segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Quem diria

«(...) Mas houve uma ocasião em que o Pato Donald de facto foi a votos. Eu devia ter uns oito anos quando organizei a primeira eleição, em família. Não havia um posto específico em jogo; era uma eleição como jogo, o que era talvez normal para uma cabeça moldada pela experiência das presidenciais de 1980 e por passar os domingos à tarde com um jogo de sociedade chamado “As eleições e os partidos”. Os dois candidatos eram o Tio Patinhas e o Pato Donald e, de acordo com a dinâmica eleitoral, acabou por resultar convencionado que o Tio Patinhas era o candidato da direita e o Pato Donald o da esquerda.
A história da derrota do Pato Donald é um pouco embaraçosa. Naquela tenra idade em que os instintos se revelam mais crus, foi precisa uma certa ajuda minha para decidir o resultado. Esquerda e direita, a família dividiu-se ao meio. Uma avó, porém, tinha votado no Pato Donald de forma que considerei irregular (uma cruzinha fora do quadrado? Já não me lembro), fechando os olhos ao facto de que um avô tinha votado Tio Patinhas de forma igualmente irregular (não preencheu o boletim e deu-me simplesmente um papelinho com o nome escrito: Tio Patinhas). Graças a este expediente, o milionário de Patópolis venceu a eleição sem posto pela estreita margem de doze a onze, ou coisa parecida.
O Pato Donald candidato da esquerda, o eleitorado dividido ao meio e o resultado decidido com uma chapelada. O meu pequeno sufrágio familiar antecipou a grande política americana em duas décadas; quem diria.»

Ivan Nunes

domingo, 7 de setembro de 2008

Casanova

O Rogério Casanova estreou-se na Ler em crónica que ainda não li porque o meu exemplar da revista conseguiu fazer-se barricar num restaurante japonês do Chiado de onde não sai desde ontem. Antes deste pequeno episódio, tive no entanto tempo de espreitar a página intitulada Pastoral Portuguesa e quero daqui revelar ao mundo que o Rogério Casanova é tal e qual o boneco que lhe atribuiram. Serve isto para desmontar o estragema do Casanova de se fazer dissimular na anonimidade do quotidiano, escondendo a face do público. Meus amigos, estudem bem o boneco da Ler e quando o virem na rua não o deixem escapar. Podem dizer que vão da minha parte.

Emily Blunt



Emily Blunt, que em The Jane Austen Book Club quase que nos faz esquecer que Maria Bello também está em cena. Quase.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

«Vou ser muito breve, mas»

O que faz o bloguista em apuros? Sim, vai a uma «sessão pública». Sobre o quê? Não interessa. Aqui as palavras chave são «sessão» e «pública». No presente caso, que envolveu o vosso narrador, foi de urbanismo, mas podia ter sido de literatura ou culinária. Há sempre o «painel». O «painel» tem sempre uma pessoa entusiasmada por ali estar, dois convidados institucionais que acham - erradamente - que não estão ali a fazer nada, e dois convidados que de facto não estão ali a fazer nada. Antes de mais, as horas. A sessão era solene e a cargo de um organismo público, pelo que se espera algum decoro com a pontualidade. Devido a um erro de cálculo, cheguei meia-hora mais cedo. Cheguei sozinho? Não. Um vulto que identifiquei a uma distância capaz de desmentir as minhas dioptrias provou ser Gonçalo Ribeiro Telles, monárquico, paisagista, octogenário e pontual. Cada vez gosto mais de octogenários, e a simpatia com que Ribeiro Telles brindou as duas meninas que tratavam da logística no anfiteatro reforçou essa ideia ao lançar uma esperança sobre a longevidade da testosterona. Depois, começaram a chegar os outros. Do ex-ministro à «moradora», do presidente da junta à outra «moradora» não faltou nada. Nem Nuno Portas, que não vi mas ouvi ser mencionado, qual divindade omnipresente. O painel explicou o objectivo da sessão, passou o devido power-point, foi fotografado e como sempre totalmente incompreendido. O primeiro a ter a palavra foi o reitor, académico, habituado a falar para plateias onde não conhece «90% dos presentes», e seguiu a cartilha certa, sem esquecer a «piada» e a «citação» («conhecer é perdoar», não tirei notas, ajudem-me, será «O Monte dos Vendavais»?), para depois intervir o «técnico», neste caso a «técnica», que leu com habilidade as frases projectadas pelo computador e pela ordem certa, que é mais difícil do que pode parecer. Depois, o «debate», o momento mais ansiado na «sessão pública» e mais propenso a gerar material para o bloguista em baixo de forma. O ex-ministro, que levantou a mão prontamente,  perguntou pelo metro, se iria haver uma saída de metro ali, para as «alunas» não sofrerem a insegurança própria das áreas isoladas, e saiu sem ouvir a resposta, a provar que o académico que habita nele levou a melhor: interessou formular «a problemática», não tanto chegar a uma conclusão. O presidente da junta, que não foi convidado para a sessão «devido a um erro», como assumiu o vereador, colocou questões interessantíssimas a que ninguém deu importância, como é apanágio dos assuntos das «freguesias», e o académico representante da faculdade que vai ser deslocada perguntou se vai sobrar dinheiro da operação para a construção do novo edifício, a provar que apesar de ser «de letras» está muito preocupado com a matemática da coisa. E com razão, pois o vereador admitiu que se terá de fazer «omeletes sem ovos», o que prova a sua reputação de excelente cozinheiro. O climax, como sempre, aconteceu quando se deu a palavra ao «povo», ou melhor, ao «homem comum», apesar de se ter dado o caso de terem sido duas mulheres. Numa sucessão (acabei de escrever «susseção») de acontecimentos que puseram a nu a riqueza que é a assimetria sociológica dos centros urbanos, que permite adivinhar, por exemplo, se determinada pessoa diz «encarnado» ou «vermelho» consoante o código postal, a representante dos moradores da Columbano Bordalo Pinheiro chamou por diversas vezes «atrasados mentais» aos responsáveis camarários - numa intervenção que contou com a preciosa colaboração do microfone que andara a falhar durante a toda a sessão - e a moradora do Bairro Azul publicitou a sua preocupação sobre o futuro da sua área de residência, pedindo um plano «civilizado». Pelo meio sugeriram-se insinuações xenófobas (a «mesquita», «os indianos») e pediu-se ao vereador que tratasse do problema do «cheiro a xixi de gato». Gonçalo Ribeiro Telles foi elogiado por toda a gente, o que me tranquilizou ligeiramente, apesar de ninguém lhe ter elogiado a pontualidade, o que pode ser explicado pelo facto de a única pessoa que lhe comprovou a pontualidade não ter falado. Não falei, e não fosse este post e a minha ida teria sido em vão. E alguém que me explique como se adapta o edifício da prisão, porque o vão adaptar. Alguém que faça o favor de vir cá casa explicar. Se puder ser, enviem o Ribeiro Telles.

Esse mesmo

«Soube de fonte segura que o Tiago Bettencourt (esse mesmo) considera a minha música ofensiva

Tiago Cavaco

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Miss Him

«I don't believe in God, but I miss Him.»

Sem ironias

Ó maradona (aqui a interjeição invocativa serve o propósito de forçar a miníscula), o Sporting também tem um jogador que verte o seu futebol nos campos por onde passa apenas porque o trabalho pelo qual é pago é jogar futebol:

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O Céu sobre Lisboa

O Ivan Nunes informa-nos da morte de Pedro Ornelas, autor d'O Céu Sobre Lisboa, e redige com elegância o devido obituário. Para além daquilo que disse o Ivan, o Pedro Ornelas era também um apreciador de arquitectura, e foi devido a isso que, em tempos, troquei argumentos com ele sobre alguns temas. Não conhecia o Pedro Ornelas pessoalmente, e já se passaram três ou quatro anos desde essas conversas, mas, e se alguém que lhe seja chegado vier a ler estas linhas, aqui fica a minha homenagem a alguém com quem aprendi alguma coisa.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O Jogador

Reservou-me o destino que a minha iniciação a Dostoievski se desse através de um volume comprado no Modelo de Grândola a 4,99€ (O Jogador), que comprei devido a este primeiro parágrafo sublime:

Наконец я возвратился из моей двухнедельной отлучки. Наши уже три дня как были в Рулетенбурге. Я думал, что они и бог знает как ждут меня, однако ж ошибся. Генерал смотрел чрезвычайно независимо, поговорил со мной свысока и отослал меня к сестре. Было ясно, что они где-нибудь перехватили денег. Мне показалось даже, что генералу несколько совестно глядеть на меня. Марья Филипповна была в чрезвычайных хлопотах и поговорила со мною слегка; деньги, однако ж, приняла, сосчитала и выслушала весь мой рапорт. К обеду ждали Мезенцова, французика и еще какого-то англичанина: как водится, деньги есть, так тотчас и званый обед, по-московски. Полина Александровна, увидев меня, спросила, что я так долго? и, не дождавшись ответа, ушла куда-то. Разумеется, она сделала это нарочно. Нам, однако ж, надо объясниться. Много накопилось.

(Citar no original foi uma tradição que começou no Ouriquense e que não tenciono violar.
)

Flex Foots



I don't know what I have done
I'm turning myself to a demon

Tiger Mountain Peasant Song

(Não há maneira, tal qual os «Overkill Driver», de lhes acertar com o nome.)

Necessário

A antipatia é geralmente uma forma de timidez, ou mais ainda de falta de auto-estima. Nós preferimos a simpatia de quem gostamos e dispensamo-la a quem não nos interessa. Ser simpático, mostrar alguma polidez no trato com as outras pessoas, implica partirmos do princípio que essa polidez nos é exigida. A insegurança de quem não se percebe desejado pode levar à distância desinteressada que se interpreta como antipatia. Sermos necessários aos outros pode não passar pela nossa vontade; não nos assiste o direito de questionar essa condição, mas apenas de a conhecer. Perceber que isso é uma forma de humildade é perceber que a timidez inicial é também uma forma de egoísmo que se assume como uma defesa perante a desilusão. Mas como acontece sempre que adoptamos um princípio geral sob forma de minuta, acaba por pagar o justo pelo pecador. Essa defesa assume-se então como algo que necessita de ser atacado (e desmontado), e isto é certamente uma das piores tentativas aforísticas da história da blogosfera.

Necessárias

Aos 30 apercebo-me que, no fundo, não gosto assim tanto de crianças nem de animais. (...) Deixá-los existir sem demasiadas sentimentalidades é a resposta mais cristã.

(...)

Não ando para conversas. (...) E por vezes irrito-me e digo coisas que não queria a pessoas de quem gosto.

(...)

Num período igual ou menor a duas horas adoro a praia.

O Tiago que me perdoe alguma descontextualização, mas estas frases eram-me necessárias.