quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Opus #3

Estado Civil [2006 - 2008]

Depois de ter inventado o blogue político (A Coluna Infame [2002-2003]), de ter inventado o blogue pessoal (Dicionário do Diabo [2003-2004]), e após um período de reflexão (Fora do Mundo [2004-2005]), o Pedro Mexia fecha o ciclo do Estado Civil, o mais profissional de todos os seus blogues. A lápide indica que na sua origem esteve um incidente biográfico, mas que isso não nos deixe enganar: o Estado Civil foi o blogue que mais fez por desmentir quem insiste em reduzir «os blogues» a um fenómeno descartável. E se é verdade que os tais 99% da blogosfera podem representar mal a família, o ponto percentual que sobra atribui-lhe todo o sentido. Grande parte disso deve-se ao Pedro Mexia e ao Estado Civil, um blogue evidentemente escrito por alguém que - aprendemos isso com Chesterton mesmo agora - ama o género. Ao fazê-lo transformou uma «derrota» numa inconstestada «vitória». Nós, os outros, devemos estar-lhe grato. Eu estou.

Ortodoxia

This, as a fact, is how cities did grow great. Go back to the darkest roots of civilization, and you will find them knotted round some sacred stone or encircling some sacred well. People first pade honor to a spot and afterwards gained glory for it. Men did not love Rome because she was great. She was great because they had loved her.

Orthodoxy, G. K. Chesterton

Antroponímia

Lourença, avó de Agustina.

Como eu te percebo

(...) One report suggested Gerrard and a group of his friends were involved in an altercation after the man refused to allow them to choose the songs played on the venue's sound system. Gerrard is a big fan of Phil Collins and counts the singer's greatest hits as his favourite album. He is also partial to Coldplay. (...)

Moral da história: antes levar uma carga de porrada do que ouvir Phil Collins e Coldplay. O Pedro Sales chama a isto coragem; eu chamo-lhe apenas bom senso.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Antes morrer numa debandada de cangurus

A culpa pode ser minha que não gosto de épicos, não gostei de Gladiador, de Braveheart, de Tróia, mas por outro lado sei que não sou parvo: Tróia é infinitamente pior do que Gladiador, eu sei ver isso com clareza, não precisam insultar. Entrei por isso para Australia com todas as reservas activas e armas de destruição prontas a detonar mas o que encontrei foi apenas o tédio e o único perigo que corri foi o de largar as granadas no chão depois de adormecer. Só hoje percebi que Baz Luhrmann é o tipo que fez Moulin Rouge, um dos últimos filmes que arrancaram 5 estrelas a pessoas de bem e que me ia arrancando a sanidade, o que explica muita coisa mas não tudo. Australia é um exercício kitsch de tanto pastiche de géneros reduzidos a duas ou três caricaturas mais ou menos infantilódes. Aliás, a infantilização da audiência parece ter sido o caminho escolhido deliberadamente, e sobre isso caberá dizer que um mamilo naquela insípida cena de amor (ia escrever «sexo», mas enfim) teria ajudado a salvar a honra do convento, mas não, lençóis a cobrir tudinho, toma lá uma omoplata e um tornozelo para te divertires e usa a imaginação, porque aviões a fazer explodir meio mundo e tipos a sangrar dos olhos e senhoras a rebentarem pelos ares pode-se ver, mas o mamilo da Nicole Kidman é que não, nem uma nádega, nem o umbigo, senhores, nós que os conhecemos bem de, por exemplo, Eyes Wide Shut, um filme esse sim porreiro apesar do Tom Cruise, paz à sua alma. O Jorge Mourinha chama-lhe «uma viagem iniciática, um western, um filme de guerra, um romance exótico, uma lição de história, um dramalhão romântico, à vez, ao mesmo tempo, alternadamente» como se fosse uma coisa boa mas não é, é péssima. Nicole Kidman é uma reprodução em plástico daquilo que uma vez foi e de Hugh Jackman apenas fica na memória o torso (e gostava que a minha heterossexualidade não fosse posta em causa). Os aborígenes safam-se razoavelmente: há uma criança, um septuagenário nu, e uma mão que morre afogada à meia-hora. O argumento está tão obcecado com os acontecimentos que se esqueceu de dar espessura às personagens. O ritmo é enfadonho de tão previsível e recorre ao truque de - atenção, spoiler - matar uma personagem de 20 em 20 minutos para ver se não é dessa que saímos da sala. E não é. Vamos ficando agozinando pelo final que só chegará ao fim de 8 horas de iterações sobre o tema do feiticeiro de Oz (somewheeeeere oooooover the raaaaaaaaaaaainbooooooow, aaarrghhhh) cantado por uma criança, assobiado por um bêbado, poluindo a atmosfera geral. Não sei qual foi a intenção, mas sei que só não dou bola preta porque ninguém me pediu nada e porque temo estar a ser politicamente incorrecto. Que saco.

Exit strategy

O meu bairro sofre duas grandes enchentes por ano (em anos isentos de manifestações). Dessas, o arraial do orgulho gay está longe de ser a mais deprimente. Preciso de uma estratégia de saída (convites para revelhões para o email acima.)

Temos de ser uns para os outros

A Sara - que escreveu um texto sobre Australia que acabei de descobrir ser todo ele um eufemismo - soube através do Gustavo Nagel - que descobriu através de mim aquele texto do Matthew Parris ali em baixo - que o Tiago de Oliveira Cavaco tem um novo blogue. Deus vai encontrando caminhos para chegar até nós.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Descomplicar o mundo

«Nazis alemães e sionistas são irmãos no crime.»

Comentário das 15h19 a esta notícia.

Drago e Palin

Entretanto no Arrastão 8% das pessoas consideraram Ana Drago o «Melhor Nacional 2008» e na também emocionante corrida para «Pior Internacional 2008» Sarah Palin ficou a apenas 2% dos votos de roubar o 2º lugar a Robert Mugabe. O mundo só é complicado para quem gosta de complicar.

Africa needs God

«(...) But travelling in Malawi refreshed another belief, too: one I've been trying to banish all my life, but an observation I've been unable to avoid since my African childhood. It confounds my ideological beliefs, stubbornly refuses to fit my world view, and has embarrassed my growing belief that there is no God.

Now a confirmed atheist, I've become convinced of the enormous contribution that Christian evangelism makes in Africa: sharply distinct from the work of secular NGOs, government projects and international aid efforts. These alone will not do. Education and training alone will not do. In Africa Christianity changes people's hearts. It brings a spiritual transformation. The rebirth is real. The change is good. (...)»

domingo, 28 de dezembro de 2008

Ética bloguística (2)

Gostava muito que reparassem que eram 4:03 da manhã quando publiquei o último post, que são neste momento 4:06, e que tudo isto foi conseguido sem recurso a nenhum atropelo ortográfico.

Ética bloguística

Nunca publiques no estado ébrio.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Chiuauas e pedigrees

A Sic-Notícias acabou de transmitir um documentário sobre o perverso mundo da criação e apuramento de cães de raça. Não é preciso ter as cotas em dia da ANIMAL para que uma pessoa se emocione com isto. A história conta-se em poucas linhas. Em meados do século XIX a classe média vitoriana desenvolveu um gosto estético sobre os cães e descobriu que era divertido organizar competições com os melhores exemplares de cada raça. Os cães, que essencialmente existiam para desempenhar determinadas funções (caçar, guardar, acompanhar), passaram a existir para agradar aos olhos (o que, enfim, também parece ser verdade com alguns exemplares da espécie humana). Nos cães o drama foi inevitável e a procura da perfeição estética (leia-se a aproximação aos padrões estabelecidos por uma entidade estranha - o homem) não reconheceu obstáculos: se se quer o cão com o nariz empinado, então cruzem-se cães de nariz empinado, independentemente das suas relações de consanguinidade. Era como se as Nações Unidas (uma entidade estranha) decretasse a Angelina Jolie, o Brad Pitt e a respectiva rescendência como reprodutores oficiais da espécie, à luz de um conjunto de parâmetros estéticos considerados «ideais» (uma ideia sem contestação em Brangelina). A nós restar-nos-ia apaudir e pontuar. O resultado no mundo canino foi o esperado: doenças genéticas, anormalidades anatómicas, deformações físicas absurdas (particularmente eficaz a comparação entre dois exemplares da mesma raça separados por apenas cem anos.) Não se pense que eu estou a equiparar o cão ao homem; longe disso. Aos meus olhos a aberração maior não está no focinho inexistente do buldog, está na massa encefálica inexistente dos criadores. É-me particularmente indiferente que um cão nasça sem uma perna, mas não posso ficar insensível ao facto de se gastar no Reino Unido 10 milhões de libras semanais a tratar animais domésticos doentes devido a insuficiências genéticas provocadas pela pontuação dos certames de fim-de-semana. Há qualquer coisa na maneira como tratamos os animais que reflecte a maneira como nos tratamos a nós próprios - a relação que os donos de animais domésticos mantêm com os mesmos é evidente nesse aspecto. O que devemos aprender com o exemplo dos cães de raça não é a condenação da ideia de apuramento da espécie (Darwin já nos resolveu essa questão há muito tempo); é o perigo que resulta de retirarmos aos indivíduos a capacidade de fazer as necessárias escolhas através de imposições exteriores. A ideia de haver uma entidade, digamos, a título de exemplo, sediada em Bruxelas, que estabeleça padrões estéticos sobre a natureza, digamos, a título de etc etc, a «dimensão média do pénis» ou o «aspecto padrão de um pimento», já pareceu mais do domínio da ficção científica do que parece hoje. A ideia que podemos predeterminar os aspectos estéticos da nossa existência é tentadora e tem merecido teses relativamente convincentes no domínio da ficção científica. Mas não só, e poderíamos recorrer à biografia de Josef Mengele como bibliografia. O perigo, evidentemente, não parece estar na hipótese de alastramento de uma ideia de apuramento estético da espécie, mas mais num cenário onde o apuramento estético surge como consequência de outro tipo de manipulação mais benigno, por exemplo o combate à doença. Seja como for, a beleza parece ser um fruto proibído e a sua procura activa terá sempre um preço a pagar. Esta não é apenas uma ideia religiosa.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Bosingwa



O Rogério Casanova foi ao Reino Unido celebrar o dia mágico do calendário litúrgico, o boxing day, e pelo caminho foi lá ao blogue dar uma perninha para nos realçar um artigo da Economist sobre um farol (não há explicação para o jogo que o Bosingwa está a fazer). O que o Rogério Casanova não disse é (o Chelsea acabou de fazer o 2-0 através do perfume de Lampard) que esse artigo está na Special Christmas Double Issue, um número que separa automaticamente a humanidade em dois: aqueles que têm a oportunidade de ler a Special Christmas Double Issue - versão impressa -, e aqueles que não têm a oportunidade de ler a Special Christmas Double Issue - versão impressa. Como ontem foi natal e hoje eu faço anos - a caixa de comentários está aberta para as felicitações que se impõem - aqui vos deixo uma lista de artigos (parece não haver dúvidas sobre o facto de Paul Scholes ser o melhor jogador asmático da história do futebol) que não ficam nada a dever ao Light on a lonely rock (e atenção que eu ainda não os li todos):

- Chillies, Global warming (com um portentoso primeiro parágrafo);
(escandaloso anular de golo ao Man Utd, escandaloso)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Bom Natal




Praça da Figueira, 24 de Dezembro de 2008 (juro)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Being João Miranda

Bento XVI falou e, surpresa, as consciências indignaram-se. Desta vez foi a defesa da «heterossexualidade» e a comparação com «as florestas tropicais». A opinião urbana já preparou os cocktail molotov e está preparada para os lançar. Mas, desta vez, estão errados. A comparação é acertada. As «florestas tropicais» são um bem natural cuja extinção causará um desiquilíbrio no ecossistema difícil de superar. A «heterossexualidade» é um bem natural cuja extinção causará um desiquilíbrio no ecossistema difícil de superar. No primeiro caso, faltará oxigénio e chuvas e assim, obrigando a ciência e a tecnologia a encontrar soluções alternativas. No segundo, faltarão bebés, obrigando a ciência e a tecnologia a encontrar soluções alternativas. Num caso como no outro não será o fim do mundo, mas também não morremos se nos esforçarmos a preservá-las.

domingo, 21 de dezembro de 2008

2008 - uma lista anárquica

Frank Lloyd Wright, Prairie Houses, fotografias de Alan Weintraub, para nos reconciliar com a aquitectura;

João Pereira Coutinho na Folha de S. Paulo;

Charlie Wilson's War (hossanas a Seymour Hoffman);

Boston Legal, Weeds, Californication;

A gravidez da Rititi (e o nascimento do Rititi boy);

A minha guitarra que tocou na Radar;

Vampire Weekend e a vitória das camisas por dentro das calças;

A candidatura de Manuel Vicente à Ordem dos Arquitectos;

11 de Maio: The National na Aula Magna, feriado emocional;

11 de Junho: Feist na Aula Magna;

Os textos de Lourenço Viegas para a Time Out;

Rui Costa director desportivo;

Juno, de Jason Reitman e argumento de Diablo Cody;

Arthur & George, Julian Barnes;

Ian McEwan (obrigado por tudo) e Saul Bellow;

Ricky Gervais, sempre;

Death at a Funeral, de Frank Oz;

We Own the Night, de James Gray;

Boris Johnson em Londres;


A inauguração do edifício do New York Times, de Renzo Piano;

Zidane, un portrait du 21e siècle;

Catpower;

Contemplação Carinhosa da Angústia, Agustina Bessa-Luís;

Como fazer coisas com palavras, do Pedro Mexia e do Ricardo Araújo Pereira;

Pablo Aimar;

A Flor Caveira, o Tiago Guillul, o Samuel Úria, os Pontos Negros, Os Golpes e a Amor Fúria: 2008 é todo deles;

A morte d'«O Triunfo dos Porcos» como um triunfo dos porcos;

Usain Bolt e Michael Phelps;

The Savages (hossanas a Seymour Hoffman);

Ping-pong is coming home, por - evidentemente - Boris Johnson;

Rogério Casanova (Pastoral Portuguesa), Rogério Casanova (Expresso), e Rogério Casanova (LER);

Fleet Foxes;

Noah and the Whale;

David Foster Wallace, uma voz voraz desaparecida que conheci através de Consider the Lobster;

A revista LER;

O Obrigado Sá Pinto;

O regresso do MEC;

Os blogues do costume (vocês sabem quem são);

O programa do Aleixo, de Bruno Aleixo, génio;

Before the Devil Knows You're Dead (hossanas a Seymour Hoffman e Marisa Tomei);

Changeling e Gran Torino, de Clint Eastwood, que ainda não vi mas que são obviamente os melhores filmes do ano;

Orthodoxy, G. K. Chesterton;

Nada de Melancolia, segundo volume de crónicas do Pedro Mexia;

Caramel, de Nadine Labaki;

O Segredo de um Cuscuz, de Abdel Kechiche;

O Governo Sombra da TSF, a primeira tentativa de comentário político humorístico a dar certo em Portugal desde A Noite da Má Língua;

Amor e Ódio, Filipe Nunes Vicente;

A Dieta Rochemback, uma espécie de Gattopardo que se esforçou;

John McCain, apesar de tudo;

Barack Obama, apesar de tudo;

(Batman) The Dark Knight, que aluguei ontem no DVD e que não é só Heath Ledger (no entanto o tipo merece o Óscar póstumo, apesar da ideia ser um pouco sombria);

(em actualização)

sábado, 20 de dezembro de 2008

A minha vida

É mais Pollux do que para o Lux.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

TVI SIC

No episódio de ontem da novela da noite da TVI SIC (não sei o nome), Diana Chaves, que faz de lésbica, apresentava-se com a namorada em casa da tia, Ana Padrão, e discutia o «conservadorismo» da sociedade portuguesa que «infelizmente» ainda não reconhece «o casamento» de lésbicas. Percebo a caça às audiências, mas o argumento não pega: se «as lésbicas» tivessem o aspecto da Diana Chaves e se as tias das lésbicas tivessem o aspecto da Ana Padrão, há muito que o casamento entre elas não só estaria legislado como seria inclusivamente incentivado.

2008 em filmes

Qual é o truque? Vai-se anotando tudo num bloco, é?, numa agenda moleskine, micro-notas de visionamentos e leituras, com estrelinhas de lado? Não faço ideia, só sei que não consigo elaborar aquelas listas do ano pelo simples facto de que não me lembro que livros li, que filmes vi, que álbuns ouvi, que concertos assisti. Lembro-me de um ou dois, no máximo (até começar a ver as listas dos outros meninos). E, por isso, cá vai o meu filme de 2008, um filme que deve estar obrigatoriamente na lista de qualquer homem heterossexual que se preze, um filme que interpreta o cruzamento religioso no médio oriente à luz da luz que entra filtrada num cabeleireiro feminino de Beirute (olha, anotar «Beirut» para a secção da «música») pejado de mulheres bonitas e tensão sexual à flor da pele:

Mourinho está a fazer escola

Segui o excruciante jogo de ontem contra os Megadeath (tm) on-line, via um canal esquisito transmitido por um site esquisito (gosto de criar os ambientes próprios para cada ocasião). O comentador de serviço era um britânico daqueles com uma pronúncia muito pouco bbc oxford (diria que escocês, talvez) que passou o jogo inteiro a elogiar o bom futebol do Benfica, deliciando-se com Binya («the most impressive man in the match»), Fellipe Bastos («one of the best tonight») e companhia, tendo um orgasmo cada vez que se mostrava o banco de Quique («can you believe the power sitting in that bench?»), criticando a falta de atitude dos Metallica (tm) que pareciam só querer defender. Ora, por volta dos 75 minutos, o tipo viu a luz e começou a berrar que estava a ver tudo na cabeça dele, que os Iron Maiden (tm) iam marcar em cima do fim do jogo e que ia acabar tudo 0-1. «Can you believe [o tipo já estava incrédulo mesmo antes do golo] this, that Metalist are going to nail their third one nill victory in the UEFA cup?» E assim foi: contra o Galatasary marcaram aos 81; contra o Olimpiacos (que ontem despachou o Hertha por 4-0) aos 88; contra o Benfica aos 84. Mourinho está a fazer escola.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

I just wanted the wind to blow once more



Brigitte Bardot por Terry O'Neill

Por um Natal melhor

Por um Natal melhor, cheio de harmonia, paz e amor, gostava - Pai Natal se me estás a ouvir esta é para ti - de apanhar três ou quatro daqueles cabrões que largam os velhos nos hospitais durante o período das férias, disponibilizando moradas falsas e não atendo os telemóveis quando toca de Santa Maria (como nos mostrou uma reportagem da SIC de há dois dias), para poderem disfrutar o perú e o bacalhau e o vinho e o chocolate ou para aproveitar o subsídio e dar aquele saltinho ao Brasil sem o avô que precisa que alguém lhe mude as fraldas a atrapalhar, apanhá-los bem e espancá-los fisicamente com recurso a objectos metálicos pontiagudos. A tortura física não é a minha primeira opção: a primeira opção seria fazê-los sofrer uma humilhação e privação semelhantes à que sofrem aqueles velhos abandonados pela família, tratados como um animal de estimação mal cheiroso, não esquecidos mas simplesmente ignorados, mas suspeito que isto é gente que só vá lá mesmo à bastonada.

Scatman (Ski Ba Bop Ba Dop Bop)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Que nunca deixemos morrer este Portugal

Ao balcão, uma epifania patriótica a 1,10€: «sopa do cozido».

E o burro sou eu?

Luís Filipe Scolari, treinador do Chelsea, equipa de Deco, Lampard, Ballack e Joe Cole, veio a público dizer que lhe falta um «organizador» (antes que comecem a crucificar as capacidades de tradução da redacção d'A BOLA, vão ver à fonte: «organizer», que a redacção do Daily Mail prontamente interpretou como «playmaker»). Na sequência destas declarações, Quique Flores aproveitou para dizer que lhe faz falta «um guarda-redes», Paulo Bento «um avançado preto», José Sócrates «um computador pequenino e azul bebé», Obama «uma imprensa receptiva», Chesterton «uma visão sobre o cristianismo», Carrilho da Graça «o Prémio Pessoa», a Floribela «umas mamas novas» e eu próprio «capacidade de acabar este post».

Ortodoxia

The ordinary man has always been sane because the ordinary man has always been a mystic. He has permitted the twilight. He has always had one foot in earth and the other in fairyland. He has always left himself free to doubt his gods; but (unlike the agnostic of today) free also to believe in them. He has always cared more for truth than for consistency. If he saw two truths that seemed to contradict each other, he would take the two truths and the contradiction along with them.

Orthodoxy, G. K. Chesterton

(Não estava à espera de encontrar uma dimensão teológica no nome deste blogue, mas agora que Chesterton mo revelou faz todo o sentido. Aliás, há muita coisa revelada por Orthodoxy que faz todo o sentido, gostava muito que toda a gente estivesse a perceber isso.)

Nem sempre

A política nem sempre é uma coisa bonita. Com Helena Roseta a ganhar credibilidade, o «Zé» como canditato independente, e a fraca prestação de Costa, o PSD pode muito bem ganhar a CML. Com quem? Não se riam: Santana Lopes pode estar «morto», mas os fantasmas assustam muita gente. Ganhando a CML, Ferreira Leite faz metade do caminho que precisa fazer (lembram-se de Guterres se demitir depois de perder Lisboa e Porto?) Agora só falta a Cavaco devolver o mimo ao PS do solvente Sampaio e marcar as legislativas lá bem para o fim do prazo. A política nem sempre é uma coisa bonita.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

(Nem só) de mupis vive o homem

Triumph e Intimissimi, mas também Tezenis e Calzedonia.

A Saddam nunca ninguém atirou um sapato

Surpreende-me que as pessoas não estejam a ver o essencial no episódio shoegate: o Iraque já é um país onde jornalistas chanfrados têm a oportunidade de assistir a importantes conferências de imprensa (tempo de antena de jornalistas chanfrados sempre foi um ponto de honra das sociedades livres). O resto são - como diria o outro - fight divers.

Ortodoxia

Poets do not go mad; but chess-players do. Mathematicians go mad, and cashiers; but creative artists very seldom. I am not, as will be seen, in any sense attacking logic: I only say that this danger does lie in logic, not in imagination. (...) The general fact is simple. Poetry is sane because it floats easily in an infinite sea; reason seeks to cross the infinite sea, and so make it finite. The result is mental exhaustion (...). To accept everything is an exercise, to understand everything a strain. The poet only desires exaltation and expansion, a world to stretch himself in. The poet only asks to get his head into the heavens. It is the logician who seeks to get the heavens into his head. And it is his head that splits.

Orthodoxy, G. K. Chesterton

Ortodoxia

The fairy tale discusses what a sane man will do in a mad world. The sobre realistic novel of today discusses what an essential lunatic will do in a dull world.

Orthodoxy, G. K. Chesterton

01-01-2009

Carrilho da Graça e o Prémio Pessoa (2)

A conversa sobre a atribuição do Prémio Pessoa a Carrilho da Graça continua, com mais elevação, ali no Khiasma, pela mão do João Amaro Correia.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O novo partido

Manuel Alegre deve pôr os olhos em Chinese Democracy e aprender com os erros do senhor Rose: há ideias meritórias que só se mantêm meritórias na gaveta.

Por outro lado

domingo, 14 de dezembro de 2008

Um sinal de Deus?

Um sinal de Deus para todos nós? Frances Blogg, mulher de Chesterton.

Carrilho da Graça e o Prémio Pessoa

O Prémio Pessoa é o reflexo de uma certa atitude apaziguadora da sociedade portuguesa, sempre disponível para acarinhar os grandes consensos nacionais (como foi o caso de Manoel de Oliveira, por exemplo.) Como não poderia deixar de ser, o ecletismo é nota dominante nesta espécie de redução ao mínimo denominador comum do mérito. No caso do Prémio Pessoa, o mérito cultural. Uma rápida constulta à lista de laureados (uma péssima palavra) prova essa dispersão de resultados inócuos. Afinal, o que se está a premiar? Sem a definição clara de objectivos, sem a concentração numa determinada área, o que se premeia - julgo - é um suposto reconhecimento da «sociedade» em relação a uma figura cuja obra todos mais ou menos desconhecem mas cujo nome já aprenderam a reconhecer. Há, a acrescentar a isto, uma vontade de premiar pessoas ainda no activo, como estímulo ao restante do seu percurso profissional. 2008 voltou a escolher a arquitectura na pessoa de João Luís Carrilho da Graça [1952], e este texto tenta explicar a justeza dessa escolha.

Desde os anos 80 que o panorama cultural português tem vindo a incorporar a hermética disciplina da arquitectura na lista de actividades a acompanhar, e nem sempre os resultados têm sido os melhores. A principal vítima foi a própria arquitectura: os holofotes do mediatismo tornaram-na vaidosa e descuidada. Podemos até traçar a linha geracional - nos anos 80 - que separa claramente a obra dos arquitectos formados antes e depois da idade da consciência mediática. Para todos os efeitos, João Luís Carrilho da Graça representa um dos últimos casos pré-corrupção, ainda que tenha sabido gerir e tirar proveito, com alguma mestria, desta nova condição da arquitectura. É, acima de tudo, um puro, ou alguém que ambiciona a pureza. Não uma pureza formal que contaminou a geração posterior (liderada com pompa e circunstância por Manuel Aires Mateus [n. 1963], 11 anos mais novo) mas uma pureza de intenções radicalmente alicerçada na cartilha do movimento moderno. Se Eduardo Souto de Moura [n. 1952] - o único arquitecto premiado com o Pessoa até aqui (em 1998), curiosamente nascido no mesmo ano que Carrilho da Graça - representou a entrada de rompante da tradição de Mies van der Rohe («menos é mais») em Portugal, fazendo a correcta adaptação ao contexto do norte do país sobretudo através do muro de pedra, Carrilho da Graça é o mais competente herdeiro da tradição de Corbusier e da linguagem do «Estilo Internacional». 

O incontornável Álvaro Siza [n. 1933] desde cedo se deixou seduzir mais pela obra de Alvar Aalto - por esse modernismo já revisto e corrigido - e até pela segunda idade de Corbusier (depois da descoberta do tropicalismo) do que pelo cânone de aspiração internacionalista do movimento moderno, e com isso condicionou a história da arquitectura da chamada «escola do porto». Em Lisboa as coisas evoluiram mais livremente; a geração de Carrilho da Graça passou pelas mãos de Manuel Vicente (há que mencioná-lo) no último ano da faculdade, e, talvez motivados pela anarquia emocional de Vicente, foi cada um para seu lado. Graça Dias, amigo e contemporâneo de Carrilho da Graça (há quem esteja permanentemente a confundir os dois «Graças») não podia representar um universo formal mais distinto, por exemplo, mais herdeiro de Manuel Vicente, não recusando nem Taveira nem Távora (uma espécie de António Varioções da arquitectura portuguesa: enquanto que o músico trouxe Nova Iorque para Braga, Graça Dias quis trazer Macau para Chaves). Carrilho da Graça decidiu-se pelo caminho mais «modernista» que levou, inevitavelmente, a uma obra bem menos influencidade por «Portugal» do que os seus contemporâneos do norte do país. Talvez a obra a quem Carrilho da Graça mais deva seja a de Gonçalo Byrne [n. 1941], mas rapidamente a superou fazendo contrastar a sua ambição mais lírica à erosão do estilo de Byrne, que tem vindo a perder coerência formal em prol de uma ambição de «fazer cidade». Este prémio dado a Carrilho da Graça veio reforçar a ideia de que a expressão cultural da arquitectura ainda se faz sobretudo à custa do desenho que ambiciona à arte; quer Carrilho da Graça quer Souto de Moura são exímios criadores de objectos arquitectónicos, menos interessados no fenómeno urbano. É uma opção altamente discutível (a do júri do Pessoa) mas que se entende: à arte é exigido que emocione, e é esse que tem de ser o caminho da arquitectura se quer ser arte. A obra de Carrilho da Graça emociona pela sua procura da leveza, da imaterialidade, da pureza do «espaço» (uma ideia hiper-modernista), do acerto pela simplicidade do gesto, por uma dimensão quase musical e por isso bastante abstracta. O que é a sua força também é a sua fraqueza: esta abstração representa uma certa fobia - quase higiénica - em relação ao contexto português. 

Talvez falte à obra de Carrilho da Graça uma inscrição colectiva; dois ou três aprendizes dispostos a fazer escola que legitimem os seus gestos, que façam do seu percurso um percurso geracional e não só individual. O mediatismo da arquitectura que explodiu nos anos 80 formou uma geração de arquitectos mais interessados em ser publicados numa revista coreana do que em aprender com os mais próximos. Por isso, a obra de Carrilho da Graça ficará talvez para a história tão solta do chão como alguns dos seus edifícios, e isso é pena.

Saldanha 25

a era do vazio, onde o João explica porque é que mais valia que aquela coisa ali no Saldanha fosse às cores.

Eu devo ser

Quando cheguei à adolescência, os tios mais velhos diziam «aproveita rapaz, é a melhor altura da tua vida, que saudades de ter 16 anos.» Quando entrei na universidade, os tios mais velhos diziam «aproveita rapaz, é a melhor altura da tua vida, que saudades de ter 21 anos.» Quando me casei, os tios mais velhos disseram «aproveita rapaz, ainda vais a tempo de fugir.»

Ou eles eram loucos, ou eu devo ser uma pessoa muito estranha.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Nada de Melancolia

O carácter traumático da adolescência é um dado mais ou menos consensual para as pessoas normais, que crescem e arranjam empregos e têm de continuar a viver sem poder apagar tudo aquilo que se passou entre a puberdade e uma data que varia conforme cada um. À excepção dos consultores empresariais (nunca conheci nenhum que acusasse o toque), a adolescência é aquela fase da vida onde demasiadas coisas se definem sem rede, a maioria delas fugindo à nossa vontade, à boleia da «experiência», essa maldita, que vai gravando sem a nossa permissão dados novos na nossa tábua rasa, deixando-a irremediavelmente tatuada para a eternidade. E de onde vem o peso da adolescência? Simples: ela nasce da dificuldade que os homens (por oposição às mulheres) têm de decretar o fim da dita, que, como sabemos, só morre com o casamento (até prova em contrário, o melhor antídoto). Contra o domínio anunciado desse fantasma sobre a nossa vida, o remédio passa por um processo quase bélico de afronta a esse exército de assombrações. Esse processo é dificílimo e é necessário assumi-lo com frontalidade, entrar no carrinho do comboio fantasma de olhos abertos, e não recear a chicotada. O livro de crónicas do Pedro Mexia Nada de Melancolia (apresentado ontem numa bonita festa no Incógnito) representa, em parte, essa catarse emocional obrigatória. O Pedro Mexia volta ao local do crime, munido de armas poderosas - idade adulta, clareza argumentativa, prosa elegante, hormonas ligeiramente mais pacificadas -, e enfrenta o baú com coragem e dedicação. Apesar do título, há ali melancolia, evidente, mas que surge apenas como a namorada do amigo: só lá está porque convidámos o amigo. No fundo, estas crónicas representam uma espécie de arrumar de casa: a adolescência estava ali desarrumada pelas gavetas da sala e foi preciso pegar nela, empacotá-la, e arrumá-la num caixote na cave, catalogada e arejada para futuras consultas. Pelo caminho, o Pedro Mexia levou toda uma geração atrás de si, emocionada e entusiasmada com esta carta de amor a uma geração ainda relutante em deixar morrer a adolescência mas um pouco assutada em deixá-la andar pelos corredores sozinha. O processo foi uma espécie de bomba de fragmentação emocional, pacifista, sem vítimas. O que não mata engorda, e a verdade é que estamos todos um pouco mais gordos.

Enfim, começou a chover em Matosinhos, o terreno vai alagar, e tenho medo que isso prejudique o futebol do Aimar.

P.S: Acabo de perceber que o Miguel Esteves Cardoso diz no prefácio: «Mas o Pedro Mexia jamais poderia ter armas. Toda a terminologia bélica do costume (...) é grosseira de mais para descrever o que a escrita dele faz.» Mas isto é só a opinião do Miguel Esteves Cardoso.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

C.E.

Vieira

Não me sobressalta que Eduardo Cintra Torres tenha escrito um panegírico a Cláudia Vieira; é o facto de o ter feito no «Jornal de Negócios» que me desconcerta.

Ele era

Literato e hipocondríaco: o seu fetiche era a posologia existencial.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Manoel

Tenho com Manoel de Oliveira uma relação semelhante à que tenho com Lobo Antunes (o médico, quer dizer, o escritor, quer dizer, o romancista): alimento uma desassombrada ignorância em relação à «obra» ao mesmo tempo que me submeto a uma devoção quase incondicional em relação às coisas que eles dizem nas entrevistas. Por razões diametralmente (interessante esta relação entre a geometria e a linguagem; a que se deve, por exemplo, esta coincidência entre os nomes de figuras geométricas e de figuras de estilo?) opostas, claro. As entrevistas de Manoel de Oliveira são sempre um festival de politicamente incorrectos que sobrevivem graças ao estatuto de ancião que Oliveira conquistou. O mais interessante é que, ao contrário de Lobo Antunes (o médico, quer dizer, o escritor, quer dizer, o romancista), não parece haver em Manoel de Oliveira um esforço de patrulhamento sobre o que diz: podemos até arriscar a palavra sinceridade. É isso, e a inveja. Não acarinho a ideia de sobreviver até ao século, mas se lá chegar gostava de lá chegar assim.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Agenda



(O livro está belíssimo e tem a Gina na capa: não há como não gostar.)

Faixa de Gaza

A Baixa tem poucos habitantes, mas não se percebe porquê. Hoje, feriado, comprei pão fresco, sonhos de abóbora, fui à farmácia, à FNAC, a duas lojas de sabonetes distintas e comprei o jornal. Isto tudo num raio de três quarteirões. Mas há quem nos queira tirar daqui, quem espalhe boatos e maus olhados e vereadores que dizem «a Baixa nunca foi residencial». A resposta parece ser a que encontraram uns amigos que vivem aqui ao lado: vão ser pais. O exemplo, confesso, comove. Cresçamos, portanto, e multipliquemo-nos. A vitória será nossa.

Tudo por uma boa causa

Aqui ao lado de casa há uma loja de «comércio justo» que se dedica a vender artigos feitos no terceiro mundo a preços de primeiro, e com isso combater a exploração da mão-de-obra quase escrava. Hoje, ao chegar a casa, não pude passar em frente à montra: um carro que abastecia a loja estava estacionado em cima do passeio junto à porta (e quando digo «em cima do passeio» digo as quatro rodas em cima do passeio), obrigando os transeuntes a circularem na faixa de rodagem, arriscando perigosamente a vida. Os tipos do comércio justo não se sensibilizaram com isso. Tudo por uma boa causa.

Dia da Imaculada Conceição de Maria Santíssima (4)

Uma das últimas crónicas do Pedro Mexia no Público era sobre o episódio preservativo: na década de sessenta, Paulo VI, sobressaltado com a (nova) questão da contracepção artificial, cria um grupo de estudo para decidir sobre a questão. O grupo era grande e variado, mas o resultado da votação foi mais ou menos homogéneo: em setenta e tal votos, apenas 6 votaram contra o disposto no relatório, que era permitir e aconselhar o uso dos novos métodos contraceptivos. Paulo VI considerou o resultado «pouco conclusivo» e foi o que se viu. Desde então, isto tem sido um regabofe e ninguém se entende (uma vez excumungaram-me por isto). O exercício de história alternativa impõe-se: e se Paulo VI tivesse seguido a recomendação do relatório? Uma coisa é certa: os católicos adoptariam essa como a sua inquestionada posição.

Dia da Imaculada Conceição de Maria Santíssima (3)

A mãe, que é a figura central no catolicismo português, e uma das fontes dos meus atritos (Fátima, não obrigado.) Durante a adolescência fiz parte de uma organização católica juvenil de inspiração mariana que, como todas as organizações juvenis (para jovens) em Portugal, confundia a «juventude» com a «infância» e reduzia o cristianismo a um conjunto de imperativos morais mais ou menos ingénuos. Tive sorte com o grupo que me calhou, e fui ficando. Um dia quis falar ao país. Havia um jornal, impresso e tudo - agora deve ser um blogue ou assim - que nos chegava a casa pelo correio e que nos solicitava permanentemente artigos, pois aquilo era um órgão que servia para «dar voz» a todos nós. Escolhi o tema, esmerei-me na retórica, e fiz o send, não sei antes consultar um amigo que fazia parte da equipa editorial sobre a viabilidade da publicação (era um tema inocente mas fora do abc do missal). Ele hesitou - verdade - mas anuiu. Chegado o dia, nada do artigo do Lourenço, mas lá vinha outra vez o pedido de ajuda para mais artigos. Estranhei, e voltei à carga, com outro tema, com uma gramática ainda mais impecável. O resultado foi o mesmo. Passados uns dias alguém me disse que tinham «mandado dizer» que os meus artigos não podiam ser publicados porque «iam contra a opinião da Igreja» (sic), e que a serem publicados teriam de ser acompanhados por um artigo gémeo assinado por um «padre» (sic) a «defender» (sic) a «opinião da Igreja» (sic sic). Porquê? Porque havia muita gente influenciável a ler aquilo (a organização era para pessoas com mais de 16 anos, espante-se). Lá disse que o meu objectivo era mesmo «influenciar», mas eles não se influenciaram. Mais tarde vim a saber que eu era considerado um «herege» e tudo. Um tipo sensibiliza-se. Agora, olhando para trás, imagino que esses textos fossem algo de que eu me envergonharia e agradeço ao lápis azul a protecção que fez da minha biografia.

Dia da Imaculada Conceição de Maria Santíssima (2)

Somos desesperados: queremos, a todo o custo, falar com Ele. Por isso, inventámos uma série de figuras para nos conseguirem uma cunha: os santos, os beatos, a mãe.

Dia da Imaculada Conceição de Maria Santíssima (1)

O Tiago Cavaco fez recentemente dois ou três apontamentos sobre um aspecto que divide católicos e protestantes: a apetência que os primeiros parecem ter para o acatamento de ordens superiores, um gosto pela hierarquia, por oposição a uma espécie de rebeldia do-it-yourself dos protestantes. Os cânticos dominicais católicos parecem confirmar isso: nós, homens, estamos indefesos e infelizes sem a Tua atenção. Dá-me atenção, Senhor, obrigado pela Tua atenção, Senhor. Somos (os católicos) uma espécie eternamente órfã. Somos pessoas que não dão a devida atenção a S. Mateus: «onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (18,20). Esta insegurança gera insegurança; e o conceito de «rebanho» torna-se tristemente acertado. Mesmo quando tentamos fazer alguma coisa por nós próprios, lá vamos a correr buscar um padre que nos guie, que nos reconforte, que nos embale o berço. Invejo a capacidade dos protestantes de serem mais adultos e de acreditarem mais na força da comunidade - e de, consequentemente, a acarinharem mais. Nós, católicos, partilhamos a mesma fé e rezamos de mão dada durante a eucaristia. Mas à saída separamo-nos logo entre os que dão um e os que dão dois beijinhos.

Virus

(Um virus atacou-me a caixa postal e parece que ando a enviar para a lista de contactos um email de conteúdo natalício. Aos visados, as minhas desculpas pelo facto de o conteúdo do mesmo não ser o já tradicional soft porn.)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

«abusando de maiúsculas, exclamações e todos os sinónimos do verbo amar, não vá a gente ter dúvidas»

Estive a analisar o meu comportamento bolsista e cheguei à conclusão de que não linkava a Rititi há demasiado tempo.

18 anos

No Metro, um grupo de adolescentes conversa mais alto do que os outros viajantes. Percebo que falam sobre «fazer 18 anos na sexta-feira». Fico, por uns momentos, intrigado: aqueles miúdos e miúdas não me parecem ter 18 anos. Será que já não consigo distinguir um pré-adulto (18 anos) de uma criança (14)? Por este motivo fico de olho neles, à caça da gralha interpretativa. Pesco uma referência ao hi5, duas ou três outras coisas sem importântica, até que surge a chave do enigma: eles falam sobre que dia da semana acolherá os respectivos décimos oitavos aniversários. Eu faço 18 anos numa sexta, dizia um deles, isso dá imenso jeito, dizia outro, falando ambos de um futuro mais ou menos longínquo ao abrigo da ideia de imortalidade tão própria da idade pré-consciente. Fazer 18 anos exige festa grossa e, apesar de continuar a surpreender-me com a inutilidade da adolescência, percebo a angústia deles: fazer 18 anos à sexta-feira é certamente um plus. Uma espécie de sinal de uma predestinação da malta cool, inevitável que parece sempre ser aquela separação das águas que se dá no liceu (agora são ébês dois mais três, ou lá o que é). De um lado, os tipos que fazem 18 anos à sexta-feira (ou, se não fazem, que merecem fazer); do outro, os tipos que atingem a maioridade (puramente estatística, apesar de tudo) ao, digamos, domingo, por entre matinés e ressacas e lojas fechadas. 
Fui confirmar e não me espantei: fiz 18 anos num domingo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Google translation

«Uma vénia geral a Cristiano Ronaldo e Manchester rendida a uma nova legenda

Bold meu.

Forrest Gump

Há pelo menos uma pessoa que partilha comigo a área territorial de Lisboa compreendida entre a Baixa e o Campo Pequeno. Quem anda a pé na cidade (nós conhecemo-nos todos, costumamos ir ao cinema à terça-feira e partilhamos o táxi) também o conhecerá certamente: trata-se de um sem-abrigo de aparência rasta-albino, uma espécie de Bob Marley que caiu no caldeirão da lixívia em pequeno mas com ligeiramente melhor aspecto. Outra característica distingue-o dos demais: está sempre a correr. Ele é ágil e está em óptima forma (não vai para novo) e sempre que o vejo - sempre - está a executar um slalom entre transeuntes a uma velocidade que eu já não atinjo desde 1999. Não se pense que é só doideira - apesar de ser inegável que há ali matéria para diagnóstico de internamento -, o homem tem uma missão. No outro dia vi-o gesticular uma reprovação a um gordo que por ele passava. Juro. Aquele homem não corre apenas porque não tem mais nada que fazer; aquele homem corre porque isso parece emprestar sentido à vida dele. Não deixa de ser triste e cómico ao mesmo tempo. E profético, talvez: um desempregado que faz do jogging religião? Bem-vindos a Portugal, v.José Sócrates.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Índia

Entretanto, desconfiem de qualquer coisa que oiçam ou leiam sobre a Índia que não seja corroborada pelo Constantino Xavier, que ainda está em fase de re-adaptação a Portugal mas que já nos começou a explicar o que se anda a passar lá naquela parte do mundo.

E agora um post que não cita Rogério Casanova (ora foda-se, já está)

Nem o Benfica - Setúbal.

Estas merdas irritam-me

«Rogério Casanova escreve sobre esta antologia na edição de Janeiro da LER.»

Da LER (2)

Aquelas pessoas que têm a infelicidade de não dispor dos 5€ mensais para a LER talvez não saibam que estão a perder - entre outras coisas, e cito outra vez uma pessoa - a melhor coluna do Pedro Mexia, intitulada Biblioteca Fútil, que versa sobre a literatura que, eufemizemos, cai fora do cânone. Que me lembre, já fomos agraciados com apreciações à colectânea de poemas de Billy Corgan, ao romance «não-autobiográfico apesar de ser sobre uma jovem estrela de hollywood que conhece a fama em criança e cuja adolescência vem estragar tudo» de Macaulay Culkin, a outro romance «não autobiográfico apesar de bla bla» de Pamela Anderson, ao livro com que Octávio Machado pretendeu demolir o edifício do futebol mas que surpreendentemente o deixou intacto ou, o mais recente, a autobiografia - esta sim!, finalmente - de David Hasselhoff. Os textos têm um objectivo claro: dar ao Pedro Mexia o pretexto de os ler (quem não gostaria de ler a autobiografia de Hasselhoff, quem gostaria de ser apanhado a ler a autobiografia de Hasselhoff?). A ralé agradece e vai acompanhando. Mas se escrevo hoje sobre esta coluna é porque lhe senti uma especificidade: enquanto que a regra geral tem vindo a ser o - incontornável - sarcasmo lúdico, David Hasselhoff arranca de Mexia uma - incontornável - homenagem, e isto não deixa de ser comovente. «Portanto estejam caladinhos», diz Mexia a propósito dos milhões de espectadores que Hasselhoff coleccionou ao longo dos anos. Portanto estejam caladinhos, Baywatch, fim de conversa. Portanto estejam caladinhos, porque sem David Hasselhoff eu teria sido obliterado de boa parte da adolescência e de toda - toda - a minha infância:

Da LER (1)

Rogério Casanova escreve sobre os blogues:

«As preferências literárias, quando publicitadas, raramente são aleatórias: cumprem uma função identitária. (...) Qualquer lista do género é uma complexa proeza de construção, executada por comité, sempre com os «arqueólogos» em mente. Os livros mencionados [ilegível] devem forjar uma autenticidade inatacável e não podem ofender ninguém.»

A República das Letras, in LER Dezembro de 2008

Ok, ok: Rogério Casanova não se debruça sobre os blogues, estragaram-me a piada toda, mas sim sobre Obama e os livros, fazendo a ponte para o tema mais abrangente de Os Presidentes e os Livros, arrancando, apenas a título de exemplo, coisas como esta: «Até o discreto e historicamente insípido Calvin Coolidge conseguiu traduzir o Inferno de Dante para uma edição americana barata. Já a opinião mais ou menos consensual sobre os méritos culturais de George W. Bush é a de que terá ajudado a traduzir a América para uma versão barata do Inferno de Dante.» Já ouvi pessoas de bem dizerem que não estão a acompanhar a carreira de RC na LER porque, e cito, «estou à espera que saia em livro», o que se percebe ser um silencioso protesto contra os 5€ da revista. Percebo o ponto de vista, mas não acompanho, até porque, ou isto sou só eu com muita falta de jeito para gastar dinheiro, os 5€ da LER costumam ser os 5€ mais bem gastos do mês, como também ilustra o post seguinte.