(...) O que dá um certo desgosto é ver como os escritores - os escritores medíocres de qualquer país, de qualquer tempo - têm essa cara de escritores. Em qualquer profissão é assim - advogados medíocres se esforçam para pensar como advogados, ter hobbies de advogados e mulheres com cara de mulheres de advogados. Mas nas artes, que são justamente o terreno das individualidades (oh, fui um pouco diáfano agora), não deveria ser assim, não é? E no entanto vemos pintores usando boinas e fazendo uma cara impressionante de pintores, com um jeitão muito artístico, e escritores que bebem porque se lembram vagamente que Hemingway bebia, e usam barba para ter uma cara seriona e atormentada, e falam desse jeito oh-tão-diáfano sobre literatura, e (claro, claro, claro) são de esquerda - automaticamente de uma esquerda ligeira, irreflectida, simpática e emocional.
"Todos os escritores brasileiros são de esquerda", disse num jornal um escritor barbudo, Marçal Aquino, que escreve sobre assassinos profissionais baratinhos que trabalham nas estradas mais vagabundas e esburacadas do país (ainda se fosse nas estradas mais atraentes! Caramba! Que mau gosto!) E sim, tem razão: os escritores são de esquerda como os pintores usam boina - porque lhes disseram que é assim mesmo e eles não ficaram pensando muito pra ver se era assim mesmo. Porque, em suma, queriam ter a cara da profissão, queriam se sentir muito escritores. Porque são medíocres. Oh, a pena que têm dos pobres. Oh, as visitas que fazem a presídios...
Todos ouvimos em algum lugar que devemos evitar a construção de personagens unidimensionais e estereotipados na literatura; que todos os personagens devem ser muito complexos, muito surpreendentes. O motivo disso, costuma-se dizer, é que "as pessoas na vida real são multidimensionais e surpreendentes". Mas o que fazer quando os escritores mesmos são uns personagens tão estereotipados, e se aproximam de mim usando boinas e bottoms do PT e falando do quanto resistiram à ditadura?
Os escritores são de esquerda como os pintores usam boina, Alexandre Soares Silva, in revista Atlântico nº1
* É verdade. Quando voltava do quiosque com o Público na mão levei com dejectos de pombo na cabeça. Foi a primeira vez, o que é extraordinário vivendo eu em Lisboa há tanto tempo, mas fico com a clara sensação que o pombo era de esquerda e apoiante de Manuel Maria Carrilho.
quinta-feira, 31 de março de 2005
A União Europeia explicada em 3 linhas
(...) Os socialistas franceses adeptos do "não" (e são a maioria) dizem recear que a UE se transforme numa mera zona de comércio livre, sem as políticas sociais e o intervencionismo estatal que apreciam. Curiosamente, na Grã-Bretanha, os eurocépticos gostariam de uma integração europeia reduzida às trocas comerciais... (...)
Francisco Sarsfield Cabral, in DN 31.03.05
Francisco Sarsfield Cabral, in DN 31.03.05
quarta-feira, 30 de março de 2005
Saída da casca
A Inês My Moleskine pensou que conseguia manter um blogue underground. O problema é que ela pensou-o durante 6 meses. E eis que se mostra ao mundo (gestação prematura) o educação sentimental.
Spread the word
O melhor blogue-com-nome-de-filme-de-Schwarzenegger comete a proeza de me incluir numa lista mui selecta. Ao que parece, a lista representa aqueles que lêem o Rui. Ah, mas onde anda toda a gente?
As meninas

O Zé Mário Silva (segue link para a lista para ver se caço um de volta já que por lá se anda a actualizar sidebars) acha que este é o melhor quadro de todos os tempos. Se eu digo ao meu pai que há uma opinião que ele partilha com um simpatizante do Bloco, acho que lhe dá uma coisa má.
P.S: Vi-o há um mês.
Apanhados
Na RTP-Memória, há minutos, Joaquim Letria entrevistava Nuno Portas. Corria o ano de 1987 e o tom era de queixume: a "lei trata mal os arquitectos", os "emigrantes não têm culpa", a "rua e a praça desapareceram para dar lugar aos espaços verdes", "já não se fala de casa nem de edifício mas sim de bloco", é a "cidade paliteiro". Até houve tempo para uma intervenção de um estudante que se queixava do "afastamento entre o ensino e a prática", dizendo que os "jovens arquitectos são desenhadores durante 10 ou 20 anos", que trabalham para "arquitectos já ultrapassados", que isso é muito "prejudicial" e que são tudo "questões que atormentam os estudantes". 1987, lembro, portanto imaginem o que tinha esta gente vestido (no entanto, e há que fazer a vénia, o Pedro Brandão estava igual a si próprio.) Nuno Portas fez o paralelo entre o Portugal provinciano ("não que eu seja daqueles que acham que lá fora é que é bom") e a Europa evoluída (Paris, Barcelona, Milão, Madrid), onde se faziam (na altura) "intervenções amorosas na cidade" (sic). Um grande abraço de obrigado ao responsável pela programação da RTP-Memória.
Nota
O post anterior só não cita Sontag porque eu sou muito zeloso da minha propriedade material e portanto ganhei o hábito de não sublinhar nem anotar nada do que leio mesmo que seja muito interessante (confesso que é ao mesmo tempo um exercício e uma confiança inabalável na minha memória) e não estou para procurar a passagam do On Style onde Sontag usa a arquitectura como exemplo de "conteúdo e forma" na obra de arte ou se quisermos "funcionalidade e estilo". STOP.
terça-feira, 29 de março de 2005
Com estilo
The antipathy to "style" is always an antipathy to a given style. There are no style-less works of art, only works of art belonging to different, more or less complex stylistic traditions and conventions.
On Style, Susan Sontag, 1965
A questão do estilo é das mais interessantes no debate arquitectónico, simplesmente porque não existe. O que se ensina hoje nas escolas é (ainda) o modernismo, até porque não se descobriu ainda nada melhor para ensinar. E o modernismo ambiciona ser style-less, apregoa não ter estilo, entendido isto como sinal de supremacia arquitectónica, uma pureza livre de modas e tendências. Mas o estilo é tudo e, como nos diz Sontag, defender a ausência de estilo é defender um estilo em particular, aquele que se apresenta como ideal. Voltarei a este assunto.
Para ir lendo: What 'Styles' Mean to the Architect
On Style, Susan Sontag, 1965
A questão do estilo é das mais interessantes no debate arquitectónico, simplesmente porque não existe. O que se ensina hoje nas escolas é (ainda) o modernismo, até porque não se descobriu ainda nada melhor para ensinar. E o modernismo ambiciona ser style-less, apregoa não ter estilo, entendido isto como sinal de supremacia arquitectónica, uma pureza livre de modas e tendências. Mas o estilo é tudo e, como nos diz Sontag, defender a ausência de estilo é defender um estilo em particular, aquele que se apresenta como ideal. Voltarei a este assunto.
Para ir lendo: What 'Styles' Mean to the Architect
segunda-feira, 28 de março de 2005
Format c:
Basicamente não respondia a nada do que lhe pedia. Portanto vai de formatar o disco ao meu PC, assim mesmo, à bruta. Para me entreter durante os múltiplos reinícios, pego num livro, um livro que dê para ir lendo apenas trechos. Escolho o Fora do Mundo, do Pedro Mexia. Vou folheando, lembrando os posts nos textos impressos. E fico com a sensação que a blogosfera já não é o que era. Está diferente, muito diferente. A diferença é tão grande que quase parece que lhe formataram o disco.
Fotogenia
No seu (excelente) blogue, a Susana continua a conversa sobre a relação entre arquitectura e fotografia. O texto é uma tentativa de amenizar a pouco pacífica relação entre as duas artes, própria de quem tem por ambas uma estima especial. E diz, em jeito de defesa da fotografia, que «o maior conhecimento que temos das obras arquitectónicas nos foi revelado em publicações e por imagens.» Aqui reside o principal problema: considerar que é possível revelar a arquitectura pela fotografia. Não acho que seja possível e, mais importante, tem sido prejudicial para a arquitectura acreditar-se que sim. E o facto de a imagem ter-se tornado nesse veículo previligiado de divulgação da arquitectura subverteu a criação desta. É o pecado original do projecto.
sábado, 26 de março de 2005
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