quarta-feira, 31 de maio de 2006

Autographa gamma

É isso aí, parece que comecei o dia a matar uma Autographa gamma.

Cá entre nós: se elas vieram do Egipto, como se diz, então elas que cá fiquem mais uns diazitos, sff, só até, digamos, 12 de Junho. Agradecido.

segunda-feira, 29 de maio de 2006

A contas com a História

Não consigo atribuir este significado todo às declarações de Bento XVI, e não estou, mais uma vez, a embirrar com o senhor: a sua ida a Auschwitz é digna e decisiva. Falo apenas da dúvida que Ratzinger deixou a pairar: onde estava Deus? O João Paulo Sousa valoriza a componente «dúvida» numa religião que não é sua, especialmente vinda do Papa. O João Gonçalves arranca para mais umas linhas, aproveitando a deixa para explicar como se sente «confortado» nesta dúvida e neste gesto. No que me toca a mim, não chego a sair do porto. Fico em terra a ver o barco partir. O assunto, a (inexplicável) presença de Deus nas grandes catástrofes humanas, não pode ser tema de debate para um crente. Não pode. O cristianismo funda-se sobre o livre arbítrio do Homem, e só assim o podemos compreender. Se não fosse esse o ponto de partida, Deus seria insuportável. Hoje foi o Holocausto, mas a História está cheia de momentos destes. A coisa remonta a Cristo (matámo-lo, não foi?), e já vinha anunciado na fábula de Adão e Eva (ainda que mascarada sob forma de «serpente»). Equacionar Deus à luz destes pontos de ruptura é viciar o raciocício. Bento XVI não foi a Auschwitz por a Fé no arame. Bento XVI foi a Auschwitz mostrar que o perdão pedido por João Paulo II continua a ser pedido por ele próprio.

Precipitai-vos

O Fernando Guerra actualizou as Últimas Reportagens. Aproveito para destacar as 4 obras do Carlos Castanheira, com especial atenção para a Casa Avenal e a sua felicíssima escolha de materiais (há vida para além da parede branca).

domingo, 28 de maio de 2006

Génesis

Com o calor e as noites quentes, chega a memória do calor e das noites quentes passadas contigo.

Métodos artificiais de arrefecimento de ambientes

Desabafa-se sobre uma ovelha, e logo nos cai o pastor em cima: são duas da manhã, quero ir dormir, e estão 30 graus dentro de casa. Castigo divino, só pode.

Tudo me parece profundamente errado

Contado não se acredita, e mesmo agora, passadas algumas horas sobre o evento, ainda me é difícil encontrar o tom certo. Sei que o reaccionarismo, o moralismo de algibeira, o ressabiamento face ao mundo, o snobismo como atitude fundadora, etc, etc, não chegam para explicar, muito menos perdoar, a performance deste conhecido padre lisboeta, de carregados óculos de massa que lhe toldam a visam. Sei que a arrogância, o desprezo, o paternalismo, a má-educação crónica, a linguagem agressiva e taberneira, a completa falta de tacto, a deturpação abusiva de textos essenciais sob forma de «raciocínio», tudo isto e mais outras tantas, ultrapassou o pior dos cenários por mim temidos. Ia avisado, mas julguei que conseguiria, no mínimo, ignorar a coisa. Não consegui, e a revolta ainda me consome. Vasco Pulido Valente disse um dia sobre João César das Neves que este parecia saído de uma paróquia do Minho do séx. XIX (ou outro século qualquer, não me recordo). Na altura achei que isso definia bem uma certa elite decadente que se usa do catolicismo para combater o mundo, que obviamente não está feito para eles, que não compreendem, que condenam e vivem para condenar. Hoje percebo que isso é um eufemismo. E percebo que aquilo que é verdadeiramente inaceitável não é o que se diz, mas como se diz. Nas várias conversas que fui tendo ao longo do dia, e na tentativa de tentar explicar o grau de insanidade que a reputada (até me custa a escrever) personagem vinha apresentando, usei várias vezes a palavra «boçal». Confiro no dicionário e percebo que é mesmo isso: estúpido, rude, inculto, grosseiro. É gente destas, gentinha que merecerá a nossa misericórdia futura, que mancha e conspurca a imagem de uma instituição. Que vicia relações. Que quer correr com toda a gente do seu quintal, ou melhor, do quintal que ocupou sem pedir licença, para poder exclamar, naquela sua voz rouca e dicção afectada, orgulhosamente sós. Esta gente devia lavar a boca cada vez que pronuncia a palavra Cristo, cada vez que se reserva o direito de falar em seu nome. Tudo isto me deixa uma enorme tristeza, uma profunda consternação, uma vontade imensa de pegar na metralhadora e subir ao cimo do monte e começar a revolução. No fundo, e dada a dantesca temperatura que nos acompanhou durante o dia, o que eu queria era que chovesse, abundantemente, um dilúvio à moda antiga que lavasse dos corredores eclesiásticos estas ervas daninhas cancerígenas. Estou estafado.

sexta-feira, 26 de maio de 2006

«Prémio Melhor Jogador do Campeonato do Mundo Alemanha 2006 Sem Contar com o Ronadinho Gaúcho»

Falemos então de coisas mais felizes, ainda dentro do capítulo «Atlântico». O artigo do «Jorge Madeira», que se estende entre as páginas 24 e 26, para além de ser a prova provada da pertinência do mAMA, é maradona no seu estado mais puro, um vintage para recordar. Vale os 3 eurinhos, mesmo descontando as barbaridades da Maria Filomena Mónica sobre a Casa da Música («A impressão foi negativa. O meteorito (...) pareceu-me feio.»), mas já lá iremos.

Entretanto fiquem com a colheita de hoje:

(...) Facilitam-me a vida, claro está: Fernando Santos foi o homem que não foi campeão por um clube em cujo plantel residia um individuo para quem qualquer deslocação de bola para a área do adversário poderia ser classificada de "centro perigosíssimo", sua realeza o Professor Doutor, empurrador profissional de bolas para além da linha de golo, Mário Jardel.

Já sonho até com a fatídica imagem de ver o Engenheiro a levantar-se do banco de braços abertos ao mesmo tempo que encolhe os ombros, como que não compreendendo por que é que as pessoas estão chateadas por o Vizela estar a dar dois secos na Luz ao Benfica em jogo a contar para uma elimitatória qualquer da Taça de Portugal. Sim, quando ele se levanta do banco, chega à linha lateral e encolhe os ombros e abre os braços, mimetizando um grande ponto de interrogação, não é para questionar o que se passa em campo ou as acções dos jogadores por si hipoteticamente treinados, mas para pôr em causa o comportamento da plateia. Vou tentar explicar.

Se para Artur Jorge, digamos, como exemplo moderado, o desaparecimento súbito do continente Americano em dois quartos de hora debaixo das águas convergentes do Atlântico e do Pacífico seria uma coisa "perfeitamente normal", para Fernando Santos tudo o que acontece é feito unicamente para "pensar".

"Eu penso" é o seu inicio de frase favorito, um ponto de partida filosófico, e que ele utiliza exactamente da mesma forma antitética do famoso "perfeitamente normal" do Artur Jorge: para Artur Jorge era incompreensivel como é que ele, ouvindo música clássica todos os dias e indo às galerias de arte (ver a Maluda), poderia treinar pior uma equipa de futebol que o Vitor Oliveira, e por isso dizia com insistencia neurótica que era "tudo normal"; para Fernando Santos tudo o que acontecer em campo tem que ter uma ligação fática (referente a palavra) às funções matemáticas e equações de fluxo das suas engenharias, tudo o que se passe em campo só tem existência real ou consequência moral a partir do momento em que o Engenheiro "pense". Para Fernando Santos o facto de o Benfica perder em casa com a Naval por 3 secos não deveria interferir minimamente na vida de Fernando Santos como treinador do Benfica, porque o resultado não é um objectivo, mas sim um ponto de partida para um pensamento, e não só este pensamento é tudo quanto o futebol tem para dar, mas também tudo o que nós temos de realmente de importante para dar ao futebol.

Treinar jogadores é para os simples. O futebol só começa verdadeiramente no flash interview, é por isso Fernando Santos reage daquela maneira às vaias durante o jogo (não há resultado final, por isso não há nada para fazer, nada para "pensar") e à barulheira depois de consumada a derrota (em que a hora é agora sim para "pensar", e só se "pensa" devidamente em silêncio). O "eu penso" é uma forma de não pensar o jogo, ou de, pelo menos, um método de só o pensar a posteriori, sem possibilidade de intervir na Criação.

O Rui Costa chegou e uma pessoa só tem que agradecer-lhe. A ele. Pessoalmente. Por isso, pelo golo à Inglaterra, por algumas coisas fugazes que vimos nos humilhantes resumos a que tivemos direito nos seus tempos aureos na Fiorentina. A época, desse meritório ponto de vista, esterá não só ganha, como mais que ganha, sim senhora. Mas não pensem muito nisso agora, palpita-me que, enquanto o Fernando Santos aí estiver, tempo e oportunidade não faltarão para pensarem nisso, muito.

Bate neles, vai

Coincidência ou não, João Pereira Coutinho também se atira aos arquitectos no seu artigo do último número da revista Atlântico (não me esqueci da Maria Filomena, estou só a ganhar fôlego). O seu pretexto foi a polémica sobre o plano de Siza para Madrid, o tal que abate não sei quantas árvores e amarrou uma baronesa a um tronco. Foi este, como poderia ser outro qualquer. Sempre que há um plano ou projecto arquitectónico polémico, logo cai a intelligentsia em cima dos arquitectos, e desse horror que é a arquitectura moderna. Pois bem, Pereira Coutinho ataca precisamente o Moderno na arquitectura. Concordo com alguns pontos (a «arrogância de classe» é uma evidência), e com outros, apesar de concordar com a premissa, discordo frontalmente com as ilações. Por exemplo:

(...) Podemos ler, ou não ler, Joyce. Podemos evitar, ou não evitar, Eliot, ou Schoenberg, ou Matisse. A nossa escolha é a nossa escolha: uma questão de gosto, às vezes intransmissível. Mas a arquitectura é, por definição, inescapável: ela impões-se indiferentemente como realidade colectiva. (...)

Isto é suposto ser uma crítica à «arquitectura», aos arquitectos, à «natureza autoritária» da coisa. Eu vejo estas mesmas linhas como uma sólida defesa dos objectivos da revogação do 73/73, e da inerente obrigatoriedade de serem arquitectos a projectar obras de arquitectura. Pereira Coutinho acha o contrário: porque a arquitectura é «inescapável», ela não pode estar limitada à «omnisciência estética» (bela expressão) dos arquitectos, mas sim aberta, democraticamente, a todas as «intransmissíveis» sensibilidades. Para além da má-lingua, não se percebe bem onde quer João Pereira Coutinho chegar.

Maria Filomena, amor



tu prepara-te, porque eu já cá volto.

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Um homem de palavra

Koolhaas vítima do capitalismo mais selvagem



Está a dar muito que falar. Joshua Prince-Ramus (o senhor da direita com ar de remador profissional*), até agora director da OMA em NY, deu o grito do Ipiranga e bateu com a porta. Deixou a asa de Rem Koolhaas e fundou, com Erez Ella, a REX, levando consigo todo o staff e clientela da OMA-NY. Ou seja, apoderou-se de toda a actividade da OMA-NY, mudando-lhe apenas o nome. Todos os projectos em curso ficam com a REX, por decisão dos clientes. É uma grande derrota para o holandês.

*Não é só aspecto: Pince-Ramus esteve presente nos Jogos Olímpicos de 96.

O ano da morte

O estilo de Saramago agrada-me sem me surpreender. Agora, imagino, quando a frase solta e corrida do discurso indirecto livre já não é novidade para ninguém, por vezes chega a parecer ingénuo, demasiado artificial, numa opção estilística que pode ser demasiado impositiva sem que daí se extraiam grandes resultados. Mas Saramago tem um dom para juntar palavras. E o modo como tudo se aglutina pela palavra, numa sopa mais ou menos morna e indiferenciada, deixa o leitor embalado numa lengalenga suave e harmoniosa. Não «estou a adorar», mas estou a apreciar.

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Escumalha

Totalmente de acordo. Mais, visceralmente agradecido ao Francisco José Viegas por ter escrito isto:

Mais do que isso.

Chego a este estudo do Rui Bebiano (também de A Terceira Noite) e de Elíseo Estanque com a falta de surpresa que toma conta de mim quando deparo com as praxes e a miséria estudantil. Escrevi bastante sobre o assunto e de um desses institutos, algures na província, mandaram dizer que iam processar-me por eu ter dito que se tratava de uma barbárie, de uma deficiência neuronal e de uma manifestação de barbárie. Então, eu repeti, e acrescentei: «É mais do que isso.» É permitir que bandos de selvagens andem à solta, «punindo» o «caloiro», o que é vergonhoso. Como é vergonhoso ver universidades e institutos superiores que se manifestam indisponíveis para proibir aquelas formas de violência dentro dos seus muros -- ou seja, são coniventes com o abuso. Depois, mandaram um advogado, a quem eu disse que repetiria tudo. Nunca mais me processaram, nem quiseram tirar satisfações «nos locais próprios». Entretanto, uma estudante queixou-se às autoridades; e outra, e outra. Mesmo assim, diante dessas evidências, alguns responsáveis dessas escolas continuaram coniventes, cúmplices e imbecis. Sim, eles teriam o direito de proibir manifestações de violência e de abuso sobre estudantes. O estudo de Rui Bebiano e de Elíseo Estanque, segundo o JN, diz que «32,3% dos alunos da Universidade de Coimbra (UC) concorda com a prática de actos de violência física ou simbólica». Não me admira. Esse mundo miserável que vibra com desfiles de carros alegóricos, bênção das pastas, missas em descampados (com meninas pintadas à pressa, vestidas de homem, de cabelo escorrido), queima das fitas, é mesmo assim. Ide, pois, sujar o Choupal de latas de cerveja. Ide recordar os duces que viveram rodeados de garrafões, ignorância e mau hálito. Ide desfilar no meio de capas & batinas vomitadas, de cançonetas do pequeno Saul e de semanas académicas acompanhadas de Quim Barreiros. Ide reproduzir a alarvidade de tudo o que é triste e medonho e vos antecedeu nessa miséria. 18,4% admite que não lê livros e 29,6% utilizam automóvel próprio nas deslocações diárias. Não é preciso ter lido Vaneigem ou Guy Debord para conhecer esse retrato do fascismo, das coisas rasteiras, da selvajaria, do apodrecimento, da ignorância. O JN diz que o estudo apurou que «28% dos alunos discordam da ideia de que a praxe deve ser facultativa e respeitar quem não quiser aderir». Que bom. E que «mais de 80% dizem-se favoráveis à discriminação sexual, recusando qualquer revisão do código da praxe que iguale os direitos de homens e mulheres». Ide, portanto. Podeis dar erros ortográficos, fechar os portões da universidade (e desta vez a sério), recusar-vos a ler, frequentar o shopping, reprovar à vontade. Eu triplicaria as propinas para essa gente, até conseguir expulsá-los da universidade.

terça-feira, 23 de maio de 2006

Saudades da Coluna Infame

Acabámos de asssitir a um grande momento televisivo. Talvez o mais memorável debate nacional desde o congresso em que Santana enfrentou Cavaco. Mas nesse caso havia apenas emoção e retórica, enfrentamento e teatro. Neste debate sobre o panfleto de Manuel Maria Carrilho houve ideias e assuntos relevantes (e, naturalmente, emoção, retórica, enfrentamento e teatro). Deixo aqui um rascunho imediatista com as minhas impressões. (...) PM

A gente fica exausta depois de ver um bom debate. O debate de hoje no Prós e Contras com Carrilho, Emídio Rangel, Pacheco Pereira e Ricardo Costa foi primoroso. Nos últimos anos não me lembro de um debate de televisão como este. E foi um debate a sério, com tudo o que os debates a sério têm, bons e maus argumentos, picardias, provocações, respostas prontas, demagogia, momentos de exaltação e de autocontrolo, mexidas no passado, acusações, roupa suja, tudo. (...) PL

segunda-feira, 22 de maio de 2006

Os Luso-Corbusier

Confesso que me enternecem estas manifestações de reconhecimento do génio, numa ode ao autodidata como manifesto, escondendo uma levada crítica à legitimidade pedagógica da academia. Queria no entanto sossegar estes espíritos inquietos e garantir que os respectivos ídolos são exaustivamente ensinados e divulgados nas diversas faculdade de arquitectura do nosso país, provando assim que o ressentimento classista é inexistente. E, já agora, deixar a dúvida sobre se os nossos próprios «autodidatas» da construção possuem o mesmo talento que esta galeria de notáveis apresenta. Sabe-se lá quantos Tadao Andos não estaremos nós a silenciar para sempre...

O Código das Neves

O albino João César volta ao sexo, seu assunto preferido. Desta vez está indignado com a imprensa, que considera parcial no que toca à homossexualidade, publicitando um estudo qualquer onde é divulgada a tese que defende a origem genética da coisa. César discorda, quer dizer, concorda, quer dizer, não sabe bem se concorda ou se discorda, porque isso não lhe interessa. O que interessa é a oportunidade de usar o seu truque predilecto, a comparação despropositada. Cá está o naco:

(...) Partamos por isso do princípio de que aquilo que os nossos jornais dizem é verdade. Vamos assumir, para efeitos argumentativos, que a homossexualidade é apenas um assunto genético, sem qualquer influência comportamental ou escolha própria. O que é que tal significaria para a sua avaliação?

Imagine que amanhã se descobria que existe um gene que determina o comportamento violento, preguiçoso ou racista de certas pessoas. Será que a sociedade iria passar a aceitar e recomendar essas práticas? O que aconteceria certamente é que elas seriam consideradas "doenças genéticas", como tantas outras consequências indesejadas que sabemos virem dos nossos cromossomas. Mas nenhum de nós alteraria a sua opinião (ou preconceito, como diz a imprensa) contra a violência ou o racismo por causa dessa descoberta. (...)

Cá está, a homossexualidade comparada com a «violência», a «preguiça», e o «racismo». Pergunta o leitor: a preguiça? Porquê a preguiça, qualidade tão cara aos portugueses, mais particularmente a este que aqui vos escreve? César não é parvo, mas faz-se passar por parvo: faz de conta que não sabe que a preguiça também já tem gene, para subtilmente tentar provar a sua tese, que é, como sabemos, a insinuação que todos os pecados estão a ser branqueados por esta sociedade hedonista e condenada, usando perversamente a «ciência» (com aspas). Ah, malandro.

domingo, 21 de maio de 2006

Más companhias

Também recebi o postalinho em casa a «convocar-me» para estar presente na Assembleia. Não fui, porque já esperava palhaçadas destas:

(...) O desinteresse de parte da Assembleia pelo que se estava a passar foi notório na maior parte do tempo em que foi apresentada a iniciativa legislativa e atingiu o ponto alto quando Heloísa Apolónia discursava.

As conversas dos deputados tornaram quase imperceptível o que a representante de «Os Verdes» dizia, levando o presidente da Assembleia da República a recomendar-lhes que se calassem. A assistência brindou o gesto de Jaime Gama com calorosos aplausos.

Quando a «assistência» «brinda» «com calorosos aplausos» o facto de se querer deixar falar um deputado ilegítimo e dispensável (que são todos aqueles que sejam representantes d'Os Verdes, enquanto o grupeco não se decidir a jogar segundo as regras da democracia), fica mais frágil o meu apoio a uma causa que interessa. A companhia é muito má.

ABBA's dead



Os milagres são uma benção rara nos dias que correm. Saboreemos, portanto, cada segundo deste Hard Rock Hallelujah, o grande vencedor da edição deste ano do Festival da Canção.

(Não vi a transmissão. Pagava para ver a cara do Hiládio Clímaco.)

sábado, 20 de maio de 2006

Zeitgeist



A Assembleia da República votou por unanimidade a revogação do DL 73/73 que, relembremos, permitia a outros profissionais assinar projectos de arquitectura. É bom começar por aqui. O actual estado das coisas não permite que qualquer um assine um projecto de arquitectura, mas sim que pessoas munidas de habilitações profissionais consideradas, na altura, primas da arquitectura assinem projectos. Porque em 1973 o número de arquitectos no activo não respondia às necessidades do país, o Estado criou um regime transtitório (enquanto não houvesse arquitectos suficientes) no qual «engenheiros civis, agentes técnicos de engenharia e de minas, construtores civis e mesmo, em certas circunstâncias, a outros profissionais sem qualquer qualificação» pudessem responsabilizar-se pela elaboração de projectos de arquitectura. Este é o primeiro ponto, de facto, que interessa compreender. Toda a discussão ideológica deve partir deste pressuposto. O DL 73/73 tem uma génese conjuntural indissociável da sua condição, que em nada corresponde ao contexto actual. Chegados aqui, começa a ideologia. E o que fazer? Parece-me só haver duas alternativas: (1) revogar o DL 73/73, liberalizando por completo o mercado dos projectos de arquitectura, ou (2) revogar o DL 73/73, de modo a permitir apenas aos arquitectos serem responsáveis pelos projectos de arquitectura exigidos por lei.

Ora bem.

Esta não é apenas uma questão de mercado, de escolhas pessoais, de direito ao mau gosto, de imposições ao cliente, etc, etc. A defesa da proposta agora aprovada pela Assembleia pode ser feita, sem remorsos de espécie alguma, por um liberal convicto. Porque mesmo para um liberal, o Estado não é dispensável, e tem competências e responsabilidades próprias, que só a ele podem ser exigidas. Uma delas é o zelo pelo espaço público.

Os detractores desta proposta de lei defendem que ela poderia aplicar-se às obras públicas, mas nunca às obras privadas, já que ninguém tem nada a ver com uma obra privada a não ser o seu dono. Este é um dos maiores desentendimentos desta questão. Porque, o que é uma obra privada? O que pode ser considerada uma obra puramente privada? Aqui a porca torce o rabo, porque se levarmos até às últimas consequências este raciocínio, chegaremos à conclusão que não é fácil que uma obra seja puramente privada. A maioria das obras de construção civil diz respeito a edifícios de habitação promovidos por privados, comprados e vendidos por privados, habitados por privados. Mas implantados no espaço público. A linha do lote é a fronteira da minha liberdade (enquanto privado) e o começo da liberdade de todos nós (enquanto cidadãos). Cabe ao Estado tomar as diligências próprias para que o espaço público seja de qualidade, que respeite o equilíbrio da sociedade, que respeite cada um de nós. Há aqui um princípio activo muito forte, e não apenas uma (des)responsabilização passiva. Ao privado cabe a consciência de que a sua obra afecta e altera o panorama público, a rua, a praça, a esquina, que não é seu. Mesmo uma moradia não é apenas uma obra privada.

Aqui chegados, os detractores recorrem ao processo de licenciamento, e perguntam, muito bem, se os parâmetros exigidos na análise dos projectos não chegam para garantir essa qualidade, tentando com isto tornar pura a avaliação municipal dos projectos e perfeita a lista de artigos quantificados a que um projecto deve obedecer. Esta é, para mim, a questão mais delicada. Começo por uma evidência: um projecto pode ser legal e ser inaceitável enquanto presença pública. Pode ser aprovável e simultaneamente ser repugnante. Porque é que isto acontece? Acontece porque há uma grande falta de cultura no nosso país que se reflecte na impossibilidade de reconhecermos a um terceiro a capacidade de avaliação estética sobre a nossa obra. Ou seja, acontece porque tudo é regulamentável em Portugal menos o desenho. Isso não acontece noutros países e aí, sem pudores, os projectos podem ser chumbados por serem feios. Se em Portugal isso fosse permitido caía o Carmo e a Trindade. Os regulamentos relativos à construção visam, sobretudo, o cumprimento de normas de segurança mínimas e parâmetros urbanísticos relativamente toscos (cérceas, áreas, implantação, etc.) Não há, excepto nas situações onde vigoram planos de escala menor (Planos de Pormenor, Planos de Salvaguarda, etc), exigências ao nível do desenho. Como se pode perceber, a legislação está longe de garantir a qualidade dos projectos, e seria aberrante que assim fosse, pois a qualidade de um desenho dificilmente é parametrizável por lei, e se mesmo assim essa tentativa fosse feita, face à infinitude de possiblidades ao nível do desenho, mesmo numa obra de escala reduzida, o volume de artigos seria tal que se tornaria contrapruducente e aumentaria estupidamente a burocracia. No entanto também é aberrante que ao nível dos municípios não haja coragem para ter opinião sobre esse mesmo desenho. Cumpre o RGEU, construa-se.

Vai a obrigatoriedade da assinatura de arquitecto alterar este estado de coisas? Sim e não, a questão é muito complexa. Há, no entanto, e mesmo considerando os enúmeros exemplos de maus profisisonais que por aí andam, que dar este benifício da dúvida ao Estado: temos de ser capazes de concordar que é preferível que seja um arquitecto a desenhar o edifício que vai ser construído ao lado do nosso, do que o mesmo seja feito por alguém que para tal não tem qualificações, apenas uma intuição que lhe permite apresentar um conjunto de desenhos que não pode ser chumbado pelo Estado. E é aqui que é forçoso admitir que, apesar de não resolver tudo, esta proposta é uma questão de princípio cívico. Se há um número mais do que suficiente de profissionais formados superiormente na área da arquitectura dispostos a trabalhar, é a eles que devemos exigir essa responsabilidade. Porque podemos fazer essa exigência, porque devemos.

Quanto aos arquitectos, devem assumir esta alteração no estado das coisas e perceber que as suas responsabilidades vão aumentar. Neste contexto, faz sentido o que diz Vital Moreira, quando sugere que se deve «[i]mpor aos arquitectos o acompanhamento das obras e torná-los responsáveis pelas alterações efectuadas à margem dos projectos e da lei.» Como é óbvio, o que Vital Moreira deveria ter dito era que se deve impor aos promotores que provem que a obra foi acompanhada pelo projectista e que a mesma se realizou segundo a sua assinatura. Porque nenhum arquitecto pode acompanhar uma obra nem responsabilizar-se pela sua execução se o promotor assim não o quiser. Perdoa-se esta inexactidão a quem não tem a exacta noção de como as coisas se passam.

All things considered, estou optimista. Aos poucos, o espírito do tempo vai-se alterando.

Na imagem, a obra de Ourém do João, primeiro resultado da pesquisa no Google Images para «obra».

sexta-feira, 19 de maio de 2006

Grande tourada

No outro dia, à mesa do almoço, parece que escandalizei muito boa gente ao afirmar, respondendo ao entusiasmo colectivo sobre a recuperação da praça de touros, que o Campo Pequeno



é parecido, não, igual, ao Colombo.



Repito, parece que escandalizei muito boa gente.

quinta-feira, 18 de maio de 2006

Isto perturba-me

Homens e chimpanzés tiveram sexo depois da evolução

Porque, quer dizer, não me parece natural. Ai se o Ratzinger sabe disto.

Terge Hauge

Passei o jogo todo, após o minuto 18, a tentar explicar este pormenor às pessoas que me rodeavam, mas usando recursos linguísticos bastante mais limitados (embora sem erros ortográficos):

Não há dúvida que os melhores jogadores ganharam, e isso, no fim de contas, é a coisa que mais interessa, talvez a única. Mas ganharam de uma maneira que não mereciam, com um árbitro parvalhão do lado deles. Nada como um árbitro armado aos pássaros para estragar a final ao cidadão inocente. Esta mania de que as regras do futebol são para cumprir não cabe na cabeça de ninguém, muito menos destas pessoas com a mania que têm autoridade. Alguém terá que explicar a esta tipologia de personalidades (às quais não desejo a morte) que a cabeça serve para pensar. E, no caso, para pensar em quê? No futebol que se deseja ver. Aquele árbitro, naquela jogada, tinha uma saida airosa: não dava o beneficio do infrator (como erradamente deu, ao anular o golo do Barcelona) e aproveitava os festejos e a alegria subsequentes dos barceloneses para esquecer a expulsão do Lehmann. Mas não, aquela besta norueguesa achou por bem substituir o erro da não expulsão pelo disparate de benefeciar o infractor com a anulação do golo. E assim se destroi uma noite a uma pessoa. (...)

O resto é maradona ao estilo a que já nos habituou. E alguém que tenha visto o jogo de ontem e não tenha percebido que o Larsson foi o melhor em campo, não merece assistir a um jogo que seja do Mundial.

73/73

O Tiago Mota Saraiva tem reanimado a discussão sobre a prática profissional da arquitectura, tendo estabelecido um diálogo muito particular com o João. Ora, o Tiago é, julgo não me enganar, um comunista convicto, e o João é, sei que não me engano, um liberal apologista do mercado. Não há muito terreno para entendimentos, já se vê, mas quem fica a ganhar é a troca de argumentos, sempre viva, sempre elevada. Às tantas, um leitor do Tiago pergunta, sobre a Ordem dos Arquitectos: «para que serve?». Como resposta, o Tiago deixa alguns links relativos a iniciativas da ordem. E é aqui que dou razão ao João (aliás, não quero enganar ninguém, também eu sou apóstolo do capitalismo), quando, numa dessas iniciativas que o Tiago dá como exemplo da utilidade da ordem, se lê: «Número máximo de participantes: 14».

quarta-feira, 17 de maio de 2006

segunda-feira, 15 de maio de 2006

Entretanto, algures na América do Sul

«O mister sabe aquilo que eu valo», Ricardo Costa, jogador do FC do Porto, comentando a recém-divulgada lista de convocados para o Mundial 2006, notícia que às 20:20 ainda ocupa os 3 noticiários (e já agora, deixo o meu prognóstico com base nesta cambada: passar a primeira fase já não será nada mau.)

Post ideologicamente militante

Avenida da República vai ter prédios mais altos

Uma avenida mais homogénea, com uma imagem urbana requalificada e que atraia mais pessoas para o centro da cidade, é o objectivo do Plano de Alinhamento e Cérceas para a Avenida da República, que a vereadora do Urbanismo da Câmara Municipal de Lisboa vai apresentar na próxima reunião pública da autarquia. (...)

Esta iniciativa de Gabriela Seara merece aplausos. O resumo apresentado no DN deixa antever um plano com pés e cabeça, onde, quer os fins, quer os meios, parecem ser extremamente adequados. Só faço um reparo, que considero decisivo sempre que se fala na Av. da República. O perfil da avenida é um desastre. Não é possível que uma das principais avenidas de Lisboa tenha uma largura de 60 metros e passeios de 3 ou 4 metros (no máximo) em cada lado. Ouro sobre azul será anunciar que os lucros camarários provenientes do aumento de área previsto servirão como financiamento das obras de reperfilamento da avenida, alargando substancialmente a largura dos passeios junto aos edifícios, reduzindo o número de faixas de rodagem, e plantando uma série de árvores que fazem muita falta. De resto, vamos em frente.

Post ideologicamente inocente

Odeio o Estado.

Bê-i

Na semana passada, ao balcão do Governo Civil, a propósito do meu passaporte, vi-me vorçado a «imitar a própria assinatura», como confessei à menina que me atendia. Fiz uma vez, fiz segunda, só à terceira a coisa atingiu os mínimos exigidos para ser considerada «semelhante ao BI». Confiro, de facto, a bizarria: não consigo reproduzir o gatafunho que me identifica. Isto perturba-me, e continuou a perturbar-me durante o dia. Lanço-me ao verso do cartão e descubro a razão de ser da situação: a data de emissão. 09/02/2004. Está explicado. Há dois anos (um pouco mais) eu não era a mesma pessoa que sou agora. Nem parecida. E gosto muito mais do meu actual gatafunho. O que vale é que em Novembro (ou um pouco mais) lá estarei eu a actualizar a minha identidade.

n. 11.02.1990



Há algo de muito errado em The New World: a data de nascimento de Q'Orianka Kilcher.

P.S: A wikipedia baralha ainda mais as contas: There is no suggestion in any of the historical records that Smith and Pocahontas were lovers; this romantic version of the story appears only in fictionalized versions of their relationship, in which Pocahontas is made to appear older than she really was. According to Smith, when she met him again in London, Pocahontas called him 'father'.

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Ao telefone

«É o arquitecto Lourenço?»
«Sim, sou eu, está boa?»
«Bem, obrigado. Olhe, já agora, qual é o seu primeiro nome?»

Mundialito da Alemanha*

O Mundial aproxima-se e com ele o primeiro conflito: conforme indica a minha passagem, à hora do Portugal-Angola estarei, das duas uma, ou no aeroporto do Cairo, ou no meio do simpático trânsito daquela cidade a caminho do dito aeroporto. Se fosse optimista, pensaria que o Mundial dá em todo o lado, e por essa ordem de razões também no aeroporto do Cairo, ainda que seja um Portugal-Angola, aliás, o Egipto gosta muito de bola e da bola portuguesa, ou estarão porventura a esquecer-se de Manuel José e da sua carreira gloriosa do Al-Ahly? Mas não sou. Amanhã estou à porta da agência de viagens. Bem sei que é um Portugal-Angola, mas Mundial é Mundial.

*E com este inaugura-se a série de posts sobre o Mundial. Porquê Mundialito da Alemanha? Basta ter um palmo de testa para se perceber que neste ano está sujeito a competição o 3º, vá lá, o 2º lugar. A taça já fala português. Do Brasil, claro está.

Apocalypse Now

Um dos meus maiores medos ameaça tornar-se realidade. Claro que o prognóstico é ainda prematuro, mas o modo como as coisas se têm vindo a desenvolver parece querer indicar que o sinistro está próximo. Bem sei que por hábito abandono os livros lá pela página 43 (só na última semana O Processo e Se numa noite de inverno um viajante, que é para verem o calibre do menino que aqui está) e que, neste caso, só foram ainda viradas 4 ou 5 folhas. Contudo, é de tal modo evidente que, ainda assim, os poucos (mas longos) parágrafos consultados irão conduzir à anunciada fatalidade, que perco o pudor, enfrento os fantasmas, e afirmo: estou a ler Saramago* e a gostar.

*O Ano da Morte de Ricardo Reis, não faço a coisa por menos

quarta-feira, 10 de maio de 2006

A folha em branco

(...) A arquitectura tem especial predilecção pela folha em branco. A proposta filosófica da tábua rasa medra muito bem nas faculdades do risco. Não há como reinventar o espaço considerando que tudo o que preexiste será demolido. Árvores em terreno de intervenção remodeladora são ervas daninhas. Acresce que para muitos arquitectos não raro o objecto desenhado é mais importante do que quaisquer outros valores, sejam eles a habitabilidade, o conforto, a praticabilidade, a ecologia e até coisas bem comezinhas como a trivial sombra. A sombra é boa para os cidadãos mediterrânicos mas não para certa arquitectura que receia ser ensombrada.

O argumento de que, no futuro, quando tiverem crescido as escassas e esqueléticas árvores que costumam adornar as maquetas da coisa arquitectónica, haverá de novo árvores frondosas e sombra não pega, não convence o meu sensível cronómetro. Sei bem que o meu tempo de vida e o das tílias ou dos plátanos não é o mesmo. À descendência quero deixar um mundo mais bonito, claro. Com lindos e sofisticados projectos urbanísticos, fruto do bom-gosto e da espantosa imaginação humana. Mas deixo-lhe também a ela, à descendência, o encargo de substituir as árvores estragadas — quando elas estiverem de facto estragadas.


Rui Ângelo Araújo, n'Os Canhões de Navarone

segunda-feira, 8 de maio de 2006

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Wednesday nights hobbie.

Based on a true story



Um amigo diz-me que este álbum lhe mudou a vida. Não sei se vou tão longe. Mas mudou a minha maneira de ouvir música. Atrevam-se.

domingo, 7 de maio de 2006

Vício de forma



roubado à Inês

All unhappy families are alike; each happy family is happy in its own way. Não se estragava nada.

Com aviso de recepção

Muita coisa se perdoa em nome da beleza, disse uma vez o Manuel Vicente. Mas há limites. Caríssimo, parabéns pelo template, mas tens até ao próximo fim-de-semana para encaixar onde melhor te aprouver a lista de links, sob pena de sofreres a hamurabiana represália «olho por olho, dente por dente». Foste notificado.

Grandes momentos da crítica

(...) O programa incluía o libreto e uma nota inteligente e esclarecedora de David Cramer. Também fiquei a saber, graças ao texto de Paula Gomes Ribeiro, que «as técnicas literárias e musicais tornam-se cúmplices na edificação de introspecções, através de densas exegeses sobre a violência da dimensão oculta do Ser». Como dizem os americanos, «Whatever».

«"Salome" de perder a cabeça», Jorge Calado, in Actual 07.05.06

Grandes momentos da crónica



Há 32 anos, o retrato correu o país e o mundo: uma criança descalça e suja, com traços de querubim proletário, a enfiar o cravo numa G3. Imagem pirosa com mensagem política apropriada: depois da «longa noite fascista», a democracia dava os primeiros passos entre a nação. Pena que o querubim não tenha ficado para testemunhar o estado do sítio. Soube-se pelo EXPRESSO da semana passada que a fotografia foi cuidadosamente montada para o efeito em estúdio lisboeta e burguês. E a criança, hoje um adulto de 35 anos, vive e trabalha no Reino Unido, para onde zarpou quando a maioridade bateu à porta. No fundo, trocou a revolução lusitana pelas garras do capitalismo financeiro. Será possível censurar? (...)

«Psicopátria», João Pereira Coutinho, in Expresso 07.05.06

sexta-feira, 5 de maio de 2006

Atomic Kitten

Ainda sobre a intimidade. Maria Filomena Mónica (já se percebeu que ando fascinado com a novela) falou, na antecipação à publicação de Bilhete de Identidade, no seu receio que o livro fosse «uma bomba». Passados mais de 30 anos sobre os acontecimentos, de facto o engenho explosivo não causou danos consideráveis. O que me deixa a pensar na hipotética situação de, há 40 ou mais anos, haver internet, e de, há 40 ou mais anos, haver blogues, e de, há 40 ou mais anos (pois já adivinharam), Maria Filomena Mónica escrever um. Como se diz agora, de destruição massiva.

Isto não é um diário

O blogger de ressaca: com vontade de escrever, mas sem assunto. Dou algumas voltas, repesco anotações, arrumo opiniões. Nada me parece digno de merecer a atenção de terceiros. Percebo que isto me dá gozo, e que é, sem dúvida, um vício. Também percebo que não sou um caso perdido, ao saber que o único assunto sobre o qual me apetece ensaiar um ou dois parágrafos é demasiado íntimo para publicar. É aqui a sanidade mental se manifesta: ainda há assuntos demasiado íntimos.

quinta-feira, 4 de maio de 2006

Nota

Como a coisa já foi notada, explico o desaparecimento da caixa de comentários evocando o carácter confessional da blogosfera. Não há leis, não sequer tradição, não há nada. Quem quer ter, tem, quem não quer, não tem. Por enquanto prefiro isto assim, mais silencioso. Contudo, quando os comentários voltarem (não será daqui a muito tempo), os que já cá estiveram voltam a aparecer. São as regras do jogo.

«Confiança nas instituições»

Nos balneários, matinalmente, vejo passar um ministro* do governo da nação, tal qual Deus o colocou no mundo (sem o cordão umbilical).

*Isto não é a autobiografia da Maria Filomena. O nome omite-se, por pudor (e, neste caso, é mesmo pudor).