sexta-feira, 18 de julho de 2008

E uma merecida homenagem às caixas automáticas da FNAC



Começa a tornar-se um padrão: já no ano passado me despedi para férias ao som de guitarras evangelizadoras. Por coincidência volta a acontecer o mesmo: ontem, e por apenas 9,95€, a FNAC do Chiado (do Chiado, eu não frequento outras FNACs, isto é das poucas coisas elitistas que restam ao burguês contemporâneo) ofereceu-me o mais recente opus Guilluliano. Fica bem, esta persistência religiosa em tempo de relaxamento do espírito.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Por exemplo

Um dos erros - e se não for erro por amor de Deus assassinem-me já - mais comuns da linguagem portuguesa é o uso do pretérito imperfeito do indicativo em situações onde se deveria usar o condicional. Um exemplo: «um dos erros mais comuns da linguagem portuguesa é o uso do pretérito imperfeito do indicativo em situações onde se devia usar o condicional». Há aqui estudos linguísticos e teses de doutoramento que eu estou de certeza a ignorar, mas nem o facto dos melhores prosadores nacionais incorrerem com alguma frequência neste tipo de situação me subtrai a convicção de que isto é, vá lá, errado. Bom, dirá o leitor certamente, mas isso é uma situação em que a expressão oral se distanciou da expressão escrita, interpelação que merece um par de citações retiradas precisamente da página que acabei de ler de A Sala Magenta, último romance do melhor escritor (homem) português vivo. Vamos então à página 27, onde às tantas escreve Mário de Carvalho (enfim, escreve o narrador, e pode haver aqui alguma intencionalidade, não sei):

«Expulsou-a, aos resmungos, com a promessa de que a chamava se fosse preciso (...)»

Cá está. O curioso é que na mesmíssima página, no parágrafo imediatamente a seguir, há um diálogo entre duas personagens que vai assim:

«"Se eu morresse, aposto que nem ias ao meu funeral." " Que falta é que eu te faria no teu funeral?"»

Portanto, na mesma página do mesmo romance, temos um narrador que diz «chamava» em vez de «chamaria»; uma personagem que diz «ias» em vez de «irias»; e outra personagem que diz correctamente «faria» quando tudo fazia prever um «fazia». Reitero a minha ignorância sobre a qualificação destas mutações dos tempos verbais. Não sei se são erros, de facto, mas que isto tudo me cheira mal, lá isso cheira. E queria sublinhar o facto de o português ser uma língua que é suposto ensinarmos a estrangeiros e em que um dos tempos verbais se chama pretérito mais-que-perfeito do indicativo, por exemplo.

Adenda (18 de Julho, 10:18): Fui alertado para o facto de ter escrito originalmente «conjuntivo» em vez de «condicional», ali na primeira frase do post, o que prova que as pessoas não me deveriam dar atenção.

Quem não deve não teme

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Sempre quis

«Tinha outras propostas, mas sempre quis o Benfica.»

Pablo César Aimar, 16.07.2008

Depoimento

Se calhar então vinha aqui deixar o meu depoimento sobre o caso da liga dos campeões, já que os adeptos do Porto ainda não se calaram em festejos e em insinuações sobre os adeptos do Benfica. Cá vai: estou extremamente contrariado por ter acabado ontem o Arthur & George (Julian Barnes) e extremamente desconfiado com o início do Sala Magenta (Mário de Carvalho), apesar de ter estremecido quando Gustavo «franziu a cara» e «considerou-se a si próprio um cínico egoísta viciado em exibições de insensibilidade».

terça-feira, 15 de julho de 2008

Com 7 honrosas excepções

Estas merdas de se festejar os aniversários de blogues têm de acabar (pecado de que não estou inocente, reconheço). Alimentar um blogue não é algo digno de mérito. Não é nenhuma vitória, nenhuma conquista, nenhuma qualidade. Apenas é. Falo por mim: escrever aqui tira-me muito tempo, sim, mas não custa nada: ligo esta coisa e debito o que me apetece, sem pedir licença a ninguém, sem respeitar seja o que for (o resto é talento puro, admito). O único resultado é a minha humilhação pública. Mais nada. Não ajudo ninguém com isto; o mundo à volta deste blogue não está melhor pela sua existência. Agora toda a gente anda a dar-se palmadinhas nas costas por causa dos «5 anos», como se alguém se tivesse esquecido de que foi no verão de 2003 que esta merda arrancou como deve ser. Sim, eu também estou cá há cinco anos, mas não ando aí pelos cantos com balões atados ao pescoço. Isto é egoísmo puro, é narcisimo refinado, é uma actividade que não paga impostos. Não serve para nada. Cinco anos a escrever na «blogosfera» é digno de pena e caridade, nada mais.

Lisboa

Lisboa S.O.S, um blogue tristíssimo.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

E a semântica, senhores?

Leio n'A Bola que o jogador que o Sporting escolheu para substituir Stojkovic dá pelo nome de Assmann.

A favor de Mainardi

O Ricardo Gross faz aqui uma coisa que me agrada, e que é a todos os títulos deontologicamente reprovável (as coisas deontologicamente reprováveis têm geralmente um potencial de me agradar muito alto): diz, sem papas na língua, que o romance de Diogo Mainardi é «aconselhável» sem o ter lido e, pior, sem ter lido qualquer romance de Diogo Mainardi. E porque é que isto me agrada, que no fundo é toda a razão de ser deste post? Porque revela um preconceito do tamanho do talento de Mainardi (sim, eu também sou fã de Mainardi), um preconceito que elimina à partida qualquer objectividade na análise aos reais méritos da obra. E, realcemos, a obra tem tudo para fracassar: é provável que o Mainardi romancista não seja tão bom como o Mainardi cronista, e sobre isto estou disposto a meter 10 euros. Apesar disto, gosto de ver uma declaração pública como a que faz Gross, que não é mais do que um comprometido agradecimento a quem nos deu tanto. Em troca do prazer que são as crónicas de Mainardi, a gente vem para aqui dizer que os seus romances são recomendáveis, e não é agora que vamos começar a demonizar a publicidade. Isto é bonito, isto é digno de reprodução: também eu recomendo vivamente Contra o Brasil, a favor de Mainardi, e ai de quem diga o contrário.

Sócrates

O casamento pós-Vaticano II, no Fiat Lux.

Dopping

Domingo, restaurante, final de jantar:

- Quem quer café?
- Eu quero.
- Queres? Olha que depois não dormes.
- Pois não: tenho um livro para acabar.

domingo, 13 de julho de 2008

Será

possível que eu seja o único a demonstrar preocupação e reserva pela presença na lista de ingredientes do Chocapic Integral do «endosperma»?

sábado, 12 de julho de 2008

Spoiler

Um padrasto decente para o Gongas

Três gerações de mulheres combatem a solidão, os brandos costumes e a língua portuguesa

A vida não é fácil para as mulheres de Português Suave. Atormentadas à partida pelos habituais albatrozes de serviço (os «homens», a prosa), elas têm ainda de negociar os seguintes obstáculos: desgostos amorosos, tragédias familiares, mentalidades conservadoras, um país estagnado, uma sintaxe catatónica, um enredo à beira do colapso e a distinta possibilidade de o leitor perder os sentidos a qualquer momento, deixando-as a lutar sozinhas.
Grande parte da história é narrada por Leonor, que se encontra num ponto de viragem: «Cheguei a um beco sem saída e quanto me senti no fundo, olhei para cima e disse para mim mesma: agora vais ter de subir a puta da montanha.»Abandonada por Pepe, «com quem nunca devia ter casado», Leonor vive sozinha com o seu filho Gongas, que lhe «forra a vida a papel-de-seda». O Gongas precisa de um padrasto e a Leonor precisa de sexo, porque «o sexo afasta a morte». Poderá Luís Maria preencher estas lacunas? Às primeiras impressões, parece o candidato ideal: «Vestia-se bem, cheirava a Davidoff, não usava meias brancas nem tinha mau hálito.» Este soberbo naipe de características oculta um lado significativamente menos soberbo. O idílio é breve; Leonor vê-se trocada por uma «gaja manhosa» que «passava a vida nos copos no Plateau» e «servia de vazadouro a toda a cidade». A aposta seguinte é Constantine, que acaba por não preencher os requisitos necessários, apesar da sua intrigante abordagem circense à prática sexual, que deixa Leonor a sentir-se ao mesmo tempo «a menina do trapézio sem rede e o palhaço sem graça, sem intervalo para vender gomas e pipocas».
A prima Naná não tem melhor sorte. João, o seu grande amor, morre num desastre de automóvel. A memória é tão dolorosa que a linguagem desfalece em silepses involuntárias: «O João era o tipo de homem que adivinhou de que tipo de lingerie é que eu gostava» (isto, diga-se, é o tipo de coisa que um tipo faz que deixa qualquer tipa doida). João lia muito e «falava-lhe de conceitos», dispensando aforismos tão contundentes como «a confusão é o início de uma nova realidade».
Entretanto, uma fotografia precipita a revelação de um segredo, provocando o pânico entre os sinais de pontuação. «A mãe andou com o tio Nuno????» Ainda à procura da montanha no topo do beco sem saída, Leonor veste a sua camisa de noite curta de seda» e faz o que faria qualquer pessoa racional na sua situação: envolve-se com um «hippie» holandês chamado Thomas. «O que tu precisas é de relaxar um bocado», diz-lhe o perspicaz Thomas, enquanto enrola um charro. Será este «o tal»? Leonor apaixona-se. Naná torce o nariz. Gongas dorme em casa da avó. A tia Joana vai morrendo de «esclerose lateral amiotrófica». Thomas acaba por regressar a Amesterdão, apavorado pelo enredo.
O tempo passa e o país avança, devagarinho. Acompanhamos a transição democrática, de um tempo em que a PIDE «interrogava pessoas a torto e a direito» até ao pós-25 de Abril, em que «se apregoava a liberdade a torto e a direito». Já nos anos 80, «o dinheiro e o poder cortam cabeças a torto e a direito».
Seria um erro medir Português Suave contra a realidade. O livro é uma fantasia extraterrestre e a acção decorre num universo paralelo em que a «alma viaja à velocidade de um camelo» e a linguagem há muito faleceu, possivelmente de esclerose lateral amiotrófica. Um automóvel destroçado pode assemelhar-se a um «pão de leite»; uma personagem pode ser comparada a uma «almôndega feliz» e outra pode mudar de nome no espaço de quatro páginas; pessoas podem «comer-se literalmente dentro de um carro», ou «viver literalmente do ar», ou até ficar em casa «literalmente a olhar para ontem».
A vida não é fácil para os leitores de Português Suave. Mas, arrastados pela exuberante vitalidade das protagonistas, lá conseguimos trepar pelo beco sem saída e chegar ao topo da puta da montanha, emergindo gratos e atordoados, como almôndegas felizes, naquele lugar mágico onde o amor triunfa a torto e a direito e o futuro é literalmente risonho.

Rogério Casanova no Expresso de hoje.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Juro que não inventei

Ontem o presidente da FIFA disse que Ronaldo está a ser «tratado como um escravo» no Manchester. Hoje Ronaldo disse que sim que concorda, que está a ser «tratado como um escravo» no Manchester.

Proibíamos também a soja

A Nicotina, o Álcool e o Resto, Tiago Galvão no blogue da Atlântico.