segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Christopher

(Mesmo, mesmo no fim do vídeo:)

- The only people that do not have doubts today are dogmatic atheists. People like you, Chris.
- Christopher.

O râguebi

Acontece eu não desgostar totalmente de râguebi. Junte-se isso a ter alguns amigos e familiares que são verdadeiros entusiastas e eu estou à frente da televisão para ver a selecção. E mesmo os All Blacks ou os Wallabies. Das regras, percebo o básico (as faltas baralham-me, e as linhas também), o suficiente para me entusiasmar durante um jogo sem me sentir alheado. Dito isto, não percebo a indignação de quem desejava ver os jogos na RTP. O râguebi é um desporto sem expressão em Portugal, jogado e acompanhado por uma pequeníssima elite (sim, elite, faça-se a média da declaração de IRS dos pais dos jogadores). Não estou com isto a desvalorizar o feito de, sobretudo, Tomaz Morais. Mas não deixa de ser estranho que as vozes que se levantam contra a inexistência de um suposto «serviço público» sejam as mesmas que exigem «menos estado» e melhores condições para a «iniciativa privada». O conceito de «serviço público» é muito discutível e os direitos de transmissão de um Campeonato do Mundo simplesmente não foram comportáveis para RTP - devido à baixa audiência esperada . Esses encargos passaram para um canal privado, que faz deles o que muito bem entender. A direita (sim, o râguebi é um desporto da direita e, se calhar, até de direita - literalmente darwinista) devia estar contente, não indignada.

domingo, 9 de setembro de 2007

A rentrée que interessa

(...) A maior dos meus amigos (para ser modesto) que têm empregos, graus académicos de respeito, relações duradouras e até já casa e carro comprados com o seu próprio dinheiro, julga-se superior a mim. E bem. Porque são. Sinto-me um verme. Abaixo de carraças, baratas e até da Mia Farrow. É que, pelos menos, essa conseguiu manter uma relação sexual com Woody Allen e isso merece um mínimo de crédito. Entretanto, tive tempo suficientemente para descobrir que sou estúpido. Tentei ler o Guerra e Paz do Tolstói e, ainda mal tinha arranhado a superfície com uma esponja de algodão, já estava perdido. Nem relacionando as personagens com jogadores de futebol (por exemplo, Kutuzov é o ex-jogador do Sporting, e por aí adiante). A questão é que nem sequer percebo assim tanto de futebol russo. No que toca a Proust, estou há dois anos para passar da primeira página do primeiro volume. O gajo desliga a luz, acende a luz, diz que vai dormir, mas não adormece e eu já estou a roncar. Quanto ao Dostoiévski (deve ter sido a primeira vez que escrevi o nome direito sem ir ao Google) os gajos dele vivem todos na merda. E eu sou ideologicamente contra a merda. Por isso, vai-se a ver e estou fodido com os russos. Também descobri que sou idiota. A entidade maternal arranjou-me um encontro com um chilena (não digam nada, esta semana disse-me que já sabia com quem me havia de casar). Depois de jantar (que fui eu a pagar por inteiro; ela ofereceu-se para dividir a conta, só que eu recusei, mas ela não insistiu, ora, é preciso insistir, toda a gente sabe que a primeira recusa para dividir quaisquer custos não conta, recusa-se sempre por boa educação; e eu teria dividido de bom grado), decidimo-nos por um passeio à beira mar. Havia um pontão (aqueles muros que entram pelo mar adentro). Ela quis ir ao pontão. Fomos ao pontão. E eu, tive este naco de conversa:
‘Sabes como é que foi inventado o pontão?’
Ela: ‘Não.’
Eu: ‘Foi assim: O Vasco da Gama estava a olhar para o mar em Sines, virou-se para um gajo e disse: ‘Meu, vou descobrir o caminho marítimo para a Índia.’ E o outro: ‘Eu também.’ E o Vasco: ‘Eu cá vou de barco.’ E o outro: ‘Eu não. Vou pôr um monte de pedras umas em cima das outras até lá chegar.’ Só que desistiu a meio.’
E ela, muito séria: ‘Foi?’
E eu, depois de uma pausa, para a deixar matutar aquilo que pretendia ser uma piada: ‘Não. Na verdade, o outro gajo, apesar de ter demorado ligeiramente mais tempo, conseguiu lá chegar. Como é que pensas que inventaram as pontes?’
E ela, com ar arrogante, como se estivesse a olhar para um idiota completo: ‘Não sei. Mas não foi assim.’
E nunca mais me quis ver.

Tiago Galvão, nascido a 28.03.85

Ainda aquela cena dos livros

Fui informado, ainda que sob um pedido de silêncio que agora desrespeito, que o comentário feito a esta lista peca por omissão, faltando adicionar os números 6 e 10. O rigor acima de tudo.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Os banais



Há dois tipos com carisma neste agrupamento. Obviamente, Matt Berninger, que não tem só carisma mas também uma aceitação bastante simpática junto do público feminino, o que é logo uma volta de avanço; e Bryan Devendorf, o baterista, uma espécie de John Lennon suburbano, ou um Tiago Cavaco com um visual Jesus Cristo. O resto são dois gémeos guitarristas, cada um mais acabrunhado do que o outro (um deles ainda tem um cabelo desordenado, mas nem assim chega a rock-star), e um baixista apenas presente, de longe o instrumentista menos inventivo, com um aspecto de frequentador do Alcântara nos anos 90. Ou seja, há esperança para nós, os banais.

FNAC 2

Vi um sem-abrigo (ou alguém que se assemelhava a um) rodeado de sacos de plástico (dezenas), com os sapatos sujos de cal e areia (um operário da construção civil?), sentado junto à secção da Literatura de Viagem, totalmente absorvido por um livro (infelizmente não vi qual). Passei por ele algumas vezes, num intervalo de tempo de pelo menos 30 minutos, e a sua concentração nunca baixou daquele estado de semi-transe.

Agora é aquela parte do post em que evito o cliché de como os livros nos fazem viajar para locais distantes e inacessíveis.

FNAC 1

Ontem fui à FNAC com um objectivo, e não há nada pior do que ir à FNAC com um objectivo. Resultado: ia saindo de lá com as mãos a abanar. Entre o orgulho do viciado que se julga curado e a sensação de frustração pelo tempo perdido, lá trouxe o On Chesil Beach que, como mandam as regras, começa com uma frase quase perfeita:

They were young, educated, and both virgins on this, their wedding night, and they lived in a time when a conversation about sexual difficulties was plainly impossible.

O objectivo, esse, saiu gorado.

Num mundo pós-Calzedonia

Os cartazes da Tezenis.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Totalmente desprovida de sentido de humor



Não vou perder um minuto sequer a discutir qual é a melhor série de televisão de sempre, assunto que deixo resolvido com a imagem em cima. Perco, sim, os minutos que forem precisos a desmontar este insulto do Bruno Alves a toda a gente que já viu dois ou três filmes de acção, e dois ou três episódios de 24. O Vasco Barreto já aflorou o assunto mas, porque nunca viu nenhum episódio de 24, foi demasiado brando. Deixando o Matt Damon para outras aragens (o filme ainda não estreou por cá), passo a explicar. Eu não tenho Tv Cabo, tenho uma antena no prédio que me dá os 4 canais de sinal aberto que se captam na zona de Lisboa. Não me queixo. Foi uma escolha, ainda que muito dificilmente aceite por toda a gente que sabe do facto. Olham para nós como quem olha para um leproso, e eu não sei como é que se olha para um leproso. Dito isto, reconheço que lá por casa se dá muito uso ao leitor de DVD, e, como o orçamento não dá para tudo, familiares bem intencionados fizeram chegar uma caixa com a primeira série de 24. «Vê», disseram, «está toda a gente viciada nisso», dizendo «viciada» como se de uma coisa boa se tratasse. O Vasco centrou-se num aspecto da série, lançando dúvidas sobre a honestidade de alguma coisa cuja maior qualidade parece ser o seu carácter folhetinesco. Pois bem Vasco, pois bem Bruno: não sei se essa será a maior qualidade da série, mas sei que se isso for uma qualidade é a única. E digo se, porque não foi o fim abrupto de cada episódio que me levou a ver, penosamente, os primeiros (e únicos) 7 ou 8 espécimes da coisa. A verdade é que 24 é uma série escrita com os cotovelos, mal interpretada, ridiculamente filmada (com uma fotografia maniqueísta, abusando do contraste e dos tons azuis, talvez sugerindo, subtilmente - ah ah ah - frieza) e, pecado último e primeiro de qualquer série que se preze, totalmente desprovida de sentido de humor. E se eu vi 7 ou 8 episódios foi porque durante 7 ou 8 episódios esperei por aquilo que estava a viciar toda a gente, espera essa que se veio a confirmar infrutífera. Eu gostava de continuar a dissecar o conteúdo da série, mas não sei onde é que ele se foi enfiar. E começo a duvidar da sanidade mental de quem me rodeia. Talvez 24 seja como outro vício qualquer: algo que envergonha quem se deixou apanhar na teia, que prejudica a saúde e desvirtua comportamentos. Por isso, Bruno, eu percebo que se veja o 24 (não, não percebo, mas temos de ser tolerantes), aceito, sem conceder, que aquilo seja viciador, mas nunca mais repitas essa frase em público, e não caias na tentação de usar a palavra «Hollywood» com esse tom depreciativo: afinal, onde é que achas que eles foram desencantar o - mono dos monos - Kiefer Sutherland?

P.S: E Extras, meu amigo.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Que não mudaram a minha vida

10 livros que não mudaram a minha vida:

1. Ulisses, de James Joyce;
2. Dom Quixote, de Cervantes;
3. Guerra e Paz, de Leão Tolstoi;
4. Anna Karenina, de Leão Tolstoi;
5. Lolita, de Nabokov;
6. The Great Gatsby, de F. Scott Fitzgerald;
7. Catch-22, de Joseph Heller;
8. A Montanha Mágica, de Thomas Mann;
9. O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago;
10. Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski.

Não mudaram porque não li. "A minha mulher"* já leu (que eu saiba) os números 4, 5, 7 e 9 da lista. Não sei se mudou a vida dela, mas ela mudou a minha, portanto será talvez pertinente começar uma corrente intitulada Os 10 Livros que Mudaram a Pessoa Que Nos Mudou. Ou mesmo Os 10 Livros que Não Mudaram a Pessoa Que Nos Mudou. Ou As 10 Páginas do Teletexto Que Me Marcaram, eventualmente seguida de d'Os 10 Provérbios Chineses Que O Meu Cão Decorou.

* Tu tens mas é inveja.

E tu, espera lá que eu já te atendo.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

«Esta arte»

(...) No geral, vi uma arte de umbigo ou assente em mensagens políticas maniqueístas. A arte sempre foi profundamente política e, até, subversiva. O que é notório, no entanto, na bienal de Veneza é que a arte se parece hoje esgotar na política. Não se sustenta enquanto arte mas sim através da adesão ou oposição que provoca a mensagem política que veicula. Por detrás das provocações sem substância, a grande maioria dos artistas representados em Veneza parece incapaz ou receosa de nos desafiar. Preferem antes o refúgio que lhe garantem os adeptos da sua mensagem política mais do que da sua arte. É uma arte que não permite várias leituras nem transmite a complexidade do mundo, antes se satisfaz em tomar posição. Eu tomo posição contra esta arte.

Miguel Poiares Maduro, no Geração de 60

Piano e Koolhaas

Charlie Rose conversa com Renzo Piano e com Rem Koolhaas (várias vezes, e entre outros). Vale a pena ver os vídeos e perceber como é que estes dois arquitectos representam modos estar radicalmente opostos e como é que isso se reflecte naquilo que desenham. Eu estou com a bonomia de Piano, mas muitos estarão com Koolhaas na sua cruzada ideológica*. Façam favor.

* Tenho cada vez menos paciência para a retórica do holandês, ao mesmo tempo que vou gostando mais dos seus edifícios. O que ele diz é abjecto - sobretudo quando fala dos EUA. Mas o que os seus colaboradores desenham é quase sempre sugestivo, e tem evoluído bastante nos últimos tempos.

The Peters Projection Map



Nunca concordei com o Daniel Oliveira. A espaços, não discordei totalmente, mas Daniel Oliveira sempre foi sinónimo de opinião absolutamente contrária à minha. Às vezes, na dúvida sobre onde me colocar sobre determinado assunto, ia ler o Daniel Oliveira para saber aquilo que não devia pensar. Inclusivamente, Daniel Oliveira é ferrenho do Sporting. Dito isto, confesso que gosto de o ler. Acho-o (não sei porque carga de água) genuíno, sincero, bem intencionado. Ou seja, exactamente aquilo que não acho do Bloco de Esquerda. Pode ser só o tom de voz na televisão, ou qualquer coisa de irracional assim. Por isso, imaginem o meu espanto e vertigem ao perceber que o Daniel Oliveira é um fã de West Wing. O meu mundo, tal como o mapa do trecho que Daniel Oliveira escolheu, ficou um pouco distorcido.

domingo, 2 de setembro de 2007

«Absolutely stunning goal»

Agora, o mesmo golo comentado por alguém que efectivamente gosta da sua profissão.

sábado, 1 de setembro de 2007

«Este tipo de remates»



Sempre me incomodou a falta de emotividade dos comentadores desportivos portugueses (avé Carlos Barroca). Versam sobre o futebol como se de política internacional se tratasse, usando o tom grave da respeitabilidade, escolhendo palavras cuidadas na busca do respeito intelectual que julgam - talvez acertadamente - em perigo, derivado a um complexo de inferioridade evidente e omnipresente, que só desespera quem está a assistir aos jogos. Tomemos este exemplo de António Tadeia, um homem que até se destaca dos seus pares por perceber efectivamente do jogo. Vejam o que ele diz sobre este golo do Jankulovski, sobre este passe do Pirlo - este passe do Pirlo. Não, não vejam o vídeo. Eu digo-vos como António Tadeia descreve o dito, para depois vossas excelências tentarem adivinhar como se processou o golo. Ora cá vai:

«Cruzamento largo e subida rara - tem sido hoje - de Marek Jankulovski, a aplicar um pontapé de primeira. Teve alguma sorte, também, mas também é preciso saber-se fazer este tipo de remates.»

Agora vão ver o vídeo e expliquem-me onde é que está a «sorte» e que «tipo de remate» é este, por favor, porque eu nunca tinha visto. Deve ser o tipo «remate de primeira na passada ao poste mais distante com passe a quarenta metros vindo das costas», provavelmente. Está nos livros.