Segundo li há dias, consta no recém entregue Projecto de Revitalização para a Baixa-Chiado a possibilidade de haver cotas para a classe média nas futuras habitações recuperadas. No site da CML cita-se Maria José Nogueira Pinto: «(...) [a política sectorial de habitação do projecto] vai permitir estabelecer uma cota para o segmento da classe média, que é no fundo a população que a Baixa sempre teve. Não queremos que aconteça o mesmo que no Chiado, cujo metro quadrado se ficou em valores muito altos. A Baixa tem de ser diferente. (...)» Este «tem de ser» arrepia-me. Mais me custa ouvir isto vindo de alguém que pertence a um partido que se diz liberal. Gostava de ter acesso a este Plano para o analisar com atenção, mas à partida esta ideia das cotas parece-me uma péssima ideia. Por uma razão de princípio, e por um rol de razões práticas. A existência de uma cota para a classe média pressupõe um custo para alguém, e esse alguém é o potencial investidor. Se eu, como investidor, vir limitado, por lei, o lucro que poderei obter, se calhar vou investir o meu dinheiro para outro lado. E a não ser assim, é a CML que vai suportar esse custo, através de subsídios a fundo perdido, directos ou indirectos, coisa para a qual não me parece haver condições. Enfim, fico desapontado. Como vou passar a morar brevemente na Baixa (não precisei de um Plano para me convencer) esta questão passa a afectar-me directamente. E a questão das cotas prejudica-me: acabo de comprar uma casa no mercado livre, espero poder vendê-la também no mercado livre. E ao querer, por lei, fazer baixar o preço por metro quadrado na Baixa, a CML está a baixar o preço por metro quadrado da minha casa (porque é que alguém há-de querer comprar a minha casa quando tem ao lado uma outra mais barata, subsidiada pelo Estado?). Quem me paga o prejuízo? Adiante. Vou para o Ikea.
sábado, 30 de setembro de 2006
sexta-feira, 29 de setembro de 2006
Bolinhas
Ora aqui está a prova de que nem sempre duas pessoas munidas da mesma informação chegam às mesmas conclusões. Falo de A Senhora da Água (que ainda não vi), o mais recente filme de Shyamalan, e das bolinhas (salvo seja) de dois críticos que prezo no DN, João Lopes e Pedro Mexia. O João Lopes dá 5 bolinhas, o Pedro Mexia dá bolinha vermelha (é tipo não dar bolinhas). Em que ficamos, obra-prima ou uma merda? Vou ter de ir ver o filme? É a isso que me obrigam?
P.S.1: Eu sou um fã do Shyamalan (hã?). Gostei muito de todos os seus filmes anteriores: O Sexto Sentido, Sinais e A Vila. Em princípio estou disposto a gostar deste seu novo trabalho, mas vamos lá ver. O quê? O Protegido? Não comento.
P.S.2: Mais bolinhas. Gostava que o programa de hoje na :2 pudesse ter bolinha: o debate entre o anglófilo e a francófila ganharia muito com o palavrão. É só uma ideia.
P.S.1: Eu sou um fã do Shyamalan (hã?). Gostei muito de todos os seus filmes anteriores: O Sexto Sentido, Sinais e A Vila. Em princípio estou disposto a gostar deste seu novo trabalho, mas vamos lá ver. O quê? O Protegido? Não comento.
P.S.2: Mais bolinhas. Gostava que o programa de hoje na :2 pudesse ter bolinha: o debate entre o anglófilo e a francófila ganharia muito com o palavrão. É só uma ideia.
quinta-feira, 28 de setembro de 2006
a paz de espírito só está ao alcance de um escasso número de pessoas inteligentes (e de uma multidão de estúpidos)
Os chineses têm aquela maldição insólita: «Que vivas em tempos interessantes», sabendo que os tempos desinteressantes são os únicos que permitem alguma paz de espírito. Não sei se isso é mesmo assim, porque todos os tempos são interessantes e desinteressantes (depende dos assuntos e dos gostos); e porque a paz de espírito só está ao alcance de um escasso número de pessoas inteligentes (e de uma multidão de estúpidos).
Eu vivi os meus «tempos interessantes» (os da maldição chinesa) entre 1993 (Agosto) e 2006 (Setembro). Entre o fim da adolescência e a entrada definitiva na idade «adulta» (imaginemos que), com uns grandes intervalos lúcidos pelo meio. Anos extraordinários mas extenuantes. Com muito delirium tremens, muita incerteza, muito telefonema tremendista, muita bolsa lacrimal e papila gustativa, muito descarrilamento, muita interpretação apressada, muita metáfora, muita valsa lenta e alegria breve e canções diante de uma porta fechada. (...)
Tempos Interessantes, Pedro Mexia, sugiro a leitura do texto na íntegra.
Eu vivi os meus «tempos interessantes» (os da maldição chinesa) entre 1993 (Agosto) e 2006 (Setembro). Entre o fim da adolescência e a entrada definitiva na idade «adulta» (imaginemos que), com uns grandes intervalos lúcidos pelo meio. Anos extraordinários mas extenuantes. Com muito delirium tremens, muita incerteza, muito telefonema tremendista, muita bolsa lacrimal e papila gustativa, muito descarrilamento, muita interpretação apressada, muita metáfora, muita valsa lenta e alegria breve e canções diante de uma porta fechada. (...)
Tempos Interessantes, Pedro Mexia, sugiro a leitura do texto na íntegra.
quarta-feira, 27 de setembro de 2006
Boato
Estou plenamente convencido de que, tal como acontecia com O Meu Pipi, o Tiago Galvão é o Ricardo Araújo Pereira.
terça-feira, 26 de setembro de 2006
Flair
Os ingleses são de facto superiores. Vai ser preciso muito tempo para vermos por cá este nível exibicional.
Bancada Central
Diz-se, nomeadamente por aí, que o Benfica está a fazer, cito, «um mau início de época». Mas qual «início», pergunto eu, e qual «época»? Estamos a falar naquela competição organizada pelos senhores Loureiro e Madaíl? Ai é aí que «começa a época»? Só se for para a ralé. Para o Benfica, assim como para o Barcelona e clubes desses, a época começa com a primeira jornada da liga dos campeões. Isto até agora têm sido treinos à porta aberta. E a isto chama-se snobismo desportivo. E como compete a um bom snob, mesmo decadente não se deixa de empinar o nariz. Benfica-Man Utd, que ganhe o melhor. Ou então o Benfica.
Títulos
Devido à greve do Metro, caminhei esta manhã da Baixa até ao Campo Pequeno (estou bem, obrigado). De passagem por um quiosque vejo, quase sem me deter, um título de jornal que me sobressalta com a hipótese de estar a ver mais uma frente diplomática sensível aberta por Joseph Raztinger: BENTO APOSTA NA CONSISTÊNCIA EM MOSCOVO. No nano-instante seguinte as minhas preocupações esfriam-se: percebo que o jornal é o Record e que se fala do Sporting.
sexta-feira, 22 de setembro de 2006
Vejam lá isso
Os muçulmanos são uns caras gozados, de facto. Mas a malta que organiza as manifs devia ter um bocadinho mais cuidado na escolha dos cartazes e dos cânticos. É uma questão de pormenor, admito, mas não será despropositado responder ao suposto insulto do Papa com cartazes dizendo «A resposta é conquistar Roma» enquanto cantam «O exército do Islão voltará»? À atenção lá do sindicato local.
Religião e razão
Muito interessante a análise que Pacheco Pereira faz ao discurso de Ratisbona do Papa. O texto do discurso é importantíssimo, concordo, mas a minha posição mantém-se: não cabe a um Papa «criticar o Islão» como se de um mero intelectual se tratasse. Apesar de eu ser particularmente sensível a essa relação entre a religião e razão. De qualquer maneira, aqui fica o devido copy / paste da segunda metade do artigo:
(...) O que é que o texto papal diz? Que a razão humana, o logos dos gregos, é um elemento indissociável da voz de Deus, e que todas as tentativas de separarem razão e fé, colocando uma contra a outra, são um erro. O Papa identifica essencialmente duas correntes que cometeram esse erro: uma a que afirma a transcendentalização absoluta de Deus; a outra a que resulta da separação iluminista entre fé e razão, que foi transportada para o cientismo contemporâneo.
Muito do que diz o Papa tem que ver com a percepção que tem Manuel II Paleológo de que a violência ao serviço da fé é "desrazoável" e "contrária à natureza de Deus". O próprio Papa diz que esta constatação é a "frase decisiva em toda a argumentação", e que o imperador, um erudito de cultura grega clássica, estava a enunciar um dado fundamental da tradição clássica grega, absolutamente idêntico ao que é a "fé em Deus fundada na Bíblia".
Ora, aqui o Papa critica o islão, não por causa da violência da espada de Maomé, mas sim porque "na doutrina muçulmana Deus é absolutamente transcendente", ou seja, dito em breve e em grosso, não há verdadeira interacção entre Deus e os homens, não há necessidade da razão, a fé é essencialmente aceitação e obediência. O Papa refere, "para ser honesto", que na tradição teológica cristã surgiram tendências do mesmo tipo, mas condena-as na mesma crítica que faz ao islão.
Porque é que o Papa diz isto tudo? Está lá no texto em todas as entrelinhas e nalgumas linhas: ao valorizar a fusão plena da tradição grega do logos com o cristianismo, o Papa está a enunciar a tradição cultural da Europa, da história tumultuosa do seu pensamento e dos fundamentos da sua identidade. Está a falar de religião e de política, de cultura e de pensamento, da União Europeia e da Turquia, do cristianismo e do islão. Isto sim é que devia ser discutido, isto é o que o Papa esperava que fosse discutido. E isto é que interpela o islão, se ele se deixar interpelar.
(...) O que é que o texto papal diz? Que a razão humana, o logos dos gregos, é um elemento indissociável da voz de Deus, e que todas as tentativas de separarem razão e fé, colocando uma contra a outra, são um erro. O Papa identifica essencialmente duas correntes que cometeram esse erro: uma a que afirma a transcendentalização absoluta de Deus; a outra a que resulta da separação iluminista entre fé e razão, que foi transportada para o cientismo contemporâneo.
Muito do que diz o Papa tem que ver com a percepção que tem Manuel II Paleológo de que a violência ao serviço da fé é "desrazoável" e "contrária à natureza de Deus". O próprio Papa diz que esta constatação é a "frase decisiva em toda a argumentação", e que o imperador, um erudito de cultura grega clássica, estava a enunciar um dado fundamental da tradição clássica grega, absolutamente idêntico ao que é a "fé em Deus fundada na Bíblia".
Ora, aqui o Papa critica o islão, não por causa da violência da espada de Maomé, mas sim porque "na doutrina muçulmana Deus é absolutamente transcendente", ou seja, dito em breve e em grosso, não há verdadeira interacção entre Deus e os homens, não há necessidade da razão, a fé é essencialmente aceitação e obediência. O Papa refere, "para ser honesto", que na tradição teológica cristã surgiram tendências do mesmo tipo, mas condena-as na mesma crítica que faz ao islão.
Porque é que o Papa diz isto tudo? Está lá no texto em todas as entrelinhas e nalgumas linhas: ao valorizar a fusão plena da tradição grega do logos com o cristianismo, o Papa está a enunciar a tradição cultural da Europa, da história tumultuosa do seu pensamento e dos fundamentos da sua identidade. Está a falar de religião e de política, de cultura e de pensamento, da União Europeia e da Turquia, do cristianismo e do islão. Isto sim é que devia ser discutido, isto é o que o Papa esperava que fosse discutido. E isto é que interpela o islão, se ele se deixar interpelar.
Lixo
José Diogo Quintela, mexendo no lixo que é o «jornalismo» desportivo português (com a preciosa ajuda de Leonor Pinhão).
40 anos
Através do PostHabitat noto que se anda a celebrar os 40 anos do Complexity and Contradiction in Architecture, de Robert Venturi. Como se nota pelo título deste blogue, é uma data que também não quero deixar passar em branco. Li-o a primeira vez quando era aluno do Manuel Vicente, talvez o mais venturiano dos arquitectos portugueses, e na altura foi uma enorme lufada de ar fresco no meu embrionário pensamento arquitectónico: quer o professor Manuel Vicente, quer o Complexity and Contradiction in Architecture. Ambos passaram e foram ficando para trás, mas frequentemente me apercebo que as poucas coisas que sei sobre arquitectura muito devem a essa dupla. Pelo humanismo, o humor, a vontade de olhar para as coisas com outros olhos, o espírito independente e algo marginal. Sobretudo pela ideia cimeira de que a arquitectura é uma coisa lúdica por natureza, e que o divertimento («divertido» era o adjectivo mais usado pelo Manuel Vicente) e a surpresa são essenciais na arquitectura. Como se nota, era e é um discurso bastante oposto àquele veiculado pelo Movimento Moderno e que ainda vai dominando o debate e a construção em Portugal. Curiosamente, quer do Robert Venturi quer do Manuel Vicente sempre gostei mais do que diziam (e dizem) do que aquilo que faziam (e fazem). O que é a combinação pedagógica perfeita, afastando os eventuais mimetismos e tiques sem sentido. Um brinde.
quinta-feira, 21 de setembro de 2006
Bento XVI no DN
(...) É por isso que Ratzinger terá, em alguma medida, de sacrificar o seu fascínio pela História das Ideias (oportunamente recordado nestas páginas por José Medeiros Ferreira) à sabedoria milenar herdada pelas vestes de Bento XVI. (...)
O ultra-moderado Mário Bettencourt Resendes faz um bom resumo da situação, cuja essência (para quem não quer dar-se ao trabalho de ler o artigo) se exprime neste parágrafo. Apesar de concordar com algumas coisas que Luciano Amaral diz hoje também no DN, não consigo ter essa posição de vitimização do Papa. E não ficava nada mal ao Vaticano começar a ter uma melhor relação com a comunicação social, em vez das constantes queixas (ainda que fundadas) sobre «as más interpretações».
O ultra-moderado Mário Bettencourt Resendes faz um bom resumo da situação, cuja essência (para quem não quer dar-se ao trabalho de ler o artigo) se exprime neste parágrafo. Apesar de concordar com algumas coisas que Luciano Amaral diz hoje também no DN, não consigo ter essa posição de vitimização do Papa. E não ficava nada mal ao Vaticano começar a ter uma melhor relação com a comunicação social, em vez das constantes queixas (ainda que fundadas) sobre «as más interpretações».
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