não é?

Verdade e história

Falam-me da Fé (com maiúscula) como tentativa para justificar Ratzinger. Confiar em Deus parece resolver o problema. E, se confiamos realmente em Deus, então não chega a haver problema, porque a teologia pregada por Bento XVI é a verdade, aquela que sempre foi a da Igreja, ou pelo menos desde a Idade Média. A Fé aliada à verdade histórica da Igreja confirmam Ratzinger como o homem certo no lugar certo. Mas não se pode cair na tentação de se considerar a Fé imune ao juízo da razão. Sob pena de ser utilizada para justificar o injustificável, até as maiores atrocidades. Como aconteceu no passado.

Inimigo do meu inimigo meu amigo é

Lamentável a reacção de alguma direita que vê na eleição de Ratzinger um facto positivo porque incomoda a esquerda.

Podemos até pensar nisso, sim senhor, mas não esperem que mudemos uma vírgula

A ordenação de mulheres foi resolvida definitivamente pelo Papa João Paulo II há mais de dez anos e só está na pseudo ordem do dia que os jornalistas inventam. Já a questão do celibato sacerdotal é discutível em certos sectores da Igreja. O cardeal Ratzinger é de uma grande abertura e sabe o que é a doutrina e a pastoral da Igreja. Portanto, ponderará a questão. Espero, que o cardeal Ratzinger vá na boa direcção reafirmar a disciplina de celibato segundo a tradição da Igreja.

Pe. João Seabra, in DN

Nós (hoje)

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana

Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos

Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana

Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos o jogamos
«Meu deus meu deus porque me abandonaste?»


Ruy Belo

terça-feira, 19 de abril de 2005

Be(a)nto XVI

Não, não estou preparado para lhe dar o benefício da dúvida. Enganam-se aqueles que julgam que Bento XVI é o indicado para seguir João Paulo II. O que vai acontecer ao diálogo ecuménico, por exemplo? Por agora o único facto positivo que consigo ver nisto tudo é a sua data de nascimento.

Meu Deus, porque me abandonaste?

Perdoai-lhes Senhor, porque eles não sabem o que fazem.

Fumo branco?

Eu vejo-o muito negro.

E agora?

E agora?

Ratzinger

Confirmam-se todos os meus piores receios. O Vaticano entregue (agora oficialmente) às mãos do Opus Dei. Joseph Ratzinger, agora Bento XVI, desejo-se um bom mas curto papado. Que sejas uma mera figura de transição.

Vários sms e conversas entre católicos. A desilusão é geral. Aura Miguel está sem vida na voz. Insisto: impressiona-me o tom de desilusão total na voz da jornalista da Renascença.

Raios

Tentei tudo: SIC on-line, RTP on-line, TSF on-line. Nada funcionou. Sobrou-me a Renascença. Exacto: oiço Aura Miguel.

Habemus

quem?

Um argumento contra a ideia que sou um esteta:

Branco / negro

O João diz, numa caixa de comentários aí em baixo, que eu pareço um perigoso esquerdista quando falo de Ratzinger. Há no entanto uma grande diferença: o esquerdista quer que Ratzinger seja eleito.

Leitura recomendada

Sobre a Casa da Música e a polémica à volta do seu custo e utilidade recomenda-se vivamente a leitura deste editorial de Peter Davey: Common Decency - architecture of public buildings :

Most modern governments have strange values when it comes to procuring buildings. They want to make their mark: the public demands schools, hospitals, infrastructure projects and much else. But there must be no sign of wasting taxpayers' money. (...)

Dois posts que eu podia (gostava de) ter escrito

Still catholic after all these years
Desassossegado, a espreitar o fumo on-line, sabendo que esta eleição, importantíssima para o mundo católico, é decisiva para mim.

Still catholic after all these years (2)
O que me inquieta nos que estão contra o mundo moderno é que me parece estarem simplesmente contra o mundo.


Pedro Mexia, Fora do Mundo

segunda-feira, 18 de abril de 2005

Nacional

O futuro da arquitectura não é aquele, pois não, mas o futuro da arquitectura já não são os monumentos, e os monumentos não se fazem com orçamentos controlados sob pena de não serem monumentos.

Ratzinger ataca pela direita, Martini mete mais dois centrais, Policarpo faz sprints na linha lateral

Alguém sabe quanto é que está o conclave?

Adenda: Parece que o jogo começou duro, com uma entrada a pés juntos logo nos primeiros minutos por parte de Ratzinger:

(...) o alemão Joseph Ratzinger, apelou ao desenvolvimento de uma fé "mais madura" e à necessidade de combater a nova "ditadura de relativismo" da modernidade (...)

Estado em que se encontra este blogue

Fumo negro. Muito negro.

domingo, 17 de abril de 2005

I wish I was Asterix*

O elogio do amigo

Muitas vezes ouvi dizer, e corroborei, que os arquitectos se definiam por uma mal-cheirosa rede de amizades mútuas que se auto-promoviam. É verdade, basta olhar para a coincidência de nomes dos júris e vencedores dos principais concursos. Mas adiante. Isto para dizer que, apesar da blogosfera ser completamente inútil no que toca ao capítulo da promoção, é com agrado que parto daqui para uma parcial análise da obra de Ourém, quiçá a obra de arquitectura mais famosa da blogosfera. O que o João tem vindo a fazer é, acho, algo de inédito. A sua série Livro de obra permitiu (digo permitiu porque parece que a obra caminha para o seu apogeu final, com sanca, sim, mas não se pode ter tudo) a todos nós partilhar as angústias, desilusões, vitórias e alegrias do arquitecto enquanto construtor, e não apenas poeta espacial ou teórico de algibeira. Este post é suscitado pela agradável surpresa que tive ao ver (sempre através do blogue) as cores aplicadas na fachada. Depois de ver esquissos, desenhos técnicos, maquetes (inclusivé ao vivo), a coisa finalmente eregida surpreende pela positiva. O preto (aqui acinzentado) sobre o fundo branco acentua a identidade código de barras do edifício. Ficamos, agora, à espera de ver aqueles vãos nus receber a caixilharia e o inevitável vidro, continuando o atribulado caminho da materialização e perseguição da ideia. O Niemeyer diz, em entrevista à Sábado desta semana, que você já pode ter visto melhor e pior do que Brasília, mas igual não viu de certeza e a isso se chama de arquitectura. Desta vez o velho marxista acertou em cheio, e o João de certeza identificará estas palavras com o espírito do mestre, também ele marcado por esse desejo da invenção (falo de Manuel Vicente). Os habitantes de Ourém já viram pior, e, talvez, já tenham visto melhor, mas igual não viram de certeza. E por isso o João já ganhou. Apesar dos honorários abaixo de cão.

Esta terra malcuidada inspira em mim uma espécie de saudade

Ontem (...) uma incursão por Lisboa. Dá uma impressão maltrapilha, mas simpática. A vida parece transcorrer confortável, bonacheirona, sem pressa ou mesmo objectivo ou consciência. Por toda a parte nos consciencializamos da cultura antiga. Graciosa. Vendedora de peixes fotografada com uma bandeja de peixes na cabeça, gesto orgulhoso, maroto. (...) De volta ao navio. Esta terra malcuidada inspira em mim uma espécie de saudade. Hoje já bastante quente, apesar do céu encoberto.

Diario de Viagem, Albert Einstein, 11 de Março de 1925
in Grande Reportagem 223

Companhia de Jesus



Cardinal Carlo Maria Martini, Archbishop emeritus of Milan, (Italy) was born on 15 February 1927 in Turin. He entered the Society of Jesus on 25 September 1944 at the age of 17. He completed his studies in philosophy at the Jesuits House of Studies in Gallarate, in the province of Milan, and theology at the faculty of theology in Chieri, where he was ordained a priest on 13 July 1952 at only 25 years of age.

In 1958, he received his doctorate in theology from the Pontifical Gregorian University, with a thesis entitled Il problema storico della Risurrezione. After some years of teaching at the faculty of Chieri he returned to Rome and earned a doctorate in Scripture at the Pontifical Biblical Institute, always summa cum laude, with a thesis on Il problema della recensionalità del codice B all luce del papiro Bodmer XIV. Dean of the Faculty of Scripture at the Biblical Institute, he became rector in 1969 to 1978 when he was nominated chancellor of the Pontifical Gregorian University, succeeding Father Carrier.

His became active in the scientific field by publishing various books and articles. One must remember that he was the only Catholic member of the ecumenical committee that prepared the new Greek edition of the New Testament. His books on spiritual exercises are very much appreciated for originality and style, adding new light to the traditional Ignatian model. Among these, Gli esercizi ignaziani alla luce di San Giovanni; L’itinerario spirituale dei Dodici nel Vangelo di San Marco; Gli esercizi ignaziani alla luce di San Matteo; Gli esercizi spirituali alla luce di San Luca; Vita di Mosé, vita di Gesù, esistenza pasquale. In 1978 Paul VI invited him to preach the annual retreat in the Vatican, where one of his predecessors in this exceptional ministry was Cardinal Karol Wojtyła, who became Pope John Paul II and elected him Archbishop of Milan on 29 December 1979 and personally consecrated him on 6 January 1980. (...)

Apontado como um dos favoritos, o representante da ala progressista do Vaticano. Jesuíta. O meu candidato.

Coisas simples



Luis Barragán

sábado, 16 de abril de 2005

What have the romans done for us?!

O futuro da Casa da Música

Ginestal Machado.

Este blogue passa a ser, a partir de hoje, assumidamente activista do lóbi para a classificação relâmpago da Casa da Música como monumento nacional.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

Casa da Música

João, estás a atacar o cavalo pelo lado errado. Há muito por onde questionar Koolhaas, sem dúvida, e já lá vamos. Mas concede o estado de graça à Casa da Música que ela bem merece. Aqui só podemos agradecer ao holandês porque, sem qualquer tipo de dúvida, ele desenhou não só um equipamento cultural de excepção para o Porto, como também uma das obras de arquitectura mais importantes a nível mundial no virar de milénio. Tudo ali funciona bem: o conceito, o espaço, os materiais, a textura, a luz, a implantação. Não conheço nenhum outro edifício da OMA do qual se possa dizer isto (talvez a biblioteca de Seattle, havemos de lá ir em procissão um dia destes).
Se queres maldizer o tipo que tal pegares na paupérrima Embaixada da Holanda em Berlim, obra vencedora do Mies van der Rohe 2005? Não é só o facto da Zaha Hadid e dos seus comparsas serem demasiado obtusos para entender o Estádio de Braga que me desgosta: o grande problema é que a obra vencedora é má demais para ser verdade. Aquilo parece um projecto académico de um estudante português fascinado com a Holanda, um edifício banal com tudo o que é tique e toque da OMA, ou dos MVRDV. Isto para dizer para deixares a Casa da Múscia em paz. Não tenhas receio: a arquitectura da Casa da Música vai convencer quase todos, e poderá contribuir para a divulgação (directa ao espírito popular) da arquitectura contemporânea. 4 anos e 100 milhões de euros depois pode dizer-se que valeu a pena. É ir lá e conferir.

quinta-feira, 14 de abril de 2005

Andamos todos aqui a brincar

Causa e consequência

Tendo em consideração o sucesso da iniciativa que se explica no título deste blogue, venho por este meio tornar público que, a partir de hoje, sou assumidamente activista do lóbi para levar Joseph Ratzinger a Sumo Pontífice.

E para desenhar casas também

O gosto é o mais duvidoso critério dos países desenvolvidos. Gosto serve para comer gelados e comprar sapatos.

quarta-feira, 13 de abril de 2005

Souto Moura e o Mies

E o Mies também se foi...

Segunda Derrota consecutiva para a Complexidade e Contradição.

Depois do Galardão Pritzker ter galardoado este ano o norte-americano Thom Mayne foi a vez de Rem Koolhass ser galardoado com o 9º prémio bianual Mies van der Rohe.

A notícia que deixa um sentimento agridoce em Portugal pois se por um lado, anuncia uma inauguração auspiciosa para a mais próxima inauguração de um edifício de Koolhass - a Casa da Musica no Porto a inaugurar amanhã -, por outro, deixa pelo caminho um portuense de gema e o seu magninimo estádio grego em Braga.

O galardão atribuido ontem a Rem Koolhass assume ainda maior destaque em Portugal devido ao lóbi blogosférico que pretende assumidamente levar Souto Moura ao Pritzker e, pelo caminho, a todos os outros prémios. A discussão está lançada e, ao que parece é culpa própria do próprio lançador do blogue que ao nomeá-lo de complexo e contraditório lançou a confusão.

Tanto assim é que os membros do juri em declarações off the record a mim próprio revelaram que nomearam para a complexidade o nome de Thom Mayne, enquanto que para a contradição promoveram o de Rem Koolhass remetendo para o blogue português a responsabilidade de não se ter este chamado Simplicidade e Contradição se porventura fosse mesmo o seu objectivo não contraditório o de promover Souto Moura ao Pritzker.

A discussão está lançada e com ela a polémica que promete assumidamente cenas nos próximos capítulos da blogosfera portuguesa. Vamos ver como ela reage a este segundo revés...

O vosso, m'a

Resposta: André, como vês este post foi publicado a estas bonitas horas. Ando com pouco tempo para o blogue. Uma resposta mais dedicada seguirá nos próximos tempos. Para já, e sobre este tema, só me apetece dizer isto: o presidente do júri (do prémio Mies van der Rohe) foi Zaha Hadid.

domingo, 10 de abril de 2005

De Gaia para o mundo

Luis Filipe Menezes tenta convencer os congressistas dando o exemplo do que foi feito em Gaia: «neste pequeno portugal hoube desenbolbimento!».

Séries

A acompanhar, com dedicação, A Bola no Olival, pelo Vasco Barreto, e Memórias de Infância / Memórias da Adolescência, pelo José Mário Silva.

Em breve, no seu blogue

Um post contendo a palavra «rústico», acompanhado por explicações de português e uma breve historieta sobre métodos construtivos, coisas autóctones, bem como o revelar do verdadeiro significado da expressão «parecido com».

Palavras que pedem para ser roubadas

São raras as vezes que no curso de uma vida é concedido a um homem apreciar tanto uma mulher quanto eu te aprecio, mas mais raro ainda é a vida conceder-lhe a realização dessa apreciação. Muito mais raro ainda, nos dias de hoje, é um homem continuamente apreciar uma mesma mulher ao longo de inúmeros anos, ter nessa mulher a ideia da beleza ou, melhor, essa mulher representar ou despertar nesse homem a ideia de beleza (e dentro de pouco mais de um mês perfaz nove anos, apenas um ano a menos do que o tempo que Ulisses levou a chegar a casa). (...)

Chega assim Paulo José Miranda à blogosfera.

Metáfora de madrugada

Sinto-me um espectador de ciclismo: muito tempo parado no mesmo sítio à espera de ver tudo passar, por uns momentos, por uns breves momentos, para depois voltar a descer a montanha até à próxima etapa.

sábado, 9 de abril de 2005

«The Hands Series»



Frank Lloyd Wright demonstrating organic architecture, through the lens of Pedro Guerrero
(1953)


Falar com as mãos, conter espaços, contornar formas, apertar os dedos, simular a gravidade, um esquiço virtual, uma maquete feita de carne humana. Quente. Movimentos lentos e pesados.

«Nunca tinha pensado nisso»

Nos projectos expostos é capaz de dar exemplos de citações premeditadas?

Não! Em geral, no processo de projectar, o que depois se verifica ser referência, não nasce como uma citação. O que sucede é que a nossa cabeça está cheia de imagens e elas acorrem espontaneamente. Acontece é ao contrário. De repente, algum crítico comentar "Isto é uma referência a tal"; e eu dizer: "Ah! Pois é! Nunca tinha pensado nisso". Porque o processo de projectar, no início, faz-se de forma muito global, quase nebulosa. Portanto, o que vem de referências não é citação; é a carga que tem o nosso computador pessoal e intransmissível.

Álvaro Siza Vieira, em entrevista ao DN

Interpreto estas pelavras como um subtil e inteligente elogio à crítica. Subtil e inteligente, como quase tudo o que Siza faz.

quinta-feira, 7 de abril de 2005

Tarefas

Há o sítio; depois, a casa. Pode dizer-se que se habita a casa que fica num sítio. Ou pode dizer-se que se habita o sítio. Mas é mais complicado, conseguir-se dizer isso.

quarta-feira, 6 de abril de 2005

Isto também dava uma boa cabana*



O jovem Álvaro, então com pouco mais de vinte anos, trabalhava no atelier de Fernando Távora, seu professor de quinto ano (deu-lhe 20, suplantando assim o seu próprio 19, até então a nota mais alta da faculdade de arquitectura). Távora foi ao local, passeou entre as pedras e escolheu o sítio: é (será) aqui. Voltou para o atelier e indicou ao Álvaro, na planta, onde seria: «aqui, vês?» O Álvaro viu. E começou a desenhar, poisando-se entre as pedras que se ofereciam, contornando as que se impunham, escavando onde o deixavam. Távora ia vendo, ia acompanhando. Quando o projecto foi entregue, a assinatura que lá se encontrava era a de (inevitavelmente) Fernando Távora. Mas Távora foi o primeiro a, desde a primeira hora, negar a autoria da criação. Com esse gesto tornou-se no primeiro a reconhecer o génio que hoje, passados 50 anos, é evidente aos olhos de todos. Um dia, um dia, hei-de copiar (bem) esta obra.

Um homem entre mulheres



Morreu Rainier: marido de Grace, pai de Stephanie e Carolina, avô de Charlotte.

Being José Mourinho

Ganhar por 4-2 ao Bayern é um mau resultado.

Nomeadamente o meu

Não sei quem escolhe a banda sonora da estação de metro do Marquês de Pombal. Mas alguém que o avise que pôr pan pipes ao fim do dia é querer provocar esgotamentos nervosos.

Má notícia

O Esplanar está a desfazer-se aos bocados.

terça-feira, 5 de abril de 2005

Pano para mangas

Como é que lida com a arquitectura do português Siza Vieira, que é mediterrânica e modernista, muito precisa e metódica?

Acho que qualquer arquitecto que tenha imaginação já foi influenciado por ele. Qualquer um nessas condições admira-o e excita-se com as suas obras. Ainda me lembro da primeira obra de Siza que vi - acho que foi o projecto das piscinas [de Leça] - e fiquei espantado. Acho que a obra de Siza é o detalhe, e ainda que nós também sejamos detalhe, somo-lo de uma forma completamente diferente. Pessoalmente, quando entro nos seus edifícios, consigo ver realmente que são edifícios portugueses.

Rem Koolhaas, em entrevista ao JN

Eis porque de vez em quando o melhor mesmo é estar calado (ou o descanso do guerreiro)

Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, ensembles, coros. Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilhéu do Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações.

Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibéis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.

Falam os médicos, os notários, os empreiteiros, os varredores, os motoristas, os professores e toda a lista de profissões da estatística e não há corporação que fique de fora neste zunzunar do paleio, vendedores de automóveis, mediadores de seguros, sapateiros que passam a vida a cantar, empregados de mesa, agentes da autoridade, doentes dos hospitais, operadores imobiliários, empregados forenses, e também engenheiros, sem-abrigo, vagabundos, telefonistas, padeiros, patinadores, engraxadores e vândalos. Imigrantes provindos de países sombrios aprendem aqui a soltar as línguas, aderem ao velho ofício de dar à taramela, por isto e por aquilo, por tudo, nada. Passam-se dias, meses, anos, remoem as depressões, adejam os perigos e o país a falajar, falajar, falajar.

Fantasia Para Dois Coronéis e uma Piscina, Mário de Carvalho

domingo, 3 de abril de 2005

O próximo?

Não vale a pena fazer expeculações, dizem. Discordo. Vale a pena toda não tanto especular mas lançar desejos. É isso que faço hoje, é isso que venho fazendo há uns tempos. Confesso que na minha situação o problema é biográfico, correndo por isso o risco de estar a ser interesseiro. Mas todos o somos, portanto perco a vergonha.

O próximo Papa será o próximo Papa. É importante lembrar isto quando todos falam numa figura que parece eclipsar-se como o sucessor de João Paulo II. Nada diz que depois de um Papa forte não possa vir um Papa ainda mais forte. E se João Paulo II fez quase tudo o que havia para fazer (agora) nalgumas áreas, noutras parece ter deixado o convite aberto. Diálogo inter-religioso? Abertura geográfica? Distanciamento político? Karol Wojtyla deixou bem vincadas as pegadas: é só uma questão de saber segui-las.

A minha geração católica define-se por um fundamentalismo moral que não existia há uns anos. João Paulo II muito para isso contribuiu. Quando se fala nos jovens deste papado fala-se naqueles que disseram sim e se entregaram totalmente a uma fé que foi gerida pelo cardeal Ratzinger. Falo por exeperiência própria: à minha volta as águas foram-se separando. De um lado os que evangelizaram a abstinência e a santidade; do outro os que se abstiveram de confrontos, colocando-se a uma distância confortável. O espaço para aqueles que, como eu, se sentem desconfortáveis com algumas das exigências morais da fé (reforçadas nos últimos 20 anos) foi sendo aos poucos reduzido. Ou estás a favor, ou estás contra, ouvi eu várias vezes, a fazer lembrar o discurso de Bush no pós-11 de Setembro. Poucos mas bons, pode ser outra das expressões que se adequa para descrever estes jovens.

E agora lanço os meus desejos, tão concretos quanto possível. Eu quero ver o próximo Papa resolver (porque sinto que é algo que necessita de resolução) o que está por resolver. A minha adesão a esta Igreja passa por ver as mulheres ordenadas, pela simples razão que nada parece justificar a actual situação (mesmo teologicamente o argumento, porque é só um, é incrivelmente frágil). Passa pela revisão por parte do Vaticano da sua posição sobre o planeamento familiar e a contracepção, não só por causa da SIDA mas também pela saudável permanência na fé daqueles que não se revêem na abstinência nem na extrema falibilidade e pouca conveniência dos chamados "métodos naturais". Passa pelo fim da perseguição aos divorciados, que só serve para marginalizar vítimas e forçar a continuidade de casamentos infelizes. Passa também pela maior participação dos leigos nas celebrações. Passa pelo reposicionamento dos movimentos ultra-conservadores no local que lhes é próprio: de minoria. Passa pelo fim da incompreensão face à homossexualidade, encarando-a não como um problema, mas como diferença.

O que faço não é uma ameaça. O que faço é aquilo que qualquer católico faz: desejar para a sua Igreja o melhor. Se o faço com tanta determinação é porque não quero pertencer a uma segunda (ou terceira) geração de vencidos do catolicismo. Não me quero afastar devido à impossibilidade de chamar meus certos princípios de vida. Porque não quero ser também um católico selectivo, que decide abaçar a prestações uma fé exigente.

João Paulo II deixou-nos saudades. Mas deixou-nos também várias portas por abrir. Não escondo que tenho grandes expectativas para os próximos anos.

P.S: Nem arrisco nomes. Parece-me no entanto que o escolhido deve ser, ao contrário do que se instalou como senso comum, um europeu, porque só um europeu terá condições para reformar estas posições. E portanto não me descontentaria o cardeal Godfried Danneels, se bem que se eu participasse no conclave o meu candidato falaria português. Sem sotaque.

Forma vs. Conteúdo

Digam de vossa justiça.

«Sprechen sie Deutsche would hardly make sense»

I know nothing, don't know much
I think my education's gone out to lunch
I can's remember, I cannot think
what is the difference between iron and zinc

I can listen, I can speak
But my conversational skills are gobblety-geek
I know Harold in 1066
Got shot in the eye with a long pointy stick

Revolutions and World War Two is it true what they say
That Charles de Gaulle was a hero and Churchill's a Nero
I threw that away

I get up when I like
Wear anything I like
Don't keep up with the cool
I make up my own rules
Don't have to eat my greens
Or keep my bedroom extra tidy
'Cause nobody is around to tell me off
I can lounge about in my house 'cause lounging about is...good

I know all i need to know
Why talk Sahili if it's where i won't go
Latin is clever and sexy is French
Sprechen sie Deutsche would hardly make sense

Inquisitions and missionaries seem fairly bizarre
Do I follow commandments from Moses or petals off roses
I am the Czar

I get up when I like
(...)

Revolutions and World War Two is it true what they say
That Charles de Gaulle was a hero and Churchill's a Nero
I threw that away

I get up when I like
(...)

Lounge, Dogs Die in Hot Cars

*****



à atenção destes senhores.

sábado, 2 de abril de 2005

Obrigado

Sou daqueles que se devidem na incontornável avaliação. De um lado o viajante, o entusiasta do diálogo inter-religioso, o muro de berlim, a abertura, os quatro cantos do mundo. Do outro o desnecessário conservadorismo, o apoiante da opus dei e da comunhão e libertação, o moralista (como se os Papas pudessem não o ser). Toda a minha vida foi vivida com ele. Não sei o que será a partir de agora. Mas hoje digo, obrigado.

20h37

Não, eu não tenho um post preparado.

Duas coisas que aprendi com a Sábado desta semana

1. Uma Thurman gosta de bikinis grandes.
2. Cavaco, em férias, levanta-se às 7.00 da manhã.

Eufemismos

«Estamos a acompanhar o estado de saúde», «Esperamos o boletim clínico», «Continuamos com o acompanhamento da situação delicada que se vive no Vaticano», etc, etc.

Aquilo que ainda vamos ter que sentir

Jorge Figueira hoje no Público, a propósito do Pritzker de Thom Mayne, lembra que o pós-modernismo quase não passou por Portugal:

É um bom pretexto para redescobrir uma arquitectura que decorre de uma certa cultura arquitectónica dos anos 80 - como acontece com Zaha Hadid, não por acaso a premiada em 2004 - e acertarmos o passo com um debate que mal chegou a pousar em Portugal. O "desconstrutivismo" não entrou cá, e, no entanto, já lá vão dois prémios Pritzker e outros virão com a mesma natureza.
Se aceitarmos que a abordagem do pós-modernismo na arquitectura se fez com uma face "historicista" e outra "desconstrutivista", dir-se-ia que Portugal só se reviu na primeira, por reflexo público da obra e discurso de Tomás Taveira.

Já no último número do Jornal dos Arquitectos (217 - Outubro, Novembro, Dezembro 2004), Jorge Figueira aborda esse mesmo tema:

No nosso tempo e contexto, o "contemporâneo" é uma espécie de transe, um espelho baço para todos os relativismos. Em Portugal ainda estamos a decidir se alguma vez fomos modernos, e já o "contemporâneo" nos entra em casa como umtsunami.
Pessoalmente, interessa-me o momento "onde as coisas se precipitaram", como diz Eduardo Prado Coelho: "Podemos ser tentados a saltar etapas, e talvez não haja alternativa para isso, mas não podemos deixar de tentar recuperar o que havia de positivo e de enriquecedor nas etapas que foram saltadas: porque doutro modo perdemos em todos os tabuleiros".
É nesse sentido que eu quero invocar Aldo Rossi: como uma etapa que saltámos; como uma angústia e um sorriso que se esvaiu nas cores do "pós-modernismo"; como aquilo que ainda vamos ter de sentir.

Sou particularmente sensível a este tema. O que aconteceu em Portugal foi uma rejeição à partida do pós-moderno. Talvez por razões económicas (o "desconstrutivismo" é coisa cara). No entanto, o pós-modernismo coincidiu (pelo menos o seu arranque) no tempo com outra reacção ao moderno: o "regionalismo crítico", isto é, a tentativa de não abandonar o moderno adaptando-o, reinterpretando-o, à luz do(s) contexto(s) histórico(s) e geográfico(s). Acontece que, feliz ou infelizmente, essa atitude acabou por vingar em Portugal, e os nomes mais influentes foram (e são) mestres. A começar por Távora e Teotónio, passando por Taínha e Siza (este percursor do "neo-modernismo"), todos eles sempre fizeram declarações de fé ao moderno. O pós-modernismo acabou por não ter espaço para aparecer. Taveira, de facto, conseguiu-o, mas fica como prova que teve ser "à força", impondo-se, chocando, gritando. No entanto considero que há outros nomes com obra feita em Portugal que arriscam o rótulo: Hestenes Ferreira, por exemplo. Mas de facto se queremos ver obra pós-moderna feita por portugueses temos necessariamente de sair do país. Por muito que não goste do título, Manuel Vicente sempre navegou nas águas pós-modernistas, sob forte influência de Venturi (enquanto que Hestenes Ferreira respira mais directamente a influência de Kahn.) Também Pancho Guedes, ainda mais marginalizado do que Manuel Vicente, é um pós-moderno - mas neste caso um pós-moderno quase surreal, desalinhado, independente. Também Manuel Graça Dias e Egas José Vieira se podem ler à luz desse "movimento". Ainda assim fica claro que essa "etapa" é muito ténue em Portugal e que, claramente, as consequências estão à vista, fruto da influência fortíssima que tiveram (e têm) Siza Vieira e Souto Moura, este último introduzindo a componente miesiana que faltava ao moderno português.

P.S: A actual direcção do JA (liderada por Graça Dias) cessou funções com este número. Ficam dois desejos: que a próxima consiga manter a elevadíssima qualidade actual; e que Graça Dias não deixe a actividade editorial, noutro sítio qualquer.

P.S.2: O "nosso" blogosférico jmac, a continuar assim, arrisca-se também a fazer uma entrada directa para tabela dos pós-modernos.

sexta-feira, 1 de abril de 2005

«Vá por mim que sou barbeiro»

Ontem ouvi um verdadeiro e genuíno comentário racista. Eu ando a dizer isto há muito tempo: aquele sítio devia ser embalsamado, preservado e mostrado ao público em geral.

Substitutos

No fim, todos queremos ser compreendidos. Que o outro saiba o que sentimos.

do post em baixo

Sms, msn, skype, blogger, ftp, mp3, jpg. Carta, postal, pombo correio.

Crónica #5

A palavra perfeita

Heidegger debruçou-se muito sobre o problema e, talvez como nenhum outro, soube explicá-lo numa expressão feliz - a busca do ser humano é uma procura incessante pela palavra-mestra.

É claro que a maioria das pessoas não pensará nestes termos - “De que diabo está este tipo a falar?”, devem dizer. Mas a verdade é que tudo quanto fazemos na vida é um esforço de comunicação. Esse é o grande abismo que nos separa dos animais ou das plantas. Porque não nos basta existir. Por muito que nos achemos realistas quando dizemos que o importante são outras coisas, o prazer e a dor que alcançamos ou de que fugimos, no limite, o que nos deixa à beira do céu ou do inferno é o sucesso ou o fracasso de um acto de comunicação.
No fim, todos queremos ser compreendidos. Que o outro saiba o que sentimos. Porque, por muitos filhos que tenhamos e família e amigos e colegas e amantes, estamos sempre irremediavelmente sozinhos a cada momento do universo.
Os artistas têm muito esta pose: de não quererem a compreensão, de dispensarem isso. Mas é por demais evidente que são quem mais procura o contrário: querem ser ouvidos, lidos, entendidos. De contrário, estavam quietos, em silêncio, na mudez do seu bastidor.
Eu quero que o outro saiba a minha dor, o meu amor, a minha alegria; quero que o outro pressinta como vejo o mundo, a angústia que se alimenta do meu interior.
Do “logos” grego ao “verbo” latino que, no começo do Evangelho, estava com Deus e era Deus e lhe mostrava o mundo, a tradição do pensamento compreendeu cedo o problema. Cada vida humana é uma tentativa de resposta a essa questão. A palavra-mestra, a palavra final que leve em si a própria coisa de que fala e não seja uma mera representação. A palavra perdida do Arquitecto para os maçons. O que quer que eu ande aqui a fazer, escrevendo diaramente estas crónicas, sem saber onde ecoam.

Alexandre Borges