sexta-feira, 31 de dezembro de 2004

234, 233, 232...

Estou em casa de um amigo a celebrar a coisa. Há garrafas por aqui e por ali. Há também não um, mas dois PCs ligados e on-line. Fica o aviso: há sérias possibilidades de aparecer por aqui alguns textos escritos sob influência de certas e determinadas substâncias. Não é o caso deste. Bolas, ainda nem são nove da noite.

Mark Tucker

Descoberto através do Muitas Coisas.

ano novo vida velha

Percebo que não quero desejar nada de extraordinário para 2005. Talvez seja por isso que nunca tenha gostado particularmente dos rituais de passagem de ano. Para já irrita-me a expressão mais usada por estes dias: «onde vais passar a passagem de ano?» Passar a passagem? Poupem-me. Não me toca também aquele sentimento de pessimismo da passagem de ano. Pessimismo?, pergunta o leitor, mas então não é o optimismo o sentimento associado ao «ano novo»? Não, não é. O optimismo não é mais do que um estado de negação do pessimismo. Pela experiência sabemos que vamos chegar ao final de 2005 a pensar ainda bem que vem aí 2006. Tal e qual como agora. Por um lado isso explica a euforia generalizada pelo fenómeno: a passagem de ano é o único momento em que não nos podemos lamentar de nada. O ano que acaba de findar já lá vai; e o que acaba de chegar ainda não nos ofereceu nada para além de alcóol e passas. É o momento exacto para inventarmos um optimismo inexistente, porque o estado de regret começará logo no dia seguinte. Puta de ressaca.

Tal como o FNV, o que eu queria é que o ano novo fosse igual ao velho. Já não era nada mau, nada mau mesmo.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2004

A10

Acabo de receber o primeiro número da nova A10. Sim senhora, gostei e tal, a presença portuguesa nesta «nova europa» recomenda-se. Lá para o meio aparece um texto, sobre a Biblioteca da Universidade dos Açores (a.s*), assinado pelo Pedro Jordão. O design é simples e apelativo, as imagens abundam. Como esforço para divulgar a new European architecture parece valer a pena. Só estou para descobrir como veio cá parar a casa, já que eu não me lembro de ter concluído o processo de assinatura, muito menos de ter pago alguma coisa por isto.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2004

2004: O ano da arquitectura

2004 foi fértil em acontecimentos arquitectónicos. Aqui fica uma possível revista:

1. Os estádios do Euro-2004

O resultado global podia ter sido melhor. O Estádio de Braga valeu justamente o Secil a Souto Moura. Ali agarrou-se a oportunidade para fazer uma reflexão sobre o estádio moderno, como por exemplo a supressão das bancadas de topo (que oferecem um ângulo de visão bastante diferente do televisivo, logo menos apelativo), ou a imensa cobertura aberta, «à Siza» como lhe chamou Souto Moura. Ao mesmo tempo é um estádio que vai buscar as suas referências ao Teatro Grego, no modo como usa a topografia e a vegetação (as árvores de proscenio que estão por crescer atrás da baliza que se abre ao céu.) O Estádio de Braga foi, por si, o grande acontecimento do ano. Dos restantes, nota para a intervenção urbana feita nas Antas: mais do que o estádio (limpo, bonito, corrente), aproveitou-se a oportunidade para uma profunda transformação da área, com a introdução de novas referências urbanas (o Parque, a Avenida). Dos restantes, nota para os azulejos de Alvalade, o colorido de Aveiro e Leiria (todos de Tomás Taveira), e para o fecho do Estádio do Bessa, uma caixa paralelipipédica enfiada num tecido urbano apertado, e para o trabalho competente realizado em Guimarães.

2. As Torres

2004 foi também o ano do regresso (ou continuação) da discussão sobre a construção em altura. Deve-se este facto sobretudo à proposta de Álvaro Siza para Alcântara, entretanto já abandonada. Também Norman Foster se juntou à festa com a proposta para a área do aterro da Boavista, com o seu Quarteirão do Design, a sua analogia foleira com a praça de S. Marcos e a sua torre de 100 metros de altura. Foi também publicada a tese de mestrado de José Romano, EDIFICIOS EM ALTURA, FORMA ESTRUTURA, um importante contributo para a discussão.

3. Gehry e os projectos-estrela

A reboque do Parque Mayer lançou-se o tema dos grandes projectos de autores-estrela, membros do star-system internacional. O modo como Frank Gehry foi sendo apresentado nos media nacionais abriu precedentes que por certo vão ser aproveitados no futuro pelas mais diversas entidades (públicas ou privadas) no sentido de fazerem aprovar as suas iniciativas. Em Lisboa, além do já citado Foster, contam-se também projectos de Jean Nouvel (em Alcântara), de Renzo Piano (em Braço de Prata) e da OMA (a Casa da Música).

4. A Casa da Música

É difícil falar da Casa da Música como um evento de 2004: já vem de antes e não acabou ainda. No entanto, 2004 foi ano da concretização do projecto da OMA: as paredes inclinadas cresceram, confirmaram o entusiasmo dos mais crentes e os receios dos seus detractores. Colocada no ponto central do Porto, a rotunda da Boavista, a Casa da Música assume-se como uma referência à escala da cidade, pela sua singularidade e qualidade. Pena que não se tenha protegido a obra se tenha permitido a (futura) construção de um edifício de escritórios, sem história, colado ao terreno da Casa da Música.

5. A Experimenta-Design

Na arquitectura a Experimenta promoveu a divulgação dos projectos dos Silos Automóveis para Lisboa (com uma sigla muito arquitectónica, SAL). Tema essencial numa cidade como Lisboa, os Silos tornaram-se, talvez estranhamente, numa oportunidade para a elaboração de vários projectos arriscados e experimentais. Se atentarmos ao facto de os silos serem estruturas puramente utilitárias e potencialmente desinteressantes, não deixa de surpreender (pela positiva) a qualidade das propostas apresentadas.

6. A iniciativa do Público

(11) Arquitectos Portugueses Contemporâneos, assim se chamou a colecção de fascículos editados pelo jornal Público. Projecto coordenado por Ana Vaz Milheiro, Ricardo Carvalho e Jorge Figueira (os críticos do jornal) foi um acontecimento pioneiro ao nível da divulgação para o grande público.

7. O 73/73

Anunciada a sua revogação, o decreto de lei continua vigente. Até quando?

8. O Concurso para o Museu de Foz Côa

Ganho por uma dupla de jovens arquitectos, Camilo Rebelo e Tiago Pimentel, ambos oriundos do Porto e com a escola de Souto Moura.

9. A reeleição de Helena Roseta

Sem lista opositora. Na cerimónia de tomada de posse, Helena Roseta apresentava no casaco uma rosa cor-de-rosa.

Esta uma lista informal, totalmente improvisada, e obviamente sujeita a actualizações nos próximos tempos. Aceitam-se sugestões.

aviso:

Nunca, em situação alguma, fazer negócios sob o aperto de uma necessidade fisiológica, por exemplo, de ordem urinária ou estomacal. O bom-senso, a calma e a concentração necessários ficarão seriamente ameaçados. Há que estar em harmonia com os elementos se não queremos estar em desarmonia com a carteira.

Feias Artes

O Pedro saiu daqui e foi para ali. Está certo, e pela amostra a mudança foi produtiva. Ou seja, ficámos a ganhar.

quando o ódio cega

No Rua da Judiaria:

«Em momentos de tragédia e necessidade, habitualmente os países colocam de lado as divergências e congregam esforços para a ajuda humanitária. Israel, por exemplo, esteve entre os primeiros a oferecer auxílio aos países do sudoeste asiático afectados pelo terremoto e maremoto de segunda-feira.
Mas é também hábito que estas coisas nunca sejam assim tão simples. O Sri Lanka, provavelmente o país mais afectado, recusou a oferta do governo israelita (ver também BBC - Sri Lanka rejects Israel rescuers), que se disponibilizara para enviar uma equipa de 150 especialistas preparada para montar hospitais móveis, equipados com unidades de emergência, pediatria, radiologia e laboratórios.
A situação é profundamente triste, mas nada disto é novidade. Há exactamente um ano, quando um terremoto de grande escala matou cerca de 20 mil pessoas em Bam, no Irão, grupos humanitários israelitas contaram-se entre os primeiros a oferecer ajuda. Mas o governo iraniano, abrindo os braços perante a gratidão do mundo, anunciou de imediato que estava pronto a receber ajuda humanitária de todos os países – mas que era melhor os seus cidadãos morrem nos escombros do que serem salvos por judeus.
Nada é mais triste do que ver o ódio sobrepor-se à necessidade. Uma vez mais.»

terça-feira, 28 de dezembro de 2004

Susan Sontag (1933-2004)

«None of us can ever retrieve that innocence before all theory when art knew no need to justify itself, when one did not ask of a work of art what it said because one knew (or thought one knew) what it did

in Against Interpretation

segunda-feira, 27 de dezembro de 2004

criar pistas para a compreensão da disciplina

«Um texto sobre arquitectura, num semanário de grande tiragem como o Expresso, obrigado ao figurino mais ou menos fixo de caracteres, será, como eu o entendo, primeiro que tudo, uma tentativa - a pretexto da exposição de uma obra e do respectivo autor - de criar pistas para a compreensão da disciplina.»

Manuel Graça Dias, in 30 Exemplos, (Arquitectura Portuguesa no Virar do Século XX)

A Relógio de Água volta a publicar Graça Dias. Desta vez é a colectânea dos seus textos publicados no Expresso, em regime de alternância quinzenal com José Manuel Fernandes. Sempre me cativou esta capacidade de falar sobre arquitectura com palavras não técnicas, com um discurso fluente e descodificado, que Graça Dias tão bem faz. A crítica/divulgação da arquitectura na imprensa não-especializada em Portugal é quase inexistente, o que se torna particularmente preocupante devido ao facto de a arquitectura ser uma actividade pública extremamente complexa que urge clarificar ao olhos da opinião pública. Os textos reunidos neste livro são um bom exemplo daquilo que se deveria multiplicar.

Oscar

Via Aviz descubro esta pérola no puragoiaba:

«Oscar Niemeyer, ilusionista, é um escultor que passou a vida fingindo, com sucesso, ser arquiteto. Acredita que a casa perfeita é totalmente inabitável pelo ser humano, coisa desprezível que só serve para macular a beleza dos seus desenhos (vale o mesmo para Brasília, cidade perfeita projetada por ele e imune a qualquer coisa que cheire vagamente a humanidade). Odeia a natureza e acha que mato só existe para ser desbastado e coberto de concreto. Ama bigodes gigantes e rampas, parafilias pouco estudadas pela ciência. Quando não está fazendo rabisquinhos, seu passatempo é assinar abaixo-assinados que não lê: apenas confere se Saramago e Chico Buarque também assinaram. É careca e chato. É também elo perdido com o período jurássico, prova de que vaso ruim não quebra e muso da marchinha "a pipa do Niemeyer não sobe mais".»

E nos comentários a este post encontro esta verdade:

«Todo arquiteto deveria ser condenado a morar no mínimo um ano em suas próprias construções!»

O Regresso da Religião

por Vasco Pulido Valente

A América de Bush, a "América vermelha", tornou a pôr a religião no centro da política contra a "América azul" e, sobretudo, contra a Europa. O desprezo que a Europa sente pela América, que reza na escola, que vai à igreja, que prega a abstinência, que não admite o aborto e que vota Bush, é igual ao que essa América sente pela "velha" Europa secular e pelo seu lento "suicídio demográfico". Não se trata aqui de uma discordância temporária ou acidental. Há uma separação drástica entre uma cristandade militante, como nunca o tinha sido desde meados do século XIX, o secularismo que a nega e o Islão por quem ela se julga, ou de facto está, ameaçada. O homem (ou a mulher), que no Texas acredita na literalidade da Bíblia, na santidade da família, na pena de morte e na guerra justa, não pode aceitar, não pode mesmo tolerar, o europeu (ou nova-iorquino) céptico, agnóstico ou francamente ateu,"egoísta demais para fazer filhos" e, sobretudo, desinteressado de um futuro que não verá e que nada o impele a defender.

Um exemplo. Este Natal, a presença incómoda da "América Vermelha" levou a "Newsweek", a "Time" e até Larry King a falarem longa e seriamente da Natividade, isto é, do nascimento de Cristo. O resultado foi desastroso. Porque, para falar da Natividade, ou se repetem as piedades do costume (em parte inspiradas no Evangelho de Lucas e no Evangelho de Mateus), coisa que não leva longe, ou se entra numa exegese que destrói a narrativa tradicional. A "Newsweek", a "Time" e Larry King tentaram escolher o meio caminho e naturalmente falharam. As duas visões não são compatíveis. Pior ainda: uma exclui a outra. A exegese transforma o episódio de Belém, da manjedoura, dos reis magos, da estrelinha e por aí fora num acréscimo tardio com intenções de legitimação e propaganda, com datas claramente erradas, com elementos da literatura apologética grega e latina. A "América Vermelha" não ficou com certeza comovida. E a "América Azul" como a "velha" Europa ficaram com certeza confirmadas na sua indiferença. Os dois mundos não comunicam e o exercício só conseguiu mostrar a distância que os separa. Já não existe um Ocidente, existem dois, de novo divididos pela religião.

in Público, 26-12-2004

domingo, 26 de dezembro de 2004

o nosso modo de estar

- Qual é o caminho para a felicidade?
- Olhe, o caminho não sei qual é, mas uma coisa lhe posso dizer: se houver buracos nesse caminho são da inteira responsabilidade da anterior autarquia.

in Gato Fedorento

volta

Preciso de silêncio para te poder ver e de escuridão para te poder tocar.

sábado, 25 de dezembro de 2004

n.i.b.

Não escondo a minha revolta ao ouvir o discurso da perca de significado do Natal, como «os valores» deram lugar ao consumismo desenfreado. Como o Pai Natal suplantou o menino Jesus. Então o ouro, o incenso, e a mirra?