segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

Santana Lopes prepara-se para voltar

Óscares

Não vou poder ver. Mas só fico chateado se a Angelina Jolie voltar a aparecer de branco. Se isso acontecer alguém que me acorde, por favor.

domingo, 27 de fevereiro de 2005

A falácia de Sontag

Em Agains Interpretation Sontag defende o primado da emoção sobre a razão. Nas suas palavras:
«(...)None of us can every retrieve that innocence before all theory when art knew no need to justify itself, when one did not ask of a work of art what it said because one knew (or thought one knew) what it did.(...)
A interpretação é entendida como um fenómeno que pretende re-significar a obra de arte. Construir à volta dela um discurso e um conjunto de considerações que a valorizam e enquadram. É algo que Sontag acredita estar a deturpar a relação obra-espectador. Nós, qualquer um, perdemos a inocência original («(...) The earliest experience of art must have been that it was incantatory, magical (...)»). Estamos mais cínicos e analíticos, menos emotivos. A arte já não emociona, mas antes desperta o intelecto. Sontag não gosta disso. E decreta guerra à interpretação.

Este raciocínio, muito apelativo, baseia-se numa falácia.

Voltemos à frase que citei em cima. Sontag diz que antes da teoria nós não perguntávamos o que a arte queria dizer porque sabíamos (ou julgávamos saber) o que ela fazia. Este fazer é a provocação de uma reacção na nossa pessoa, algo instintivo e, portanto, anterior à análise. Uma reacção inconsciente provocada directamente pela obra de arte. Mas creio que aqui é que está o erro: o que a arte (nos) faz varia de pessoa para pessoa. E isso está relacionado com o que sabemos. Por isso a posição de Sontag é uma pescadinha de rabo na boca: quer separar duas coisas que não são separáveis. A resposta emotiva a um determinado evento parte do nosso próprio contexto cultural. Não é honesto estar a retirar ao intelectual (ou connoisseur) a capacidade de se emocionar com a arte só porque este não é inocente face a ela. Por outras palavras, a nossa reacção nunca é totalmente ingénua, está sempre intimamente ligada à memória. Essa memória está carregada de informação e conhecimento.

Não sei se estou a fazer muito sentido. Mas sinto que a sedução deste statement de Sontag nasce desta quase impossibilidade de ser verdade. Poderemos nós descartar por completo a teoria da arte em nome de uma inocência original? Acredito que não. Não devido a um qualquer preconceito, mas porque a separação (total) entre emoção e razão não existe. Pelo menos no ser humano.

Madrid 6

No Prado resisti cinco minutos. Isto é, a minha concentração resistiu cinco minutos. Retive apenas algumas cenas de El Greco, um auto-retrato de Dürer, e as inevitáveis Meninas. Já no Reina Sofía a vontade era a de ficar e ficar, até ser expulso. Também pela arquitectura (o Prado tem uma estrutura de museu mais tradicional, de sucessões de várias salas, enquanto que o Reina Sofia ocupa um edifício que se organiza em volta de um claustro que ilumina as grandes galerias de circulação, tipologia que se revela adequadíssima para um museu), mas principalmente pela interpretação que faço da arte. Há quem valorize a estética acima de tudo, ou os valores positivos, por exemplo. Para mim a arte é transgressão, sempre. É o único veículo para ser de outro modo, para dizer outras coisas. Por isso a arte de encomenda nunca me excitou: seja o imaginário bíblico visto e revisto no Renascimento ou os retratos reais de Luís Pinto Coelho (reparo agora que há outros retratos reais que me entusiasmam, como o retrato de Isabel II por Lucien Freud, mas aí é também o factor de transgressão que me atrai). O facto do Reina Sofía estar em Madrid, essa Cidade-Estado, contribui para este fascínio.

Estava tão fascinado a andar de um lado para o outro que vi a Guernica como se de outro quadro qualquer se tratasse. Talvez porque tenha perdido essa componente de transressão e se tenha tornado num produto de exportação nacional, abraçada pela "instituição". Não falo do quadro em si, mas do que o quadro representa. E não é tão fácil assim separar as duas.

Madrid 5

Depois, a parte nova. Edifícios altos, construção em altura, mas todos relativamente fracos e pouco inspirados. A arquitectura, também aqui, é de Estado, sem atrevimento, sem querer marcar.

Madrid 4

E o tijolo, claro, sempre o tijolo, o tijolo. O tijolo em Espanha é como ver nevar: tem graça durante algum tempo; depois é apenas aborrecido.

Madrid 3

Madrid é uma cidade que respira Estado. Para o bem e para o mal. O estilo e a escala definem um ambiente urbano de capital. O Poder está sempre a fazer-se sentir. Mas não deixa de ser uma cidade agradável e convidativa. Talvez as pessoas também se dividam entre aquelas que preferem Madrid a Barcelona e vice-versa. Enquanto Madrid é música barroca, Barcelona é jazz. A escolha parece fácil (para um lado e para o outro). Eu não sei dizer em qual delas me sinto melhor. Provavelmente necessitaria de 6 meses em cada uma para poder chegar a alguma conclusão válida. Mas que Barcelona é muito mais descontraída lá isso é verdade. E o que eu não queria que este post fosse aconteceu: uma comparação.

Madrid 2

No Reina Sofia o novo edifício, a ampliação projectada por Jean Nouvel, já está parcialmente aberta. A seta conduz os visitantes para a Edificio Nouvel. Já tinha assistido a fenómenos estranhos envolvendo a fama de arquitectos, mas confesso que foi a primeira vez que vi um trocadilho.

Madrid 1

A humanidade divide-se em dois: entre aqueles que preferem o Prado ao Reina Sofía e aqueles que preferem o Reina Sofía ao Prado. Mas todos podem encontrar-se para um café no Thyssen.

Nouvel

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2005

Logicamente

O ministro das finanças não deve ser um especialista em finanças.

Greenpeace

Queria chamar a atenção para a série de posts intitulados «O Ambientalista Liberal», escritos pelo João Miranda. É uma linha de raciocínio que não estamos habituados a ver. Concorde-se, discorde-se, mas leia-se. Vale a pena.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005

«resposta sensorial»

Saudades também do tempo das discussões mais ingénuas (e por isso verdadeiras e descomprometidas) sobre arquitectura, quando tudo é novo e tem uma capacidade para deslumbrar. Saudades de discussões como esta. A arquitectura como transgressão, que «educa a nossa percepção» e «cultiva o nosso gosto». Mas não há motivo nenhum para que isto seja motivo de saudades, é só uma questão de continuar a reservar espaço para o encantamento. E combater essa balda.

P.S: A expressão «positivamente agredido» faz-me lembrar uma discussão (também ela dos primóridos da blogosfera) sobre a violência, tema lançado pelo Pedro Jordão.

Saudades da Coluna Infame

Posts diários do Pedro Mexia e do Pedro Lombra.

Faltam-me ilusões

Conceitos

«Depois do amor já não voltamos a ser livres. Ficamo-nos pela solidão.»

O Silva

E somos livres no amor? Ou a liberdade é algo que é sobre-valorizado neste contexto?

Precisa-se

Projecto de ampliação de refeitório de lar de terceira idade. Respostas ao endereço electrónico acima indicado. Urgente.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

Conservadorismo

Porque, de resto, as casas que vêm desde a Mesopotâmia são iguais às do Mies van der Rohe. Muros de tijolo, com pátios, tal, tal, adobes, entra-se, não sei quê, casas romanas, são iguais às que eu vi na China e iguais às casas no Alentejo. Maior ou mais pequeno. Um portão, um pátio que distribui serviços, o patrão, a parte agrícola, por aí fora. As casas-galeria... Portanto, eu acho que as pessoas não vivem de maneiras muito diferentes.

Eduardo Souto Moura, in NU #01, entrevista republicada no Epiderme Extra

Vistas bem as coisas faz sentido que a arquitectura portuguesa seja comunista. A interpretação destes conceitos é claramente abusiva e redutora. Mas olhemos para o panorama nacional, para a produção arquitectónica até à geração de 50, aquela que tinha trinta anos no 25 de Abril. As referências estéticas, se quisermos, são homogéneas. Há um silêncio instalado, uma reverência por natureza. O social, sempre o social, como motor de todas as pesquisas e transformações. Mas, que transformações? Sempre houve (até essa geração, note-se) um sentido de colectivo na arquitectura portuguesa (ou melhor, na arquitectura feita em Portugal por portugueses). Uma aceitação geral que o público prevalece sobre o privado, e que havia uma maneira de fazer as coisas. Aqueles que escapam a esta lógica não encontram, naturalmente, condições para se exprimirem. A emigração é uma hipótese, talvez a única hipótese de se poder fazer diferente. Manuel Vicente e Pancho Guedes, por exemplo. Os outros, com Siza no Porto e Teotónio em Lisboa, vão, acima de tudo, dando continuidade, com pouco atrevimento e muito respeito. Quer isto dizer que a qualidade foi afectada? Não, apenas quer dizer que a quantidade foi afectada. Não a quantidade de produção, mas a enumeração de vários estilos ou vários modos de fazer. Uma grande unidade formal, muito coerente, muito conservadora. O moderno, o Moderno, sempre vingou em Portugal, nunca morreu, só timidamente deixou entrar o pós-modernismo. Percebe-se: o Moderno é o símbolo da ditadura formal em prol da revolução social. São os 5 pontos de Corbusier, é a Carta de Atenas. O pós-moderno é o liberalismo encantado com o capitalismo. É a côr, a forma, a diferença, a multiplicidade. Produzirá melhor arquitectura?

(continua)

Luz que vem de dentro



Para iluminar alguma coisa, ou apenas para dizer que brilha? Se eu aí estivesse sentiria a luz. Estando aqui resta(-te) o brilho e saber que é assim que te imagino. O tipo de luz que não projecta sombra, antes torna tudo mais claro. E realça as cores, que afinam o seu contraste. Tudo tem ar de novidade, apesar de já ter passado algum tempo. Para ser franco, nem sei quanto tempo passou. Não o conto, não o meço. Sinto que passa, percebo que passa, mas nada envelhece. Tal e qual o primeiro dia, o dia da revelação.

Sintomas

Num estádio de futebol, no estádio, prefiro sentar-me na bancada em vez do camarote. Prefiro o terceiro anel à cadeira-vip. E isto se calhar diz mais sobre mim do que o quadradinho onde desenhei a minha cruz.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2005

A revolta silenciosa

Em sinal de luto este blogue vai, por tempo indefinido, andar alinhado à direita.

Um pequena mudança (ou virança, segundo Ana Drago)

neste blogue. Inauguram-se os comentários. Portem-se bem, vamos lá ver se isto é para manter.

Primeira promessa de Sócrates que gostava de ver cumprida

«Não vamos deitar fora as coisas boas que foram feitas apenas porque foram feitas por outros.»

Ouvi Sócrates repetir isto algumas vezes. Estou à espera (nomeadamente da lei das rendas, por enquanto suspensa).

Como já deu para ver ainda não consegui expurgar a política deste blogue. Mas continuo a tentar.

O lado positivo da coisa

O Pedro Lomba está de volta. E em grande forma:

Achei curiosa uma certa linguagem de rixa usada ontem por alguns dos vencedores. Algumas pessoas do PCP falaram em «correr» com a direita. O Bloco de Esquerda, pela voz da Ana Drago, declarou que um dos seus objectivos sempre foi infligir à direita uma «derrota histórica» e nunca vista. Toda a noite se ouviram os verbos «humilhar», «arrasar», «massacrar». Não sei como é possível, numa democracia, ficar contente por «humilhar» ou «massacrar» um adversário político. A magnanimidade na vitória não é mesmo para todos.

O modelo nórdico

De um leitor do Abrupto:

Num dos tradicionais modelos socialistas europeus - a Dinamarca - foi recentemente reconduzido um governo de centro direita, com reiterado apoio popular. A Dinarmaca é actualmente a economia mais saudável do mundo, a sociedade mais justa do mundo - uma lição. E nós ainda andamos a brincar às "revoluções" e às esquerdas ditas modernas. Que triste complexo de esquerda que nunca mais morre.

Este blogue

Pressentiu a mudança. Há uns dias os links deixaram de ter a côr azul para passar a apresentar um vermelho vermelhão. Estou na caça ao tacho.

Sou um jovem licenciado

A arquitectura qualifica-se como formação tecnológica?

O país mudou

O país mudou?

Os jovens

Apesar da promessa dos mil empregos, o Partido Socialista não pareceu ter conseguido mobilizar a juventude. Gostava de ver esta estatística, mas pela amostra das várias sedes de campanha até o Partido Comunista tem mais jovens.

Até amanhã

Acaba aqui a minha noite eleitoral. A política volta a afastar-se deste blogue.

O que eu gostava de ver

Gostava que se pudesse fazer um diagnóstico correcto do actual estado do país: com números certificados, independentes, reveladores. Para que daqui a 4 anos se pudessem comparar estatísticas, e poder dizer-se está melhor ou está pior. Sem retórica, sem conversa fiada. Só números.

Pois

«Agora vou ali criar uma empresa tecnológica, paga pelo Sócrates.»

Sócrates

Fraco, fraco, fraco. Um discurso sem chama, sem carisma, que não mobilizou ninguém. Para quem acaba de conseguir uma maioria absoluta, Sócrates pareceu nervoso e ressentido. Falou primeiro para aqueles que dele duvidaram do que para aqueles que nele sempre acreditaram. Sorriu pouco. Suou muito. Sócrates não convence.

domingo, 20 de fevereiro de 2005

Santana não se demite

É o que está a parecer. Incrível.

Alguém percebeu? Convoca o congresso para se candidatar? Convoca o congresso para passar o testemunho? Quer ganhar o congresso? Alguém percebeu?

Chegou Santana

Para seu bem, que se demita.

O tom já é de desculpa e de vitimização.

Portas

Esteve 7 anos à frente do CDS. Foi um grande líder e entra para a galeria dos históricos. Teremos Portas, o jornalista, de volta?

Portas enfraquecido

Com ar de demissão estampado na cara. Vamos ver.

Confirma-se.

Entretanto na vizinha Espanha

O referendo à Constituição Europeia teve uma abstenção de 58%. O Sim ganhou com 76% dos votos. Tudo normal.

Lamentável

Aquela parte da direita que hoje, dia de eleições, se preocupa com o aborto e com a homossexualidade.

A Direita

É individualista. Essa é sua maior qualidade e o seu maior defeito. Como se viu hoje.

O que eu quero ver agora 5

O Bloco de Esquerda a sofrer a pressão de ter deixado de ser um partido de 3% para passar a ser um partido de 7%.

A dignidade de Santana

passa por apresentar hoje a demissão. É o único gesto que lhe resta.

O que eu quero ver agora 4

Marques Mendes (tem o perfil ideal: um bom parlamentar para fazer uma oposição activa nos próximos 2/3 anos). E lá está ele a falar, antes de Santana, a dizer que «temos de mudar».

O que eu quero ver agora 3

A tralha guterrista fora do Governo.

O que eu quero ver agora 2

A demissão de Santana (e o fim da sua carreira política).

Desaparecidos em combate

E Manuel Monteiro? E Garcia Pereira?

O que eu quero ver agora

Todos os bons independentes do PS disponíveis para integrar o Governo.

Mais a frio

Algumas conclusões:

1. Sócrates ganhou 9 em cada 10 votos do "centro".
2. Santana Lopes esvaziou o PSD.
3. O CDS caiu redondamente. Terá tido, dos 8.7% dos votos das últimas eleições, 4 ou 5%. Os votos restantes vêm de descontentes do PSD.
4. A CDU ganhou a aposta Jerónimo. Jerónimo é o PCP, e o PCP é fiel.
5. O Bloco de Esquerda ganhou muitos votos ao PS.

6. Jorge Sampaio ficará na história de Portugal. Por todas as más razões. Rui Ramos tem razão: Sampaio, com a dissolução de uma maioria parlamentar, mudou o sistema. Se Cavaco ganhar as próximas presidenciais, quem lhe negará legitimidade de mandar Sócrates para casa?

When's the next flight?

Na SIC

o computador de Pacheco Pereira deixa ver a página do Frescos.

Acompanhar as eleições na blogosfera

Abrupto
O Acidental
Blasfémias

Barnabé
Blogue de Esquerda
Causa Nossa

Arafat

«O conselho de ministros de Israel aprovou hoje, por 17 votos a favor e cinco contra, a lei que permite a evacuação da Faixa de Gaza e de parte da Cisjordânia. Esta é uma decisão histórica, já que pela primeira vez que um Executivo israelita decide retirar de territórios que os palestinianos reclamam para a formação de um futuro Estado.» (...)

Sinto-me um actor de revista

Nos anos 60, Parque Mayer, PIDE à escuta, palavras que fogem do lápis azul.

Bebi sumo de laranja ao almoço

Natural.

Freud que me acuda

Sonhei que me tinha esquecido de votar.

Obrigado António Guterres

Hoje acordei e liguei o rádio. Falava António Guterres. Nesse preciso momento decidi o destino do meu voto.

Dia vinte de fevereiro

Só há apenas uma, e só uma, coisa que me chateia. Não posso fugir a isto, é um peso que tenho de carregar. Não fui eu que escolhi, o que serve para definir melhor os contornos trágicos do evento. De facto, e como dizia aquele senhor do norte numa canção que eu estimava quando era mais pequeno, parece que o mundo inteiro se uniu para me tramar. De que falo? Faça o leitor o seguinte exercício: pegue numa planta de Lisboa, assinale, com um pontinho, a sede do PS, no largo do Rato, e, com outro pontinho, o Hotel Altis em Lisboa. Agora una os dois pontos com uma recta. Meça o comprimento da recta. Divida por dois essa distância. Marque um terceiro pontinho nesse local, o ponto médio do segmento de recta (chamemos-lhe o nome certo). Parabéns, acaba de descobrir onde vivo. Agora imagine o que será este meu serão de Domingo. Obrigado pela compreensão.

sábado, 19 de fevereiro de 2005

Agora se me dão licença

vou reflectir.

Million Dollar Baby



Fiquei surpreendido com a prestação de Clint Eastwood como actor. O resto não me surprendeu, ia preparado para a excelência. E não é um filme sobre boxe.

O prazer é todo meu

Foi um prazer ter conhecido estes dois senhores ontem à noite. Duas notas: este senhor não é nada médio, é mesmo alto; e este senhor vai passar o dia de reflexão a braços com uma ressaca. Acho mal.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2005

Pois, pois, pois, pois...

«(...) Voto em Branco, meu querido, ouve-me com atenção: sabes que sou de Direita, Centro-Direita vá lá, não sabes? Sabes que o PCP para mim não existe, que o meu respeito político pelo Doutor Francisco Louçã está ao nível do respeito que me merece o Padre não-sei-quê das Neves de Vilar de Perdizes, que pensar nas pessoas do PS me causa tumores malignos do cérebro em zona não operável e que o CDS não tem existência corpórea ou metafísica que me permita sequer pensar nele, sabes isso, não sabes?»

maradona

Isto hoje vai para record de posts

E ainda tenho uma suculenta entrevista a César das Neves para me divertir. Mas isso fica como alternativa de recurso.

Domingo no Iraque

«Passei quase todo o Domingo de 30 de Janeiro preso à televisão, a seguir as informações, em todos os canais internacionais, sobre as eleições no Iraque. Há muito tempo que um facto político não me comovia tanto. Na verdade, "contra toda a esperança", esperava o que aconteceu. Não porque seja dotado do dom da vidência mas antes por ter presente a recordação da minha breve visita a esse país, em finais de Junho e começos de Julho de 2003, onde, em todos os lugares que visitei, me apercebi de uma sensação de alívio generalizado e uma grande esperança com a queda da ditadura do Baas e de Saddam Hussein.
(...)
Isto, e, sobretudo, a formidável campanha internacional dos meios de comunicação europeus embebidos de ódio aos Estados Unidos, tinham conseguido persuadir uma percentagem importante da opinião pública de que a intervenção militar no Iraque era um fracasso absoluto, e, além disso, uma operação contraproducente que, em vez de desembocar numa democratização do país, incendiaria todo o Médio Oriente, deixando-o à mercê dos fanáticos fundamentalistas anti-ocidentais. (...) Toda a Europa do ressentimento e da nostalgia da evaporada resolução saiu para as ruas a festejar esta oferta dos deuses.
(...)
Quase 60% dos inscritos, uma participação cívica extraordinária, comparada inclusivamente com as democracias mais avançadas, algo que consolida de maneira retumbante os actos eleitorais iraquianos. E, também, mostra como são enganosas e mequinhas aquelas argúcias dos culturalistas, segundo os quais é abusivo e prepotente "impor" uma democracia à ocidental a uma sociedade cuja cultura a repudia intrinsecamente porque vai contra práticas, usos e crenças arreigadas às quais aquela não poderia renunciar sem perder em "identidade". E esses racistas consideram-se progressistas! Não percebem sequer que a sua noção de identidade colectiva é um campo de concentração que condena um povo inteiro a não progredir jamais, a eternizar-se no obscurantismo e na barbárie. (...)»

E continua.

Mário Vargas Llosa, in DNa, 18.Fev.2004

É isso aí, irmão

«Blog português de arquitetura e bobagens.»

Obrigado, obrigado, obrigado.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

The Friendly Alien

Por razões de ordem auto-biográfica que não interessa agora e aqui referir, descobri que o Kunsthaus Graz fica em Graz. Devo no entanto chamar a atenção para o facto de eu não saber que o Kunsthaus Graz se chamava Kunsthaus Graz, logo estava impedido de fazer a associação mental a que o leitor neste momento se dedica, ou seja, o Kunsthaus Graz só pode ser em Graz. Devo dizer que nem sabia, isto é verídico, que o Kunsthaus Graz era de Peter Cook e de Colin Fournier. Peter Cook é/foi o fundador da Archigram, o que explica muita coisa, já que Cook descreve a sua obra como sendo «lyrical technical mechanical, even slightly gothic.» Bem, isto tudo para dizer o quê? Nada de jeito, como é apanágio. Mas não deixa de surpreender que eu conheça tão bem o edifício (a sua forma, inserção, tecnologia) e não fazer ideia sequer de onde é. Claro que revela alguma falta de interesse. Admito que as luzinhas da fachada me enchem as medidas, não querendo eu saber mais. Futurista, é certo, e por norma os futurismos são de pouco interesse. Mas, e não sabendo bem explicar porquê, este interessa-me. Interessa-me este conceito de tranformar a pele de um edifício num ecrã de baixa resolução, palco para variadas animações, virtualmente sem limites. É uma boa metáfora daquilo em que se tem vindo a tornar a arquitectura: num acontecimento superficial destinado a entreter, concentrando todo o seu esforço na fachada exterior. Num dos vídeos que se pode ver no site, Peter Cook, ao falar nos Noozles (as clarabóias da cobertura), diz que «they are the way of reminding us that natural light is very important ». Este é o estado em que estamos: é preciso haver algo que nos lembre que a luz natural é importante. Tudo dito.



P.S: Descobri agora que o edifício fez parte da Graz 2003 - Capital Europeia da Cultura. O que também explica muita coisa.

A Mão Invisível

A Mão Invisível é o esforço de uma comunidade de individualistas. É essa a sua contradição original.

Respostas

Portugal existe?
Sim.

A arquitectura portuguesa existe?
Sim.

A insónia inútil

Tão inútil que nem me serve para escrever um post de jeito. A sério que tentei. Falar da noite, da escura solidão, da tormenta que é não conseguir dormir e não saber porquê. Fico a pensar em demasiadas coisas, nenhume delas suficientemente importante para, por si, justificar o estado de alerta. Mas juntam-se, qual conspiração clandestina, e formam o exército das questiúnculas, relativamente pequeno mas determinado. Uma força resistente que tem a ajuda dessa arma de destruição massiva, o café bebido às seis da tarde. A ser pretensioso diria que o que me sobressalta é a memória da sessão de hoje do É A CULTURA, ESTÚPIDO, e o cenário bastante deprimente traçado por José Gil. Deprimente porque não é agradável não se gostar do próprio país. É normal, até saudável, perceber que há muito a fazer e que a nação tem, provavelmente, mais defeitos que virtudes. Mas gosto de pensar que há uma reserva de ternura por este sítio, pelas relações que aqui se desenvolveram, que nos impede de querer pegar fogo ao país. Isto sou a eu a ser pretensioso. Como se a filosofia, ainda que best-seller, me tirasse o sono. Top de vendas que justifique uma noite em branco só mesmo ilustrado com senhoras de nome duvidoso. E insónia mesmo recompensadora não é passada numa cama solitária. Mas isso já é outra conversa. Obviamente estou a pensar em ti.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005

É preciso corrigir porque o erro é crasso e enganador

João, não deixes que essa análise fique manchada pelo pecado. O que te deu para descortinar o «eixo beto Santarém-Golegã-Festa-do-colete-vermelho»? Nota, o conceito está certo, mas as palavras não são exactas. Vermelho? Vermelho? Colete-encarnado, caríssimo, encarnado. Vá lá, corrige lá isso antes que eu avise o Grupo de Forcados Amadores de Vila-Franca de Xira.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2005

Querida,

a esquerda em Portugal é lamentável. Devias estar a ver este debate. Percebo porque dizes que gostavas que existisse um partido de esquerda a sério por cá. Mas não há, não há. Eu sei, perguntas-me se a direita é melhor. Mas, mesmo com Santana, tenho que dizer sim, é. Se vou votar nele? Não, não vou, porque não voto contra a esquerda por princípio, voto em alguém que me dê confiança. Santana não me dá, e Portas é do CDS (se estivesse num partido crescido ias ver). Vai ganhar o Partido Socialista, e Portugal volta a ser o que sempre quis ser desde a revolução: Socialista. É a nossa sina. Sabes o que seria ouro sobre azul? Era o PS desaparecer de vez. E passar a haver um partido democrata ou trabalhista por cá. Olha, acho que aí terias o teu partido. Eu continuaria a não votar nele, mas ficaria menos preocupado.

P.S: Este post não é sobre política.

haja o que houver

Tudo o que você sempre quis saber mas teve medo de perguntar



Rethinking Architecture, A Reader in Cultural Theory

Chateia-me é estar a escrever isto hoje (escrevo segunda à noite) mas tem de ser, é apenas uma coincidência infeliz

Não sei o que é o amor, mas sem quem é.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005

Hoje faz anos o João

Parabéns (e esse betão está a ficar com aspecto).

O que é uma coluna dórica senão um piloti feito por um grego?

O que é um piloti senão uma coluna dórica feita por um chato?

Não há coincidências

Sem dúvida que a Irmã Lúcia sofreu uma vida de opressão por parte da Igreja. Aliás, não é por acaso que morreu no dia 13.

Interpretem este post como quiserem. Eu sei que não sei como interpretá-lo.

revisto

sábado, 12 de fevereiro de 2005

A divulgação da crítica

«(...) Para alguns, estes textos estarão mais perto da "divulgação" do que da "crítica". Não penso assim. Estes são textos de crítica de arquitectura onde pesa mais a instauração de um novo "senso comum" do que o enredamento sem fim em "transversalidades" ocas. A sua amplitude, e às vezes benevolência, significa também que o crítico não é hoje um "iluminado" mas alguém que anda com uma lanterna na mão.

O que toca num problema crucial para a crítica de arquitectura em Portugal. É que crítica e proselitismo não andam juntos. Enquanto falar de arquitectura nos jornais, em Portugal, for entendido como uma "missão" - e é - dificilmente a crítica levanta voo. Também por isso, por cima deste dilema por agora insuperável, este é um belo livro e um belo projecto para Portugal.»

Voltar a Acreditar, Jorge Figueira, Mil Folhas 12.02.05


Não dá para perceber se é propositado ou não, mas Jorge Figueira escolhe para título de crónica um slogan político (neste caso, ainda que irrelevante, slogan usado pelo Partido Socialista). Escreve sobre o mais recente livro de Manuel Graça Dias, "30 Exemplos (Arquitectura Portuguesa no Virar do Século XX)", colectânea dos seus artigos publicados no Expresso entre 2001 e 2004, que já tinha referido aqui. O que me dá um óptimo pretexto para (não) falar de política. Nos blogues, como na generalidade dos media, o período de campanha eleitoral arrasa qualquer tentativa de manter um discurso sereno sobre outro assunto (mais) civilizado. Tenho resistido a isso, embora sinta que me faltam interlocutores. Mas vamos ao artigo de Jorge Figueira (e a Graça Dias). Figueira baralha e volta a dar com este título. Lembra, ironicamente, que não é na política nem nos políticos que devemos voltar a acreditar, mas em algo bem mais importante e estruturante da nossa vida moderna: a arquitectura (e o seu contexto cultural).

Pacheco Pereira escreveu, há um tempo, no Abrupto uma nota que desde aí nunca mais me esqueci:

«É isto a cultura: uma invenção da imaginação humana, contra natura, contra o terror, contra o caos, por uma ordem superior feita de um teatro de convenções simbólicas que nos protegem, e que são a civilização. Tudo muito frágil, tudo construído, tudo inventado, tudo quase no limiar de nada. (...) A cultura é uma frágil defesa, mas existe. Está ali, em pedra, símbolo de obediência do homem a convenções abstractas que ele criou e que só existem quando há vontade que existam. Nada depende mais da vontade do que a cultura e a civilização. Somos nós que as fazemos, somos nós que as desfazemos.»

Seduz(iu)-me a facilidade com que se pode fazer a transposição destas palavras para a arquitectura. Ver a arquitectura como actor previligiado no cenário cultural é uma esperança que alimento mas que, inevitavelmente, sofre várias vezes de períodos de desânimo pois é «(t)udo muito frágil, tudo construído, tudo inventado, tudo quase no limiar de nada.» Por isso me interesso tanto pela crítica cultural, em especial pela crítica de arquitectura. Porque só aí, só nas palavras escritas, se pode testar a validade cultural da arquitectura. E é a partir dessa validade cultural que se pode exigir uma educação do povo nesta área, ou seja, transformar a arquitectura num tema contemporâneo e presente.

É isso que Graça Dias consegue fazer. Jorge Figueira diz que há quem veja os textos de Graça Dias agora reunidos mais como divulgação e não tanto como crítica, para depois defender que não concorda, categorizando-os como verdadeira crítica. Percebo esta hesitação. De facto, e porque Graça Dias escolhe para objecto de crítica exemplos que passaram a priori pelo «juízo de aceitação», a prosa apresentada parece ser dirigida especialmente a quem ainda não experimentou as obras mencionadas. Ou seja, Graça Dias dá claramente a primazia à divulgação do tema escolhido. Mas é no modo como o faz que se encontram as razões para definir os textos como crítica. Claro que seria preferível ter, em Portugal, um universo crítico mais maduro, mais instalado, que permitisse a existência de críticas negativas, de divergências claras sobre as opções arquitectónicas. Como isso não acontece a crítica vê-se na missão de dizer bem, correndo o risco de perder acutilância e pertinência, ou de ser catalogada de corporativismo (Graça Dias é também arquitecto). Aliás, algumas das obras analisadas corporificam um mapa de referências arquitectónicas que são bem distantes das que são patentes nas obras de Graça Dias. Não há nesses casos (Souto Moura e Carrilho da Graça, para dar dois exemplos de arquitectos que Graça Dias publicamente admira) partilha de causas comuns que permitissem, à partida, uma crítica de aceitação fácil. Como realça Jorge Figueira, a crítica de Graça Dias não passa pela erudição do especialista ou pelo facilitismo da identificação das influências, nem sequer por mapeamento nacional e internacional da arquitectura apresentada. O que Graça Dias faz é ver com olhos de ver, tão ingénuos quanto possível. Ou seja, coloca-se na pele do transeunte (leitor) que se interroga sobre um objecto, um edifício, um acontecimento novo. Começa quase do zero. E ao fazê-lo justifica a arquitectura, valida-a. Prova a sua vitória e a sua importância. Educa o (nosso) olhar.

Vejo agora neste título de Jorge Figueira, Voltar a Acreditar, uma referência ao período Moderno (do Estilo Internacional de Philip Johnson). Então acreditava-se no poder salvífico da arquitectura (crença aliada a utopias socialistas, está certo). Essa crença foi mais tarde substituída por um cinismo pós-moderno que, talvez mais por consequência do que por intenção, acabou por afastar a arquitectura da sociedade, tornando-a elitista. O que Graça Dias tenta fazer é voltar a criar uma (necessária) empatia entre (todos) nós e a (boa) arquitectura. É uma tarefa ingrata.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2005

Cultura

«(...) Do ponto de vista ideológico, como se sabe, a direita é patrimonialista, enquanto a esquerda reivindica igualmente o apoio à criação. Confesso que sou "de esquerda" nessa matéria (só mesmo nessa). Não há património futuro sem apoio presente à criação. O apoio estatal deve ficar com um papel supletivo, em áreas que o mecenato privado descura. Mas, no momento actual, o mecenato descura muitas áreas. Sem dinheiro público, não existe cinema, teatro ou dança.

Convém dizer que nessa matéria a divisão entre esquerda e direita nem sempre é apenas ideológica. É também de gosto. Sei que generalizo, mas conheço o quintal a direita (a direita política) não se interessa pela cultura. Assim, é natural que prefira o consensual Mosteiro dos Jerónimos aos perigosos Artistas Unidos. A esquerda, pelo contrário, sempre se interessou muito pela cultura. Mas os políticos de esquerda gostam demasiado da cultura como forma de legitimação, e dão o cavaco por uma corte de artistas agradecidos e serviçais. Ora espreitem os tempos de antena. (...)»

Pedro Mexia, DN 11.02.05

No atelier do Gonçalo Byrne trabalham 10 pessoas

Uma dezena. Vá lá, em dias de festa, uma dúzia. Gonçalo Byrne (que, e abrindo um parêntesis para dizer uma verdade, cumpre a primeira regra para ser um bom arquitecto, tem um nome que vende, que cativa, Byrne, com y, o que me levaria desde já a uma profunda análise deste facto com provas retiradas de uma amostra considerável e fiável analisada ao milímetro pelo Pedro Magalhães) é um dos grandes. Não vale a pena sequer entrar em relativismos arquitectónicos, até porque se formos por aí vou acabar por dizer que a arquitectura de Gonçalo Byrne até nem me diz muito, o que, como se pode ver, seria motivo para arrependimento imediato. Adoptemos, por isso, um estado de vassalagem devida: Byrne é um mestre. (Coitado, nunca fez uma universidade de jeito, ouvi eu alguém dizer, alguém que não convém ser agora para aqui chamado, só lembrei este comentário para não me esquecer de o ignorar, mesmo se veio de quem veio.) Domina todas as escalas, e desde já se afasta a ideia que estamos em presença de um artesão bem treinado, um poeta da intimidade. Não, Byrne é um arquitecto de mão-cheia, alguém a quem eu confiaria o projecto da minha casa ou, se fosse ministro das cidades, todo o plano estratégico do ordenamento do território (não tenho paciência para ir verificar qual o nome certo desta coisa, mas será qualquer coisa parecida). E não se fica por Portugal, já demasiado pequeno para a sua dimensão. Agora, finalmente, chegamos onde quero chegar. Dizia um amigo que não percebia como, num país devastado por construtores de Norte a Sul, podia Gonçalo Byrne ter um atelier de 10 pessoas. É um crime, acrescento eu, que Byrne não queira inventar um império da construção, tomando pelos cornos os patos-bravos do país real, afastando-os para a sargeta e dizendo, alto e em bom som, agora mando eu. Isso não acontece e não vai acontecer. Talvez seja esse o segredo da qualidade da arquitectura portuguesa, esta estrutura familiar que se organiza em 3 ou 4 assoalhadas ali (aqui) no Rato. Mas fica sempre um travo de mau gosto por saber que tudo poderia ser maior, mais ambicioso, mais interveniente. E, se assim fosse, não teríamos 20 ou 30 obras de Gonçalo Byrne espalhadas pelo país, mas sim 200 ou 300. Este rectângulo à beira-mar plantado seria então um local muito melhor. E quem diz Byrne diz...

Breve ensaio sobre o amor

Einstein não tinha razão.

Pedi-as emprestadas ao Rui

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005

A diferença

Uma pequena notícia, não on-line, do Público de hoje:

«Berlim congela salários da função pública

Os funcionários públicos da Alemanha terão os seus salários congelados e serão pagos de acordo com a sua produtividade, depois de ontem o Governo e os sindicatos terem chegado a acordo.(...)»

No dia em que em Portugal o Governo e os sindicatos concordarem em ver os salários dos funcionários públicos dependentes da sua produtividade saberei que vivo num país mais saudável.

Tu

Hoje acordei assim.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2005

O que eu ando a ler, o que eu ando a ler



«He had already realized that intelligence was just the word people used for stupid remarks that were well presented and prettily pronounced, and that intelligence itself was so corrupt, there was often more to be gained from being dumb than from being a sworn intellectual. Intelligence makes you unhappy, lonely, and poor, whereas disguinsing it offers a the possibility of immortality in the newsprint and the admiration of those who believe what they read.»

Martin Page, How I became stupid ("Comment je suis devenu stupide")

Zapping de lombadas

O Lutz re-publicou um post meu onde mostrava a minha preocupação por não conseguir levar as leituras até ao fim. O jpt comentou, muito acertadamente, que o problema tem uma semi-solução: menos blog(s), mais livros.

Tem toda a razão. Assumo-me e não dou aso a boatos. Sou um produto da sociedade mediatizada. Sou um filho da tevê, da net, do sms. A minha concentração tem a duração de 160 caracteres ou de 30 segundos de rodapé. Faço zapping, constante zapping. Faço zapping nos livros, nas revistas, nos filmes. Faço zapping de lombadas, leio todas as primeiras frases e aborreço-me nas segundas. Tenho a profundidade intelectual de um José Sócrates, só para citar um exemplo. Reconheço que sou um falhanço. Penitência, meus amigos, é o que devo fazer. Começou a Quaresma: quero ser diferente, quero levar o sexo até ao fim. Os livros, quero dizer.

Closer



O filme não vale. Não cola, faz muito pouco sentido. Mas tem a força dos momentos isolados, dos cortes no tempo, das situações criadas. Tudo muda em cada fade out. Se faz sentido ou não que mude assim parece pouco interessar. Interessa sim colocar cada personagem em situações extremas, testá-las, ver se dobram ou se quebram. Natalie Portman foi nomeada. Percebo. Mas o que me prendeu foi este olhar de Julia Roberts, absolutamente perdido. O momento do filme: quando, depois da sympathy fuck com Clive Owen no consultório, Julia (Anna) solta um sorriso. Nesse sorriso cabe toda a fragilidade de quem há muito desistiu de ser feliz. Que se vê neste olhar, que não se interessa por nada. É uma ironia, construída à volta da profissão da personagem, fotógrafa. Antes, Alice (Natalie Portman) descrevera a exposição de Anna como uma mentira, rostos de estranhos atormentados e sós que, pela arte da fotografia, se mostravam belos. E se esvaziavam de drama, de conteúdo, de vida. A objectiva de Anna roubava a vida aos fotografados, mas sem dar por isso roubara também a sua própria paixão. Sobrou o cinismo e a culpa.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2005

Assim à primeira vista acho que não concordo, não sei, parece-me um bocado, como dizer, disparatado

«Aliás, os que hoje atacam a família e a vida são exactamente os mesmos que há uns anos defendiam a ditadura do proletariado.»

João César das Neves

Tenho que começar a ler mais depressa

O drama instalou-se e é já oficial: tenho ejaculação precoce. É fácil de explicar apesar de ser de difícil solução. Ultimamente não consigo acabar os livros. Assim, sem mais, os livros. Não falo dos romances de cabeceira que, por estarem sempre à cabeceira, insistem e insistem até se verem terminados. Falo dos outros, daqueles que compro devido a uma sede de descobrir o que se revela atrás do título. Teoria, história, crítica. Enfim, essa puta chamada cultura. Mas não me lembro da última vez que consegui levar a tarefa até ao seu clímax. A única solução é passar a fazê-lo de um só fôlego. Mas não sei se aguento.

Post em construção. Vou almoçar. Já cá volto.

Posts que melhoram algumas vidas

«Faz lembrar as pressurosas meninas da Opus Dei que, por não entregarem nunca a virtude, só fazem fellatios, em compensação.»

in Esplanar

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2005

O Triunfo do Objecto Genérico



Prova de contacto

A rotunda da Boavista, o Porto, Portugal; nada dizem à Casa da Música. «Nosso só os pretos», dizia quem nos guiava, sem que isso denotasse qualquer racismo de pacotilha, «os pretos, quer dizer, a malta que cá trabalha». Se por intenção ou por mera teimosia, a Casa da Música pertence à OMA e só por acaso se viu plantada naquele lote da cidade invicta. Os materiais vêm de todo o lado: Holanda, Alemanha, França, Espanha, até da Jordânia. Sim, o travertino da praça exterior vem da Jordânia, «uma bela merda de pedra, não vale nada». Há muito para onde apontar o dedo nesta obra excessiva. O arquitecto quis muita coisa que não se entende. Mas também quis as paredes inclinadas, que enche de brilho os olhos do construtor, que apregoa emocionado «isto é o melhor betão que já vi na vida». Toda a obra é um acontecimento excepcional e excessivo, ou excessivamente excepcional, ou mesmo excepcionalmente excessivo. À pergunta se isto se justifica só se pode (depois da visita) responder com um rotundo sim. Preparem-se: entrar na Casa da Música não será uma experiência fácil de esquecer. Neste canto do mundo Koolhaas venceu; a sua cidade genérica tem ali um fragmento decisivo.

P.S: Na Casa da Música aprendi uma nova expressão: pladur à vista.

domingo, 6 de fevereiro de 2005

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005

Vou viver

Ontem comecei um texto que prometi continuar. Infelizmente, e porque o João já aproveitou a deixa, não sei quando vou poder continuá-lo. Peço desculpa ao João (e a quem espera pelo resto do texto). Não tenho neste momento poder de concentração. Apetecia-me estar fora do mundo, ou noutro local qualquer onde a lei natural das coisas não imperasse. Apetecia-me ter a capacidade de Bénard da Costa, que o Pedro Mexia descreve hoje: «Bombas em Bagdad? Bénard escreve uma crónica sobre Tintoretto. Demissão do Governo? Bénard elogia Mântua. Eleições antecipadas? Bénard recorda uma página de Proust.»

Por enquanto, estou suspenso.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2005

O que é a arquitectura? - 1

O Pedro não gosta da definição de arquitectura como "a arte de fechar o espaço". «Misturar arte e clausura deixa-me desconfortável», afirma. Assumo que o Pedro se refere ao que escrevi. Por isso devo corrigir. O que escrevi foi que a arquitectura (é) o modo como o Homem decide encerrar o espaço.

Como considero que esta é, de todas as tentativas já realizadas, a melhor definição da coisa que encontrei, prossigo para uma explicação.

Em primeiro lugar esta frase, de modo algum, relaciona a arte com clausura. Clausura é algo que carrega uma conotação bastante mais forte do que o simples gesto de encerrar o espaço. E além disso penso que a palavra chave desta afirmção é o «decide». Vamos a isto.

A matéria prima da arquitectura é o espaço. Não deve haver outra palavra mais vezes referida quando se fala ou escreve sobre arquitectura. Claro que esta situação só se verifica depois do modernismo. E, apesar da tentativa de Kenneth Frampton em reescrever a História da arquitectura do século XX como a História da Construção, considero que é uma assunção correcta. Parece pacífico relacionar directamente arquitectura com espaço. Importa agora definir qual a natureza dessa relação.

O espaço é infinito. O espaço, dito assim, não tem limites. É isso que o define: a ausência de limites. Podemos dizer que o espaço natural, intocado pelo homem, não conhece fronteiras. É algo abstracto que o Homem pateticamente tenta resumir num sistema de coordenadas em 3 eixos. É frequente haver a associação do espaço com vazio. É esta a minha interpretação da palavra. Posto isto, como se pode definir a arquitectura como sendo uma actividade que tem por matéria-prima de eleição este conceito de espaço?

É frequente dizer-se que o primeiro gesto arquitectónico da História foi a escolha de uma caverna por parte do, e chamemos-lhe assim, primeiro arquitecto. Ele (e a sua tribo) não se davam bem com a imensidão do espaço que o rodeava: era algo que não conseguia controlar e o expunha a todo o tipo de perigos. Perante isto, a sua decisão (cá está a palavar chave) foi procurar um local onde o espaço estivesse claramente encerrado. A caverna garantia-lhe isso: há uma entrada, uma fronteira, que pode ser controlada e usada para definir uma diferença espacial entre o dentro e o fora. Não houve desenho, não houve planeamento, não houve construção. Estas 3 palavras são exemplos dos conceitos que se procuram frequentemente para definir a arquitectura. Contudo constata-se que a arquitectura não precisa deles para se definir. Pode haver arquitectura sem desenho, sem planeamento, ou sem construção.

(continua)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

Vi hoje a Casa da Música de uma ponta à outra, desde as entranhas até à cobertura, isso mesmo, pus os meus pés na aresta de topo, sim, lá em cima

Depois conto.

Mailbox: Os valores e a religião

«Parece-me também que, na Igreja, temos muita complexidade e contradição; os valores são a forma mais práctica e económica de fazer com que os outros ajam de uma forma conveniente para um determinado fim; e isto, para mim, corrompe qualquer ideia que se relacione com o sagrado, especificamente, do cristianismo.
Há um grande compromisso histórico entre a fé e a história feita pelos homens: a fé moveu-nos.
A par disto, surge o grande compromisso da igreja em manter a fé, ao mesmo tempo que o mundo avança tão independente dela (agora).
Manter a fé significa manter valores. Manter valores significa afirmar aquilo que, no caso de cristianismo, tem dois mil anos de história (segundo sabemos...). É aqui que está a óbvia contradição: os valores do sagrado desajustam-se dos valores gerais sociais; tornam-se obsoletos. Mas o sagrado, se se adaptar, torna-se numa outra coisa, transfigura-se; ora, o cristianismo (e qualquer outra religião) não pode transfigurar-se, pelo simples facto de que é um modelo. Não pode haver um Jesus travestido.
Isto leva-nos a outra coisa, a complexidade do sagrado contemporâneo. Se uns, como eu, repulsam a religião e, outros, repulsam a ausência dela, então só posso crer que o modelo do sagrado é necessário. Independentemente das "regras" serem respeitadas ou não.
Isto tudo para dizer que, segundo o meu ponto de vista, o problema social não está na religião ou nas suas regras - são fantasmas que permanecem porque fazem parte do imaginário comum, são imprescindíveis portanto - creio que o problema social não está no ateísmo - exactamente pelas mesma razões - creio que o problema está, sim, nas pessoas, pois a preversão das regras é demasiado fácil, às vezes, e demasiado dífícil outras.
Ou seja, é um problema de estupidez humana porque, em tudo o resto, o mundo vai bem.
A estupidez tem é diferentes escalas, é certo; mas é já muito mau mesmo quando se limita à esfera pessoal.»

Arroz de Estragão