- E se fôssemos para ali?
- Não podemos.
- Porquê?
- Está a arder.
domingo, 7 de agosto de 2005
sábado, 6 de agosto de 2005
Outra, a mesma
«Levo namorada», disse, sabendo nós que a sua relação com C., que durara alguns anos, terminara há algum tempo. «Será uma gaja nova?», interrogaram-se os amigos, sem pudor, apelidando a misteriosa figura feminina de gaja como se de um objecto qualquer se tratasse. Todos sabiam, no entanto, que a namorada em questão era C. (por várias razões que não interessam agora), a mesma de sempre, que suscitava a simpatia de todos. Ainda assim, apesar de C. ser alguém (muito) querido ao grupo, ninguém escondia o desejo de o ver chegar com uma gaja nova. Porquê? Por nenhuma razão que possa fazer sentido. É nestas alturas que se tem de admitir que somos todos uns cabrões.
Aula prática
Há coisas que não se ensinam nas escolas de arquitectura. Por exemplo, a projectar uma cozinha. Isso mesmo, nem mais, uma cozinha. Felizmente é algo que se aprende facilmente: basta passar uma tarde a lavar e a arrumar uma.
sexta-feira, 5 de agosto de 2005
Serviços mínimos
Devido ao calor intenso que se faz sentir, este blogue não encontra condições para assegurar mais do que os serviços mínimos. Ou seja, e para uma definição de serviços mínimos, vai abusar-se da citação:
Há um argumento a favor dos fogos de Verão que ainda não vi discutido em Portugal. A coisa é algo animista e nunca chegará aos jornais, mas não é improvável que os incêndios resultem do desejo legítimo que o território nacional tem de emigrar. É um direito indiscutível que assiste os portugueses e que deve ser defendido também para o País. Sim, para a terra, as árvores e as pedras portuguesas. O mármore português ainda beneficia das exportações e deixa Portugal de forma legal. Mas imaginemos a agonia de um carvalho centenário, literalmente enraizado dentro de uma reserva natural. Que hipóteses tem esta respeitável árvore de sair legalmente de Portugal? Nenhuma. Não acham isto trágico? Eu acho. Depois admirem-se que ande por aí tanta árvore a imolar-se pelo fogo e a abandonar o país na forma de cinzas levadas pelo vento.
Tulius Detritus, n'A Memória Inventada
Há um argumento a favor dos fogos de Verão que ainda não vi discutido em Portugal. A coisa é algo animista e nunca chegará aos jornais, mas não é improvável que os incêndios resultem do desejo legítimo que o território nacional tem de emigrar. É um direito indiscutível que assiste os portugueses e que deve ser defendido também para o País. Sim, para a terra, as árvores e as pedras portuguesas. O mármore português ainda beneficia das exportações e deixa Portugal de forma legal. Mas imaginemos a agonia de um carvalho centenário, literalmente enraizado dentro de uma reserva natural. Que hipóteses tem esta respeitável árvore de sair legalmente de Portugal? Nenhuma. Não acham isto trágico? Eu acho. Depois admirem-se que ande por aí tanta árvore a imolar-se pelo fogo e a abandonar o país na forma de cinzas levadas pelo vento.
Tulius Detritus, n'A Memória Inventada
Ai é? Então cá vai
(Só para contrariar o Bruno)
Procura-se casa simpática na costa do Alentejo para semana de férias. Com ou sem internet.
Procura-se casa simpática na costa do Alentejo para semana de férias. Com ou sem internet.
Silly, de absurdo
Abrir a torneira na posição azul e receber de volta água quente, quente como raras vezes se digna a aparecer.
quinta-feira, 4 de agosto de 2005
quarta-feira, 3 de agosto de 2005
Silly, oh yeah
João, esse texto do Manuel Salgado tem dois mil e nove escrito nas entre-linhas (assim espero).
P.S.: Da Risco é a autoria do Plano Pormenor do recinto da Expo, cingido a essa área específica e muito contida. Os restantes planos pormenor do Parque das Nações são assinados por outros nomes.
P.S.2: Quando ao Valsassina, espera aí que eu já te atendo (essa de dizeres que a obra dele é o grau 0 da prática tem muito que se lhe diga).
P.S.: Da Risco é a autoria do Plano Pormenor do recinto da Expo, cingido a essa área específica e muito contida. Os restantes planos pormenor do Parque das Nações são assinados por outros nomes.
P.S.2: Quando ao Valsassina, espera aí que eu já te atendo (essa de dizeres que a obra dele é o grau 0 da prática tem muito que se lhe diga).
Strongly recomended
(...) Meet Viriato (179-139 B.C.), a warrior chieftain of a tribe (the “Lusitanos”) from the western Iberian Peninsula, who held off the Roman invasion for several years. Viriato was so good at throwing stones from cliffs at the Roman Legions and in using guerrilla tactics that he had to be murdered in bed by three of his own people, who had been bribed by the local centurion. When Hollywood runs out of the most obvious epics, they will immortalize Viriato on the big screen. Portugal will then lobby to choose a star that is Portuguese enough. Mark Ruffalo or Danny De Vito? Tough choice. (...)
Tulius, em inglês
Tulius, em inglês
terça-feira, 2 de agosto de 2005
Lisboa em Agosto
Dizia-se que Lisboa era maravilhosa em Agosto. Menos de metade dos carros, das pessoas, do barulho, dos engarrafamentos. Que se atravessava a cidade muito rapidamente, que a noite caía tarde e quente sobre as ruas desertas, cheias de espaço para estacionar, que por dentro das janelas abertas havia ruídos familiares de refeições e toalhas de praia secando nas sacadas.
Que se ia ao cinema de um momento para o outro, sem pensar nos bilhetes, ou então a Cascais, pela marginal, procurar uma esplanada calma, abrigada do vento.
Que de manhã quem trabalhava em Lisboa não chegava mais tarde mas muito mais depressa e descontraído, que os almoços se prolongavam sem stress e que o tempo, como o sol, parecia duplicar-se e estar sempre presente.
Também ele ficara em Lisboa aquele Verão e pôde constatar isso e muito mais; que os telefones quase nuncam tocavam, por exemplo, aumentando-lhe a concentração nas tarefas que se propunha.
Podia dar-se ao luxo de escolher um lugar à sombra quando chegava ao escritório ou deslocar-se para o outro lado da cidade no tempo de dois cigarros. As poucas pessoas que sabia estarem em Lisboa encontrava-as no momento seguinte e lia jornais ao almoço, preguiçosamente prolongado até às três e meia.
Mas ele não confundia as coisas. Sabia que Lisboa (e talvez o Porto, segundo ouvira dizer) era assim, podia viver-se assim, naquele único mês do ano, apenas por ser a cidade grande, difícil e caótica que os outros meses revelavam.
Sabia que as coisas só adquirem força quando conhecemos bbem o seu contrário e que nenhuma cidade enorme, tão diversa e capaz de propôr alternativas, poderia sobreviver com a população que o auge do Verão deixara tranquila a guardá-la.
O homem que gostava de cidades, porque gostava de cidades, sabia que a quantidade de cinemas desocupados que Agosto lhe oferecia só podia existir porque justificada durante o resto do ano. Que uma cidade de grandes avenidas sem carros, não as teria se não tivesse necessidade delas nos outros momentos da vida. Que o prazer de se passear por uma variedade de lojas esquisitas só lhe era dado porque habitava uma verdadeira cidade momentaneamente vazia.
Ao contrário de alguns amigos, que também tinham ficado, e que comentavam, bebendo whisky com gelo, que adorariam que Lisboa fosse sempre assim, ele arrepiava-se e forçava-se por demonstrar que se Lisboa fosse sempre assim, não seria Lisboa; não era uma cidade, não era aquele conjunto de museus e restaurantes disponíveis, não seriam mesmo aqueles amigos particularmente escolhidos e com uma história tão própria, não era o território grande e deserto atravessado por algus figurantes, nunca seria o enorme mercado que em defeso se esforçava simpático por servir os únicos lisboetas, mas uma pequena cidade de província, talvez com charme, também, mas com outros valores, outras limitações, outras propostas radicalmente diferentes.
E era aí que residia finalmente o equívoco; não se trataria de valorizar tipos de vida, nem de criar falsos valores ou viciados desejos: Lisboa ou Porto eram cidades com durezas próprias, oportunidades próprias, força própria; mas Portalegre ou Covilhã ou Chaves deveriam ser entendidas no muito diferente que tinham e que a Lisboa e Porto já só era palidamente permitido a meio de Agosto.
«Dizia-se que Lisboa era maravilhosa em Agosto», O Homem que Gostava de Cidades, Manuel Graça Dias, ed. Relógio de Água, 2001
Que se ia ao cinema de um momento para o outro, sem pensar nos bilhetes, ou então a Cascais, pela marginal, procurar uma esplanada calma, abrigada do vento.
Que de manhã quem trabalhava em Lisboa não chegava mais tarde mas muito mais depressa e descontraído, que os almoços se prolongavam sem stress e que o tempo, como o sol, parecia duplicar-se e estar sempre presente.
Também ele ficara em Lisboa aquele Verão e pôde constatar isso e muito mais; que os telefones quase nuncam tocavam, por exemplo, aumentando-lhe a concentração nas tarefas que se propunha.
Podia dar-se ao luxo de escolher um lugar à sombra quando chegava ao escritório ou deslocar-se para o outro lado da cidade no tempo de dois cigarros. As poucas pessoas que sabia estarem em Lisboa encontrava-as no momento seguinte e lia jornais ao almoço, preguiçosamente prolongado até às três e meia.
Mas ele não confundia as coisas. Sabia que Lisboa (e talvez o Porto, segundo ouvira dizer) era assim, podia viver-se assim, naquele único mês do ano, apenas por ser a cidade grande, difícil e caótica que os outros meses revelavam.
Sabia que as coisas só adquirem força quando conhecemos bbem o seu contrário e que nenhuma cidade enorme, tão diversa e capaz de propôr alternativas, poderia sobreviver com a população que o auge do Verão deixara tranquila a guardá-la.
O homem que gostava de cidades, porque gostava de cidades, sabia que a quantidade de cinemas desocupados que Agosto lhe oferecia só podia existir porque justificada durante o resto do ano. Que uma cidade de grandes avenidas sem carros, não as teria se não tivesse necessidade delas nos outros momentos da vida. Que o prazer de se passear por uma variedade de lojas esquisitas só lhe era dado porque habitava uma verdadeira cidade momentaneamente vazia.
Ao contrário de alguns amigos, que também tinham ficado, e que comentavam, bebendo whisky com gelo, que adorariam que Lisboa fosse sempre assim, ele arrepiava-se e forçava-se por demonstrar que se Lisboa fosse sempre assim, não seria Lisboa; não era uma cidade, não era aquele conjunto de museus e restaurantes disponíveis, não seriam mesmo aqueles amigos particularmente escolhidos e com uma história tão própria, não era o território grande e deserto atravessado por algus figurantes, nunca seria o enorme mercado que em defeso se esforçava simpático por servir os únicos lisboetas, mas uma pequena cidade de província, talvez com charme, também, mas com outros valores, outras limitações, outras propostas radicalmente diferentes.
E era aí que residia finalmente o equívoco; não se trataria de valorizar tipos de vida, nem de criar falsos valores ou viciados desejos: Lisboa ou Porto eram cidades com durezas próprias, oportunidades próprias, força própria; mas Portalegre ou Covilhã ou Chaves deveriam ser entendidas no muito diferente que tinham e que a Lisboa e Porto já só era palidamente permitido a meio de Agosto.
«Dizia-se que Lisboa era maravilhosa em Agosto», O Homem que Gostava de Cidades, Manuel Graça Dias, ed. Relógio de Água, 2001
Post tardo-político
O anúncio da candidatura de Mário Soares à presidência dá toda uma nova dimensão à expressão silly season.
Subscrever:
Mensagens (Atom)