terça-feira, 31 de março de 2009

A ver se é desta

O Miguel Esteves Cardoso e o João Pereira Coutinho foram anunciados como os novos trunfos do Geração de 60, um blogue que luta desde a sua inauguração para ultrapassar a média de visitas diárias do Complexidade e Contradição, uma tarefa que se tem vindo a revelar surpreendentemente difícil. Estas duas contratações mostram que a rapaziada está empenhada. A ver se é desta.

The Pope Versus the Vatican

The Pope Versus the Vatican, na Standpoint.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Dambisa Moyo

E eu aplaudo sempre

Sempre que leio «Mourinho Honoris casusa pela FMH» não consigo evitar ler «Mourinho Honoris causa pela FHM»: ora aí está uma distinção a que ninguém se oporia.

Não via uma coisa assim desde o Sousa Lara

Extra Extra: T. S. Eliot veta publicação de Animal Farm.

sexta-feira, 27 de março de 2009

O "i" ausente

Não restam muitas dúvidas de que a palavra «beneficência» é, ortograficamente, a mais esquiva de todo o dicionário português.

Magia

«Katsouranis vive o melhor ano da sua carreira», anuncia estóica e patrioticamente O Jogo, numa corajosa terraplanagem da memória colectiva daquele incidente de 2004.

«I was really into the myths an'all»*



A beleza física não é um dos atributos centrais em The Wire, nem sequer laterais. O proclamado realismo da série também se manifesta no baixo valor do desvio-padrão da amostra estética do elenco: nem aos heróis é permitido um desempenho extraordinário. Há, claro, outras grelhas de avaliação que nos obrigam a registar um comportamento bolsista bem mais positivo: é raro o preto em The Wire que nos deixa ficar mal no campeonato do carisma (Stringer Bell, Cedric Daniels, ou mesmo a voz de Lester Freamon), mas é sempre evidente que a verosimilhança estética foi uma das preocupações de David Simon. Tirando, claro, este preto, que a minha mulher acha «um deus grego».

* Omar Little, episódio 6 da segunda temporada.

quinta-feira, 26 de março de 2009

risk compensation

«(...) “There is,” Green adds, “a consistent association shown by our best studies, including the U.S.-funded ‘Demographic Health Surveys,’ between greater availability and use of condoms and higher (not lower) HIV-infection rates. This may be due in part to a phenomenon known as risk compensation, meaning that when one uses a risk-reduction ‘technology’ such as condoms, one often loses the benefit (reduction in risk) by ‘compensating’ or taking greater chances than one would take without the risk-reduction technology.” (...)»

(Via o Cachimbo de Magritte)

O mundo é complicado, pá, o mundo é complicado e não se mostra todo à janela da urbe «ocidental.»

Entrada a pé juntos

«Depois de ouvir o presidente da república há umas semanas e o bastonário da ordem dos advogados hoje sobre a maneira como neste país se fazem leis, que concluir? Talvez isto: os noticiários levam muitos portugueses a dar opiniões por escrito, mas uns fazem-no em jornais ou em blogues, e àquilo que escrevem chama-se crónicas ou posts, e outros fazem-no no Diário da República, e àquilo que escrevem chama-se leis e regulamentos. Aparentemente, os autores das crónicas e dos posts são mais rigorosos, consistentes e claros.»

Rui Ramos, na blogosfera

terça-feira, 24 de março de 2009

“This is the last straw!”

Tails of Manhattan, por Woody Allen.

Até se lhe perdoa as duas semanas de atraso

A primeira New Yorker já chegou cá a casa e traz um artigo sobre Tony Gilroy que começa com uma descrição prolongada do modo como Julia Roberts olha «ambiguamente» para trás numa rua de Roma; cinco parágrafos a descrever o modo como Julia Roberts sorri e roda a cabeça: isto, para mim, é jornalismo. Mais à frente na mesma peça conta-se que Spielberg terá tido interesse em filmar o guião de Duplicity - Tom Hanks já estava a postos para interpretar o papel que viria a ser de Clive Owen - até ao momento em que concluiu que não percebia a história, isto depois de uma «table reading (...) to clarify who did what to whom.»

segunda-feira, 23 de março de 2009

Se é assim volto para as traduções

Nas alegações finais perante o tribunal, em The Porcupine, Stoyo Petkanov faz referência à Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul e a Mário Soares. A primeira aparece como «Cruzieiro do Sul»; o segundo aparece como «Mario Soares». Como representante do mundo lusófono perante Julian Barnes, estou ofendidíssimo.

Utopia

«Foi um artigo encontrado no semanário católico inglês The Tablet no Verão de 1994 que primeiro me alertou para um debate intelectual (...)»

Esta é a primeira frase de A Consciência e o Romance, de David Lodge, um escritor que vive num país onde há «semanários católicos» que «alertam» as pessoas para «debates intelectuais». Suspiro. A minha vida é tão difícil.

Oito minutos e dezanove segundos

domingo, 22 de março de 2009

Almoço

Há uma correlação evidente entre os períodos em que a minha mulher se ausenta de casa e o consumo de atum e de água tónica no seio do meu agregado familiar. Se o atum se deve à feliz coincidência entre um apurado gosto gastronómico e uma omnipresente preguiça crónica, a água tónica deve-se a uma decisão de perseguir uma «vida saudável» que, como toda a gente sabe, é uma coisa que só faz sentido a dois. Hoje não é excepção, e sendo cinco da tarde tratei de criar as condições para que o «almoço» acontecesse, ou seja, fui buscar o atum à despensa e a maionese ao frigorífico no intuito de criar aquilo a que nos meios gastronómicos mais sofisticados se convencionou chamar de «pasta de atum» - a pasta de atum é uma entidade que já me resolveu muitos problemas na vida; aliás, acho que qualquer problema do Homem que não seja resolúvel com recurso à pasta de atum não merece ser resolvido. Como eu não sou um selvagem, costumo acompanhar a pasta de atum com elementos vegetais, como o tomate e a alface, devidamente lavados, por causa daquelas coisas. Hoje não havia alface cá em casa e tive de recorrer a um substituto, um improviso, vá lá, próprio de quem trata a culinária como uma arte à solta, um acontecimento «do momento», uma criação refém da brisa da inspiração. Ora, serve este post para pedir aos senhores leitores que ninguém se vá chibar à minha mulher que eu estive quase - quase - a confundir rúcula com espinafre.

Valha-nos o dr. Barash

«Marx was wrong: The opiate of the masses isn't religion, but spectator sports. What else explains the astounding fact that millions of seemingly intelligent human beings feel that the athletic exertions of total strangers are somehow consequential for themselves? The real question we should be asking during the madness surrounding this month's collegiate basketball championship season is not who will win, but why anyone cares. (...)»

E daqui David P. Barash arranca para a demolição do edifício onde está sediada a paixão pelo desporto colectivo. A táctica é simples e passa pela tentativa de compreender o fã, a claque, o ser humano. E, como sempre acontece quando um académico tenta compreender o ser humano, o argumentário passa pela observação do mundo animal e respectivas extrapolações antropomórficas. O resultado é a redução do fanático desportivo a um estágio semi-primitivo de desenvolvimento humano, conclusão que qualquer pessoa que já assistiu a um jogo da primeira liga ao vivo terá a maior das prudências em refutar. Barash relembra o óbvio: não há nenhum motivo para o clubismo desportivo que se alicerce no domínio da racionalidade; porém, Barash esquece o óbvio: nunca ninguém reivindicou para o clubismo desportivo a mais pequena das doses de racionalidade. Todas as armas que Barash vai buscar para o seu servicinho revelam-se, não sem surpresa, bastante eficazes na destruição de edifícios vizinhos. Se o desporto é uma activação da violência nas massas através da invocação de valores tribais mais ou menos artificiais, então o mesmo se pode dizer do nacionalismo, um veículo para a superação individual que passa pela exaltação de uma entidade que parece ter sido criada apenas para ser exaltada. O retrato que Barash faz dos fãs poderá ter nascido da sua «incompreensão» face ao fenómeno, mas algumas das suas afirmações são especialmente cruéis, como lembrar que o desportista quase sempre se revela um escroque fora de campo, ou que a ansiedade pelas vitórias da nossa equipa pode não passar de uma máscara para os insucessos e frustrações do nosso percurso individual. Esta última é especialmente demolidora e verdadeira: lembro-me de há uns anos no velho terceiro anel ver um homem que, desolado perante a derrota, só pensava na «cara com que ia aparecer amanhã no café». A verdade é que o clubismo é algo que nasce sem muita escolha numa idade inocente e que temos de suportar para o resto da vida, vergados à evidência de que nada daquilo faz muito sentido. Ou seja, e esta é uma das conclusões principais do texto, o fã é uma criança a quem está vedado o direito de crescer.
A tese é útil especialmente naqueles precisos momentos em que a devoção clubística nos falha, como aconteceu, espero, a qualquer benfiquista no dia de ontem. O cenário de ser obrigado a festejar a Carlsberg Cup já era suficientemente desolador a priori, mas ter sido obrigado a fazê-lo naquelas circunstâncias foi especialmente revelador. Ficar inscrito na história que um erro de um árbitro foi responsável pela conquista de um troféu patético não devia confortar o fã na sua luta contra a depressão doméstica; devia contribuir para ela. Pode não haver vitórias morais, mas há com certeza vitórias imorais e desprovidas de qualquer capacidade para engrandecer o pobre e insignificante adepto. Valha-nos o dr. Barash.

Como crianças desoladas

«(...) É que, se há um monstro nesta história, há também uma figura extraordinária, a estóica e determinada Elizabeth. Quando Elisabeth, com 42 anos, saiu finalmente do bunker para acompanhar o tratamento de uma das suas filhas, os médicos desconfiaram do estado lastimável da adolescente. Elisabeth aproveitou e contou tudo. Contou todos os abusos e violências. Mas também contou que tinha cuidado de seis crianças, que as tinha alimentado, vestido, que lhes tinha dado banho, que tinha brincado com elas e visto televisão com elas, que lhes ensinou gramática e matemática, que as educou e lhes transmitiu a sua fé. Quando os miúdos ainda cativos foram trazidos à luz do dia, o rapaz mais novo apontou para o céu e perguntou aos polícias: "é ali que Deus vive?" E aqueles polícias, que já tinham visto e ouvido tudo, choraram como crianças desoladas.»

Pedro Mexia, no P2 de ontem

sexta-feira, 20 de março de 2009

No metro

Hoje, no metro, passou por mim um Daniel Plainview subnutrido.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Pleonasmo

Dia 31 de Março, ali à Rua do Século, abrirá as suas portas ao público a livraria Alêtheia, um projecto de Zita Seabra que «privilegiará o público elitista»; ora, uma livraria que privilegie o público elitista é uma coisa que faz tanto sentido como uma telenovela que privilegie o grande público, uma Gisele Bündchen que privilegie os heterossexuais, ou um restaurante vegetariano que privilegie os malucos. 

Eu bem me parecia

Afinal, Shakespeare não é Shakespeare.

Brolin já é casado com Diane Lane. Mais prêmios para quê?

Falhei isto no momento certo, mas cá estou.

Better than The Wire?

«You've finished The Wire box set? You'd like something else that is just as good as "the greatest show ever in the history of television" (© all Guardian journalists) but you're not quite sure where to go next? How about a series that's as passionate and intelligent as The West Wing when debating war and terrorism, or as emotionally articulate about death, loss and love as Six Feet Under, or as trippy, mystical and deliciously baffling as Twin Peaks? A series that's not afraid to take you on an epic, existential journey during which you'll grow to love characters who are wrangling with metaphysical issues such as the nature of humanity and god? A series that does all this while never losing sight of the idea that television should be entertaining? But what's that? You don't do spaceships? Oh ...»

quarta-feira, 18 de março de 2009

Claro que nada é inteiramente novo

Obrigado, Lourenço, por me teres passado esta tão interessante corrente. Gosto muito dela e há mais de um ano que não ma passavam. Ora, então, cá vai a quinta frase da página 161 do livro que tenho mais à mão:

«Claro que nada é inteiramente novo no desenvolvimento de uma forma literária.»

O livro é A Consciência e o Romance, de David Lodge, traduzido por Ana Maria Chaves para as Edições ASA, e tem uma capa espectacular.

Passo esta corrente ao Pedro Santana Lopes.

Quinta frase da página 161

Fui apanhado completamente desprevenido pelo Sérgio Lavos que me passou aquela corrente da quinta frase da página 161 do livro que temos mais à mão. Ora, o livro que tenho mais à mão, The Porcupine (Julian Barnes), tem 138 páginas, o que me exclui à partida deste jogo e lança sérias dúvidas sobre as precauções jurídicas que foram (ou não) tomadas por quem estabeleceu as regras da coisa. Não sabendo como proceder nesta situação, passo a corrente ao Lourenco do Complexidade e Contradição.

Da superioridade moral da Monarquia

segunda-feira, 16 de março de 2009

Gran Torino replay

«(...) agarra-nos pelo braço, leva-nos para dentro do filme, faz-nos rir e semeia-nos dessa planta daninha e doce que é a melancolia. (...)»

Manuel Jorge Marmelo

Andam a escrever-se coisas muito boas sobre Gran Torino (permito-me destacar estas duas coisas, escritas pelo Ricardo Gross, com quem partilhei a sala na sessão de ontem das 19:45; aliás, pelos vistos, já toda a gente deve ter partilhado a sala de projecção de Gran Torino com Gross: «Quando se olha para Gran Torino pela quarta vez (...)», enfim) e nem todas têm sido escritas por mim. Era só para avisar, procurem por aí, vão ao technorati, façam pela vida.

Entretanto no YouTube



(Wong Kar Wai's Happy Together + The Whitest Boy Alive's Island)

A fenomenologia do ser

Olhei à volta e constatei que não tenho aqui nenhum livro suficientemente interessante que possa ser utilizado na resposta à corrente sobre a quinta frase da página 161 do livro que temos «mais à mão». Logo à noite, quando chegar a casa, vou à estante seleccionar cuidadosamente uma obra «aleatória» e desse modo responder à corrente que o Sérgio me passou, de um modo que possa contribuir positivamente para a minha imagem. Nunca se sabe, com esta crise pode ser que um gajo acabe na política, ou assim, é preciso ir preparando o passado.

domingo, 15 de março de 2009

Gran Torino



Captaram a piscadela de olho a Scorsese (The Departed)? Não era uma piscadela de olho a Scorsese? Não era? Claro que era. Isto, para mim, é cinema: piscadelas de olho de Eastwood a Scorsese, por entre ameaças armadas, vernáculo desenfreado, e rosnanços à «juventude». Tudo na mais perfeita das parábolas cristãs, capaz de converter até o mais duro dos espíritos. Que tu nunca morras, Clint.

(Na imagem, Eastwood aponta uma espingarda a Michael Moore.)

sexta-feira, 13 de março de 2009

Prosa íntima

Prosa Íntima e de Auto-Conhecimento é simultaneamente o nome de um dos volumes da obra completa de Fernando Pessoa - que eu tenho lá em casa, enfim, em regime de separação de bens - e o estado permanente deste blogue. Às vezes engana, mas é só isso.

E estou em paz com isso

Tenho a perfeita noção de que este blogue é muito pobre, lexicograficamente falando.

A blogosfera em que eu acredito

Gostava de ter alguma coisa a dizer sobre, sei lá, Sócrates ou Platão, e como infelizmente não tenho nada a dizer sobre, sei lá, Sócrates ou Platão, resta-me falar sobre o facto de não ter nada a dizer sobre, sei lá, Sócrates ou Platão.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Eu podia andar a roubar, há que ter em atenção que eu podia andar a roubar

A poesia
contemporânea parece-
me sempre
um processa-
dor
de texto com as m-
argens e
a
hifenização todas
fodidas.

Gran

É mais ou menos isto

Os homens, simplificando, fazem as coisas para «impressionar raparigas e causar inveja aos rapazes», como disse sabiamente Erza Koening. Só há dois tipos de coisas que os homens fazem que não entram nesta classificação: as quem têm de ser (levar o lixo lá fora, aspirar a casa, sair da cama às segundas-feiras, etc.) e as que elas mandam fazer (levar o lixo lá fora, aspirar a casa, sair da cama às segundas-feiras, etc.). Tudo o resto é pavoneanço, puro e simples. Perante isto, pode parecer estranho que alguém casado faça algumas coisas, como, por exemplo, manter um blogue ou cortar o cabelo (isto no domínio da mais infungível monogamia). Há duas falácias nesta perversão: a primeira é partir do princípio que o casamento elimina a necessidade de pavoneanço; a segunda é não saber que é muito mais difícil impressionar a rapariga quando a rapariga nos vê a lavar os dentes e a deitar o lixo fora, todos os dias. É fácil parecer desejável quando só se sai da toca à noite e bem cheiroso. É de dia, na planície aberta, que elas mordem, e foi Darwin quem começou a explicar isto. Quem se esquece disto, esquece-se de tudo. Fazer pontes, ir à lua, entre outras coisas, só com um objectivo: impressionar raparigas. Ou, mais difícil, impressionar a rapariga.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Não há maneira de isto deixar de parecer fácil

Martim Moniz no Marquês de Pombal

Hoje puxei do telemóvel e accionei o cronómetro: 3:05 minutos foi o tempo que separou as duas composições do metro. Eu sei isto; as pessoas sabem isto, é sempre assim, todos os dias, no mesmo sítio, à mesma hora. E todos os dias, no mesmo sítio, à mesma hora, sempre que cá em cima se ouve a carruagem a chegar, o cenário é o mesmo: a manada desata a correr escada abaixo, acotovelando, pisando e empurrando tudo que com ela se atravesse, deixando para trás um cenário de destruição total, culminando com o grande final composto por voos picados e sincronizados em direcção às portas automáticas, verdadeiras cunhas humanas, todos descendentes de Martim Moniz, o mártir. Três minutos e cinco segundos, não há assim tantos empregos em Lisboa que são postos em causa por três minutos e cinco segundos. A crise, isto tudo, é também o espelho da nossa espantosa incapacidade para aprender.

terça-feira, 10 de março de 2009

Bolañomania

João Tordo sobre Os Detectives Selvagens.

(O João Tordo escreveu As Três Vidas, um livro que ofereci ao meu pai no Natal, que o meu pai leu e gostou, que a minha mãe leu e gostou, que a minha mulher leu e gostou, e que agora está ali em baixo do meu exemplar de Os Detectives Selvagens, à espera de ser lido por mais uma pessoa. Isto é a razão pela qual os leitores digitais de livros nunca vingarão: não se empresta um PDF, ou lá o que é aquilo, inventem lá o que inventarem.)

segunda-feira, 9 de março de 2009

A realidade só é monótona para quem a quer assim

Abri quatro ou cinco livros ao acaso na loja e em todos fui parar a uma página que mencionava o capitão FitzRoy (num caso a grafia surgia como Fitz Roy). Nem todos eram sobre Darwin, ou o Beagle, ou Deus, mas um deles era de Chatwin, que rima com Darwin, curiosidade que só se tornou evidente a posteriori, quando me preparava para o pagar. Depois de eu dizer que era para oferta, o zeloso empregado ofereceu-me a informação de que aquela era uma segunda edição e que a Quetzal tinha outra, anterior, diferente daquela. Sem perceber o alcance desta comunhão ao balcão, puxei da carteira e preparei-me para concluir a transacção, não estava interessado na edição original da Quetzal, era aquela que eu queria, gostei da capa, mas mesmo assim perguntei se era melhor, essa outra edição. Ele disse que era diferente, o formato era mais pequeno, eu não reagi, tanto me fazia, mas ele fitou o computador, deixe-me só ver se a temos, cá está, vou buscar-lhe, e saiu dali para fora, em direcção às estantes. Voltou de mãos vazias, afinal não temos, não faz mal, disse-lhe, então eu levo o livro que escolhi levar, deixe estar. À saída, não fui abordado por nenhuma testemunha de Jeová, aliás, onde se meteram todas as testemunhas de Jeová que já nem as pessoas abordam na rua?

O semi-utilitarismo de Quique

Depois do jogo de ontem na Figueira da Foz concluo que o Benfica ainda não entendeu todo o alcance teórico do utilitarismo onde claramente se filiou: se está claro para Quique Flores que os resultados das acções são mais importantes do que a intenção moral que lhes dá origem, não está totalmente assimilado que esses resultados devem contribuir para a maximização do bem estar geral. Só andam a ser massajadas as costas de quem não assiste às transmissões dos jogos e esses são aqueles que menos precisam de ver aliviada a sua tensão. Jogar para o resultado implica, vá, jogar.

domingo, 8 de março de 2009

Sábado de sol

De todas as pessoas que certamente reavaliaram a sua escolha de passar o dia de sábado estendidas ao sol nos relvados do Parque Eduardo VII quando o «cordão humano» dos professores começou a fazer barulho aos microfones no Marquês de Pombal, nem uma revelava uma história genética minimamente aproximada com aquilo a que se convencionou chamar de «português». Nós não fazemos isso, não nos deitamos nos relvados quando aparece um sol de Março; nós não saímos sequer à rua, pois durante todo o trajecto da Baixa até ao Parque contei pelos dedos de uma mão o número de pessoas com quem não iniciaria uma eventual conversa em inglês. Aquela esplanada junto ao lago dos patos estava a meio-gás; era sábado, estava sol, a imperial é a 1,40€ e trazem-nas à mesa. Ali ao lado os patos batem as asas, mergulham a cabeça na água, fazem-nos inveja e a espaços roubam a nossa atenção ao jornal. Foi preciso aproveitarmos a proximidade geográfica para dar um salto ao supermercado de uma cadeia de lojas espanhola para se desfazer o mistério da ausência de pessoas na rua. Estavam ali todos, aos magotes, sentados naquelas mesas indistintas que servem vários restaurantes, a comer gelados debaixo da iluminação artificial, a controlar o choro das crianças que certamente prefeririam estar a ver os patos a bater as asas e a mergulhar a cabeça na água. Mas como se pode escolher ficar ao sol a olhar para um pato a bater as asas e a mergulhar a cabeça na água quando se pode ficar a olhar para aparelhos de televisão que mesmo comprados em suaves 36 prestações são demasiado caros para a nossa carteira?, adivinho-lhes os pensamentos enquanto observo os passos leves e cadenciados que caracterizam o «passeio». Antigamente havia o passeio-público, mas o antigamente é uma palavra feia que não se conjuga com o progresso e para a frente é que é o caminho. Antigamente usavam-se chapéus, e o crime civilizacional que foi o seu abandono talvez encontre explicação no facto de já não ser preciso proteger a cabeça da intempérie. Lá dentro não há brisas leves, não há sol ameaçador, não há animais à solta. Há um parque de estacionamento a 0,80€ à hora, ar condicionado, produtos que se vendem a suaves prestações, serviços que guardam as crianças sob a protecção de um colete colorido e de um cartão com um número a condizer. O fim-de-semana é tão libertador.

22.000 A.C.

De qualquer maneira, e como símbolo da fertilidade feminina, sempre preferi a Vénus de Willendorf.

Pippo Inzaghi



Um hat-trick aos 35 anos é mais belo do que a Vénus de Milo.

O Ken

O facto político mais relevante da semana está subtilmente escondido numa reportagem da Única sobre a Barbie (esse «porno toy», como a classificou Joana Amaral Dias que, misteriosamente, aceitou fazer parte de uma reportagem sobre barbies, cansada que está do estereotipo que dela fizeram.) Talvez a dar razão a Abel Barros Baptista, que na sua última crónica para a LER constrói, com recurso a uma linguagem sarcasticamente jornalística, uma notícia ficcionada sobre alegadas polémicas do meio literário (colocando, por exemplo, Harold Bloom «alegadamente numa festa algures» a dizer que Gil Vicente é melhor do que Shakespeare) onde se conclui que «a culpa é seguramente do primeiro-ministro português, José Sócrates», a reportagem sobre a boneca mais famosa do mundo revela, no seu derradeiro parágrafo, que os ministros ofereceram a José Sócrates pelo Natal «um cheque de compras para a Fashion Clinic» (a fonte indicada é o El País). A itenção do repórter parece ter sido a de ampliar o alcance da sua reportagem (que balança entre o óbvio, «Joana Amaral Dias é um borracho», e o abjecto, «países com atrasos significativos, como a Arábia Saudita (...) ou Portugal») com este fait diver, mas a revelação não deixa de ser gravíssima. A vitimização permanente de José Sócrates tem passado quase sempre por fazer queixas e queixinhas da imprensa que aparentemente o retrata de um modo infiel e com recurso a uma evidente má-fé; por oposição ao verdadeiro José Sócrates, um homem determinado e com um projecto sólido para o país, aparece o José Sócrates construído pela imprensa e emprestado à consciência pública, um homem vazio de conteúdos e obcecado pela imagem. O preconceito sobre o homem alastrou-se também ao governo, que é acusado de promover uma cultura do show-off vazia de conteúdos e de resultados (com o Magalhães a surgir como epítome eficaz). Estaremos todos nós a ser injustos? Estará o país a fazer uso da sua característica tendência para a maledicência e a deixar-se ludibriar pela má-língua dos jornalistas? Ao ficarmos a saber que «os seus ministros» ofereceram a Sócrates um cheque de compras para uma loja de roupa cara e de nome foleiro, ficamos subtilmente a saber que essa imagem é partilhada por quem com ele lida diariamente. O facto de «os ministros», enquanto tal, oferecerem um cheque de compras ao primeiro-ministro da Fashion Clinic («o primeiro ministro da Fashion Clinic», uma curiosa derrapagem sintáctica) revela o verdadeiro foco de interesse de José Sócrates (presume-se que a oferta não terá sido sarcástica) e a degradação institucional a que chegou «o conselho de ministros». Este gesto acabou por ser, involuntariamente, um óptimo auto-retrato do grupo de pessoas que nos governa.

A democracia, como qualquer outra instituição humana, precisa de símbolos. Os gestos que não são operativos devem ser simbólicos. Os símbolos são úteis porque representam realidades não materiais. O cheque de compras da Fashion Clinic assume-se, neste sentido, como um símbolo particularmente eficaz.

quinta-feira, 5 de março de 2009

O tradutor que bebeu escoceses

Os problemas da tradução para português de Os Detectives Selvagens já foram escalpelizados pelas entidades competentes em sede própria, e não têm constituído uma ameaça significativa a uma leitura que tem sido relativamente tranquila, mas não consigo deixar de estremecer ao ler que uma personagem bebeu um «escocês duplo» por duas vezes na mesma página.

As europeias

Sou o único a esperar ansiosamente pelo debate entre Laurinda Alves e Vital Moreira?

Crónicas do metro

Hoje vi o Obama na estação de metro da Baixa-Chiado. Juro, estava mesmo ao lado do David Grohl (já agora, o David Grohl é mais baixo do que parece, mas por outro lado pode ser o Obama que é mesmo alto.) Pareceu-me que o Forest Whitaker, que estava um pouco mais ao fundo da carruagem, ficou naquela vou não vou para lhe falar. Ao Obama, não ao David Grohl, não sei se o Forest Whitaker conhece o David Grohl.

quarta-feira, 4 de março de 2009

A grafia Madaíl é frequente mas errada

Num jantar que reuniu os «campeões de Riade» (João Pinto, Fernando Couto, o Giggs de Penafiel - Folha - e um grupo de funcionários da Mota Engil) Gilberto Madail comentou desta maneira a «efeméride»:

É mais uma efeméride do futebol português, felizmente temos tido muitas, esta é apenas mais uma, olhe, por exemplo, este ano também se comemora o aniversário de uma outra efeméride, que foi a vitória de Portugal no concurso para a organização do Euro 2004 em 1999.

O leitor atento certamente terá captado a subtileza da mudança de assunto: Madail não estava lá em 1989 mas já lá estava em 1999. A «espinha dorsal» de Madail está ainda em pior estado do que a de Caroline, vítima das tendências sado-masoquistas de Robert, o italiano. Aliás, todos nós nos lembramos do que estávamos a fazer nessa «efeméride» que foi a vitória no concurso para a organização do Euro 2004: eu estava particularmente encantado com a euforia de Carlos Cruz, uma imagem que ainda hoje me comove.

Democracia



(Com um muito obrigado ao Daniel.)

terça-feira, 3 de março de 2009

segunda-feira, 2 de março de 2009

domingo, 1 de março de 2009

Isto não se faz às pessoas



A Praça de S. Marcos passa a uma «praça rectangular rodeada de arcadas, com uma torre num canto e fechada no topo por uma catedral famosa» (cito de memória); o Lido passa a uma «longa faixa de areia»; o vaporetto a «water bus». Se em Saturday o artifício formal é a omissão de referências às horas do dia e ao passar do tempo, em The Comfort of Strangers McEwan decide-se a não nomear nada daquilo que é único em Veneza (como o seu nome), talvez por causa da sua familiaridade universal. A difícil verosimilhança da história passa inevitavelmente pela sensação de desconforto solitário que Pavese ilustra na epígrafe escolhida por McEwan:

Traveling is a brutality. It forces you to trust strangers and to lose sight of all that familiar comfort of home and friends. You are constantly off balance. Nothing is yours except the essential things - air, sleep, dreams, the sea, the sky - all things tending towards the eternal or what we imagine of it.

Ao despir Veneza e os seus símbolos dos respectivos nomes, McEwan é forçado a descrever com detalhe a cidade que suporta este pequeno romance (100 páginas, um conto longo?), até porque ela nunca é apenas um local: Veneza parece amaldiçoar a narrativa desde a primeira página. E dizer que «Veneza é única» é mais fácil do que prová-lo. Como um turista numa terra desconhecida, o narrador não facilita a vida ao leitor e força-o a um desiquilíbrio (como em Pavese) que impede qualquer sensação de conforto. Quem já foi a Veneza sabe que é fácil acreditar-se que há um preço a pagar por tanta beleza. Veneza é uma espécie de pecado, um priviliégio que nos obriga a ceder alguma coisa em troca. Tal como a marijuana que Colin e Mary fumam, que, apesar de não dar ressaca, parece carregar um fardo moral inalienável. Colin e Mary estão indefesos perante esta cidade que não é nomeada, e nós com eles.

O chão treme

Há uns minutos, em Espinho, Sócrates quase chorou. Agora, em Lisboa, chove granizo. O mundo há muito que deixou de ser um sítio de confiança.