É isso aí, parece que comecei o dia a matar uma Autographa gamma.
Cá entre nós: se elas vieram do Egipto, como se diz, então elas que cá fiquem mais uns diazitos, sff, só até, digamos, 12 de Junho. Agradecido.
quarta-feira, 31 de maio de 2006
segunda-feira, 29 de maio de 2006
A contas com a História
Não consigo atribuir este significado todo às declarações de Bento XVI, e não estou, mais uma vez, a embirrar com o senhor: a sua ida a Auschwitz é digna e decisiva. Falo apenas da dúvida que Ratzinger deixou a pairar: onde estava Deus? O João Paulo Sousa valoriza a componente «dúvida» numa religião que não é sua, especialmente vinda do Papa. O João Gonçalves arranca para mais umas linhas, aproveitando a deixa para explicar como se sente «confortado» nesta dúvida e neste gesto. No que me toca a mim, não chego a sair do porto. Fico em terra a ver o barco partir. O assunto, a (inexplicável) presença de Deus nas grandes catástrofes humanas, não pode ser tema de debate para um crente. Não pode. O cristianismo funda-se sobre o livre arbítrio do Homem, e só assim o podemos compreender. Se não fosse esse o ponto de partida, Deus seria insuportável. Hoje foi o Holocausto, mas a História está cheia de momentos destes. A coisa remonta a Cristo (matámo-lo, não foi?), e já vinha anunciado na fábula de Adão e Eva (ainda que mascarada sob forma de «serpente»). Equacionar Deus à luz destes pontos de ruptura é viciar o raciocício. Bento XVI não foi a Auschwitz por a Fé no arame. Bento XVI foi a Auschwitz mostrar que o perdão pedido por João Paulo II continua a ser pedido por ele próprio.
Precipitai-vos
O Fernando Guerra actualizou as Últimas Reportagens. Aproveito para destacar as 4 obras do Carlos Castanheira, com especial atenção para a Casa Avenal e a sua felicíssima escolha de materiais (há vida para além da parede branca).
domingo, 28 de maio de 2006
Génesis
Com o calor e as noites quentes, chega a memória do calor e das noites quentes passadas contigo.
Métodos artificiais de arrefecimento de ambientes
Desabafa-se sobre uma ovelha, e logo nos cai o pastor em cima: são duas da manhã, quero ir dormir, e estão 30 graus dentro de casa. Castigo divino, só pode.
Tudo me parece profundamente errado
Contado não se acredita, e mesmo agora, passadas algumas horas sobre o evento, ainda me é difícil encontrar o tom certo. Sei que o reaccionarismo, o moralismo de algibeira, o ressabiamento face ao mundo, o snobismo como atitude fundadora, etc, etc, não chegam para explicar, muito menos perdoar, a performance deste conhecido padre lisboeta, de carregados óculos de massa que lhe toldam a visam. Sei que a arrogância, o desprezo, o paternalismo, a má-educação crónica, a linguagem agressiva e taberneira, a completa falta de tacto, a deturpação abusiva de textos essenciais sob forma de «raciocínio», tudo isto e mais outras tantas, ultrapassou o pior dos cenários por mim temidos. Ia avisado, mas julguei que conseguiria, no mínimo, ignorar a coisa. Não consegui, e a revolta ainda me consome. Vasco Pulido Valente disse um dia sobre João César das Neves que este parecia saído de uma paróquia do Minho do séx. XIX (ou outro século qualquer, não me recordo). Na altura achei que isso definia bem uma certa elite decadente que se usa do catolicismo para combater o mundo, que obviamente não está feito para eles, que não compreendem, que condenam e vivem para condenar. Hoje percebo que isso é um eufemismo. E percebo que aquilo que é verdadeiramente inaceitável não é o que se diz, mas como se diz. Nas várias conversas que fui tendo ao longo do dia, e na tentativa de tentar explicar o grau de insanidade que a reputada (até me custa a escrever) personagem vinha apresentando, usei várias vezes a palavra «boçal». Confiro no dicionário e percebo que é mesmo isso: estúpido, rude, inculto, grosseiro. É gente destas, gentinha que merecerá a nossa misericórdia futura, que mancha e conspurca a imagem de uma instituição. Que vicia relações. Que quer correr com toda a gente do seu quintal, ou melhor, do quintal que ocupou sem pedir licença, para poder exclamar, naquela sua voz rouca e dicção afectada, orgulhosamente sós. Esta gente devia lavar a boca cada vez que pronuncia a palavra Cristo, cada vez que se reserva o direito de falar em seu nome. Tudo isto me deixa uma enorme tristeza, uma profunda consternação, uma vontade imensa de pegar na metralhadora e subir ao cimo do monte e começar a revolução. No fundo, e dada a dantesca temperatura que nos acompanhou durante o dia, o que eu queria era que chovesse, abundantemente, um dilúvio à moda antiga que lavasse dos corredores eclesiásticos estas ervas daninhas cancerígenas. Estou estafado.
sexta-feira, 26 de maio de 2006
«Prémio Melhor Jogador do Campeonato do Mundo Alemanha 2006 Sem Contar com o Ronadinho Gaúcho»
Falemos então de coisas mais felizes, ainda dentro do capítulo «Atlântico». O artigo do «Jorge Madeira», que se estende entre as páginas 24 e 26, para além de ser a prova provada da pertinência do mAMA, é maradona no seu estado mais puro, um vintage para recordar. Vale os 3 eurinhos, mesmo descontando as barbaridades da Maria Filomena Mónica sobre a Casa da Música («A impressão foi negativa. O meteorito (...) pareceu-me feio.»), mas já lá iremos.
Entretanto fiquem com a colheita de hoje:
(...) Facilitam-me a vida, claro está: Fernando Santos foi o homem que não foi campeão por um clube em cujo plantel residia um individuo para quem qualquer deslocação de bola para a área do adversário poderia ser classificada de "centro perigosíssimo", sua realeza o Professor Doutor, empurrador profissional de bolas para além da linha de golo, Mário Jardel.
Já sonho até com a fatídica imagem de ver o Engenheiro a levantar-se do banco de braços abertos ao mesmo tempo que encolhe os ombros, como que não compreendendo por que é que as pessoas estão chateadas por o Vizela estar a dar dois secos na Luz ao Benfica em jogo a contar para uma elimitatória qualquer da Taça de Portugal. Sim, quando ele se levanta do banco, chega à linha lateral e encolhe os ombros e abre os braços, mimetizando um grande ponto de interrogação, não é para questionar o que se passa em campo ou as acções dos jogadores por si hipoteticamente treinados, mas para pôr em causa o comportamento da plateia. Vou tentar explicar.
Se para Artur Jorge, digamos, como exemplo moderado, o desaparecimento súbito do continente Americano em dois quartos de hora debaixo das águas convergentes do Atlântico e do Pacífico seria uma coisa "perfeitamente normal", para Fernando Santos tudo o que acontece é feito unicamente para "pensar".
"Eu penso" é o seu inicio de frase favorito, um ponto de partida filosófico, e que ele utiliza exactamente da mesma forma antitética do famoso "perfeitamente normal" do Artur Jorge: para Artur Jorge era incompreensivel como é que ele, ouvindo música clássica todos os dias e indo às galerias de arte (ver a Maluda), poderia treinar pior uma equipa de futebol que o Vitor Oliveira, e por isso dizia com insistencia neurótica que era "tudo normal"; para Fernando Santos tudo o que acontecer em campo tem que ter uma ligação fática (referente a palavra) às funções matemáticas e equações de fluxo das suas engenharias, tudo o que se passe em campo só tem existência real ou consequência moral a partir do momento em que o Engenheiro "pense". Para Fernando Santos o facto de o Benfica perder em casa com a Naval por 3 secos não deveria interferir minimamente na vida de Fernando Santos como treinador do Benfica, porque o resultado não é um objectivo, mas sim um ponto de partida para um pensamento, e não só este pensamento é tudo quanto o futebol tem para dar, mas também tudo o que nós temos de realmente de importante para dar ao futebol.
Treinar jogadores é para os simples. O futebol só começa verdadeiramente no flash interview, é por isso Fernando Santos reage daquela maneira às vaias durante o jogo (não há resultado final, por isso não há nada para fazer, nada para "pensar") e à barulheira depois de consumada a derrota (em que a hora é agora sim para "pensar", e só se "pensa" devidamente em silêncio). O "eu penso" é uma forma de não pensar o jogo, ou de, pelo menos, um método de só o pensar a posteriori, sem possibilidade de intervir na Criação.
O Rui Costa chegou e uma pessoa só tem que agradecer-lhe. A ele. Pessoalmente. Por isso, pelo golo à Inglaterra, por algumas coisas fugazes que vimos nos humilhantes resumos a que tivemos direito nos seus tempos aureos na Fiorentina. A época, desse meritório ponto de vista, esterá não só ganha, como mais que ganha, sim senhora. Mas não pensem muito nisso agora, palpita-me que, enquanto o Fernando Santos aí estiver, tempo e oportunidade não faltarão para pensarem nisso, muito.
Entretanto fiquem com a colheita de hoje:
(...) Facilitam-me a vida, claro está: Fernando Santos foi o homem que não foi campeão por um clube em cujo plantel residia um individuo para quem qualquer deslocação de bola para a área do adversário poderia ser classificada de "centro perigosíssimo", sua realeza o Professor Doutor, empurrador profissional de bolas para além da linha de golo, Mário Jardel.
Já sonho até com a fatídica imagem de ver o Engenheiro a levantar-se do banco de braços abertos ao mesmo tempo que encolhe os ombros, como que não compreendendo por que é que as pessoas estão chateadas por o Vizela estar a dar dois secos na Luz ao Benfica em jogo a contar para uma elimitatória qualquer da Taça de Portugal. Sim, quando ele se levanta do banco, chega à linha lateral e encolhe os ombros e abre os braços, mimetizando um grande ponto de interrogação, não é para questionar o que se passa em campo ou as acções dos jogadores por si hipoteticamente treinados, mas para pôr em causa o comportamento da plateia. Vou tentar explicar.
Se para Artur Jorge, digamos, como exemplo moderado, o desaparecimento súbito do continente Americano em dois quartos de hora debaixo das águas convergentes do Atlântico e do Pacífico seria uma coisa "perfeitamente normal", para Fernando Santos tudo o que acontece é feito unicamente para "pensar".
"Eu penso" é o seu inicio de frase favorito, um ponto de partida filosófico, e que ele utiliza exactamente da mesma forma antitética do famoso "perfeitamente normal" do Artur Jorge: para Artur Jorge era incompreensivel como é que ele, ouvindo música clássica todos os dias e indo às galerias de arte (ver a Maluda), poderia treinar pior uma equipa de futebol que o Vitor Oliveira, e por isso dizia com insistencia neurótica que era "tudo normal"; para Fernando Santos tudo o que acontecer em campo tem que ter uma ligação fática (referente a palavra) às funções matemáticas e equações de fluxo das suas engenharias, tudo o que se passe em campo só tem existência real ou consequência moral a partir do momento em que o Engenheiro "pense". Para Fernando Santos o facto de o Benfica perder em casa com a Naval por 3 secos não deveria interferir minimamente na vida de Fernando Santos como treinador do Benfica, porque o resultado não é um objectivo, mas sim um ponto de partida para um pensamento, e não só este pensamento é tudo quanto o futebol tem para dar, mas também tudo o que nós temos de realmente de importante para dar ao futebol.
Treinar jogadores é para os simples. O futebol só começa verdadeiramente no flash interview, é por isso Fernando Santos reage daquela maneira às vaias durante o jogo (não há resultado final, por isso não há nada para fazer, nada para "pensar") e à barulheira depois de consumada a derrota (em que a hora é agora sim para "pensar", e só se "pensa" devidamente em silêncio). O "eu penso" é uma forma de não pensar o jogo, ou de, pelo menos, um método de só o pensar a posteriori, sem possibilidade de intervir na Criação.
O Rui Costa chegou e uma pessoa só tem que agradecer-lhe. A ele. Pessoalmente. Por isso, pelo golo à Inglaterra, por algumas coisas fugazes que vimos nos humilhantes resumos a que tivemos direito nos seus tempos aureos na Fiorentina. A época, desse meritório ponto de vista, esterá não só ganha, como mais que ganha, sim senhora. Mas não pensem muito nisso agora, palpita-me que, enquanto o Fernando Santos aí estiver, tempo e oportunidade não faltarão para pensarem nisso, muito.
Bate neles, vai
Coincidência ou não, João Pereira Coutinho também se atira aos arquitectos no seu artigo do último número da revista Atlântico (não me esqueci da Maria Filomena, estou só a ganhar fôlego). O seu pretexto foi a polémica sobre o plano de Siza para Madrid, o tal que abate não sei quantas árvores e amarrou uma baronesa a um tronco. Foi este, como poderia ser outro qualquer. Sempre que há um plano ou projecto arquitectónico polémico, logo cai a intelligentsia em cima dos arquitectos, e desse horror que é a arquitectura moderna. Pois bem, Pereira Coutinho ataca precisamente o Moderno na arquitectura. Concordo com alguns pontos (a «arrogância de classe» é uma evidência), e com outros, apesar de concordar com a premissa, discordo frontalmente com as ilações. Por exemplo:
(...) Podemos ler, ou não ler, Joyce. Podemos evitar, ou não evitar, Eliot, ou Schoenberg, ou Matisse. A nossa escolha é a nossa escolha: uma questão de gosto, às vezes intransmissível. Mas a arquitectura é, por definição, inescapável: ela impões-se indiferentemente como realidade colectiva. (...)
Isto é suposto ser uma crítica à «arquitectura», aos arquitectos, à «natureza autoritária» da coisa. Eu vejo estas mesmas linhas como uma sólida defesa dos objectivos da revogação do 73/73, e da inerente obrigatoriedade de serem arquitectos a projectar obras de arquitectura. Pereira Coutinho acha o contrário: porque a arquitectura é «inescapável», ela não pode estar limitada à «omnisciência estética» (bela expressão) dos arquitectos, mas sim aberta, democraticamente, a todas as «intransmissíveis» sensibilidades. Para além da má-lingua, não se percebe bem onde quer João Pereira Coutinho chegar.
(...) Podemos ler, ou não ler, Joyce. Podemos evitar, ou não evitar, Eliot, ou Schoenberg, ou Matisse. A nossa escolha é a nossa escolha: uma questão de gosto, às vezes intransmissível. Mas a arquitectura é, por definição, inescapável: ela impões-se indiferentemente como realidade colectiva. (...)
Isto é suposto ser uma crítica à «arquitectura», aos arquitectos, à «natureza autoritária» da coisa. Eu vejo estas mesmas linhas como uma sólida defesa dos objectivos da revogação do 73/73, e da inerente obrigatoriedade de serem arquitectos a projectar obras de arquitectura. Pereira Coutinho acha o contrário: porque a arquitectura é «inescapável», ela não pode estar limitada à «omnisciência estética» (bela expressão) dos arquitectos, mas sim aberta, democraticamente, a todas as «intransmissíveis» sensibilidades. Para além da má-lingua, não se percebe bem onde quer João Pereira Coutinho chegar.
quinta-feira, 25 de maio de 2006
Koolhaas vítima do capitalismo mais selvagem

Está a dar muito que falar. Joshua Prince-Ramus (o senhor da direita com ar de remador profissional*), até agora director da OMA em NY, deu o grito do Ipiranga e bateu com a porta. Deixou a asa de Rem Koolhaas e fundou, com Erez Ella, a REX, levando consigo todo o staff e clientela da OMA-NY. Ou seja, apoderou-se de toda a actividade da OMA-NY, mudando-lhe apenas o nome. Todos os projectos em curso ficam com a REX, por decisão dos clientes. É uma grande derrota para o holandês.
*Não é só aspecto: Pince-Ramus esteve presente nos Jogos Olímpicos de 96.
O ano da morte
O estilo de Saramago agrada-me sem me surpreender. Agora, imagino, quando a frase solta e corrida do discurso indirecto livre já não é novidade para ninguém, por vezes chega a parecer ingénuo, demasiado artificial, numa opção estilística que pode ser demasiado impositiva sem que daí se extraiam grandes resultados. Mas Saramago tem um dom para juntar palavras. E o modo como tudo se aglutina pela palavra, numa sopa mais ou menos morna e indiferenciada, deixa o leitor embalado numa lengalenga suave e harmoniosa. Não «estou a adorar», mas estou a apreciar.
quarta-feira, 24 de maio de 2006
Escumalha
Totalmente de acordo. Mais, visceralmente agradecido ao Francisco José Viegas por ter escrito isto:
Mais do que isso.
Chego a este estudo do Rui Bebiano (também de A Terceira Noite) e de Elíseo Estanque com a falta de surpresa que toma conta de mim quando deparo com as praxes e a miséria estudantil. Escrevi bastante sobre o assunto e de um desses institutos, algures na província, mandaram dizer que iam processar-me por eu ter dito que se tratava de uma barbárie, de uma deficiência neuronal e de uma manifestação de barbárie. Então, eu repeti, e acrescentei: «É mais do que isso.» É permitir que bandos de selvagens andem à solta, «punindo» o «caloiro», o que é vergonhoso. Como é vergonhoso ver universidades e institutos superiores que se manifestam indisponíveis para proibir aquelas formas de violência dentro dos seus muros -- ou seja, são coniventes com o abuso. Depois, mandaram um advogado, a quem eu disse que repetiria tudo. Nunca mais me processaram, nem quiseram tirar satisfações «nos locais próprios». Entretanto, uma estudante queixou-se às autoridades; e outra, e outra. Mesmo assim, diante dessas evidências, alguns responsáveis dessas escolas continuaram coniventes, cúmplices e imbecis. Sim, eles teriam o direito de proibir manifestações de violência e de abuso sobre estudantes. O estudo de Rui Bebiano e de Elíseo Estanque, segundo o JN, diz que «32,3% dos alunos da Universidade de Coimbra (UC) concorda com a prática de actos de violência física ou simbólica». Não me admira. Esse mundo miserável que vibra com desfiles de carros alegóricos, bênção das pastas, missas em descampados (com meninas pintadas à pressa, vestidas de homem, de cabelo escorrido), queima das fitas, é mesmo assim. Ide, pois, sujar o Choupal de latas de cerveja. Ide recordar os duces que viveram rodeados de garrafões, ignorância e mau hálito. Ide desfilar no meio de capas & batinas vomitadas, de cançonetas do pequeno Saul e de semanas académicas acompanhadas de Quim Barreiros. Ide reproduzir a alarvidade de tudo o que é triste e medonho e vos antecedeu nessa miséria. 18,4% admite que não lê livros e 29,6% utilizam automóvel próprio nas deslocações diárias. Não é preciso ter lido Vaneigem ou Guy Debord para conhecer esse retrato do fascismo, das coisas rasteiras, da selvajaria, do apodrecimento, da ignorância. O JN diz que o estudo apurou que «28% dos alunos discordam da ideia de que a praxe deve ser facultativa e respeitar quem não quiser aderir». Que bom. E que «mais de 80% dizem-se favoráveis à discriminação sexual, recusando qualquer revisão do código da praxe que iguale os direitos de homens e mulheres». Ide, portanto. Podeis dar erros ortográficos, fechar os portões da universidade (e desta vez a sério), recusar-vos a ler, frequentar o shopping, reprovar à vontade. Eu triplicaria as propinas para essa gente, até conseguir expulsá-los da universidade.
Mais do que isso.
Chego a este estudo do Rui Bebiano (também de A Terceira Noite) e de Elíseo Estanque com a falta de surpresa que toma conta de mim quando deparo com as praxes e a miséria estudantil. Escrevi bastante sobre o assunto e de um desses institutos, algures na província, mandaram dizer que iam processar-me por eu ter dito que se tratava de uma barbárie, de uma deficiência neuronal e de uma manifestação de barbárie. Então, eu repeti, e acrescentei: «É mais do que isso.» É permitir que bandos de selvagens andem à solta, «punindo» o «caloiro», o que é vergonhoso. Como é vergonhoso ver universidades e institutos superiores que se manifestam indisponíveis para proibir aquelas formas de violência dentro dos seus muros -- ou seja, são coniventes com o abuso. Depois, mandaram um advogado, a quem eu disse que repetiria tudo. Nunca mais me processaram, nem quiseram tirar satisfações «nos locais próprios». Entretanto, uma estudante queixou-se às autoridades; e outra, e outra. Mesmo assim, diante dessas evidências, alguns responsáveis dessas escolas continuaram coniventes, cúmplices e imbecis. Sim, eles teriam o direito de proibir manifestações de violência e de abuso sobre estudantes. O estudo de Rui Bebiano e de Elíseo Estanque, segundo o JN, diz que «32,3% dos alunos da Universidade de Coimbra (UC) concorda com a prática de actos de violência física ou simbólica». Não me admira. Esse mundo miserável que vibra com desfiles de carros alegóricos, bênção das pastas, missas em descampados (com meninas pintadas à pressa, vestidas de homem, de cabelo escorrido), queima das fitas, é mesmo assim. Ide, pois, sujar o Choupal de latas de cerveja. Ide recordar os duces que viveram rodeados de garrafões, ignorância e mau hálito. Ide desfilar no meio de capas & batinas vomitadas, de cançonetas do pequeno Saul e de semanas académicas acompanhadas de Quim Barreiros. Ide reproduzir a alarvidade de tudo o que é triste e medonho e vos antecedeu nessa miséria. 18,4% admite que não lê livros e 29,6% utilizam automóvel próprio nas deslocações diárias. Não é preciso ter lido Vaneigem ou Guy Debord para conhecer esse retrato do fascismo, das coisas rasteiras, da selvajaria, do apodrecimento, da ignorância. O JN diz que o estudo apurou que «28% dos alunos discordam da ideia de que a praxe deve ser facultativa e respeitar quem não quiser aderir». Que bom. E que «mais de 80% dizem-se favoráveis à discriminação sexual, recusando qualquer revisão do código da praxe que iguale os direitos de homens e mulheres». Ide, portanto. Podeis dar erros ortográficos, fechar os portões da universidade (e desta vez a sério), recusar-vos a ler, frequentar o shopping, reprovar à vontade. Eu triplicaria as propinas para essa gente, até conseguir expulsá-los da universidade.
terça-feira, 23 de maio de 2006
Saudades da Coluna Infame
Acabámos de asssitir a um grande momento televisivo. Talvez o mais memorável debate nacional desde o congresso em que Santana enfrentou Cavaco. Mas nesse caso havia apenas emoção e retórica, enfrentamento e teatro. Neste debate sobre o panfleto de Manuel Maria Carrilho houve ideias e assuntos relevantes (e, naturalmente, emoção, retórica, enfrentamento e teatro). Deixo aqui um rascunho imediatista com as minhas impressões. (...) PM
A gente fica exausta depois de ver um bom debate. O debate de hoje no Prós e Contras com Carrilho, Emídio Rangel, Pacheco Pereira e Ricardo Costa foi primoroso. Nos últimos anos não me lembro de um debate de televisão como este. E foi um debate a sério, com tudo o que os debates a sério têm, bons e maus argumentos, picardias, provocações, respostas prontas, demagogia, momentos de exaltação e de autocontrolo, mexidas no passado, acusações, roupa suja, tudo. (...) PL
A gente fica exausta depois de ver um bom debate. O debate de hoje no Prós e Contras com Carrilho, Emídio Rangel, Pacheco Pereira e Ricardo Costa foi primoroso. Nos últimos anos não me lembro de um debate de televisão como este. E foi um debate a sério, com tudo o que os debates a sério têm, bons e maus argumentos, picardias, provocações, respostas prontas, demagogia, momentos de exaltação e de autocontrolo, mexidas no passado, acusações, roupa suja, tudo. (...) PL
segunda-feira, 22 de maio de 2006
Os Luso-Corbusier
Confesso que me enternecem estas manifestações de reconhecimento do génio, numa ode ao autodidata como manifesto, escondendo uma levada crítica à legitimidade pedagógica da academia. Queria no entanto sossegar estes espíritos inquietos e garantir que os respectivos ídolos são exaustivamente ensinados e divulgados nas diversas faculdade de arquitectura do nosso país, provando assim que o ressentimento classista é inexistente. E, já agora, deixar a dúvida sobre se os nossos próprios «autodidatas» da construção possuem o mesmo talento que esta galeria de notáveis apresenta. Sabe-se lá quantos Tadao Andos não estaremos nós a silenciar para sempre...
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