quarta-feira, 19 de junho de 2013
O acto de fé
O acto de fé não é acreditar na existência de Deus; é acreditar que o nosso melhor se deve a ele, e que o nosso pior existe apesar dele. Ou seja, Deus é o universo observável: só é real na medida em que é possível que alguém o observe, e que essa observação produza efeitos concretos. Fora dessa possibilidade do observador, o universo - e Deus - é irrelevante, porque inconsequente (sem causalidade) e impossível de testar. Neste sentido, Deus é inegável.
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Vai longe
«Os jornalistas aproximam-se de António José Seguro e perguntam: concorda com a greve dos professores em dia de exames? Seguro responde: apelo ao bom senso das partes porque o governo deixou gangrenar o problema. E os jornalistas repetem a pergunta. E Seguro repete a resposta. Percebo o que se passa na cabeça de Seguro durante esta farsa. Por um lado, apoiar a greve seria revoltar milhares de famílias que têm os filhos em pânico e as férias arruinadas. Por outro lado, condenar a greve seria alienar milhares de professores que também votam PS. Melhor não dizer nada e não se comprometer com nada, na esperança piedosa de não assustar as manadas. Seguro representa bem o tipo de político que os partidos geraram: um holograma simpático que, na hora do aperto, não gosta de ser apertado. Vai longe. Nós, com líderes destes, é que não.»
«O Homem Invisível», João Pereira Coutinho
«O Homem Invisível», João Pereira Coutinho
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Santo António já se acabou
Feriado. Aproveito para ir ver o Tejo reconstruído entre o Cais do Sodré e o Terreiro do Paço. Tudo o que foi feito me parece bem, e tudo o que está planeado também. As obras é que ainda não parecem ter fim à vista: quem quer passear tem de tolerar o estaleiro. O pior veio depois. A pretexto de acalmar os miúdos, fomos ao Terreiro do Paço comer um gelado. Sentámo-nos numa daquelas esplanadas com um nome inglês (neste caso, o «Aura Lounge Café») e preços também ingleses. Quisemos experimentar o que o turista experimenta. Não correu bem. Apesar de haver poucas mesas com clientes, tudo demorou muito tempo, o que é particularmente incomodativo para quem tem duas crianças inquietas à espera do gelado. Mas o gelado lá veio: uma bola de chocolate para um, uma bola de nata para outro. Há muito tempo que não ficava tão estupefacto: o gelado de nata tinha sido servido depois do gelado de chocolate e com a mesma colher. Uma Frize Limão também chegou, como dizem, «natural». Para pagar, outra espera de aeroporto. O troco é que não veio. Com espera, ou sem espera. Tivemos de ir atrás dele, para dentro do café, onde uma sala vazia servia de entretém a uma dúzia de empregados. O patrão, evidentemente, estava fora. Uma tristeza. Se Portugal fosse um país que precisasse do turismo, diria que era uma tragédia.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Dois anos de PSD-CDS
Estes dois anos mostraram que foi um erro ter chumbado o PEC-IV e provocado eleições antecipadas. Não porque o PEC-IV fosse solução para alguma coisa, mas porque, com PEC-IV ou com MoU, estes dois anos seriam sempre muito penosos e desgastantes politicamente. Se não estivesse refém da imprudência que são as «directas», o PSD deveria ter percebido que 2011 não era o ano certo para chegar ao poder. Devia ter esperado que fosse o PS a aplicar as medidas inevitáveis de aumento de impostos e cortes nos apoios sociais; devia ter obrigado José Sócrates a cumprir esse papel. Mas Passos Coelho percebeu que o PSD não o toleraria mais tempo na oposição e trataria de o substituir entretanto. Por isso, saiu-nos a fava, um governo liderado pela dupla Passos Coelho / Miguel Relvas, dois políticos que não são melhores do que a pior dupla que já liderou o PSD, os inefáveis Luís Filipe Menezes e Ribau Esteves. O resto é incontroverso: foram dois anos de pesadelo, que só um primeiro-ministro muito hábil poderia ter tornado diferente. A substituição de Miguel Relvas por Poiares Maduro (e Marques Guedes), e a eventual remodelação nas finanças a acontecer até ao final do ano, darão ao governo uma estabilidade que, aliado ao facto de o PS estar confortável com António José Seguro, levarão este governo até 2015, onde a única questão em aberto será saber com quem irá o PS coligar-se.
terça-feira, 4 de junho de 2013
Some other
«We’re conquistadors. I’m Vasco de Gama and you’re some other Mexican.»
Roger Sterling - Mad Men, «A Tale of Two Cities» (2013)
Roger Sterling - Mad Men, «A Tale of Two Cities» (2013)
domingo, 2 de junho de 2013
Os sub-chefinhos
Os sub-chefinhos são patéticos. Os sub-chefinhos, nós, somos patéticos. Falo da epidemia do empratamento caseiro. Da pandemia (porque o fenómeno é global) das candidaturas espontâneas ao guia Michelin. O que se passa é o seguinte: somos uns snobes. Todos. Em vez de estar, diligentemente, a tentar aprender e reproduzir as receitas das nossas mães, passamos os fins-de-semana a fazer aveludados de castanhas quando uma sopa de espargos servia perfeitamente, a fazer braseados quando o que queríamos era um grelhado, a fazer camas em lugar de acompanhamentos de travessa. A culpa é da televisão. Da televisão por cabo, sejamos justos com Filipa Vacondeus - que nos ensinava como fazer um jantar para 12 pessoas com recurso aos restos do almoço de ontem - e, vénia prolongada, Maria de Lurdes Modesto. Elas - não é pormenor tratarem-se de mulheres - fizeram serviço público, explicavam como se usava o azeite e o alho. Os chefes da televisão por cabo, pelo contrário, todos homens e quase todos estrangeiros, não estão ali para fazer serviço público. Estão ali para, sobretudo, alimentar o ego do espectador. Do espectador masculino. Não é por acaso que aquela actividade ganhou a alcunha de food-porn: é porque apela quase exclusivamente aos homens. Àqueles homens, como eu, que não vêem na cozinha o espaço utilitário que é, que serve para alimentar, diariamente, uma família. Não: para nós, a cozinha é só mais um palco ao nosso dispor, de onde esperamos sair em ombros, sob um coro de ovações. Não entramos na cozinha para servir quem nos vai acompanhar à mesa, mas para chamar a atenção para o nosso talento. Isto é uma vergonha. Eu nunca fiz um arroz de pato (verdade), mas sou frequente no magret de pato acompanhado por couscous de sultanas e amêndoa torrada. Vê-se logo que é uma receita toda posta em bicos dos pés porque é preciso dois itálicos para a escrever correctamente. Aquilo que nós, os sub-chefinhos, devíamos ser era ajudantes de cozinha. Das nossas mães. Que já o foram das nossas avós. Porque as nossas mães são capazes de preparar um almoço faustoso, mesmo quando só telefonamos a avisar que vamos aparecer meia hora antes. Nós não. Nós, os sub-chefinhos, começamos logo por não preparamos almoços, só jantares. E só preparamos jantares com uma semana de antecedência. Precisamos de uma semana para consultar a internet, toda a biblioteca de livros de cozinha que temos em casa (as nossas mães têm só dois livros, escritos à mão, todos cheios de nódoas), para perceber onde vamos poder comprar óleo de peixe e as ervilhas-bebá, o anis-estrelado e o estragão. Para depois, quando chegado o dia, cometermos o pecado original do sub-chefinho: o empratamento. Onde já se viu um bom anfitrião empratar coisas? O empratamento é o derradeiro gesto para chamar a atenção do comensal que, coitado, está com fome e não quer ser incomodado, para o nosso enorme talento. É de um mau gosto atroz. A minha mãe, que, como todas as mães de Portugal, cozinha maravilhosamente, nunca empratou nada na vida. Aliás, o verdadeiro talento perdido da tradição portuguesa é, como diz e muito bem Quim Barreiros, o enfeitar da travessa. Uma travessa bonita é um elogio ao convidado; um empratamento foleiro (são sempre) é um convite à glorificação do sub-chefinho. Como se não bastasse as pessoas terem que aturar todos os nossos devaneios regionais-gastronómicos (quem não adora a cozinha tailandesa), ainda têm que ser sujeitadas às nossas idiossincrasias estéticas e a esse nacional-socialismo culinário que é o empratamento: vais comer o que eu quero que comas, como eu quero que comas, e na precisa quantidade que eu quiser. Por isso, paremos de empratar cenas, deitemos fora todos os livros de cozinha que não foram escritos por (a) a nossa avó ou (b) a Maria de Lurdes Modesto, e concentremo-nos em tentar fazer os pratos com que crescemos. Não vamos conseguir, porque nos falta uma grande dose de humildade, mas far-nos-à bem tentar. Agora tenho de acabar o texto porque os meus pais vêm jantar cá a casa e, felizmente para eles, a minha mulher (que não é uma sub-chefinha reles como eu) preparou um coelho guisado na panela com arroz de miúdos (absolutamente não-empratável) divinal e ainda tenho de ir comprar vinho.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
O quinteto Bryan Devendorf
Após estes anos todos, Bryan Devendorf continua a ser a razão pela qual se ouve esta banda.
terça-feira, 21 de maio de 2013
Empreendedorismo como deve ser
Tenho por Miguel Gonçalves o mesmo atrito que qualquer pessoa de bem deve ter. Também mantenho uma distância saudável do culto do empreendedorismo selvagem quando este é usado para condenar uma certa classe média que, naturalmente, tem como expectativa de vida um «emprego». Nem todos nascemos para ser empreendedores, e os empreendedores deveriam saber que essa é uma óptima notícia para eles. Por isso, devo dizer que ontem, quando deram voz a um miúdo empreendedor de 16 anos no Prós e Contras, não estava à espera de ser supreendido. Mas fui. O nome do miúdo é Martim Neves. O seu discurso é exactamente o discurso que qualquer empreendedor deve ter: focado nos dados da equação e pouco interessado em moralismos estapafúrdios. Foi comovente vê-lo explicar à Professora Doutora Raquel Varela como se cria emprego, ou a dizer, e bem, a Fátima Campos Ferreira que não tinha achado «saudável» o escárnio da plateia sobre o «empreendedorismo». Que o país - e o Miguel Gonçalves - não estrague o Martim Neves.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
terça-feira, 7 de maio de 2013
Lotação 136
“Lotação 136”
Sessão de gravação de álbum ao vivo
Teatro Aberto
No dia 25 de Maio, às 22h00, em ponto, os Trêsporcento subirão ao palco da Sala Vermelha do Teatro Aberto, em Lisboa, para um concerto especial, que será registado e editado em disco.
«Lotação 136» foi pensado como um espectáculo de grande comunhão entre o palco e a plateia, como uma homenagem que os Trêsporcento querem fazer ao seu público, convidando-o a fazer parte da gravação de um álbum ao vivo. Será recriado em palco um ambiente único, onde a informalidade da sala de ensaios se cruzará com uma cenografia cuidada e atenta ao mais pequeno pormenor.
A vontade de fazer um registo ao vivo existia há algum tempo. As canções de Trêsporcento (EP, 2009), Hora Extraordinária (2011), e Quadro (2012), ganham uma injecção de energia ao vivo difícil de conseguir em estúdio. O som cresce, a batida acelera, e temas como «Dás a Mão e Não Sentes» ou «Espero» ganham vida própria em palco. «Lotação 136» é sobre essa metamorfose que o público opera sobre as canções dos Trêsporcento e sobre a vontade de a partilhar. A lotação limitada a 136 espectadores e as suas características cénicas fazem da Sala Vermelha do Teatro Aberto o espaço ideal para essa cumplicidade procurada.
Bilhetes e reservas disponíveis no Teatro Aberto (bilheteira@teatroaberto.com; tel: 213 880 089; Praça de Espanha, Lisboa) e na Bilheteira Online (http://www.bilheteiraonline.pt). Um exemplar da edição física do disco será entregue gratuitamente a todos os que marcarem presença no concerto. O disco tem data de edição marcada para o segundo semestre de 2013.
segunda-feira, 18 de março de 2013
segunda-feira, 11 de março de 2013
segunda-feira, 4 de março de 2013
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Cascatas
«É uma das canções de "Quadro" que há mais tempo tem vindo a ser tocada ao vivo pela banda; durante o período de arranque do processo de escrita do álbum, "Cascatas" serviu de mote, quase como manifesto fundador, e surge agora como escolha natural para single de apresentação.»
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