segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A culpa não é dele

Li numa revista «da especialidade» um famoso a declarar que, por motivos ambientais, deixara de usar o desodorizante, passando a usar, em vez, «água e sabão» (julgo que foi a Julia Roberts, mas parte do meu cérebro recusa-se a aceitar a hipótese de uma Julia Roberts fedorenta.) Durante anos pensei que a culpa era do desodorizante, que a culpa era da falta do desodorizante. Afinal não. Anos e anos a sofrer no Metro e Sítios Fechados Em Geral a rezar a Deus para que eles descobrissem o desodorizante - para perceber agora que as minhas preces têm sido em vão. Eles julgam que o desodorizante substitui a água e o sabão. Julgam que o desodorizante e o banhinho são mutuamente exclusivos. Assim não há fé na humanidade que aguente, tenham lá paciência.

domingo, 30 de agosto de 2009

Inglourious Basterds

Gostava muito que toda a gente tivesse percebido que a última linha de diálogo de Inglourious Basterds não é apenas uma linha de diálogo da personagem Aldo Raine - é Tarantino que nos fala directamente ao ouvido. Absolutamente brilhante (e um óscar para Cristoph Walz, já.)

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Manuela 2009

O Programa Eleitoral do Partido Social Democrata 2009 / 2013.

«Uma ressaca para a vida toda»

Para os fanáticos de The Wire, é obrigatório ler o texto que Rogério Casanova dedica à obra de David Simon na última LER, que nos explica as tácticas e a estratégia que a série usou para nos fazer aquilo que fez.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Stieg Larsson

Stieg Larsson, Stieg Larsson, Stieg Larsson: a verdade é que ainda só li as primeiras 150 páginas mas há água que tem de ser deitada na fervura, tenham lá paciência. A edição portuguesa de Os Homens Que Odeiam as Mulheres é exasperante. Os erros de revisão são mais que muitos: não se admitem plurais omissos e pontos finais desaparecidos em combate. Um parágrafo sem ponto final é coito interrompido, pá. A tradução - do inglês, não há ninguém a traduzir do sueco em Portugal? - também me parece descuidada: há «pequenas mesas» por todo o lado, bem como «fortes portas», «gordos homens» e, imagino, «azuis carros». O próprio estilo de Larsson também me parece pouco atraente. Demasiado cinematográfico: abusa-se das descrições visuais - com mapas impressos e tudo - e dos diálogos, e as personagens parecem todas saídas do catálogo dos estereotipos mais comuns - o «velho» é sábio e compreensivo, a «jovem» é anárquica e tatuada, a «amante» é loira. Mas - surpreendentemente - aquilo funciona: as tais 150 páginas foram lidas numa noite e meia.

Battlestar Galactica



Tudo se passa num «futuro distante». A raça humana colonizou o espaço, mais precisamente 12 planetas que apelidou de, err, colónias. Essas colónias têm nomes aparentadas dos signos do zodíaco. A Terra, essa, desapareceu da história e transformou-se num mito religioso. O sistema monoteísta foi substituído por um sistema politeísta («may the Gods help you»). Uma sub-espécie foi criada, os «Cylons». Essa sub-espécie desenvolveu-se e, surpreendentemente, «revoltou-se». Houve um ataque massivo e quase toda a espécie humana foi dizimada. Restaram 50 mil almas que conseguiram fugir para o espaço e vivem em naves que fogem constantemente dos Cylons. Para fugir teletransportam-se («saltam») para coordenadas distantes. Há uma presidente, há uma hierarquia militar estabelecida, há imprensa, há bares, há putas, há tudo. Para ajudar à festa, as personagens são incoerentes, os diálogos frequentemente embaraçosos, e as explosões deixam a desejar.

Daqui só poderia ter saído uma série merdosa. Não saiu. Não saia daí. Eu explico.

As coisas tornam mais interessantes. Os Cylons ganharam a capacidade de reproduzir modelos de seres humanos que são indistintos dos seres humanos, mesmo quando submetidos a análises médicas. Os Cylons, por outras palavras, andam entre nós. Se Battlestar Galagtica fosse a típica série de ficcão científica - ursos que falam, homens verdes, apertos de mão esquisitos - os Cylons seriam todos maus e esquisitos. Mas Battlestar Galagtica não é uma típica série de ficção científica: os Cylons humanóides são emocionalmente complexos e apaixonam-se por humanos. Os humanos, que não sabem que aqueles Cylons são Cylons, apaixonam-se pelos Cylons que - e aqui é que as coisas se tornam interessantes - também não sabem que são Cylons. E de repente o ponto de interesse numa série de ficção científica não são as naves e os planetas e as explosões mas é o amor - um amor que se passa em naves e planetas distantes e durante explosões mas ainda assim o amor. Mas não só. Os Cylons - que maravilha das maravilhas -, contrariamente aos humanos, são monoteístas, acreditam num deus único. E depois há umas eleições, e o sistema democrático é posto em causa, e...

Enfim. Better than The Wire? Não sei. Mas que é a melhor coisa que vocês podem ver depois do The Wire, isso ó meus amigos é certo.

9:10 da manhã

(...) Se todas as discordâncias retóricas fossem tão fáceis de resolver, nunca teria havido necessidade de inventar o diálogo socrático, o argumento crítico sofisticado, ou o Pacheco Pereira. É evidente que há maus escritores que usam mal o ponto de exclamação; mas é altamente provável que os que o fazem, também usem mal as reticências, a vírgula, a metáfora, e a cabeça. Nas imediações de um ponto de exclamação abusivo há sempre delinquências tão ou mais relevantes a serem cometidas. E isto acaba por dizer mais sobre as pessoas que quiseram levar a arma do crime a tribunal - não como prova, mas como réu - do que sobre os esporádicos infractores. Se num mau livro, ou numa passagem particularmente má de um mau livro, o maior defeito que o equipamento estético do leitor consegue detectar é um ponto de exclamação mal posicionado tacticamente, então o leitor é tão superficial quanto o escritor que está a tentar denunciar. (...)

Rogério Casanova, que a esta hora deve estar a caminho da praia para jogar ténis de praia.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Plantar uma árvore

As pessoas que interpretaram mal um post meu de 16 de Janeiro de 2008 podem agora reciclar essa interpretação porque ela ganhou recentemente uma orgulhosa validade.

Bom dia

Como não sou pessoa para deixar passar em claro as grandes questões do nosso tempo, queria aproveitar este minuto para me pronunciar oficialmente sobre as declarações da mandatária de José Sócrates para a Juventude, Carolina Patrocínio. Patrocínio disse num programa de televisão destinado a explorar a vida privada de Patrocínio que não gostava de «fruta com caroços» e que só comia uvas quando a sua empregada separava cuidadosamente a parte comestível das graínhas. A esquerda à esquerda do PS aproveitou rapidamente a oportunidade para denunciar a «arrogância» (sic) de Patrocínio e o seu modo de vida burguesa, imperialista, xenófoba, racista e, escandalosa e provavelmente, «de direita». Eu, que anseio pelo dia em que poderei ter uma pessoa contratada só para me desgrainhar as uvas, fiquei estupefacto. Não tanto pelo que Patrocínio disse - qualquer mandatário para a juventude é perfeitamente irrelevante para o futuro do país - mas porque entendo que criticar Carolina Patrocínio por coisas que ela diz é a mesma coisa que criticar Vasco Pulido Valente por ter um rabo flácido - tese puramente académica e hipotécica, ressalve-se.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Pizza

Há uma pizzaria ali em Belém, em cima do Tejo, que cobra 4 contos por uma pizza. É a melhor pizza que já comeram? Não é (se é, segue daqui a minha compaixão.) Os «chefes-de-sala» (não sei como se chamam os senhores cuja única função nos restaurantes parece ser apontar aos clientes as mesas obviamente vagas) são umas bestas: ele um Kalu do chinês, ela uma Cláudia Vieira das badalhocas (vi-lhe a roupa interior; isto não se admite num restaurante onde o prato mais barato, uma pizza, custa 4 contos) nem um sorriso oferecem naquilo que é, obviamente, um favor que nos estão a fazer. 4 contos, quatro queijos todos fundidos e indistintos, não se admite. O meu conselho? Vão ao La Finestra (ali em S. Sebastião), comam uma pizza fabulosa por metade do preço (ainda assim a 2 contos), e depois vão passear junto ao Tejo, de borla. E estava cheio, o restaurante. Mas aquela gente vai para ali porquê?

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Google Maps Street View!

É fácil, é muito fácil, façam-no imediatamente: vão ao Google Maps, metam lá Lisboa, e façam zoom in, zoom in, zoom in...

(Um ponto de exclamação e umas reticências no mesmo post, que é para verem o meu estado neste preciso momento.)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Até logo

Detecto dois erros (um plural omisso e um tempo verbal refém de uma edição) num email que enviei ontem. Vou para casa tomar aspirinas.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Encaremos a realidade com frontalidade

Agora que tem sido impossível fintar as transmissões de comemoração (um tipo faz rádio-zapping mas elas são omnipresentes) chego à conclusão - com um grande pedido de perdão àquela geração - que 94% da música de Woodstock é perfeitamente dispensável para quem está sóbrio.

Expliquei o melhor que pude

Para quem não vive o futebol de forma obsessiva - para quem não vive o futebol - assistir a uma flash interview pode ser uma experiência surreal, como constatei pela cara que a minha mulher fez quando Carlos Carvalhal disse, sem qualquer motivo aparente, «e não me venham falar de autocarros.»

sábado, 15 de agosto de 2009

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

1915-2009

Pelo sound + vision fico a saber que morreu Les Paul, o inventor da guitarra eléctrica.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Tenho andado desantento

Só hoje reparei que o Lourenço Viegas publicou a 21 de Julho mais seis textos, a saber:

(...) Cuidado, não caia nos bifes, castigados, castigados, castigados (a não ser que seja, como o embarcado da anedota, que pedia à prostituta que lhe fizesse uma certa e determinada coisa, mas o mais mal feito possível, não por não por lhe apetecer aquilo, mas apenas por estar com saudades da mulher). (...)

Na Feira do Livro dos Restaurantes


(...) O problema é que enquanto um restaurante indiano bom é normalmente mau e um restaurante indiano mau é normalmente bom, nos restaurantes chineses se passa exactamente o contrário: os restaurantes bons são bons, e os maus são maus. (...)

O indiano que não pica


(...) Voltando ao Darwin, o que importa é que tenho a certeza de que uma das características de desenvolvimento evolutivo das espécies é, além da oponibilidade do polegar, da estupefacção pelo sucesso de Mário Cláudio, a capacidade de distinguir entre um restaurante bom e um restaurante muito bom. (...)

Onde é que te apetece ir jantar?


(...) O tom é o daquela moda luso-retro que tem como papisa a Catarina Portas (juram-me que é mentira que vá ser candidata à Junta pelo PS depois de ter ficado com a concessão dos quiosques das bebidas). (...)

O ideal da esperança


(...) Não há, não pode haver, qualquer justificação para um estabelecimento aberto ao público se chamar Cova Funda. (...)

Descer para subir


(...) É quando vemos que a televisão não mostra a Júlia Pinheiro no seu terrorismo proctoemocional, mas a BBC e o conflito do médio oriente, que a chamuça que se ia trincando deixa de ser apenas perfeita e nos faz engasgar. (...)

Ali seja louvado

Vão lá lê-los para poderem ir à vossa vida, vá.

Cambada de incompetentes

O Cartão Jovem estendeu a sua idade máxima para 30 anos. Trinta - anos. Que uma pessoa de 30 anos se ache «jovem» (ou seja, irresponsável, dinâmico, dependente) nada contra, há patologias psicológicas socialmente bem mais nefastas, mas que o sistema - perdoem-me, eu não sei quem faz o Cartão Jovem - incentive o estatuto ultrapassa a minha compreensão. Na verdade, eu não sei para que serve o Cartão Jovem: tudo o que sei é que é um cartão com um logotipo horroroso que dá descontos, mas não posso deixar de usar este dado como um sinal de que estamos todos perdidos. 30 anos, «jovem»? Cambada de incompetentes, chiça.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Tax

«The lottery is a tax on the mathematically illiterate.»

Glen Whitney citado pelo fabuloso Nick Paumgarten na New Yorker de 3 de Agosto

26 de Setembro



Via José Mário Silva.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Gostava de ser

Gosto muito deste vídeo que o Bloco de Esquerda fez com base em imagens de Manuela Ferreira Leite. É um vídeo particularmente eficaz para a construção da identidade do Bloco de Esquerda que, como é público, se baseia numa abordagem circense à prática da política. O que nos diz este espectacular vídeo do Bloco de Esquerda? Diz-nos que o Bloco de Esquerda acha que Manuela Ferreira Leite não tem nada para dizer. E diz-nos isso com recurso a uma montagem bastante divertida de momentos em que Manuela Ferreira Leite pára para pensar antes de dizer o que - infelizmente - ficou de fora do vídeo. Pensar antes de falar é, como sabemos, um conceito estranho ao Bloco de Esquerda e como tal não devemos estranhar o fascínio que esse gesto de Manuela Ferreira Leite causou no Bloco de Esquerda. É uma bonita homenagem. No entanto isto deixa-me preocupado com o Bloco de Esquerda, porque fica a sensação de que são estes os vídeos que os seus militantes usam para «formar opinião» sobre a dra. Manuela Ferreira Leite e o mundo em geral. O que, como aprendemos na caverna de Platão, é bastante útil se queremos simplificar o mundo à nossa volta, e o Bloco de Esquerda gosta muito de simplificar o mundo à volta da cabeça dos seus apoiantes - tudo o que não cabe numa frase é «complexo» demais, por exemplo. Aliás, a «complexidade» é outro dos conceitos que o Bloco de Esquerda tem por fascinantes, ao ponto de ter incluído no vídeo umas imagens da dra. Manuela Ferreira Leite a explicar que havia ali algo de «complexo». O quê? Não interessa: é «complexo», é fascinante. Deixemos as questões de fundo para os «tecnocratas». O que a malta quer é festa. Gostava de ser apoiante do Bloco de Esquerda, ando tão cansado.

domingo, 9 de agosto de 2009

!

Ferreira Fernandes defende o ponto de exclamação numa crónica onde o único ponto de exclamação está numa citação.

Eu também tenho dificuldades com o ponto de exclamação, mas talvez por isso costumo emocionar-me quando o vejo bem aplicado. Usar bem o ponto de exclamação é de um elevado índice de dificuldade técnica. Aboli-lo, ponto final, parece-me apenas uma boa estratégia para os iniciados. Assim como o conselho da «frase curta». Frase curta, porquê? Frase curta é para quem não sabe escrever frases longas, nada mais. Quem sabe usar a frase longa deve usar a frase longa sempre que considerar necessário. Idem com o ponto de exclamação. Há gente que o usa bem, e sempre usou bem: como, por exemplo, o Miguel Esteves Cardoso (que, no entanto, tem várias dificuldades no uso do ponto-e-vírgula.)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A Vintage é cocó

Se o vosso exemplar de London Fields é o paperback da Vintage então não o levem, em circunstância alguma, para a praia: estou neste momento ainda a mediar o conflito armado que se gerou entre a capa, as primeiras 93 páginas e o resto do livro.

Estou a ver

Das duas uma: ou os enfeites que puseram ali na Rua do Ouro são para o Natal e configuram por isso um escândalo municipal de proporções gigantescas, ou os enfeites que puseram ali na Rua do Ouro não são para o Natal e então o escândalo é ainda maior do que se fossem para o Natal - são para quê? Fui de férias, voltei, e nada se resolveu, estou a ver.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Está tudo a correr bem

Um pedido de desculpas a Ian McEwan

A RTPN transmitiu ontem às 23.30 um programa intitulado Conversas de Escritores, mas infelizmente o plural do título revelou-se publicidade enganosa: em estúdio esteve apenas um escritor - Ian McEwan - e José Rodrigues dos Santos. E aquilo que aconteceu naquela sala do CCB com vista para o Planetário e o Mosteiro dos Jerónimos não foi tecnicamente uma conversa - foi uma entrevista. Durante 30 minutos, Rodrigues dos Santos tentou passar em revista toda a carreira de McEwan, num inglês assinalável, reconheça-se, e desde cedo McEwan percebeu que teria de recorrer ao monólogo para salvar a emissão. A performance foi a todos os títulos espectacular. Perante um arsenal de perguntas totalmente impossíveis de responder («Qual é o seu romance preferido», «Prefere a forma ou o conteúdo», «Fez investigação para escrever do ponto de vista da mulher?»), só numa ocasião Rodrigues dos Santos deixou McEwan sem resposta, quando fez referência ao alegado interesse do inglês sobre o «misticismo», imaginando uma resposta positiva que lhe daria a oportunidade de puxar dos codexes ou lá o que é. McEwan, claramente induzido em erro devido ao nome do programa, tentou por várias vezes conversar com Rodrigues dos Santos, o que provocou momentos surreais como aquele em que, para tentar explicar que não pensava no Nobel, McEwan perguntou ao seu interlocutor «do you?» (neste momento tive pena que a entrevista não estivesse a ser conduzida por José António Saraiva.) Houve também um momento em que fiquei com a nítida sensação de que Rodrigues dos Santos não leu os romances de McEwan, quando indagou sobre a possível adaptação cinematográfica de On Chesil Beach, uma pergunta que me pôs aos gritos aqui em casa (impossível! impossível! impossível!) de tal forma que até McEwan me ouviu: «impossível», disse ele.

Mais de metade da entrevista foi a falar de Salman Rushdie.