segunda-feira, 14 de julho de 2008

Sócrates

O casamento pós-Vaticano II, no Fiat Lux.

Dopping

Domingo, restaurante, final de jantar:

- Quem quer café?
- Eu quero.
- Queres? Olha que depois não dormes.
- Pois não: tenho um livro para acabar.

domingo, 13 de julho de 2008

Será

possível que eu seja o único a demonstrar preocupação e reserva pela presença na lista de ingredientes do Chocapic Integral do «endosperma»?

sábado, 12 de julho de 2008

Spoiler

Um padrasto decente para o Gongas

Três gerações de mulheres combatem a solidão, os brandos costumes e a língua portuguesa

A vida não é fácil para as mulheres de Português Suave. Atormentadas à partida pelos habituais albatrozes de serviço (os «homens», a prosa), elas têm ainda de negociar os seguintes obstáculos: desgostos amorosos, tragédias familiares, mentalidades conservadoras, um país estagnado, uma sintaxe catatónica, um enredo à beira do colapso e a distinta possibilidade de o leitor perder os sentidos a qualquer momento, deixando-as a lutar sozinhas.
Grande parte da história é narrada por Leonor, que se encontra num ponto de viragem: «Cheguei a um beco sem saída e quanto me senti no fundo, olhei para cima e disse para mim mesma: agora vais ter de subir a puta da montanha.»Abandonada por Pepe, «com quem nunca devia ter casado», Leonor vive sozinha com o seu filho Gongas, que lhe «forra a vida a papel-de-seda». O Gongas precisa de um padrasto e a Leonor precisa de sexo, porque «o sexo afasta a morte». Poderá Luís Maria preencher estas lacunas? Às primeiras impressões, parece o candidato ideal: «Vestia-se bem, cheirava a Davidoff, não usava meias brancas nem tinha mau hálito.» Este soberbo naipe de características oculta um lado significativamente menos soberbo. O idílio é breve; Leonor vê-se trocada por uma «gaja manhosa» que «passava a vida nos copos no Plateau» e «servia de vazadouro a toda a cidade». A aposta seguinte é Constantine, que acaba por não preencher os requisitos necessários, apesar da sua intrigante abordagem circense à prática sexual, que deixa Leonor a sentir-se ao mesmo tempo «a menina do trapézio sem rede e o palhaço sem graça, sem intervalo para vender gomas e pipocas».
A prima Naná não tem melhor sorte. João, o seu grande amor, morre num desastre de automóvel. A memória é tão dolorosa que a linguagem desfalece em silepses involuntárias: «O João era o tipo de homem que adivinhou de que tipo de lingerie é que eu gostava» (isto, diga-se, é o tipo de coisa que um tipo faz que deixa qualquer tipa doida). João lia muito e «falava-lhe de conceitos», dispensando aforismos tão contundentes como «a confusão é o início de uma nova realidade».
Entretanto, uma fotografia precipita a revelação de um segredo, provocando o pânico entre os sinais de pontuação. «A mãe andou com o tio Nuno????» Ainda à procura da montanha no topo do beco sem saída, Leonor veste a sua camisa de noite curta de seda» e faz o que faria qualquer pessoa racional na sua situação: envolve-se com um «hippie» holandês chamado Thomas. «O que tu precisas é de relaxar um bocado», diz-lhe o perspicaz Thomas, enquanto enrola um charro. Será este «o tal»? Leonor apaixona-se. Naná torce o nariz. Gongas dorme em casa da avó. A tia Joana vai morrendo de «esclerose lateral amiotrófica». Thomas acaba por regressar a Amesterdão, apavorado pelo enredo.
O tempo passa e o país avança, devagarinho. Acompanhamos a transição democrática, de um tempo em que a PIDE «interrogava pessoas a torto e a direito» até ao pós-25 de Abril, em que «se apregoava a liberdade a torto e a direito». Já nos anos 80, «o dinheiro e o poder cortam cabeças a torto e a direito».
Seria um erro medir Português Suave contra a realidade. O livro é uma fantasia extraterrestre e a acção decorre num universo paralelo em que a «alma viaja à velocidade de um camelo» e a linguagem há muito faleceu, possivelmente de esclerose lateral amiotrófica. Um automóvel destroçado pode assemelhar-se a um «pão de leite»; uma personagem pode ser comparada a uma «almôndega feliz» e outra pode mudar de nome no espaço de quatro páginas; pessoas podem «comer-se literalmente dentro de um carro», ou «viver literalmente do ar», ou até ficar em casa «literalmente a olhar para ontem».
A vida não é fácil para os leitores de Português Suave. Mas, arrastados pela exuberante vitalidade das protagonistas, lá conseguimos trepar pelo beco sem saída e chegar ao topo da puta da montanha, emergindo gratos e atordoados, como almôndegas felizes, naquele lugar mágico onde o amor triunfa a torto e a direito e o futuro é literalmente risonho.

Rogério Casanova no Expresso de hoje.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Juro que não inventei

Ontem o presidente da FIFA disse que Ronaldo está a ser «tratado como um escravo» no Manchester. Hoje Ronaldo disse que sim que concorda, que está a ser «tratado como um escravo» no Manchester.

Proibíamos também a soja

A Nicotina, o Álcool e o Resto, Tiago Galvão no blogue da Atlântico.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Só para lembrar

Queria só lembrar, agora que oiço «economia fossilizada», que nós pagamos do nosso bolso a presença de um grupo de pessoas no Parlamento que dá pelo nome de «Os Verdes» em quem nunca ninguém votou.

O debate do estado da nação

Primeira conclusão à meia-hora: Sócrates diz Port'gal e port'gueses.

João Miranda

O culto do especialista
O culto do especialista II
Promoções
Novo grupo de risco II

Mãos

A «mão» é a entidade a quem Lobo Antunes atribui a autoria dos seus romances, naquilo que é uma fuga infantil das suas responsabilidades enquanto autor. É a «mão» que dita as frases e que faz avançar a acção. Como é evidente, é a «mão» que determina como começa e, sobretudo, como acabam os livros, e Lobo Antunes não faz a menor ideia de como irá acabar um romance quando o começa porque a «mão» não lho diz. Quando Charlie Rose perguntou a Ian McEwan (ver abaixo) sobre o momento em que este percebeu como iria acabar On Chesil Beach, McEwan estremeceu e disse «desde o princípio», confessando que a imagem que o assaltou foi precisamente a cena final e que todo o romance foi mais ou menos um pretexto para se lá chegar. Dito assim, parece fácil. Como aliás parecem fáceis os romances de McEwan, não como em «fácil Rebelo Pinto», mas em fácil de nos facilitar a vida. Não a vida enquanto leitores, mas a vida enquanto seres vivos. Perdi completamente o rumo a este post e agora tenho de ir almoçar.

A felicidade passou a depender de uma espécie de emotivismo permanente, desligado de regras e compromissos duradouros

O medo do casamento, por Pedro Lomba.

Firmemente boné e loja ou os buracos satisfatórios

1. Fixe o anel de boné sobre o parafuso. Como ilustrado, esteja de acordo o boné e bocal com mão esquerda, e atarraxa o tubo lentamente direção de sentido de horário com mão direita, então o fluxo de cola fora da ponta.
2. Depois de uso, esfregue a ponta de bocal com papel macio.
3. Firmemente boné e loja.
4. Quando entupiu à ponta de bocal, em próximo uso, corte o bocal de extender e firmemente boné com um dos buracos satisfatórios.

(Instruções de uso da super cola que acabei de comprar no chinês e que me salvou os óculos.)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

O Daniel Oliveira tem razão

Todos os proprietários dos edifícios devolutos querem requalificá-los rapidamente. Não o fazem por duas razões: a Lei das Rendas que mantém inquilinos indesejados em situações de grande precariedade, e o absolutamente demoníaco enquadramento jurídico da construção em Portugal. A somar a isto há que ter em conta os casos dos proprietários que querem simplesmente vender os edifícios mas que não o conseguem fazer porque passam anos a especular com preços exorbitantes. E aqui o Daniel Oliveira tem toda a razão (isto custa-me, garanto-vos): um sistema de taxação progressiva é o melhor instrumento disponível para impedir esta especulação.

Começa a tornar-se cada vez mais óbvio

que quanto eu for grande quero ser o Ian McEwan.

terça-feira, 8 de julho de 2008

A Av. de Roma

Hoje um agente imobiliário (muito simpático) falava-me sobre um andar que tem para venda na Baixa e como já tinha um cliente interessado em comprá-lo para «alugar a turistas». E explicou-me como «a Baixa» era «interessante» para «os turistas» porque tinha muitas atracções, como o «Terreiro do Paço, que eles gostam.» Fiquei muito surpreendido com este «eles gostam», como se fosse uma coisa muito excêntrica gostar do Terreiro do Paço, assim como comer sardinhas com açúcar, ou uma coisa dessas. Por trás deste raciocínio estava uma lógica de mercado evidente: podemos alugar um apartamento perto do Terreiro do Paço a estrangeiros mais caro do que aquilo que faríamos a um não estrangeiro porque um não estrangeiro não dá tanto valor ao Terreiro do Paço. Eu, que saio muitas vezes na estação de metro do Terreiro Paço e agradeço aos deuses todos cada vez que isto acontece, lá fui concordando que a zona da Av. de Roma era muito cara, sim senhora.