sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Out of the darkness



I know that it’s true
It’s gonna be a good year
Out of the darkness
And into the fire

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Só para início de conversa



Não só por Maria de Lurdes Modesto ser quem é ou porque o livro está organizado como qualquer livro de receitas deveria estar (o «Ensopado de Borrego», por exemplo, é de «Reguengos de Monsaraz», enquanto que o «Modo Familiar de Aproveitar o Cabrito» é de «Fornos de Algodres»), mas porque logo na segunda frase do prefácio aparece um ponto-e-vírgula precisamente onde deveria aparecer. Isto é algo cuja importância os chacais desta vida nunca alcançarão («alcançarão» poderia ser um ingrediente, vejam lá): aposto que o Henrique Sá Pessoa nunca usou um ponto-e-vírgula na vida, quanto mais bem metido. Parecendo que não, faz toda a diferença.

O meu filme de 2009 de 2010



Just because she likes the same bizzaro crap you do doesn't mean she's your soul mate.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Pôncio



Era um fanático - e eu no futebol só respeito os fanáticos. Do lado oposto da barricada, certo, mas dos que enobreciam a batalha. Mas acima de tudo era um homem de uma capacidade retórica fabulosa (capaz de inventar o sinuoso conceito de «intensidade» no contacto faltoso) apoiada num sentido de humor comovente. Muito provavelmente vai invocar-se a sua «ironia», mas a ironia é uma arma de quem ainda leva as coisas a sério, e nós sempre suspeitámos que Pôncio Monteiro estava ali só para dar baile à malta. Morreu um homem inteligente e, muito provavelmente, bom.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Água fria

O Natal não era suposto ser isto (vocês sabem, festas da empresa, amigos secretos, shoppings ao fim-de-semana, «até 20 euros», este ano não se dá presentes, o vazio instala-se, dá-se presentes outra vez, afinal é natal). Desde que o Natal foi apropriado pelos ateus que já não é Natal, é outra coisa qualquer. Estou a ser desonesto, eu sei. O Natal não foi «apropriado pelos ateus»: os ateus é que nasceram todos em famílias religiosas (não há quem não tenha uma avó católica, pelo menos) e têm vindo a seleccionar muito bem aquilo que é purgado. Isto é, deitaram fora o menino mas ficaram com a água do banho, que está quentinha. Mas sem o menino a água vai esfriar, é só uma questão de tempo.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Carlos Pinto Coelho

Lembro-me de concordar com o fim do Acontece. Era um magazine cultural diário mas um magazine cultural diário frequentemente aborrecido e aparentemente pouco disponível a sair de um círculo relativamente fechado. Era, compreensivelmente, um magazine cultural muito centrado na visão cultural do seu criador que era inevitavelmente diferente da minha. Também me lembro de achar que o Acontece daria lugar a um novo espaço de divulgação cultural mais ágil, mais abrangente, isto era, mais interessante. O que se passou depois foi o que se viu: o Acontece não deu lugar a coisa nenhuma e em vez de um magazine cultural a espaços cativante temos agora nenhum magazine cultural. Houve tentativas, das quais o Câmara Clara é o último exemplo, que só vieram demonstrar a superioridade moral do Acontece. Afinal, os seus defeitos eram o espelho dos seus méritos: ambos decorriam do facto do Acontece ser um programa totalmente dependente da paixão e empenho de uma pessoa só. Que isto não nos surja como uma surpresa e que nos sirva de lição: o que é bom é para se manter e os velhos é que sabem. Carlos Pinto Coelho, fazes falta.

Boas notícias

Câmara de Lisboa tem de pagar 119 milhões por terreno na Alta de Lisboa

Más notícias

O governo PS desistiu de combater o desemprego.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Ficávamos aqui o dia todo

Olha, olha, 2004 outra vez. O debate é bom e o assunto inesgotável, porque a matéria que o compõe vem, sobretudo e para desespero dos profissionais (nós), das reacções emocionais que os edifícios provocam (já demonstrei em sede própria o meu descontentamento com o diagrama). Este é talvez o ponto que mais me afasta da resposta do João, isto é, não concordo com o subterfúgio hábil de desligar a má construção da arquitectura. Porque a má construção, mesmo quando realizada sem a intervenção de qualquer arquitecto (mesmo que seja o filho do construtor civil que tirou o curso «na privada» para assinar os projectos do pai), é arquitectura, na medida em que é a materialização de uma vontade, mesmo que uma vontade sub-consciente. É arquitectura sem arquitecto, facto, mas não é uma arquitectura totalmente órfã: não há pai mas há tios. E os tios são as obras de arquitectura desenhadas por arquitectos que essa arquitectura bastarda quer emular. E se anteriormente havia o modelo que era replicado vezes sem conta, agora não se propagam formas nem protótipos acabados mas um estado de espírito que deifica a criatividade, o novo, o diferente. Se uma estrutura de alçado é de cópia fácil (não é preciso ser um rocket scientist para perceber uma relação de proporcionalidade entre o vão e o paramento), a natureza da arquitectura contemporânea não se coaduna com exercícios de cópia e multiplicação (aquela janela só faz sentido naquela obra naquele contexto naquele ano naquele mês.) É por isto que os prédios de rendimento do século XIX não são maus (porque o que copiavam prestava-se a cópias) e que Massamá é mau (porque não sabe o que copiar). Uma cópia de uma obra do Turner resulta (tanto que alimenta o mercado da burla), uma cópia do urinol do Duschamp é apenas um urinol.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

É educado porque é rico

«Ao contrário do que julgam os políticos desta democracia em que vivemos, um país não é rico porque é educado, é educado porque é rico.»

VPV

Esta é uma das linhas que separa a esquerda da direita, e o Vasco Pulido Valente, apesar de tudo, ainda está do lado de cá.

Zooey

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Lennon

Na clássica disputa entre Lennon e McCartney escolho George Harrison.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

2010 (2)

O outro álbum do ano, desta vez do estrangeiro, foi, mas com duas voltas de avanço, este:



E logo com dedicatória à nossa cidade.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

2010

Não há listas para ninguém, mas se me perguntarem pelos «álbuns do ano» ou o que é, tenho resposta pronta.



Vénia.

Foguetes

(...) Em Setúbal, na noite em que Sá Carneiro morreu, houve foguetes pelo ar. É verdade. Foguetes que sacudiram os céus da cidade. Rejubilavam. Quem pôde ser tão patife? A coisa não foi feita com dissimulação, e os comunistas mostraram abertamente os seus sorrisos e o seu triunfo. Exibiram provocatoriamente a sua satisfação. (...)

Miguel Morgado

Wikiloucos

Façam o que fizerem, não o matem: fazer de Assange um mártir é a última coisa que queremos.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Sá Carneiro

Dois homens fundaram a direita democrática em Portugal. Um foi Sá Carneiro, o outro acabou ministro do PS. A tragédia também passa por aqui.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A fé do ateísmo

Hitchens, sem surpresas, foi o grande vencedor da noite que acabou com 32% da audiência a favor da bondade da religião e 68% contra.

A Palmira, sem surpresas, fala do que não sabe (ou então é apenas desonesta). À entrada para o debate, a plateia estava assim distribuída:

A favor: 22%
Contra: 57%
Indecisos: 21%

À saída, depois do debate, surgem os números apontados pela Palmira:

A favor: 32%
Contra: 68%

Ou seja, o que aqui temos é um distribuição absolutamente cristã dos indecisos: dos 21% de indecisos iniciais, 10% foram a favor da moção e 11% contra (como há um arredondamento à unidade, podemos estar perante uma distribuição 10,5 / 10,5). Isto, para a Palmira F. Silva, representa uma grande vitória de Hitchens.

Por amor de Deus.

Portanto, calem-se

Desemprego na Alemanha cai para nível mais baixo em 18 anos

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

As contas fabulosas de Carvalho da Silva

Vamos lá então. Carvalho da Silva diz que «aderiram à greve mais de três milhões de trabalhadores». Carvalho da Silva diz o que quer, mas é nossa obrigação fazer algumas contas básicas. Primeiro, os dados:

População de Portugal: 10.645.383
População Activa: 5.582.700
Desempregados: 608.514 (831.822 real)
Número de empresas em Portugal: 348.994
Independentes: 424.285

Partindo do princípio de que as 348.994 empresas portuguesas têm um patrão cada uma, o número de pessoas passíveis de fazerem greve em Portugal é o seguinte:

5.582.700 - 831.822 -348.994 - 424.285 = 3.977.599

Ora, destes três milhões, novecentos e setenta e sete mil, quinhentos e noventa e nove trabalhadores, há que estimar uma percentagem de pessoas que, não aderindo à greve, não foi trabalhar devido à greve dos trabalhadores do sector dos transportes. Para efeitos desta nossa conversa aqui, digamos que essa percentagem é de, hum, 24,577% (ou seja, 1 em cada 4 trabalhadores tentou ir trabalhar mas não conseguiu). Não parece descabido. Assim, temos mais este dado:

Estimativa do número de trabalhadores que não foram trabalhar devido à greve dos trabalhadores do sector dos transportes e não porque «aderiram à greve»: 24,577% x 3.977.599 = 977.574

Estamos então em condições de apresentar o número de trabalhadores (empregados por conta de outrem) que trabalharam efectivamente em Portugal no dia 24 de Novembro de 2010 segundo Carvalho da Silva:

3.977.599 - 977.574 - 3.000.000 = 4.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A cimeira

Na rádio, há três assuntos que concentram todas as atenções dos jornalistas:

1. Saber quem vem, quantos vêm, onde ficam, o que comem, como se deslocam, a quem deram beijinhos, se gostam de croissants ao pequeno-almoço;

2. O trânsito.

3. As contra-manifestações: os malucos anti-NATO têm tanto tempo de antena como a cimeira em si (ainda agora no noticiário das 14h00 a reportagem de maior duração foi sobre umas conferências quaisquer quer iriam juntar 200 pessoas anti-NATO, «inclusivamente estrangeiros»; o porta-voz elaborou demoradamente sobre a «forte possibilidade» de desarmamento nuclear dos EUA.)

Tanto? Tanto, não: menos. Ainda não consegui saber o que está em causa nesta cimeira. Mas já sei, claro, que Durão vai «chegar de carro eléctrico».

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

«Olá»

A primeira palavra (enfim, a consoante não está lá mas adivinha-se) do meu filho. E repete-a, «óoá», «óoá», «óoá», como que a lembrar que ele chegou ao mundo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

E se isto não é de ir às lágrimas então o que é

Isto ao vivo é tão bom como imaginámos

The Walkmen

Se eu mandasse todas as bandas seriam como os Walkmen, todos os álbuns se chamariam Lisbon, e todas as primeiras partes seriam feitas pel'Os Golpes.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Os mercados

Our very own Rogério Casanova está agora no Ípsilon, uma transferência que, desde já, fez baixar os juros da dívida portuguesa, convenceu um jogador do Barcelona a vir para o Benfica, e juntou uma pequena multidão no Saldanha em ovação (mesmo estando a temperatura nuns gélidos 16º):

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A funcionária da EMEL

Às vezes deixo o meu filho em casa dos meus pais. É frequente não haver lugares para estacionar perto da porta do prédio («perto da porta do prédio», isto saiu-me assim sem esforço, atenção), pelo que sou forçado a um comportamento que não me orgulha: deixar o carro em cima da passagem de peões com os quatro piscas. Não demoro mais de cinco minutos, mas ainda assim sei que ao fazê-lo estou a ser um selvagem. Mas hoje, gloriosamente, havia um lugar que prontamente aproveitei. Demorei os mesmos cinco minutos e, quando voltei, tinha uma funcionária da EMEL à minha espera com uma multa. Moral da história? Não, não é esse que vocês estão a pensar. Acontece que esta funcionária da EMEL era uma cidadã de leste que apresentava um desempenho estético muito pouco consentâneo com aquilo que esperamos de um funcionário da EMEL. Além de impossivelmente bonita, foi absurdamente simpática: quando me viu chegar ao carro sorriu, mostrou-me o papel com a multa já passada e explicou «deixei o seu carro para último, mas já não pude esperar mais». Ainda respondi qualquer coisa antes de cair em mim. Não é todos os dias que acontecem pessoas assim. Eu deveria estar agradecido por haver pessoas assim a passar multas da EMEL. Porque, e era aqui que eu gostaria de chegar, esta funcionária da EMEL não era apenas alguém abençoado pela mãe natureza (obrigado mãe natureza), isso foi apenas uma coisa que lhe aconteceu, mas era alguém que não dormia à sombra da bananeira: ela estava pintada como se fosse à ópera (eu ouvi distintamente a orquestra). Não sei se perceberam: isto é uma pessoa que se levanta todos os dias para passar multas de estacionamento e perde tempo de manhã para se pôr bonita (algo que, imagino, não lhe requer muito esforço). Cavaco, está aqui uma condecoração por dar.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Manuel Cintra Ferreira (1942-2010)

Obrigado ao Futebol Clube do Porto

O meu filho deitou-se nos 2-0 e só acordou às 7:00. Isso mesmo: pela primeira vez na vida dormiu 11 horas seguidas. Ou seja, pela primeira vez em sete meses eu dormi oito horas seguidas. Cabeça limpa é o que se precisa.

(Parece que Villas Boas veio dizer que esta vitória foi um «grito de revolta contra o que se passou no ano passado». Acho isto profundamente deselegante para Jesualdo, que acabou de ser despedido do Málaga. Há que saber ganhar, André.)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Bom dia

- Depois da exibição do Casillas ontem nunca mais digo nada do Roberto.

- Alguém deveria explicar ao meu filho que a hora mudou.

- Não sei se vos disse, mas no outro dia vi dois deputados do CDS no Continente (cada um com a sua família, nas compras).

- Foi no Continente de Telheiras; não sei se vos disse, mas não gosto mesmo nada de Telheiras. Telheiras - e aqui não distingo entre a «parte velha» e a «parte nova» - é o exemplo de como nós não sabemos planear subúrbios como deve ser. Aquilo é uma plantação de edifícios altos e feios sobre uma malha urbana absurda (é só rotundas e pracetas) com passeios de 2,5 metros de largura, passeios esses, ou não estivéssemos em Portugal, já cheios de carros e pilaretes verdes para impedir os carros de estarem onde as pessoas querem que eles estejam. Porque é que aquilo não é um bairro simpático, com jardins e edifícios baixinhos, hã?

- Há uma ruralidade latente em todo o português. Ando a pensar muito nisto há algum tempo e bate certo. Explica a falta de amor que temos pela cidade e pela vida urbana, e a falta de civismo que daí nasce. O civismo é uma coisa urbana, não é rural. O civismo é sermos bem-educados com qualquer pessoa com quem nos cruzemos na rua, sobretudo quando são anónimos, pessoas que não sabemos quem são. O civismo é percebermos que há outras pessoas ao nosso lado que também estão a tentar viver as suas vidas, e que devemos contribuir para facilitar essas vidas. No campo, no meio rural, não há civismo porque toda a gente sabe quem toda a gente é, isto é, a familiaridade destrói o anonimato, que é o mais bonito do civismo. O português não é cívico; é mesmo anti-cívico. Quem tem carta de condução sabe o que digo. Foder os outros parece ser o que motiva o português a sair da cama, porque está convencido de que o andam a foder a ele (este é um ciclo vicioso fácil de entender). Isto acontece porque o português, no fundo, não gosta da cidade. Despreza a cidade, acha-a um mal menor, é apenas o sítio onde arranjou emprego mas mal possa volta para a terra, para a casa com a horta, para o campo de onde a sua família veio mas que entretanto também já está todo fodido. Isto entristece-me. A cidade é a invenção mais bonita da humanidade, e custa-me vê-la tão mal tratada. Custam-me, doem-me, os passeios de Lisboa, as caleiras das árvores de Lisboa, os carros por todo o lado, a Rua Castilho e a Av. Álvares Cabral só com uma faixa por causa do estacionamento em segunda fila. Espero que seja uma questão de geração, isto, e que com o passar do tempo se vá perdendo de vez este apelo pelo campo e que as pessoas decidam de vez ser urbanas e deixar o campo para as empresas agrícolas e seus funcionários, e que se acabe com este novo-riquismo da segunda casa, do casebre para onde as pessoas fogem ao fim-de-semana porque ficar aqui é que não, isto é mau demais. Espero, mas não estou a ver isso a acontecer.

- Fui cortar o cabelo. Reparo que começam a ser menos frequentes os comentários sobre os meus cabelos brancos. Isto significa que começo a ter uma idade mais compatível com cabelos brancos. Eles já não surpreendem. Foda-se.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Márcia



Isto é muito bom.

Lourenças

A Máxima deste mês (qual é o problema?) ensinou-me que a Agustina tem uma neta chamada Lourença que também é escritora, deu-me a oportunidade de lembrar a minha mulher que Lourença era o nome de uma das avós da Agustina e não só uma das suas personagens, e revelou-me que Lourença, a neta, «não sente a pressão de ser neta da Agustina». Mas isso é lá com ela, cada um sabe de si.

(Cruzando algumas fontes, chega-se à conclusão de que os avós maternos de Agustina eram Lourenço (Guedes Ferreira) e Lourença (Agostinha Jurado). Acho isto muito bonito.)

A academia portuguesa sobre o Tea Party

Na TSF oiço um professor de teoria política descrever o movimento Tea Party como «populista» e «profundamente demagógico» porque «se opõe a todas as medidas do governo democrata de Obama». Não gosto do Tea Party (por causa dos malucos de pistola em punho e bandeira dos EUA na testa) apesar de ter simpatia ideológica por algumas das suas posições, mas não deixo de ficar perplexo pela facilidade com que alguém arrisca a sua reputação académica com apreciações deste género, sobretudo porque em Portugal há um partido populista que se opõe a todas as medidas do partido do governo (seja ele qual for) e que não é tão rápido a ser apelidado de «profundamente demagógico» por professores de teoria política. Faz lembrar um pouco a crítica de cinema: quando a obra é portuguesa, há sempre nuances que atenuam o seu falhanço; quando a obra é norte-americana, é sempre o reflexo de uma sociedade primária, inculta e estranha, cujo sucesso comercial é um atestado à sua própria estupidez. Noutro plano, é também um exemplo em como o esforço para se perceber as «especificidades culturais» fica à porta dos países mais ricos que Portugal. Não deixa de ser uma atitude muito provinciana, mas é o que temos.

Adenda: Parece que o Filipe ouviu o mesmo que eu.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Nota

Para quem vive na convicção de que limpar fezes humanas de uma parede estucada e pintada de branco é uma tarefa fácil: não é.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Um problema político

Quando não escreve sobre pilinhas vale a pena ler o João César das Neves.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Mas depois melhora

Agora que se instalou a ideia de que Manuela Ferreira Leite tinha razão sobre todas as questões que nós sabíamos que Manuela Ferreira Leite tinha razão, convinha não deixar passar a oportunidade para afirmar que até nas questões em que nós achávamos que Manuela Ferreira Leite não tinha razão Manuela Ferreira Leite tinha razão.

The Perfect Home

Entretanto, a BBC continua a educar o mundo, pelo menos aquela parte do mundo que está disponível para ser educada pela BBC. Desta vez convidou Alain de Botton a passar o seu The Architecture of Happiness para televisão. O resultado são três episódios de 42 minutos absolutamente obrigatórios para quem o mundo construído não é indiferente. Está tudo no YouTube.

Uma pessoa não pode ligar-se ao mundo sob pena de entrar em profundo desespero

Heloísa Apolónia, deputada do partido Os Verdes, um partido que representa uma larga fatia da população portuguesa conhecida por «Heloísa Apolónia», à saída de uma reunião com o ministro das finanças, alertou para o desaceleramento da economia portuguesa. Não teria feito mal nenhum que o partido Os Verdes tivesse tido Katharine Birbalsingh como professora na escola:

terça-feira, 12 de outubro de 2010

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Seiscentos quilómetros

Às nossas habituais insuficiências técnicas juntaram-se alguns azares (aquilo do baixo) e insuficiências técnicas da sala (uma palavra daqui para a organização que foi impecável), mas apesar de tudo os 600 km valeram a pena. Ficou tudo gravado.

Deixem-me sonhar

Atribuir o Nobel da Paz àquele chinês (não tenho tempo de ir ao google) pode ser um acto deliberadamente hostil em relação à China (parece que o senhor é favor dos, como é, «direitos humanos»), mas a maior hostilidade do comité de 2010 foi em relação à América Latina com a atribuição do Nobel da Literatura a Vargas Llosa, uma pessoa que é a favor, como é, da liberdade. Pode ter sido pela literatura (não li o suficiente para ter opinião, confio nas pessoas mais avisadas), mas eu quero acreditar que foi pela política. Deixem-me sonhar.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Pudor

Continuo, apesar de tudo, a gostar de Villas-Boas: ele sabe que é preciso alguma agressividade retórica para motivar uma equipa a ganhar títulos, o que gera, por vezes, a sensação de que estamos perante alguém arrogante. Tenho de aceitar isso. Não me faz nenhuma confusão que o treinador do Porto ache que a sua equipa é a melhor do país e que use essa convicção a seu favor. O que se passou em Guimarães foi também fruto de uma convicção, a convicção de que teria havido um penálti que o árbitro não viu. A sua inexperiência fez o resto. Agora, depois dessa convicção ter sido desmentida, Villas-Boas publica um mea culpa. Fica-lhe bem.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

5 de outubro

Não sou republicano, não sou monárquico: o tipo de regime é apenas um instrumento para a democracia, que é o que verdadeiramente interessa. Estou também do lado daqueles que dizem que comemorar a I República é comemorar um regime que nos deveria envergonhar. Um regime que, é bom não esquecer, criou as condições para o Estado Novo: tivesse a monarquia constitucional conseguido reformar-se e muito dificilmente apareceria alguém como Salazar. Também acho, já agora, que a história de Portugal merecia uma monarquia. Uma monarquia moderna, desempoeirada, amada pelo povo e controlada pelo parlamento. Mas, como digo, isso só valeria a pena se contribuísse para a qualidade da nossa democracia, que tem sido muito maltratada na república (e talvez pela república). Como um país não é um tubo de ensaio, é quase impossível que uma nova monarquia venha a ser testada, pelo que será bom concentrarmos as nossas energias em fazer desta república uma república melhor.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Socratismo deixou-nos mal habituados

O Eduardo Pitta não concorda que os partidos oiçam o povo.

Romário Deputado

Romário, o segundo melhor avançado-centro que vi jogar na vida (logo atrás de Ronaldo, o fenómeno) e notável aforista («Pelé calado é um poeta») foi eleito deputado pelo Estado do Rio de Janeiro.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O património

Mas não são precisas grandes elaborações macro-económicas para explicar o país. O país é o retrato das prioridades do seu povo, e elas são evidentes. Basta olhar para o nosso património para se ficar com uma ideia daquilo que nós queremos. Por exemplo, para o Palácio da Ajuda, sede do Ministério da Cultura e do IGESPAR. Vão lá, dêem uma volta pelos corredores, peçam para espreitar. Depois voltem, voltem para o país das renovações das frotas automóveis e dos TGVs e digam o que viram. Pode ser que alguém oiça.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

«Serviço público»

A dona Judite poderia fazer o favor de convidar a dona Manuela para uma entrevista?

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Concerto

Hoje, pelas 22:30 (vocês sabem como estas coisas são), os Trêsporcento chegam à Glória. O espaço é bonito, a localização é trendy trendy, e eu garanto que houve ensaios esmerados. Até logo.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Do calibre



Do Cachimbo

Bom fim-de-semana

«Há um par de anos foi o revivalismo pós-punk. No Verão passado a moda eram os sintetizadores à anos 80. Este ano foi a recuperação do surf-rock. Será que as novas gerações estarão condenadas a reviver musicalmente a juventude dos outros?»

No Minoria Ruidosa

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Video saved the radio star



(Apesar do final demasiado anúncio da super-bock para que o «arraial» seja verosímil, este vídeo tem a grande virtude de ter devolvido a esperança a uma canção que, na minha opinião, não era bem aquilo. Está aqui muita gente de parabéns.)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Manuel Alegre



A poesia transforma a realidade porque a realidade não existe independente de nós próprios, é apenas a percepção do mundo que nos rodeia naquele preciso instante, díspar, por natureza, da apreensão cognitiva que qualquer outra pessoa possa fazer dos mesmos dados, se quisermos. E é por isso que vai daqui um grande agradecimento a Manuel Alegre, cujas palavras - fortes, convictas, empolgantes - têm contribuído para sedimentar a ideia de um mundo onde o Professor Aníbal Cavaco Silva é o melhor candidato à Presidência da República Portuguesa. Por muito que me esforce não sou capaz de deixar de ver aqui uma cara.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

«Jornalismo de "serviço"»

«A entrevista "non stop" que, desde que foi condenado, Sua Inocência tem estado ininterruptamente a dar às TVs teve o mais respeitoso e obrigado dos episódios na RTP1, canal que é suposto fazer "serviço público".

Desta vez, o "serviço" foi feito a um antigo colega, facultando-lhe a exposição sem contraditório das partes que lhe convêm (acha ele) do processo Casa Pia e promovendo o grotesco julgamento na praça pública dos juízes que, após 461 sessões, a audição de 920 testemunhas e 32 vítimas e a análise de milhares de documentos e perícias, consideraram provado que ele praticou crimes abjectos, condenando-o à cadeia sem se impressionarem com a gritaria mediática de Suas Barulhências os seus advogados, o constituído e o bastonário.

Tudo embrulhado no jornalismo de regime, inculto e superficial, de Fátima C. Ferreira, agora em versão tu-cá-tu-lá ("Queres fazer-lhe [a uma das vítimas] alguma pergunta, Carlos?"). O "Prós & Contras" só não ficará na História Universal da Infâmia do jornalismo português porque é improvável que alguém, a não ser os responsáveis da RTP, possa chamar jornalismo àquilo.»

Por Manuel António Pina, o maior

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Marinho Pinto

«Não li o processo, mas as penas parecem-me exageradas.»

(Mas o momento mais assustador do infeliz bastonário foi a sua gaguez súbita - ele que é um homem de palavra fácil - quando ouviu a palavra «vítimas». Como é possível uma das classes profissionais mais importantes do país estar representada por alguém que perdeu totalmente o contacto com aquilo que é o essencial na justiça?)

When shit hits the fan (II)

Cá está.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

When shit hits the fan

Sobre o processo Casa Pia, o john tem razão: «a merda chegou à ventoinha».

José Torres (1938-2010)

Casa Pia

Dia de leitura de sentença do processo Casa Pia. Tenho duas certezas: um, tudo o que fique aquém da condenação de todos os arguidos não vai ser tolerado pela opinião pública, e, dois, com as eventuais condenações vão começar a surgir nos jornais mais nomes, outros nomes. Um homem destruído é um homem sem medo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

39

Trinta e nove graus? Percebo as queixas, mas para mim a partir dos vinte e seis é tudo igual.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Um blogue também é para isto

No fim-de-semana passado vi o Tozé Martinho (ou o Tozé Brito, uma pessoa nunca tem a certeza) no supermercado. Acho que ele é mais baixo do que eu. Quem é de certeza mais baixo do que eu é o António Costa. Não o António Costa presidente da câmara, mas o António Costa director do Diário Económico, que passou por mim hoje. Mas já que falamos nisso, o António Costa, não o director do Diário Económico mas o presidente da câmara, é capaz também de ser mais baixo do que eu: quando vivia na Baixa passava por ele algumas vezes no Metro. Ficava sempre com a sensação de que o António Costa andava de Metro para ser visto a andar de Metro, enfim.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sem espinhas



Não festejava assim uma vitória de um clube português que não o glorioso na liga dos campeões desde a vitória do Porto (sim) por 3-2 em San Siro (um do Artur, dois do Jardel). Portugal positivo, ou lá o que é.

(Atentem na legenda desta fotografia: «Superioridad portuguesa». E depois olhamos para o símbolo, cheio de torres e coroas e ameias, e ficamos com vontade de conquistar a Andaluzia toda.)

O post mais importante que li na blogosfera - porque não li nada disto em mais lado nenhum

O lado opaco, no Eterno Benfica.

(Obrigado maradona)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Duas derrotas

O Benfica, se à custa do fundo ou não isso não sei, está a transformar-se num clube trampolim, contratando quase exclusivamente jogadores abaixo dos 24 anos na América do Sul, aqueles que representam um maior potencial financeiro (Di Maria tornou-se no modelo que se quer repetir ad eternum). Começam a faltar referências na equipa e a multiplicar-se «grandes promessas» do futebol argentino à espera de dar o salto. A grande figura da equipa deste arranque de época, Coentrão, representa a antítese desta atitude e era bom que isso abrisse os olhos à direcção: no campeonato português compra-se melhor e mais barato. Enfim, isto para dizer que o problema não está no Roberto, ou pelo menos não está todo no Roberto, que me parece ser um bom guarda-redes a quem aconteceram dois ou três azares que lhe dinamitaram a confiança. O primeiro, claro, foi ter sido contratado por 8,5 milhões de euros.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Menino André

Villas-Boas tem tentado afastar-se do modelo que evidentemente emula (Mourinho), mas se quer ser bem sucedido nessa empreitada terá de evitar alguns deslizes, como a pequena arrogância que ensaiou ontem no final do jogo com o Genk, ao dizer, um, que «quando o Porto disputa um jogador, ele vem para o Porto» e que portanto o Porto nunca quis Sálvio, e, dois, que interpretar a não convocatória de Meireles como um sinal de que o jogador estaria a ser negociado é uma «invenção» dos jornalistas. Tenho alguma estima pelo Villas-Boas (estima que crescerá se se confirmar o seu talento para a profissão que escolheu) e pelo seu pedigree todo - nunca houve um bom treinador beto em Portugal (Norton de Matos foi a última tentativa), já é tempo de alguém limpar a imagem da classe - e por isso custa-me assistir a estes pequenos gestos de suicídio de carácter. A rever.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

À atenção da FPF

Quaresma, o mais talentoso futebolista da sua geração*, está de volta.




* Sim, tenho em conta aqui Cristiano Ronaldo: para Quaresma ter chegado àquele patamar teria bastado metade do empenho e da concentração psicológica, algo que os seus genes lhe negaram.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Luta entre iguais

Claro que gostava de viver numa sociedade que não via na tourada nada mais do que o espectáculo deplorável que é, mas é característica das tradições a sua capacidade para escapar à aplicação do bom senso e ao escrutínio de um juízo informado. Por isso, Portugal, um certo Portugal que as pessoas urbanas como eu esquecem facilmente ou nunca chegam a conhecer, ainda alimenta com paixão a indústria das chamadas corridas de toiros, porque é de uma indústria que se trata: dos honorários dos artistas às receitas das criações dos animais (touros e cavalos), há muito dinheiro envolvido. Não vejo, portanto, o fim das touradas a acontecer para breve, até porque reconheço que há aspectos desta indústria que importa preservar, sobretudo em tudo o que se relaciona com o cavalo (se nos conseguirmos abstrair dos ferros e do sangue percebemos que ali estão cavaleiros de talento invulgar). Mesmo a particularidade mais medieval da chamada tourada à portuguesa, que é a pega do touro por um conjunto de doidos a que chamamos de forcados, é capaz, com algum esforço, de me ensinar coisas positivas, como a coragem e o espírito de entre-ajuda, etc, sem ironia, juro, e não acho que o animal sofra demasiado por ter aquela gente toda à sua volta. Mas depois, vendo a festa pela televisão, vem um comentário, um pormenor quase insignificante que deita por terra qualquer hipótese de eu me tornar um, como dizem, aficionado, como quando ontem o locutor explicava que o touro tinha «investido com nobreza». A palavra «nobreza» é aqui a chave para a minha perplexidade, pois atribuir o conceito de nobreza a um animal revela a tão necessária antropomorfização do touro que justifica o conceito, de outro modo absurdo, de luta entre iguais, tão enaltecido por quem é um apaixonado das lides. E eu não sou capaz de impulsos antropomórficos sobre uma vaca assustada, nem o meu sarcasmo chega tão longe ao ponto de bestializar o toureiro, que seria o caminho alternativo para o encontro dos pólos.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Tango

Isto também é o tempo a passar, as coisas a mudarem sem darmos por isso: descubro, com o patrocínio das redes sociais, que um ex-colega de curso é agora bailarino de tango, imagino que profissional, na Holanda, como num daqueles filmes com o Richard Gere em que as personagens decidem mudar de vida e mudam mesmo, não é como na chamada vida real, onde as pessoas decidem mudar de vida mas não mudam nada. Não sei se ele decidiu, não sei se foi apenas uma coisa que lhe aconteceu, mas estar a dançar o tango na Holanda como modo de vida é uma coisa que impressiona, até os duros de coração têm de reconhecer. Um dia vou chegar à meia-idade e vai acontecer-me aquela crise em que olhamos para trás e pensamos o que teria sido de nós se tivéssemos decidido largar o escritório e ir dançar o tango para a Holanda, não que no meu caso a fantasia seja dançar o tango, não gosto de dançar, seria outra coisa que agora não me ocorre mas que me ocorrerá quando chegar aos 50, e fico com a sensação de que aquele meu ex-colega de curso não vai ter uma crise de meia-idade, ou se a tiver será uma crise ao contrário, olhará para trás e pensará o que teria sido da vida dele se tivesse largado o tango e ido para um escritório, trabalhar das 9 às 19, à frente de um computador, será uma crise de meia-idade sem graça nenhuma, agora que penso nisso.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

terça-feira, 3 de agosto de 2010

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Todos com Eleutério

«Eleutério Cortes, 42 anos, empresário da construção civil, subiu ao volante de uma empilhadora e invadiu, ao fim da tarde de terça-feira, as instalações do Centro Espiritual da Igreja Universal de Reino de Deus (IURD), em Faro.

(...)

"Entreguei cerca de cem mil euros ao pastor. Acreditei em falsos profetas e agora estou arruinado", disse. Eleutério Cortes explicou que foi enganado por publicidade enganosa. "Vendi o barco, cavalos, ouro, material de trabalho e só não vendi mais porque a minha mulher não me deixou", confessou.»

No Correio da Manhã

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O monólogo do umbigo

O Pedro, que é um homem da cultura, reagiu contra os filisteus (de direita) por causa da polémica dos cortes (que afinal já não são) aos subsídios a artistas independentes. Julgo que consigo identificar a classe a quem o Pedro se dirige e percebo perfeitamente o seu incómodo. Mas há mais vida para além da «direita dogmaticamente liberal» e da «esquerda analfabeta» no universo daqueles que questionam a política de apoios do Ministério da Cultura. Eu, que, sim senhora, também defendo o modelo do mecenato (embora reconheça que não é um modelo perfeito e que a sua implementação prática não é tão fácil quanto a sua formulação teórica), percebo o tom de algumas críticas e não são tão rápido a declarar qualquer manifestação de dúvida como «ódio à cultura». A cultura, quando fica em circuito fechado - isto é, quando o universo consumidor se funde quase totalmente com o universo criador - perde grande parte da sua razão de ser, e não é difícil encontrar manifestações culturais culpadas desse pecado. Uma coisa é uma companhia de teatro que vai representar Beckett a Aljustrel, outra é o «criador» que nunca saiu do Bairro Alto e que reclama a mensalidade para espalhar cascas de ovo partidas no chão da galeria com uma legenda a dizer «A CRIAÇÃO DO MUNDO». A «cultura», como tudo, não pode ficar refém dos caprichos daqueles que a produzem, tem de existir, em algum momento, um diálogo qualquer com o resto do mundo. A ideia não é acabar de vez com tudo o que não dê lucro, é acabar de vez com tudo o que não agradece a atenção.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Fábio na piscina dos grandes

Ah, o meu onze, então:

Casillas; Coentrão, Piqué, Mertesacker e Sérgio Ramos; Xavi e Schweinsteiger; Iniesta, Mesut Özil e Mueller; Villa.

A Holanda? Ainda pensei em aldrabar aqui o onze como faz toda a gente (inventar um 4-4-2 para meter 4 médios ofensivos a titulares, como fez o Freitas Lobo lá no Expresso ), mas nem o Sneijder foi capaz de vergar os meus princípios: o Özil é uma maravilha e foi mesmo o melhor número 10 da copa.

ADENDA: No banco, obviamente, D. Vicente.

Somos todos particularmente espanhóis

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Trôpega clonização

Gostar de Cristiano Ronaldo era também um acto de resistência. Perdoávamos-lhe o narcisismo, o provincianismo, o deslumbramento, a iliteracia e a bazófia porque os seus opositores eram muito piores. Ele nunca foi um dos nossos por isso nem sequer era necessário apelar ao pronto sentimento de classe. Consagrar-lhe tão obeso estatuto de estrela era uma maneira de continuar a preservar no futebol um dos seus maiores trunfos: o jogo é uma vibrante perda de tempo.
Agora saímos órfãos. Com esta trôpega clonização CR9 arrumou moralmente as botas.

Tiago Cavaco, 09-07-2010

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Viva a Espanha

Desculpem lá, mas estava-se a ver. Eu gosto muito desta selecção alemã, gosto, sobretudo, dos miúdos - do Özil, do Khedira, do Mueller - como sempre gostei do Podolski e do Schweinsteiger, mas não se pode construir uma selecção campeã do mundo às costas de uma selecção campeão do mundo em sub-21 (falta acrescentar o Neuer e o Boateng). Muito provavelmente, esta geração irá ser campeã da europa em 2012 e chegará à final em 2014 (onde perderá pela margem de um golo contra o Brasil, num penalti muito duvidoso sobre o Neymar), mas este ano tinha de ser mesmo da Espanha. Gosto muito de ver a Espanha jogar. Gosto muito daquela circulação de bola e não concordo nada com os que a criticam: o problema da aparente falta de eficácia daquela circulação de bola nasce da atitude de qualquer adversário (Portugal, Paraguai, Alemanha) que dá por dado adquirido a sua inferioridade e se limita a aguardar por um erro espanhol. Mas aquilo que as equipas de Mourinho conseguem - transformar a ausência de posse de bola numa vantagem psicológica - mais ninguém consegue, e com o passar dos minutos começa a instalar-se uma sensação de inevitabilidade: mais cedo ou mais tarde o golo vai aparecer, nem que para isso tenha de lá ir o defesa central cabecear a bola. Aquele lance do Pedro no final do jogo (peço desculpa por ter dito em tempos que achava o Pedro um bom jogador), desperdiçando de uma forma absolutamente distrital o segundo golo que mataria o jogo, poria qualquer selecção num estado de nervos incapaz de evitar o empate. E se anteontem quase que acreditámos que o Uruguai iria chegar ao terceiro, nem por um momento alguém acreditou ontem que a Alemanha iria marcar um golo que fosse. Gosto muito da forma de jogar da Espanha, e acho que esta selecção representa tudo aquilo que o futebol deveria ser. E, obviamente, acho que seria um grande serviço ao desporto a Espanha ser campeã do mundo: provaria que se pode ganhar coisas a jogar bonito, algo extremamente necessário depois daquilo que se passou com o Inter este ano. O problema não está na existência de uma equipa que consegue ganhar tudo sem ter a bola, está no conjunto de equipas menores que decidem emular um estilo de jogo para o qual não têm talento.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sneijder

«Wesley Sneijder foi baptizado dias antes de partir para a África do Sul.

O jogador holandês, que ontem marcou um golo crucial na vitória sobre o Uruguai, vive um dos momentos mais altos da sua carreira, pouco tempo depois de ter assumido um novo rumo para a sua vida espiritual.

O interesse de Sneijder, que tem possibilidades de se sagrar o melhor marcador da prova, terá sido despertado por uma ida à missa com o resto do plantel do Inter de Milão, a equipa italiana onde joga, onde sentiu “uma força e uma confiança que me perturbaram”. Depois de fazer um percurso de catequese com o capelão do clube, foi baptizado em finais de Maio.

Agora na África do Sul Sneijder admite que reza todos os dias, e leva consigo o terço oferecido pela sua noiva, com quem faz tensões de se casar pela Igreja quando terminar o campeonato.»

Via (não é tudo?) Bola Branca

Embora não precisássemos de mais argumentos para declarar Sneijder o melhor dos holandeses.

O Maxi

(...) Num lance rápido o jogador uruguaio marcou o 2-3 (foi Maxi Pereira mas podia ter sido qualquer outro; Forlán à parte, a equipa é feita de gente anónima, jogadores medianos que apenas ganham espessura épica com a sua circunstância) (...)

Eduardo Nogueira Pinto

A frase citada encaixa na perfeição no raciocínio comovente do Eduardo - mas não é verdadeira: o Maxi, ó Eduardo, «gente anónima», jogador mediano? O calor e o meu coração não me permitem aguentar coisas destas. O Maxi Pereira anda há três anos a sedimentar a sua espessura épica que nada deve à circunstância (que é a mesma de um conjunto de pessoas epicamente bidimensionais como, vá, o Luís Filipe) mas sim à espantosa capacidade que ele tem de tornar evidente a sua dedicação não ao futebol, não à pátria, não ao clube (tudo entidades abstractas), mas sim aos 90 minutos de cada jogo em concreto. Ver o Maxi Pereira trabalhar semana após semana redime temporariamente todos os males do mundo. Admito que o seu estilo de jogo possa ser comparado ao de um funcionário público empenhado e muito competente, mas devia ser pecado considerarmos que um funcionário público empenhado e muito competente é gente anónima, que é um jogador mediano sem espessura épica, que no fundo é alguém que não tem nem a aparência física nem o currículo para trabalhar no sector privado. Eu não tenho dúvidas nenhumas sobre isto: se no Uruguai jogassem 10 Maxis à frente da baliza, a Holanda nem voltaria para a segunda-parte tal seria a vergonha.

Sobre a linha de Cascais

Equívocos, um texto certeiro do Eduardo Pitta.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Rumo à final

Against interpretation



(daqui)

Agora os arquitectos explicam os edifícios através de diagramas coloridos. Os diagramas coloridos explicam o processo que conduziu ao resultado final. Aquilo que devemos admirar não é, portanto, o resultado final - aquilo que irá ser construído e agredir o dia-a-dia do transeunte - mas sim o processo, e com isso o criador reclama para si a atenção devida à obra. O sinal de alarme devia ser dado pelo simples facto de se considerar que a obra carece de explicação, mesmo antes de percebermos que essa explicação não é mais do que uma manobra de propaganda destinada a condicionar a nossa própria apreciação: o arquitecto mostra-nos o edifício e diz-nos como o devemos interpretar. O diagrama assume-se como justificação irrefutável de uma obra que é suportada pelo diagrama - se nada mais existir que a suporte; o arquitecto reclama assim para ele a autoridade de um universo que se justifica a si próprio, como se nada mais houvesse para o justificar. O diagrama é a chave que revela a solução do enigma, e quem não tem o diagrama fica necessariamente sem a solução. É claro que o diagrama quer substituir a crítica - a crítica erudita e a crítica popular - anulando qualquer outra via que não a sua. No fundo, atira os foguetes e apanha as canas. Esta procura de prazer solitário tem um nome.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Esclarecimento à população

Ainda acho que a Espanha tem equipa para a Alemanha.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Brasil - Holanda

Este foi muito útil para eu perceber uma série de coisas.

1. Nunca gostei da Holanda, afinal. Eu cresci a amar - a palavra é mesmo amar - o futebol holandês. Desde criança que, devido à ausência de Portugal nas fases finais seja do que for, a Holanda é a minha selecção. Hoje percebi que «a Holanda» não representa nada mais do que o conjunto dos jogadores que a representam e, sobretudo, representaram. Eu amei a selecção de Gullit, Rijkaard e Van Basten nos anos 80, como amei a selecção de Davids, Seedorf e Bergkamp dos anos 90; este aglomerado de jogadores que orbitam em torno de Sneijder provocam em mim um sentimento muito pouco consentâneo com a minha memória. Há algo de profundamente errado com esta selecção de Van Persies, Kuyts e Robbens (por Deus, o Robben é único jogador do mundo com um rácio inteligência / talento menor do que o Di Maria) e eu acho que já sei qual é: faltam pretos. Esta Holanda não tem um único preto que se veja (tem Elia que não joga). O mais parecido que tem com um preto é aquele trinco que não é o Van Bommel e o lateral direito, e mesmo esses imagino que será preciso ir até à terceira geração para se encontrar um preto de jeito. Esta Holanda quase que parece escalonada pelo Pim Fortuyn, e isso não pode ser bom para ninguém.

2. O Filipe Melo é uma besta.

3. O Dunga é uma besta.

4. O Brasil, que anda há 20 anos a apresentar selecções cheias de trincos por todo o lado, vai ter de mudar de atitude: assim já não vai lá, e isto pode ser bom para o futebol.

5. Vamos ter um Holanda-Uruguai (ou Gana, sei lá, já não digo nada) nas meias enquanto que do outro lado do quadro vamos ter um Argentina-Alemanha nos quartos: a Itália faz muita falta.

6. Se, porventura, a final for Holanda-Espanha, está garantido um novo campeão do mundo, e isso é bonito.

7. Os comentadores da Sporttv não conseguiram dizer uma única vez a palavra «Maicon» sem dizer «o melhor lateral direito do mundo» logo depois. Pavloviano.

8. Olha o Mainardi cheio de razão.

9. O Fizz é o filho bastardo do Super Maxi e do Calipo.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

«Os actores já podem trocar de namorada todos os dias»?



O 24 Horas era dirigido pelo João César das Neves e ninguém sabia.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

12 episódios para se pensar melhor as coisas

Michael Sandel!

Só para rematar

O jogo de ontem também serviu para lembrar quem é de facto o melhor jogador do mundo (não, também não é Messi): Xaviesta.

Call me zandinga

Entretanto, queria só lembrar aquilo que escrevi no passado dia 27:

«antevejo uma derrota de Portugal frente à Espanha com um golo do Villa marcado [ilegível] em fora de jogo»

Maia, chega para lá.

O que é nacional é bom

Coincidência ou não, os jogadores titulares que jogam no campeonato português foram os melhores em campo (Eduardo, Bruno Alves, Fábio Coentrão, e Raúl Meireles), a par de Ricardo Carvalho, o que nos leva a equacionar se não será melhor dar prioridade aos jogadores que jogam em Portugal e que, portanto, se conhecem melhor. E a FPF faria um serviço aos clubes dando oportunidade à valorização dos seus activos. Por exemplo, se era para empatar a zero com a Costa do Marfim, ganhar à Coreia do Norte, empatar a zero com o Brasil e perder com a Espanha, parece que o seguinte 11 estaria à altura: Eduardo; Rúben Amorim, Ricardo Carvalho, Bruno Alves, e Fábio Coentrão (atenção, falta chamar o Evaldo à selecção); Miguel Veloso, João Moutinho, Raúl Meireles, e Carlos Martins; Liedson e Varela.

terça-feira, 29 de junho de 2010

O terceiro objectivo do futebol

De um certo ponto de vista, é comovente ver a selecção do nosso país ir de uma forma tão empenhada de encontro aos nossos desejos: isto correu de uma forma tão perfeitamente previsível que até parece que foi por acaso. Não foi. Nós já sabíamos que depois de ganhar e de não perder, Queiroz tem como terceiro objectivo no futebol o perder por poucos. Esse espírito foi passado de uma forma admiravelmente eficaz para os jogadores que foi sem esforço que estes cumpriram aquilo que deles se esperava: darem-nos razão. Antes da partida para a África do Sul já toda a gente avisava: o Pepe está sem ritmo, o Deco, para além de velho, nunca teve respeito pela selecção, o Ricardo Costa não serve nem para titular do Sporting, o Ronaldo não vai fazer nada sozinho; é, pois, com alguma satisfação que constatamos que o Pepe estava sem ritmo, que o Deco, para além de velho, não teve respeito pela selecção, que o Ricardo Costa nem para titular do Sporting serve, e que o Ronaldo não fez nada sozinho (nem, a bem dizer, acompanhado). Por isso, e em vez de nos atirarmos ao Queiroz e à sua cobardia táctica, aplaudamos o facto de, pela primeira vez, e sublinho, pela primeira vez, Portugal ter feito um campeonato do mundo normal - 1966 foi a glória, 1986 foi a vergonha, 2002 foi a vergonha, 2006 foi a glória. Claro que poderíamos ter tentado ganhar este jogo à Espanha, mas isso só aumentaria o nosso sentimento de frustração: ai se aquela bola tivesse entrado. Assim, não há ais nenhums e podemos seguir com as nossa vidas. Mas quem precisa de um consolo - mais do que um alvo - fica a nota que perdemos com a mais do que provável campeã do mundo. Teríamos perdido com o segundo classificado (o Brasil), o terceiro classificado (a Alemanha), ou o quarto classificado (o, err, Uruguai), mas eu confio no poder de acreditarmos nos nossos sonhos.

Either / Or

Ter filhos / ler livros.

domingo, 27 de junho de 2010

Passeio no parque

Patética exibição da Inglaterra: deu a impressão de que a Alemanha não precisou de se esforçar. Özil é uma maravilha, mas aqui não há pontos fracos. Não estou a ver ninguém a parar esta equipa, e assim sendo vamos ter um Espanha - Alemanha na final, ou seja, a final do campeonato da Europa outra vez.

ADENDA: (Fui informado de que a minha previsão para a final tem poucas hipóteses de acontecer dado a Alemanha e a Espanha estarem do mesmo lado do quadro, logo, a acontecer, esse será um jogo das meias-finais - sendo que o outro será um escandaloso Brasil - Uruguai. Seja como for, há aqui dados mais relevantes em relação a este calendário. O Portugal - Paraguai irá jogar-se no dia do baptizado do meu filho, o que me irá obrigar a explicar-lhe pela segunda vez o que é o patriotismo: é torcer sempre por Portugal, mesmo quando do outro lado também estão jogadores do Benfica - tentei explicar-lhe isto quando o Ramires entrou, mas acho que ele ficou desconfiado. E já que aqui estamos, uma meia-final com Brasil e Uruguai não é uma meia-final do campeonato do mundo, é um encontro da fase de qualificação. A FIFA, que anda a fazer tudo por tudo para manter alguns dos grandes em competição - gamanço no Espanha - Chile, gamanço no Alemanha - Inglaterra, gamanço no Argentina - México - bem que podia rever isto, até porque a manter-se o padrão antevejo uma derrota de Portugal frente à Espanha com um golo do Villa marcado com a mão, em fora de jogo, e sem a bola entrar dentro da baliza. )

sábado, 26 de junho de 2010

Glendenning!

13 min: The camera cuts to Bill Clinton in the crowd. He's sitting beside Mick Jagger. Bill and Mick, out on the town, shooting the breeze and having a laugh. Lock up your daughters.

Barry Glendenning, lá no Guardian

(Odeio os EUA no que ao futebol diz respeito: nunca tiveram uma equipa de jeito e são em todos os mundiais considerados os representantes de um suposto despertar do soccer para o mundo, é que é sempre a mesma coisa desde 1994. Também não adoro o Gana - não adoro o chamado «futebol africano», por mim o mundial era composto por 18 equipas europeias, 13 equipas sul-americanas e o México - mas estou completamente esperançoso por um Uruguai - Gana nos quartos. Foda-se, Uruguai - Gana - uma destas selecções está garantida nas meias - isto é ridículo, a sério, vejam lá isso, neste momento de grande turbulência mundial precisamos de contar com o futebol para um pouco de ordem e previsibilidade, ou seja, as selecções que esperamos ver nas meias-finais só podem ser a Alemanha, a Argentina,a Itália e o Brasil, com uma e uma só excepção permitida a cada quatro anos, que este ano poderia ser a Espanha, ou, vá lá, a Holanda.)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Onde ficamos a saber que um direito é algo a que nós não podemos abdicar

Temos de começar a partir a louça, por Filipe Nunes Vicente.

Form follows function



Aqua Tower, Chicago, Studio Gang Architects



Torre de Escritórios / Amoreiras, Lisboa, Saraiva e Associados

A história da arquitectura do século XX conta-se através de uma sucessão de tentativas de matar o pai, sendo que o pai é o movimento moderno, o período heróico do arranque do século na europa central durante a reacção aos destroços da primeira guerra. Elaboraram-se manifestos e pontos de ordem que, entre outras coisas, radicalizaria a máxima de Louis Sullivan, um dos pré-modernos mais influentes, de que «form follows function»; no auge da Grande Tentação de mudar o mundo, Corbusier chegaria mesmo a gritar que a casa deveria ser uma «máquina de habitar» (mas depois Corbusier foi à Índia e aos trópicos e felizmente a coisa morreu por aí.) Depois do Movimento Moderno, chegaram os filhos: o regionalismo crítico que não gostava do seu estilo internacional (Aalto, Siza), o pós-modernismo que não gostava do seu espartilho da função (Venturi, Taveira), o espiritualismo que não gostava do seu ateísmo acéptico (Wright, Manuel Vicente?), etc, etc. O capitalismo global fez o resto, e a chegada do branding à arquitectura fez com o seu primeiro objectivo fosse o de circular (there is no such thing as bad publicity). Hoje é muito difícil identificar tendências, agrupar autores, definir escolas: é cada um por si. Ainda assim, a máxima de Sullivan não morreu e um bom projecto continua a ter que evidenciar uma relação estreita entre a forma e a função: no caso da Aqua Tower (o maior projecto alguma vez encomendado a uma mulher nos EUA), a forma são as varandas ondulantes, a função é a necessidade de lidar com os fortes ventos e a procura de vistas que fintem o skyline de Chicago. Sullivan ficaria orgulhoso, ainda que percebesse que há várias formas que respondem à mesma função e que o papel do arquitecto é escolher a mais sedutora. E Jeanne Gang escolheu-a com um acerto e uma simplicidade que mereceu o aplauso da crítica. Mas a linha que separa as formas pouco convencionais acertadas das formas pouco convencionais despropositadas é muito ténue e já não há críticos nem tempo nem espaço para a procurar. O caminho da arquitectura no século XXI está demasiado armadilhado para o caminharmos de olhos vendados.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Verde

Desconfiar sempre quando a «sustentabilidade» é simultaneamente tida como virtude e anunciada como prática. Desconfiar sempre, sempre.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Obviamente

Acabou o mundial para Deco.

Se não tivesse TV Cabo era a desgraça

Lamento profundamente a morte de Saramago: é que já vamos no terceiro dia em que o Mundial não ocupa totalmente os espaços noticiosos.

Lamento também profundamente que a França não passe da fase de grupos: não consigo evitar um sentimento nostálgico sempre que o circo abandona a cidade.

Lamento ainda mais profundamente as arbitragens que têm acontecido no campeonato do mundo de futebol, porque houve aqui uma mudança de paradigma e ninguém nos avisou: o espectador já se habitou a más arbitragens que beneficiam a equipa da casa, não estava portanto preparado para esta aleatoriedade selvagem, que tanto permite que um jogo de futebol se transforme num jogo de andebol (Fabiano), como permite que um jogo de futebol se transforme numa palhaçada (a expulsão de Kaká) sem a França presente, o que é muito desarmante.

Agora, o que eu não lamento nada é o empate entre a Itália e a Nova Zelândia: ah ah ah ah ah ah ah.

Brick-by-brick:




Olha, o Valderrama:

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Copa Buena



Buena, buenísima: la Alemania ha sido más una víctima de estas arbitrajes sudamericanas, coño.

Unas

Bruno Nogueira, Herman José, quem quer seja: Rui Unas é o nosso único late-night man que interessa.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

México 2 - 0 França

A vingança da Irlanda chegou - e vestida de verde e branco. Eat that, Platini.

A Argentina

Antes que comecem todos a embandeirar em arco, deixem-me que vos diga que os três golos marcados hoje pelo Higuaín foram os três golos mais fáceis do Mundial até agora (foram ainda mais fáceis que o auto-golo que abriu o marcador) e que, portanto, nada disto invalida a tese de que o Higuaín estaria muito melhor no banco como suplente do Milito (marcar golos nesta Argentina passa por ficar muito perto do Messi e esperar pelos ressaltos, ou muito perto do Aguero e esperar pelos ressaltos). Aliás, o Tevez é outro: o genro a titular, já. A explicação para o fraco rendimento do Dí Maria passa pelo seu posicionamento táctico: está a jogar a trinco esquerdo, já que a Argentina só joga com dois médios, pelo que alguém tem de fazer as devidas compensações. Maradona pode ser Deus, mas não é Jesus.

terça-feira, 15 de junho de 2010

1986

Há quem, por causa do Brasil e da Coreia do Norte, perdão, da República Popular Democrática da Coreia, queira comparar este Mundial ao de 66, mas o que está na moda é a década de 80, amigos, é a década de 80. Salvaram-se Raúl Meireles, Fábio Coentrão, e os 20 minutos à Benfica do Rúben; o resto ficou refém da incompetência do mister Queiroz, melhor do mundo incluído.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Anedota

Eu não sei o que é a «direita católica» portuguesa, mas sei que se a «direita católica» produzir Santana Lopes como candidato à presidência da república como alternativa moralista a Cavaco Silva o conceito fica um pouco mais explícito. Aquilo que estará em cima da mesa não é tanto uma questão ideológica (Cavaco é católico, tem um casamento estável há 150 anos e um conjunto de netos bem comportados) mas claramente uma questão de classe: Santana é de Lisboa, dá um beijinho, e aparece nas praias certas do Algarve. Manuel Alegre já me chegava e sobrava, mas a confirmar-se Santana o meu voto no filho do gasolineiro de boliqueime - só por si um símbolo da mobilidade social de que Portugal tanto precisa - será ainda mais livre de constrangimentos.

A Alemanha

Apesar de a Austrália ser a pior em equipa em prova (não é o pior conjunto de jogadores em prova, mas é um conjunto de jogadores australianos, logo um conjunto de pessoas que só quer o bem dos outros e fará tudo para o conseguir) e do árbitro mexicano («árbitros mexicanos», e nós pensávamos que isto não descia mais baixo do que «Olegário Benquerença») ter perdoado um penálti à Alemanha e ter expulsado um australiano que fez uma falta sem querer (pelo amor de Deus, ninguém faz carrinhos de joelhos com intenção), não há como contornar o facto de, mesmo tendo Miroslav Klose a titular, a Alemanha ter sido a equipa que mais impressionou até agora. O salto de rendimento que os jogadores alemães mostram quando vestem aquela camisola é ainda maior do que o salto de rendimento que os jogadores do Mourinho dão quando passam a ser treinados pelo Mourinho (v. Nuno Valente), o que assusta um bocadinho: dá a sensação que se nos distrairmos por um momento a Alemanha acabará por anexar a África do Sul ao seu território, impondo o Euro como moeda e um conjunto de medidas austeras de controlo do défice.

Campeonato

«Com excepção da segunda parte do França-Uruguai (que perdi devido a complicações de cariz étnico causadas pela presença no recinto de trinta e cinco ingleses bêbados [muitos dos quais vestidos de batman] numa despedida de solteiro), consegui assistir a todos os eventos do Certame até agora. Foram seiscentos e setenta e cinco minutos de futebol, pontuados por aquele zunido colectivo, grave, desconcertante e ininterrupto, que qualquer adepto já se habituou a reconhecer: a wall of sound produzida por milhões de milhares de mulheres a fazerem perguntas sobre as regras do jogo.
Ligeiramente abaixo na escala decibélica, o ruído constante das vuvuzelas também se tem apresentado em grande forma, mostrando resistência, intensidade e disciplina táctica, embora as suas hipóteses de conquistar o título de ruído permanente mais irritante da competição estejam agora ameaçadas pelo ruído permanente de pessoas a queixarem-se sobre o ruído permanente das vuvuzelas; o duelo promete ser renhido até à final.»


Do nosso enviado especial à África do Sul às esplanadas com ecrãs gigantes.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Enviado especial

O Brasil, por exemplo, não só pode ser fiel a princípios, como até tem dois conjuntos de princípios opostos aos quais pode atrelar a sua fidelidade, como o Freitas do Amaral.

Calhando o infortúnio de a LER ser uma revista sobre livros (embora a interpretação dessa identidade seja o suficientemente lata para já terem acontecido textos sobre a cozinha do Tavares ou o The Wire) com um orçamento típico das publicações que têm o público alvo limitado às pessoas que lêem, alguém deveria ter-se chegado à frente e enviado o Rogério para a África do Sul, devidamente acompanhado por dois ou três amigos do Miguel para fazer a devida escolta armada. O facto de estarmos todos dependentes das «esplanadas com ecrãs gigante» é uma tragédia muito maior do que a lesão do Nani.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Certo

Na defesa, estão para lá uns gajos. No meio-campo, vão estar o Fabregas, o Xavi, e o Iniesta. No ataque, o Navas ou o Pedro mais o Torres e o Villa. A Espanha ser campeã do mundo é tão certo como o agravamento das medidas de austeridade em 2012.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Direitíssimo por linhas tortíssimas

A boa notícia é que vai o Ruben Amorim, um jogador que em 23 deveria ser logo 3º a ser convocado. Agora, que isto volta a baralhar as contas tácticas da selecção isso é evidente até para aqueles que não têm papel e caneta à frente dos olhos. Para vossa sorte, eu tenho papel e caneta à frente dos meus olhos e descobri que estes 22 convocados (mais aquele emigrante que não fala português, o daniel não sei quê) constituem 22 peças bastante apetecíveis para brincar ao Luís Freitas Lobo. Então é assim: primeiro, temos o 4-3-3, que é opção mais pacífica,




depois, seguido de muito perto, o 4-4-2 em losango que vai ser usado contra o Brasil (aposto 40€ com quem quiser),


e ainda a minha contribuição para esta merda que são os três centrais que já ninguém usa


sim, por acaso acho que o Veloso daria um bom líbero. Mas apesar do meu brilhantismo tácticoestamos lixados na mesma: ontem vi o Portugal - Holanda de 2006 e percebi a magnitude do nosso downgrade de então para cá. Enfim, o que é preciso é calma.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Who gives a fuck about an oxford comma?

The Colbert ReportMon - Thurs 11:30pm / 10:30c
Vampire Weekend
www.colbertnation.com
Colbert Report Full EpisodesPolitical HumorFox News

O arquitecto enquanto ideólogo

A grande mentira da arquitectura enquanto prática esconde uma ambição desmesurada: dizemos que os nossos serviços visam responder às necessidades do cliente & etc., mas a verdadeira motivação está no programa. Seja na mais simples das encomendas (todas as casas publicadas nas revistas da especialidade se parecem) ou nas tarefas mais exigentes (a «learning street», um conceito importado da Finlândia e da Holanda com o intuito de transformar os alunos do secundário em finlandeses e holandeses), o arquitecto está sempre pronto para explicar às pessoas como elas devem viver: queremos desenhar o mundo para que o mundo fique mais parecido com aquilo que nós queremos que o mundo seja. A alimentar todo este espírito de iniciativa está a ideia do progresso. Ah, o progresso.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Friendly fire



Hoje mesmo, na actual composição parlamentar, não será difícil encontrar uma maioria para apoiar coisas abstrusas, como a proibição de touradas ou rojões, imposição da ordenação sacerdotal de mulheres ou a obrigatoriedade de purificadores atmosféricos.

O truque retórico exemplificado nesta frase é evidente para todos os leitores avisados: junta-se no mesmo raciocínio realidades distintas com o propósito de iludir o leitor sobre os méritos de cada uma delas. Neste caso, com vemos, o objectivo é o de fazer equiparar o grau de disparate de duas ideias válidas (a proibição das touradas e a ordenação sacerdotal das mulheres) ao de duas ideias efectivamente disparatadas (a «proibição de rojões» e a obrigatoriedade de «purificadores atmosféricos»). Passemos por agora por cima do incoveniente de as duas últimas não serem acções passíveis de proibição ou obrigatoridade (não é possível proibir um alimento nem obrigar a um objecto, per se, será necessário explicitar a acção concreta que se visa proibir) como o são as duas primeiras, porque o interesse na exposição desta parcela de texto (que, obviamente, queremos que seja tomada como metonímia) não reside nos aspectos formais da sua execução (a falta de domínio retórico é um dado bastante evidente no autor em causa) mas nas ideias que ele revela.

Estamos perante um autor que tece um juízo moral sobre a sociedade que o rodeia concluindo, como é apanágio de todos aqueles que ao longo da história tiraram uns minutos para tecer juízos morais sobre as sociedades que os rodeavam, isto é deboche, pá. Para tal, o autor socorre-se da enumeração de variados factos - ou juízos seus apresentados como factos - que suportam a tese; neste caso, os factos são «o aborto», «o divórcio», o casamento gay, a (está lá, vão consultar, preguiçosos) educação sexual (ora que grande deboche que é a educação sexual, pá, ao que isto chegou), sendo a tese o espantoso embora infelizmente inexistente «totalitarismo do orgasmo», que o autor, pensamos que lamentavelmente para tudo aquilo que revela sobre a sua vida privada, condena.

O raciocínio, surpreendentemente, não é falacioso: o «aborto», «o divórcio», o casamento gay e a educação sexual são acontecimentos que visam lidar com realidades que advêm, grosso modo, do acto sexual: sem acto sexual não haveria abortos (porque não existiriam gravidezes indesejadas; caramba, não existiriam gravidezes), sem acto sexual não existiriam divórcios (reconheçamos: se queremos dar o fora é porque o conjuge já não dá ponta), sem acto sexual não haveria casamento gay (poderíamos ser só bons amigos), sem acto sexual não haveria necessidade de educação sexual (talvez remetida para a Academia dos teóricos). Ora, o acto sexual só existe porque estão ali duas pessoas à procura do orgasmo (mesmo aquelas pessoas que o sabem difícil não deitam a toalha ao chão), e nesse sentido estamos perante aquilo a que o autor apelidou de «totalitarismo do orgasmo». O problema é que, ao contrário do que costuma ser corrente nestas coisas dos totalitarismos, o orgasmo é bom. O orgasmo, atrevemo-nos, é óptimo. Pelo que se levanta a dúvida sobre as reais intenções do autor na sua denúncia, já que parece inverosímil o objectivo explícito.

Que não dura muito: com a denúncia do «totalitarismo do orgasmo», é evidente que o autor visa condenar o comportamento de uma geração que já não é a sua através do pararelismo com o comportamento da sua geração, atribuindo, não estranhamente, virtudes ao comportamento da última e vícios ao comportamento da primeira. Há quem lhe chame «crise da meia-idade», mas o leitor fará o favor de lhe chamar o que por bem entender. Ora, de facto, a geração do autor não cedia ao «totalitarismo do orgasmo», mas como veremos essa estoicidade não se devia a nenhuma virtude assinalável mas antes a uma conjuntura favorável: não havia aborto (legal), não havia divórcios (pulava-se a cerca mas voltava-se ao final do dia para jantar), não havia casamento gay (os gays casavam-se mas com pessoas do outro sexo), não havia educação sexual (a matéria era toda dada nesse curso intensivo conhecido por «noite de núpcias»).

Posto isto, não admira que o autor sinta, adivinhamos, uma certa inveja da geração que lhe sucedeu e que a queira atacar. Mas ao tentar fazê-lo com armas do calibre da frase citada no início deste post, incorre numa traição das suas tropas ao denunciar o alcance limitado das suas capacidades. Senão vejamos: o carácter extremamente rudimentar da trapaça retórica ensaiada nas comparações touradas / rojões e ordenação de mulheres / purificadores atmosféricos, levanta o véu sobre quem é o público alvo que o autor tem por intenção tocar. Não é crível que o autor esteja interessado em cativar aquelas pessoas que pensam de modo diferente da sua, uma vez que as pessoas que pensam de modo diferente da do autor, ou seja, as pessoas que são a favor da proibição das touradas ou da ordenação sacerdotal das mulheres costumam ser pessoas intelectualmente devidamente estimuladas (e bem parecidas) que não são sensíveis ao argumento que visa equiparar moralmente a ideia de considerar as mulheres igualmente capazes de liderar uma comunidade com a ideia de proibir «purificadores atmosféricos» (mais uma vez pedimos desculpa ao leitor por este facto, mas somos obrigados a citar correctamente a fonte: sabemos que proibir um objecto é uma ideia impossível, mas admitimos que a proibição em causa diz respeito a uma acção levada a cabo com esse objecto, como seja a sua produção ou utilização).

Assim, somos forçados a deduzir que o público alvo do autor são as pessoas que pensam do mesmo modo do que ele - isto é, pessoas que não concordam com a proibição da mutilição de mamíferos como espectáculo e que consideram essa ideia moralmente equiparável à proibição de rojões (mais uma vez, etc etc, consideremos que a «proibição de rojões» diz respeito à proibição da utilização de «rojões» em receitas de iogurtes para crianças, ideia, aliás, que merece todo o nosso respeito), expondo, pensamos que cruelmente, todo o gabarito intelectual que caracteriza o conjunto de pessoas partidários do autor nestas causas e expondo também, tristemente, a indisponibilidade para o diálogo do autor e a sua decisão de permanecer na caverna a contar anedotas sobre as sombras.

É isto que choca no texto citado: o facto de ser evidentemente uma facada nas costas na própria equipa: somos sempre particularmente sensíveis à canalhice. Resta saber se isto foi involuntário (a arma disparou para o sítio errado) ou voluntário (hipótese académica que julgamos confere ao autor um interesse adicional). Estamos cá para os próximos episódios.

domingo, 30 de maio de 2010

An open book



Love is an open book
to a verse of your bad poetry

I Can Change, LCD Soundsystem

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A capacidade de resiliância do ser humano: notas sobre o festival-RFM

Infelizmente não tenho conseguido evitar assistir a alguns momentos televisionados desse festival a que muita gente já apelida como o festival-RFM (amostra: 1), e por isso sou forçado a interromper o fim deste blogue de modo a poder conferir alguma utilidade a esses momentos e afastar esta sensação de desespero tão grande, tão grande, tão grande.

O primeiro momento televisionado a que assisti do festival-RFM incluía um ser humano do sexo feminino de idade indefinida chamada «Ivete Sangalo» aos pulos no palco enquanto parecia estar a tentar cantar, mas não fiquei com a certeza absoluta disso. Uns dias mais tarde, pude confirmar, noutra transmissão televisiva digna de suicídios em massa chamada «Globos de Ouro» (que tem no entanto o mérito de ser a única cerimónia daquele género no mundo totalmente improvisada), que «Ivete Sangalo» de facto tem por hábito tentar cantar, embora possamos atribuir essa precipitação desgraçada a um efeito secundário da ingestão por parte de «Ivete Sangalo» de uma substância provavelmente ilegal destinada a tornar esses momentos não tão insuportáveis para «Ivete Sangalo» como o são para todos nós que, por imposição moral ou indisponibilidade financeira, não ingerimos a mesma substância.

O segundo momento que a televisão me mostrou do festival-RFM revelou um gigante a fazer um solo de guitarra durante 19 minutos, naquilo que era obviamente o fim de um concerto, com a particularidade de a guitarra estar deitada no chão e o guitarrista estar de pé, o que me deixou descansado: não estava a perder nada, obviamente aquele não estava a ser um bom concerto rock, os bons concertos rock não acabam com guitarras deitadas no chão e com os guitarristas de pé, acabam com os guitarristas deitados no chão e com as guitarras por todo o lado. Fui capaz de perceber que se tratava de John Mayer, uma pessoa que, apesar de tudo, merece todo o nosso respeito, todo o nosso respeito.

O terceiro momento do festival-RFM que me foi vergastado foi, provavelmente, o mais deprimente, e explica-se rapidamente: no palco estava o João Pedro Pais a fazer de conta que não era o João Pedro Pais mas sim uma estrela rock, comportamento chocante que 168 pessoas testemunhavam ao vivo.

O quarto momento deu-se no mesmo dia do terceiro, o que prova a extraordinária capacidade de resiliência do ser humano, e a magnitude do seu abalo explica-se através da mais simples das descrições daquilo que se estava a passar: uma reunião dos Trovante. Os Trovante, para quem não se lembra, foi uma banda composta, entre outros, pelo Luís Represas e pelo João Gil, cujo único objectivo foi o de tranquilizar as gerações futuras pois não, não, os anos 80 não foram assim tão bons. Para compor o espectáculo e homenagear os artistas, a organização tratou de reunir o público dos Trovante, ou aquela parte do público dos Trovante que estoicamente sobreviveu aos Trovante.

Já hoje, apanhei aqui na televisão o Carlos a tocar com os Fonzie: o Carlos é uma pessoa que já emprestou a sua simpatia a um concerto da banda em que eu participo e cujo trabalho ainda hoje é lembrado com saudade. O Carlos, para quem não sabe, é o baixista dos Fonzie, uma banda que vende no Japão e assim, que o festival-RFM não merece (não sou fã, but than again, também não sou japonês.) Felizmente, acabei de confirmar que os Fonzie não estavam programados para participar no festival-RFM e que só lá foram porque uma banda de quem eu nunca ouvi falar e que certamente é muito pior do que a banda onde o Carlos toca baixo desistiu. O público, esse, era todo constituído por pessoas legalmente impedidas de comprar bebidas alcoólicas. O Carlos, esse, é um dos gajos mais porreiros que já conheci e genuinamente uma óptima pessoa.

Por fim, essa média-empresa chamada Xutos-e-Pontapés. Os Xutos-e-Pontapés foram uma banda particularmente importante no panorama do rock português dos anos 80 mas calhou que o sucesso e o dinheiro e a passagem do tempo os transformasse numa versão franchisada deles próprios. Nos dias que correm, não passam de um longo bocejo que o público da RFM toma por rebelde, mimetizando aquela cruz com os braços enquanto confirma uma reunião de departamento pelo BlackBerry. Como bem observou a minha mulher, a partir de uma certa idade começa a ter graça (os Rolling Stones, AC/DC), mas os Xutos ainda não estão lá; os Xutos estão naquela idade em que já não é credível que aquelas pessoas têm mesmo vontade de se vestir com picos na cintura e lenços no pescoço mas que apesar disso se vestem com picos na cintura e lenços no pescoço porque isso continua a render um milhão de euros anuais, embora não estejam ainda preparados para serem vistos como o circus act em que se tornou o Mick Jagger, por exemplo. Deu-me vontade de voltar aos anos 80 - sim, mesmo considerando os Trovante - só para ver como isto era a sério, como isto era antes das guitarras acústicas e das aplicações financeiras.

Parece que o bilhete, para cada dia, custa 58 euros, o que, dados os milhares de participantes no evento, reforça a minha sensação de que o mundo é um sítio muito hostil.

domingo, 23 de maio de 2010

sábado, 22 de maio de 2010

O Milito, que deverá ser suplente no Mundial, atenção

Não há muito mais a acrescentar: Mourinho levou o Chelsea ao título 50 anos depois e o Inter ao título europeu 45 anos depois. E tornar-se-à num futuro próximo no primeiro treinador da história a ganhar a Liga dos Campeões com três equipas diferentes (o Real pode começar a pensar nas faixas), podendo, a partir desse dia, justificar estatisticamente o título de melhor da história. E Diego Milito, por deus, Dieto Milito: como é possível fazer o que ele tem feito e manter aquele ar de criança no recreio da escola, de quem acabou de ver o Pai Natal, de quem tudo parece ser um pouco inacreditável? Gostava de ver os registos oficiais (faltas cometidas, cartões, etc.), mas adianto já que Milito deve ser das melhores pessoas que andam no futebol.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

quarta-feira, 12 de maio de 2010

IV

Nasceu o quarto filho do Tiago Cavaco, que continua, admiravelmente, a tentar a comunhão perfeita entre o número de filhos e a contabilidade discográfica. És um exemplo.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Novilíngua

«Católico assumido».

Radical é a não convocatória do Ruben Amorim, pá

Um jornalista, à hora do almoço, considerava a recusa do preservativo, do casamento homossexual e do aborto «posições radicais» do Papa.

Apaga lá isso antes que a gente se chateie

Ou o Pedro Vieira falhou uma tentativa de humor (esta é uma hipótese meramente académica sem qualquer suporte no texto mas que faço porque costumo gostar do que o Pedro escreve) ou passou-se totalmente da cabeça.

O Zé Castro não vai o mundial, pelo amor à santa

Portugal não percebe nada de futebol. O Carlos Queiroz é maluco mas não pelas razões que Portugal acha que o Carlos Queiroz é maluco. Portugal acha que o Carlos Queiroz é maluco porque, e cito, convocou «seis centrais». Vamos lá ver: Carlos Queiroz convocou seis centrais por dois motivos: primeiro, não dá para perceber se o Pepe está ou não em condições, e segundo, o Ricardo Costa pode eventualmente jogar a lateral-esquerdo, na eventualidade eventual de Queiroz finalmente perceber que o Duda é o uma merda e que o Fábio Coentrão faz falta no meio-campo, onde o único canhoto a marcar presença é o Miguel Veloso, que, já agora, não pode ser considerado para a posição de lateral-esquerdo porque o único trinco da convocatória, para além do Pedro Mendes, é o Pepe e, lá está, não sabemos se o Pepe vai ou não. Portanto, isto é tudo muito complicado, sobretudo para o Zé Castro que não vai a lado nenhum. A razão pela qual o Queiroz é maluco é, obviamente, a não convocatória do Javier Zanetti português, o Ruben Amorim, o único jogador português à excepção do Cristiano Ronaldo que não sabe jogar mal.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Carlos Queiroz é maluco

Perguntem a quem quiserem

Ontem foi o dia em que o meu filho mais vezes brindou o mundo com o seu sorriso.

domingo, 9 de maio de 2010

Uma limpeza

O resumo é fácil de fazer: mais vitórias (mais duas do que o Braga), menos derrotas (menos uma do que o Braga), mais golos marcados (mais oito do que Porto), menos golos sofridos (em igualdade com o Braga), mais pontos (mais cinco do que o Braga), melhor marcador (Cardozo). Ou seja, uma limpeza. Obrigado Jorge, para o ano há mais.