segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Queremos lá saber, está a chover

Então vamos lá fazer uma «leitura nacional»:

Pré-Troika (2009)Pós-Troika (2013)Var.
PSD+CDS22477551689035-24.86%
PS 20276311778664-12.28%
CDU5248815360272.12%
BE162046119035-26.54%
Ind.20329232201158.40%
Brancos + Nulos158372329600108.12%
Votos contabilizados51656054444772
Total52068104510131
Votos desconsiderados*4120565359

* Desconsiderei os votos dos pequenos partidos e coligações mais esquisitas, para simplificar a leitura.

Só a CDU resiste ao desinteresse geral, e acredito que isso tenha a ver com o facto de ser a força política mais imune às candidaturas independentes (não há dissidentes a concorrer contra o PCP). Tirando isso, se estas autárquicas serviam para avaliar a avaliação que os portugueses fazem da troika, a conclusão é óbvia: queremos lá saber, está a chover.

Breves da noite de ontem

- A notícia mais relevante de ontem veio da Madeira, se nós ainda ligássemos alguma coisa ao que lá se passa. Jardim foi cilindrado, o jardinismo morreu. Enterrem-no;

- O PSD foi varrido do mapa autárquico, como esperado, abrindo lugar a subidas impressionantes do PS, da CDU, e do CDS;

- Os resultados da CDU no Alentejo provam aquilo que o PCP anda a dizer desde a assinatura do MoU: o país está a andar para trás. 30 anos, mais precisamente;

- Costa, que está longe de ser um político entusiasmante, é hoje a figura mais consensual em Portugal. Ao contrário do que muita gente diz, a sua vitória em Lisboa não é uma vitória da «esquerda»: é uma vitória, com número cavaquistas, do centrão;

- Onde estão todos os lisboetas que odeiam de morte as obras na rotunda do Marquês?

- O PS obteve o maior resultado de sempre à custa de ser o partido melhor colocado debaixo da árvore dos votos do PSD. Apesar de tudo, Seguro está para ficar e será primeiro-ministro de Portugal. Quem não gosta, não come;

- Rui Moreira, uma figura simpática, fez o impossível: ganhou correndo pela pista de fora, apesar do apoio de quase todo o establishment conservador do Porto. Candidato independente é ele, e mais ninguém. A sua vitória pode ser comparada à de Costa em Lisboa: em ambos os casos, o eleitorado escolheu que tudo ficasse como estava (Moreira era quem mais garantias dava de continuar o trabalho de Rui Rio, de quem tinha apoio);

- Tiram a televisão ao Bloco de Esquerda e o partido desaparece completamente. Mesmo em Lisboa: João Semedo, o líder (um dos líderes, ou «coordenador-geral», ou lá como chamam) falha a eleição. Ganham o prémio Muhammad Saeed al-Sahhaf da noite, ao multiplicarem-se os discursos de congratulação pela derrota do PSD; 

- A declaração mais infeliz da noite foi proferida por um porta-voz da campanha de Seara: ali estava, uma pessoa do partido de Durão Barroso, a dizer que esperava que Costa cumprisse os quatro anos e que não tivesse «enganado» os lisboetas. Haja topete;

- Pela primeira vez na história, um recluso ganhou eleições em Portugal;

- O PCP ganhou Loures e está encontrado o sucessor de Jerónimo: chama-se Bernardino e disse aquilo - há 10 anos - sobre a Coreia do Norte;

- Ricardo Rio ganha o bastião socialista que era Braga. Uma das poucas vitórias da noite do PSD;

- «Cristiano Ronaldo felicita Rui Costa e João Sousa»: patético, lamentável, vão todos para o raio que os parta.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Decisões importantes

Sobre a contracepção e a homossexualidade, o que Francisco disse na entrevista publicada em Portugal pela Brotéria é uma mudança de tom significativa no discurso da Igreja Católica mas não é uma mudança de doutrina (até porque, estranhamente, estes temas são mencionados juntamente com o aborto, como se partilhassem a mesma magnitude de relevância). Provavelmente - e desejavelmente - essa mudança de doutrina irá acontecer e podem entender-se as declarações do Papa como o início desse processo. Será, espero, um processo pacífico, porque um dos temas está morto (a contracepção, onde a doutrina é seguida por, como confirmam os últimos dados apurados pelo Complexidade e Contradição, 1,34% dos católicos) e o outro ameaça morrer em breve (a mudança de postura social sobre o tema nos países europeus e nos EUA tem mudado de uma forma rápida e consistente). Mas, por enquanto, trata-se só de um alerta à navegação.

O Papa produziu nessa entrevista declarações muito mais relevantes para o futuro próximo da Igreja do que essas. Foram estas:

«É necessário ampliar os espaços de uma presença feminina mais incisiva na Igreja. Temo a solução do “machismo de saias”, porque, na verdade, a mulher tem uma estrutura diferente do homem. E, pelo contrário, os argumentos que oiço sobre o papel da mulher são muitas vezes inspirados precisamente numa ideologia machista. As mulheres têm vindo a colocar perguntas profundas que devem ser tratadas. A Igreja não pode ser ela própria sem a mulher e o seu papel. A mulher, para Igreja, é imprescindível. Maria, uma mulher, é mais importante que os bispos. Digo isto, porque não se deve confundir a função com a dignidade. É necessário, pois, aprofundar melhor a figura da mulher na Igreja. É preciso trabalhar mais para fazer uma teologia profunda da mulher. Só realizando esta etapa se poderá reflectir melhor sobre a função da mulher no interior da Igreja. O génio feminino é necessário nos lugares em que se tomam as decisões importantes. O desafio hoje é exactamente esse: reflectir sobre o lugar específico da mulher, precisamente também onde se exerce a autoridade nos vários âmbitos da Igreja.»

Apesar daquela introdução cautelosa ao tema ("machismo de saias", "a mulher tem uma estrutura diferente do homem", etc.), não há nenhum modo pacífico de cumprir o desejo que o Papa expressa aqui: "O génio feminino é necessário nos lugares em que se tomam decisões importantes." Das duas uma: ou se acaba o celibato, ou se ordenam mulheres (ou ambas, claro). Não há outra forma de garantir a presença das mulheres nos lugares onde se tomam "decisões importantes", por muita "teologia da mulher" que se tente. Só garantindo o acesso das mulheres aos mesmos corredores dos homens se pode acabar com o machismo de calças que hoje vigora na Igreja. Só com uma postura de igualdade radical de géneros poderá a Igreja Católica manter a sua relevância social e cultural. Se não o fizer cairá no erro da tentação do isolacionismo virtuoso (poucos mas bons) que será trágico para uma instituição que se quer universal. Esperemos.

domingo, 22 de setembro de 2013

Separados à nascença

























Luís Menezes



















Chris Messina (Resse Lansing em The Newsroom)

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Das actividades voluntárias

Descansemos: o «Body Combat», «Body Attack», e «Power Jump» foram substituídos pelo «Warrior», «Xcelerate» e «AirFit».

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

















A Gaiola Dourada comove-nos porque faz uma coisa rara: convoca um olhar terno sobre a portugalidade mais epidérmica, namorando o lugar-comum com inteligência e delicadeza. Não é um olhar sobre a emigração portuguesa que transforme o nosso, e há muitos pontos-chave da trama que ficam mal resolvidos (com essa agravante-mor de fazer duas referências ao Benfica desfasadas no tempo em 6 anos), coisas que perdoamos sem esforço. Porque o que Rúben Alves faz com A Gaiola Dourada é lembrar os portugueses das razões pelas quais gostamos tanto de Portugal. O que, feito nos dias que correm, é uma proeza espantosa.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Agora está à vista de todos

Malparado, o regresso do Pedro Mexia aos blogues.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A mesma vontade










































Não quero saber de «novos eusébios», porque Eusébio só há um e o Markovic é branco e tudo. Nem olho para o Markovic como uma esperança para a época do Benfica - que vai ser penosa, não há nada a fazer. E sei que o puto-maravilha sérvio não fica mais de um ano no Estádio da Luz; muito provavelmente, estará já negociado com um dos grandes da Europa. Mas que é uma alegria vê-lo jogar, é, e isso ninguém nos vai tirar. Que estejamos a assistir ao arranque de uma grande carreira, é o melhor que podemos desejar.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Um optimismo que morreu






































O edifício do gaveto das ruas Braamcamp e Alexandre Herculano sempre me pareceu um símbolo do optimismo dos anos 80 de Lisboa. É uma das minhas memórias mais antigas, aquela intrusão amarela perto do largo do Rato. Não sei quem o desenhou, e não o acho um desenho particularmente inspirador. Mas a coragem do amarelo sempre me marcou. Há alguns anos que merecia umas obras, e elas aí estão. Para meu grande desgosto, pintaram-no de branco. Agora parece um código de barras triste e resignado, com medo de ser o que é, com vergonha do que já foi. Pode ser que as "empresas" gostem mais dele assim e o ocupem com mais dignidade, mas é uma parte da Lisboa da minha infância que morre. Não surpreende, porque o optimismo que lhe esteve na génese há muito que morreu.

Outras maneiras

Uma medida da barbárie? Imaginem espetar um ferro - adornado num gesto ensaiado e grandiloquente, sob aplausos gerais das bancadas, ao som de um trompete triunfal - no dorso de um puro-sangue lusitano. E depois outro ferro. E depois outro. E outro. E, no fim, enaltecer a bravura do animal. E do cavalo.

Há outras maneiras de ser valente à frente das mulheres. Apagar fogos, por exemplo, ou dar sangue.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Menos é mais

Basta uma ida à praia - a quase qualquer uma - e olhar para o modo como os portugueses com menos de 35 anos exibem o corpo para percebermos que Portugal é hoje um país pós-católico e que junto a essa liberdade superficial vem uma factura estética.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Mais do filme






































O livro é bom, mas gostei mais do filme.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

SBSR 2013



































Super Bock Super Rock: vou abrir um festival que este senhor vai fechar. Nem. Nos. Meus. Sonhos.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Heloísa Apolónia é a prova viva de que Ana Voila não tem razão

Sabemos todos que a CDU só existe para retirar do boletim de voto a palavra «comunista», tomando o PEV Partido Ecologista «Os Verdes» o papel de cavalo de Tróia semântico do Partido Comunista Português. É, por isso, muito difícil avaliar a relevância eleitoral do PEV: não há maneira de saber quantas pessoas votaram no partido de Heloísa Apolónia. O único método disponível é um simples exercício de proporcionalidade baseado na relevância que o PCP atribui ao PEV. Assim, temos os seguintes dados:

Resultado eleitoral da CDU (2011): 441.852
Número de mandatos: 16
Número de deputados do PCP: 14 (87,5%)
Número de deputados do PEV: 2 (12,5%)

Podemos então estipular que o PEV representa 55 mil pessoas, o que é, dado o método utilizado, uma estimativa muito generosa. Gostava de lembrar que o resultado eleitoral do PSD em 2011 ultrapassou os 2.150.000 votos.

Por isso, Ana Voila e o seu grupo de loucos não têm razão absolutamente nenhuma: basta ter em consideração o tempo de antena de Heloísa Apolónia no Parlamento para ter por aquela casa um respeito democrático desmesurado (e uso a palavra com critério).

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Não é preciso jogá-lo

Deixar de acreditar em Deus por causa da ciência (do conhecimento) é o pior motivo à excepção de todos os outros. Deus, através das religiões, serve para dar resposta a três questões: a morte, a moral, e a inquietação existencial (quem somos, de onde vimos, para onde vamos). Das três, duas são resolvidas de maneira mais satisfatória pelo conhecimento (a moral e a inquietação existencial). Resta a morte, o maior capital da religião, e as suas questões (o que acontece a quem morre, o que nos acontece quando morremos) que são a última fronteira do ateísmo. Porque este é um jogo viciado: jogá-lo é jogá-lo no campo da fé ou do mais louco dos esoterismos. Mas não é preciso jogá-lo.