segunda-feira, 12 de março de 2007

Desenho

Aqui fica um esquisso que fiz ontem, já ao final do dia:



Esperam que percebam o absurdo que foi terem acreditado, ainda que a custo, admito, que a autoria deste desenho me pertencia. É por estas e por outras que a arte contemporânea está como está, e que nós estamos como estamos. Já não conseguimos reconhecer um Leonardo da Vinci mesmo à frente do nosso nariz. Tende vergonha.

Sempre são 50.000 euros

Entretanto, o Prémio Secil foi entregue, pela terceira vez, a Siza Vieira. Bocejo.

domingo, 11 de março de 2007

Sushi babe

Quando apontaram para a pequena rodela multicolor e disseram «isto é bom, é com delícias do mar e manga», percebi que estava no sítio errado. Aliás, isso foi apenas a gota de água. A verdade é que sempre que vou a um restaurante de sushi sinto-me um peixe fora de água. Agora é moda, é bem, é chique, é moderno, é jovem. O sushi está por todo o lado, em qualquer evento social que se preze, com as suas algas, as suas papas verdes picantes (por Deus que aquilo sabe a Sonasol), o seu peixe cru. O peixe cru até é a única coisa que se safa, sobretudo os gordos, sobretudo o atum, mas mesmo quando seguro o nacozinho de atum entre os meus pauzinhos (hão-de ter um nome qualquer japonês, os cabrões), não deixo de imaginar uma bela grelha em brasa onde o poisaria por uns breves minutos. Sushi não é comida, é entretém. Em Portugal a coisa é mais grave: anos e anos a apurar a mil e uma maneiras de cozinhar o peixe, o nosso bom peixe, para vir agora um bando de brasileiros impingir-nos com o seu sushi elaborado, as suas postas cortadas a frio e enroladas em arroz húmido e algas pretas. O peixe? Oh, variedade: atum, salmão, e o meu favorito «peixe branco». Mas o que é um «peixe branco»? Bacalhau? Adiante. É moda. Como qualquer moda, não faz sentido e é impossível de combater. É uma maré pesadíssima de pessoas bonitas a exclamar «adoro sushi, adoro sushi» a investir contra nós, coitados, impotentes que ficamos a sonhar com o belo do robalo grelhado, regado a azeite, acompanhado por pimentos grelhados e batata cozida, salada de tomate e cebola, vinho branco, sol. E eles continuam, «adoro sushi, adoro sushi», para cima de nós, sem perceber que estão apenas a um passo do ridículo daquele senhor da margem sul que apareceu ontem no Expresso, vestido de preto, com uma saia preta, cabelo comprido e de guitarra ao vento, que fundou a primeira banda portuguesa de rock japonês. Aposto que o Luís Marques do Fogueteiro também gosta de sushi.

No comboio com o Francisco José Viegas

(...) Sei que vou estar no comboio que partiu atrasado. A culpa não é só minha. É da minha Europa do sul, dos nossos hábitos incivilizados, da alimentação, do hábito de comer peixe, da nostalgia da sesta, da sombra dos jardins, da saudade que -- todo o ano -- tenho da praia, do queijo de São Jorge, da velocidade a que conduzo o carro. E é da preguiça, também. Às vezes parece-me congénita, mas só me culpo a mim. Vivi lá fora, sei que há diferenças; mas aquele discurso sobre «o modelo finlandês» é-me cada vez mais estranho, nunca vi que os meus conhecidos de Helsínquia ou de Rovaniemi ou de Turku fossem especialmente felizes ou, para ser sincero, mais felizes do que nós. Mesmo os hábitos de leitura na Islândia; invejo-os para nós, mas sei que anoitece cedo em Reykjavík (as livrarias são a última coisa a fechar no centro da cidade) e que, há uns anos, só se podia beber álcool ao fim-de-semana. Nós habituámo-nos a contar anedotas sobre o Salazar, a contar anedotas sobre o Samora, a rir das tragédias. Às vezes chego atrasado a uma reunião e peço desculpa, mas não devia. Não devia chegar atrasado, não devia sair da sala para fumar, não devia estar a meio da reunião a imaginar a cataplana de bacalhau. Não devia deixar para o dia seguinte. Não devia estar o ano inteiro à espera da praia. O discurso dos modernos é confrangedor, de qualquer modo, quando nos imaginam -- a todos -- a seguir o modelo finlandês. O milagre irlandês deixa-me indiferente, depois de ver que Dublin, a minha Dublin, se tornou irreconhecível, uma espécie de pesadelo de ficção científica, britanizada. Irrita-me a falta de cuidado, a falta de trabalho sério, a falta de respeito pelas leis, a facilidade com que se desculpa a preguiça. Mas sou preguiçoso, também. Tenho uma carga da velha Europa do Sul por todo o lado. Participei em muitas reuniões de uma multinacional para quem trabalhei durante década e meia. Eles eram ricos, poderosos, tomavam decisões, marcavam reuniões para o pequeno-almoço, às sete da manhã. Nós íamos, mas não estávamos felizes. (...)

A questão europeia, n'A Origem das Espécies

sábado, 10 de março de 2007

Uma espécie de previsão meteorológica ao contrário

Para quem não reparou: hoje esteve um dia glorioso em Lisboa.

sexta-feira, 9 de março de 2007

É 1,25€ e ainda traz um jornal agarrado

Obrigatória a crónica de hoje de Vasco Pulido Valente, sobre a RTP.

Marcha lenta

É muito complicado circular no passeio público à hora do almoço. São aglomerados de seres humanos em marcha lenta que entopem as vias de circulação, sempre aos pares, aos trios, aos quartetos, orquestras inteiras de almoçantes que esticam até à última, sempre em marcha lenta, a sua hora de almoço, como se protestassem, logo hoje que é sexta-feira tarde de sol, contra o facto de terem de trabalhar para ganhar o seu, os 22 dias de férias, os décimos quartos, as baixas psiquiátricas passadas no Brasil para arejar, o chefe que a sabe toda e que chega sempre depois deles, zelosos, na internet o dia todo a ver os jornais desportivos, pisgando-se logo que batem as cinco ou seis da tarde, em ponto, e a gloriosa uma da tarde para comer, a refeição encomendada no restaurante do costume às onze da manhã, quando se interrompeu a fastidiosa hora e meia de intenso labor para se ir ao café, refeição essa que é sempre tomada sentada, bem regada, sobremesa e tudo, porque em alturas de crise há que aproveitar aquilo que é bom na vida, como o bitoque e o cartão de crédito, as férias na neve e a Sporttv, que foi desviada pelo primo que é informático e conhece um tipo que arranja os descodificadores a 75 euros, livres de impostos, os sacanas, que a fonte nos retém sem misericórdia, sem graça nenhuma e portanto inventam-se as graças à hora do almoço, badalhoco-machistas quando o grupo é de homens, em marcha lenta, ainda e sempre, comentando a gaja da capa da FHM, a gaja que se comeu ontem à saída Lux, a gaja nova do marketing, ou intrigazinhas repetitivas quando o grupo é de mulheres, todas gordas, baixinhas, resingonas, com uma mala que lhes custou metade do ordenado de fevereiro mas estava numa promoção irresistível, todos falam, comentando as notícias do dia do Destak, esse jornal que é muito bom e pôs toda a gente a ler, que fez descobrir a desde sempre reprimida voracidade dos portugueses pela leitura, é vê-los no metro cada um com o seu, todos lêem, todos ocupam o seu espaço no passeio, em bloco, em marcha lenta, em protesto contra isto que está muito mal.

Mini-teste

Estime, com base na imagem que se segue, o resultado do jogo de futebol ocorrido ontem entre o Sport Lisboa e Benfica e o Paris Saint Germain, em Paris, a contar para a primeira eliminatória dos oitavos de final da Taça Uefa.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Ah, bom

E ao sétimo dia, ele voltou.

Eu ainda vi o maradona escrever

maradona vintage 2007, aqui em cópia integral, porque sabemos que a erosão costeira do A Causa Foi Modificada é manifestamente mais acelerada do que a blogoesfera média:

Uma pessoa fica doente (a 8.03.07)

Joana Amaral Dias republicou um texto que Rui Tavares terá feito sair no Público. Enfim, já se sabe e o problema será sempre o mesmo. Um pequeno apontamento de reportagem, dado que o assunto em si está muito para além do irresponsável eixo ideológico Helena Matos - Rui Taveres:

"Mas porque para confirmar a subida das águas dos mares à escala global basta consultar fotos aéreas das costas oceânicas, algumas delas em áreas sem construções da África ou da América do Sul."

Ai sim? É extraordinário que no texto se repita duas ou três vezes a expressão "Qualquer cientista aprendiz". Não quero ser mauzinho, por isso não vou comentar como me apetece. Mas a verdade é que o descuido e a preguiça em locais de responsabilidade e sobre assuntos importantes deixam-me fora de mim. Uma pessoa já está habituada à facilidade de pensamento da professora doutora joana amaral dias, mas ao Rui Tavares uma pessoa deseja sempre mais.

O que qualquer "cientista aprendiz" diz a Rui Tavares é que se os mecanismos tectónicos (como o de 1755) parassem por uns poucos (muito poucos, até) milhões de anos todo o planeta seria um único mar com belo fundo de areia. Nem um continente nem uma ilha restariam. E porquê? Porque, como o Rui Tavares pode verificar num dia destes que vá ao Guincho, o mar bate sem parar nas arribas e nas praias e, a bem dizer, no que quer que se lhe oponha. É assim, naturalmente, com CO2 ou sem CO2, com subida do mar ou sem subida do mar. Aliás, o nivel do mar poderia estar a baixar que a erosão costeira manter-se-ia e a tendência geral de desaparecimento das plataformas continentais num mar azul com areia no fundo não se alteraria minimamente (apenas o seu periodo temporal, e mesmo este, não sei se muito significativamente).

As fotos a que o Rui Tavares se refere na América do Sul ou em Àfrica (mas ele podia ter-se referido à Costa Vicentina) são imagens que mostram o efeito de fenómenos que ocorreriam com ou sem aumento do nível médio do mar. Não "basta consultar fotos aéreas" coisíssima nenhuma, é preciso perceber isto, caralhos ma´fodam. Uma pessoa dá essa merda no oitavo ano de escolaridade na disciplina de Ciências da Natureza (que espero que ainda exista), cona da mana, não foi preciso ir para sedimentologias e geomorfologias e mais não sei o quê para aprender isso. Porque é que o Rui Tavares não sabe isso? Acha que as arribas de Sagres não recuaram entre o ano 1755 e o ano 1900? Um dia mostro-lhe umas estimativas da professora Adelaide.

E a Costa da Caparica, também referida pelo Rui Tavares, que dizer? Para falar sobre isso não deveria o Rui Tavares saber que há menos de uma centena de anos o mar, ano sim ano não, entrava periodicamente pelo cordão dunar adentro até mesmo à base da arriba (hoje a quase um quilómetro da linha de costa - é a descida do nivel m+édio dos mares!), o que significaria, nos dias que correm, o alagamento total da povoação da Costa da Caparica (que era o que, de facto, acontecia... e que só se tornou dramático porque as casas passaram a ser construidas para durarem décadas em vez de meia duzia de anos).

Quanto muito, - e aqui ponho no terreno toda a minha simpatia -, o que, eventualmente, interessaria para esta questão era saber de uma eventual aceleração positiva da velocidade de erosão. E essa aceleração não é, com certeza, detetável por "fotos aéreas". Até a Fátima Campos Ferreira percebe isto: a erosão costeira é um fenómeno permanente e inexorável, sendo que a variação da sua intensidade será cientificamente acessivel apenas através de factores de extrapolação (como por exemplo a medição directa da subida no nivel medio das aguas dos oceanos), e nunca através da observação de todos aéreas.

E se se continuar a falar de "aceleração" da erosão, então, e para quem não queira acreditar no caralho da subida do nivel médio dos oceanos (também há destes por aí), põe à frente do Rui Tavares fotos de certas partes da península italiana, que, ui ui ui, tem vindo a, como dizer, deserodir-se: ali a plataforma continental está a subir... o mar a bater-lhe todos os dias na linha de costa, o mar, valha-me deus, a subir dramaticamente, num toma toma toma incessante, e mesmo assim a linha de costa está a ganhar terreno ao mar!, e uma coisa a um ritmo detectável historicamente, visivel até nos registos históricos que são a vida do Rui Tavares.

O que Helena Matos e Rui Tavares andam a fazer é, no fundo, a tratar de destruir metodicamente qualquer partícula de seriedade pública neste assunto. Como cada um é mais ideologicamente apegado que o outro à sua moral, tudo o que lhes sirva -mesmo que distantemente - para a puta da metaforazinha sobre os tempos em que vivemos é uma arma considerada válida.

Para uns a temperatura não está a subir e os mares não estão a subir. Para outros isto para o ano estamos com mais 20 graus em cima e já não existirão continentes. Cada um pega nos seus cientismos de eleição: Um nevão na Arábia Saudita desmente o aquecimento global. Um verão seco confirma-o.

E agora há esta nova fase, que é a dos que, como Rui Tavares e a Joana Amral Dias hoje, desbocam babuseiras sem sentido e que, no fundo, só tornam a vida fácil a quem tem tão maus instintos como eles (mas do lado contrário).

Mas vamos ser justos. O Rui Tavares não está a querer discutir os problemas levantados pela erosão costeira ou as chatices (inúmeras, como inúmeras são as chatices que resultarão do combate a estas chatices - e esta é a discussão importante, não outra qualquer) que as alterações químicas na atmosfera nos vão, inevitavelmnete, trazer. Está num programa lá dele. Por isso se pode dar ao luxo de ser impreciso, ilógico, desinformado, óbvio, simples e irresponsável nas matérias de facto (em si, de facto, pouco importantes para o campeonato do Rui Tavares está a querer jogar nesta crónica).

Em concreto, Rui Tavares estava a querer despachar um texto com a dificultosíssima (ironia de que Rui Tavares se tentou safar com uma - muito a propósito - confissão preemptiva) tarefa de assinalar as diferenças entre Al Gore e as excplicações moralo-geológicas de um padre do sec XVIII, às quais, segundo parece, Helena Matos se referiu.

Podia te-lo feito (até porque, palpita-me, era merecido) sem desinformar o inocente.

Chega a ser ridículo pensar que

Tenho escrito pouco. E não é o «trabalho», essa desculpa esfarrapada que qualquer blogger dá quando não escreve (ainda que neste caso seja verdade, verdade que tenha muito «trabalho», mentira o facto de que é isso que me tem impedido de escrever), mas sim este livro o culpado:



É que uma pessoa lê isto, julga que tem alguma coisa digna de ser passada a escrito, abre a página do Blogger, lembra-se do que leu há minutos, olha outra vez para o dashboard, e nesse momento percebe que a única coisa que lhe resta é desistir. Vencida e humildemente desistir. Chega a ser ridículo.

P.S: Também ando a ler um biografia do Da Vinci, só para verem o calibre do menino que aqui está. São 5 centímetros de lombada, a um ritmo de 3, 4 páginas por dia. Vergai-vos.

Tenho carradas de coisas para dizer

Ontem, por exemplo, cruzei-me com um homem daltónico.

quarta-feira, 7 de março de 2007

Em vez de se ficar pelos especialistas

Mesmo muito a correr porque a sopa está a esfriar (depois explico). No site da Trienal de Lisboa noticia-se a conferência de imprensa de apresentação do evento, com o título envolver a população, com José Mateus a descrever assim a coisa: «Um acontecimento que quer ter impacto junto das pessoas, em vez de se ficar pelos especialistas, e que quer dar a conhecer a arquitectura de Portugal (...)». No entanto, na notícia imediatamente precedente, levantam-se algumas luzes sobre as conferências que já aqui mencionei (Zaha Hadid na Trienal): ficamos a saber que decorrerão no Teatro Camões e que a inscrição custará 250 euros para arquitectos e 150 euros para arquitectos estagiários e estudantes*. Ponto. E preços para a população que se quer envolvida? Ah, coerência.

P.S: E que preços são estes? 250 euros? Num país onde a maioria dos arquitectos
(já não sei quantos por cento) ganha menos de 1000 euros mensais, não vejo como vai a Ordem dos Arquitectos encher os 800 lugares. Só se convidar muita gente...

domingo, 4 de março de 2007

Postais de NY (1)



Brooklyn Bridge, a 02.12.06