quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Uma moedinha

À porta de casa, um senhor (eufemismo) vestido de preto e com um cão pela mão diz-me qualquer coisa que não percebo. Tiro os headphones do meu iPod capitalista e opressor e peço-lhe para repetir. Pede-me dinheiro para o jantar dele, e do cão. Lembrei-me do Pedro Lomba e do seu saudoso Flor de Obsessão e pensei em dar-lhe uma moeda. Para o cão.

Ainda assim, não dei nada.

Hábito

À saída do metro reparo num homem e numa mulher que vestem uma capa preta. Fico sem saber se são membros de uma tuna ou se são apenas magistrados.

Uah ah ah, e a galáxia será nossa*

Arquitectos com autoria exclusiva de projectos a partir de 2012

Mais a sério: isto, apesar de justo, mudará pouco. Quase nada, acrescento. Talvez se possa acrescentar na tabela para o cálculo dos honorários para obras públicas uma nova categoria de obra, que seria a quinta: «assinatura». A única esperança é que a alteração da lei provoque a alteração das famosas mentalidades...

P.S: O Manuel Pinheiro e o Picuinhas, que durante a pré-história da blogosfera fizeram o favor de discutir comigo o assunto, estão agora os dois no cachimbo de magritte, onde por certo e nos próximos dias expressarão o seu descontentamento. A seguir.

* Ler em tom de garagalhada demente

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Ri-ti-ti

Ui.

Baixem-se, todos para a trincheira, que isto é estilhaços a voar por todo o lado.

Errata

O Mexia não é baixo.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Annie Leibovitz



A Annie Leibovitz esteve na obra do novo edifício do New York Times, de Renzo Piano, entre Julho de 2005 e Julho de 2006, e o resultado é este.

Exibicionismo

Entretanto acabei de perceber que este blogue já ultrapassou a barreira das 100.000 visitas. Pode não parecer muito, mas eu sou do tempo em que A Coluna Infame acabou com 80.000 visitas. São já três anos e meio e quatro blogues disto. Estas pequenas coisas importam. 100.000 visitas. Nem o Tiago Galvão consegue esta proeza (o pirralho não tem sitemeter.)

Efeméride

Quinze de janeiro de dois mil e seis: a internet chegou ao lar. Incautos, tremei. Estamos de volta, agora em força.

Efeméride

Quinze de janeiro de dois mil e seis: a internet chegou ao lar. Incautos, tremei. Estamos de volta, agora em força.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Um post sereno

O blogue do não, enfim, anda a fazer uma boa campanha pelo sim. Desta vez a Sara Castro trouxe para cima da mesa um livro que, nas suas palavras, «não deixará ninguém indiferente». Trata-se da «abordagem serena» do João César das Neves sobre o aborto. Não li o livro, não tenciono lê-lo, mas o facto de ver «abordagem serena», «João César das Neves» e «aborto» na mesma frase levou-me a ler o parágrafo que a Sara nos oferece. Reproduzo-o (cá está, já não fiquei «indiferente»):

«este debate é o teste em que a nossa geração vai provar a sua dignidade e a sua elevação. A luta por numa sociedade digna e uma vida com sentido trava-se hoje neste campo. [...] O debate à volta da despenalização do aborto não é uma simples discussão política. Trata-se de um confronto civilizacional decisivo, em que se joga o\nfuturo da nossa sociedade. O que está em causa não é a sorte de algumas pessoas, mas toda a nossa cultura, porque as posições que se digladiam são duas formas opostas de ver o humano».

Uma geração a «provar» a sua «dignidade»? Um «confronto civilizacional decisivo»? «[F]ormas opostas de ver o humano»? Alguém tem de explicar ao João César das Neves que a serenidade da escrita não se resume à ausência de pontos de exclamação.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Imagens reais

Como não amar este espírito?



Yet Wright's publication of these two seminal designs in The Ladies' Home Journal, a popular women's magazine with a national readership of one million (...) and great influence among homemakers, rather than in a professional architectural journal, was nothing if not carefully calculated. Indeed, for the rest of his career Wright would consistently present his designs for domestic living to the widest possible audiences - direting his accompanying texts to those considering building their own homens, and to home building companies, rather than to the architects who might be employed to design them. Through the Ladies' Home Journal, House Beautiful, House and Garden, House and Home, Life and other homemaker magazines (...) he developed long and close relationships, Wright presented his ideas directly to potential clients, while also avoiding being represented as part of a larger a more anonymous architectural profession.

Frank Lloyd Wright, Robert McCarter, Reaktion Books, 2006

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

In the morning*

Round 1

Um dos defeitos constitucionais mais gritantes reside no direito à greve. Não no direito de fazer greve propriamente dito, mas no vazio legal que é a não referência ao direito de ripostar por parte do grevado**.

Round 2

Não os podemos criticar. Afinal, é a primeira greve deste ano***.

Round 3

Por causa disto tudo, vim a pé. Pelo caminho escrevi mentalmente variadíssimos posts, dos quais só me lembro de um. Sorte vossa que ainda não comprei o Moleskine 2007.

* Razorlight.
** grevado - aquele que é atacado durante uma greve.
*** esta piada é da minha mulher.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Indignação

Torna-se necessário denunciar o embuste. Casei-me com uma «mulher profissional», «perfeitamente emancipada», e tinha precisamente em vista um dia-a-dia como o aqui descrito por João Pereira Coutinho, como é óbvio. Mas não. Homens solteiros meus leitores, cautela: isto é falso. A realidade apresentou-se de um modo bem diferente. Eu próprio já dei início às diligências necessárias à anulação do casamento. Vivo tempos difíceis. De qualquer maneira, fica aqui o texto do JPC. Façam circulá-lo pelos vossos amigos. Isto é pior do que os raptos de órgãos nas casas de banho de centros comerciais.

7:00h

Ela: Acorda, levanta-se.

Eu: Acordo com movimentações no quarto, viro para o outro lado e adormeço com um sorriso infantil.

8:00h

Ela: No interior do carro, no meio do trânsito. Celular frenético.

Eu: Durmo ainda. Celular desligado.

9:00h

Ela: Reunião com colegas de trabalho. Discussão. Neurose. Ritmo cardíaco já está acelerado.

Eu: Durmo ainda. Celular desligado.

10:00h

Ela: Pausa para café. Conspiração contra as outras mulheres. Transpiração evidente. Stress. Queda capilar. (Lepra?)

Eu: Acordo. Olho para o relógio. "Ainda é cedo", penso. Adormeço.

11:00h

Ela: Estuda dossiê complexo que exige relatório até às 17h. Sem falta.

Eu: Banho demorado. Gabriel Fauré a rolar no stéreo.

Meio-dia:

Ela: Almoço. Sandwich de pepino. Suco de cenoura. Em meia-hora.

Eu: Almoço demorado com alguns amigos em restaurante do centro. Duas garrafas de vinho só para o primeiro prato. Brindamos à revolução feminista que levou as mulheres ao poder.

13:00h

Ela: Regressa ao escritório. Sete chamadas telefônicas para responder. Com urgência, sempre com urgência. E o relatório até às 17h.

Eu: Comecei o segundo prato. Favor não incomodar.

17h:

Ela: Enxaqueca. Forte. Relatório concluído. Infelizmente, com erros de cálculo. "Gostaria que a doutora viesse ao meu gabinete", avisa o chefe. Ou a chefe. Melhor ser a chefe. A doutora vai, com a alegria própria de um farrapo.

Eu: Um filme antigo de Minelli na tv. Assisto, antes de ir à massagem com ninfa asiática que dedilha meu corpo com sabedoria secular.

20h:

Ela: Regressa a casa, vinda diretamente da Somália.

Eu: Regresso a casa, vindo diretamente da massagem. Pergunto "Como foi o teu dia, querida?"

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

«Uma história simplista»

Uma pausa na pausa só para vir dizer que tenho ido ao cinema, obrigado. The Departed, por exemplo, mas só fiz o meu blogger log-in para poder executar o copy/paste deste parágrafo do Ricardo Gross sobre Babel, que me parece extremamente pertinente.

Babel é um filme interessante mas também desonesto. Já conhecíamos os recursos visuais da dupla Alejandro González Iñárritu (realizador) e Rodrigo Prieto (director de fotografia) e Babel volta a ser estilisticamente desembaraçado, eficaz e vistoso. O problema, quanto a mim, é que no seu moralismo à escala global, no seu simplismo dramático (o que aqui se filmam são personagens como se fossem pessoas comuns que nunca chegam a ter espessura psicológica, tornando-se meros peões de uma dramaturgia que parece assentar na Lei de Murphy: tudo aquilo que pode correr mal...), este filme de Iñarritu estabelece um jogo perverso com o espectador, baralhando as coordenadas temporais e alimentando uma certa desinformação, para capitalizar na chantagem emocional que visa agitar a nossa má consciência de cidadãos privilegiados a habitar um mundo em profunda crise de valores. Em determinados momentos, a manipulação vai a pontos de evocar situações dramáticas universalmente reconhecíveis como o drama dos refugiados mexicanos que procuram atravessar para os Estados Unidos ou aquela cena que a TV ajudou a fazer chegar ao mundo inteiro e que mostrava um pai e um filho palestianianos apanhados num fogo cruzado que acabaria por matar um e depois o outro. Parece-me de facto desonesto reproduzir este tipo de situações quer para garantir maior impacto emocional pela inversão de papéis (aqui são duas crianças americanas mais a criada mexicana que ficam perdidas no deserto, enquanto que do outro lado do oceano, mais concretamente em Marrocos, os pais vivem uma situação dramática equivalente), quer para efectuar a mais simplista evocação do desespero e da impotência paterna de modo a deixar claro quem são as vítimas e no lado oposto a identidade abstracta de todo um mundo que movido por interesses de uma escala onde estes não cabem, acaba por conspirar para a sua desgraça: o mecanismo aqui é de tipo Efeito Borboleta. E Babel consegue tão plenamente os objectivos, quanto já viu reconhecidos os seus méritos em Cannes - de onde saiu com um prémio de realização - e se prepara agora para tomar de assalto os Óscares entregues no final do próximo mês. Babel representa aquele tipo de filme que permite ao espectador, tanto mais ocidental melhor, fazer a catarse da sua culpa por fazer parte deste mundo doente e em nada contribuir para que as coisas sejam diferentes. Pela parte que me toca, admiro algumas imagens mas repudio o messianismo e a exibição da consciência moral do senhor González Iñárritu.

E, já agora, deixo uma foto de Cate Blanchett (em primeiro plano):