Absolutamente imprescindível: Últimas Reportagens, obra recente de Fernando Guerra. Não só pela qualidade do trabalho fotográfico mas também pela extraodinária selecção de obras. Estou, como dizia o outro no anúncio, maravilhado.
Obrigado, Daniel, pela descoberta.
quinta-feira, 30 de junho de 2005
Notícia de última hora
Há professores na Faculdade de Arquitectura que são de esquerda, que querem levar os alunos à Cova da Moura «para acabar com os mal entendidos» e que defendem que «(m)uitas vezes são os jovens filhos de pais de classe média-alta e alta que causam conflitos, ao contrário do que se ouve por aí». Estou surpreendidíssimo.
Faz sentido, enquadra-se facilmente numa teoria coerente, que a arquitectura seja de esquerda. O medo do liberalismo e a paixão pela coisa pública explicam uma parte, o horror ao conservadorismo e a arrebatadora paixão pela vanguarda e experimentação explicam a outra. Claro, discordo. É um preconceito, gravíssimo. A arquitectura é provavelmente das áreas profissionais (e até artísticas) onde a esquerda mais prevalece, sobretudo ao nível da produção intelectual e académica. Assim de repente só me ocorre um nome da história da arquitectura portuguesa do século XX que sempre se situou à direita: Fernando Távora. O resto varia entre a anarquia a ala esquerda do PS. É assim.
Faz sentido, enquadra-se facilmente numa teoria coerente, que a arquitectura seja de esquerda. O medo do liberalismo e a paixão pela coisa pública explicam uma parte, o horror ao conservadorismo e a arrebatadora paixão pela vanguarda e experimentação explicam a outra. Claro, discordo. É um preconceito, gravíssimo. A arquitectura é provavelmente das áreas profissionais (e até artísticas) onde a esquerda mais prevalece, sobretudo ao nível da produção intelectual e académica. Assim de repente só me ocorre um nome da história da arquitectura portuguesa do século XX que sempre se situou à direita: Fernando Távora. O resto varia entre a anarquia a ala esquerda do PS. É assim.
quarta-feira, 29 de junho de 2005
É sim senhor
À entrada para o teatro o simpático porteiro perguntou-me: «É para a cultura, estúpido?»
Dois regressos
Dois regressos: o Pedro reactivou o seu Feias Artes, e o André inaugurou o seu Bons Ventos que, como o nome indica, é sobre meteorologia. Não é nada, é mesmo sobre a vida de arquitecto estagiário na capital de Espanha. Não é nada, quer dizer, o melhor é ir lá e conferir. O Pedro volta especialmente inspirado: recomendo vivamente o post Mário Soares, Bocage e João César das Neves.
Are you just happy to see me?
A plotter cá do atelier masturba-se ocasionalmente. A cabeça dos tinteiros põe-se, sem que ninguém lhe diga nada, a andar para a frente e para trás, durante uns momentos, coisa para uns centímetros apenas. Deve ser por isso que tem um vinco no rolo de papel. Tem mesmo. Cabrão, está a dar-me cabo dos desenhos. Mas pelo menos o papel tem saído sempre branco como uma virgem. Lá limpinha ela é.
Sonhando acordado com locais distantes 40
A inefável cadência, em todos os sentidos, que se reconhece ausente com alguma violência.
O melhor comentário de sempre (ou a crítica de arquitectura no seu melhor)
Lembro um post ali em baixo onde citava Ana Vaz Milheiro, a propósito do novo Centro Cultural do Cartaxo:
(...) Sente-se a presença, quer de Manuel Vicente, com quem Diogo Burnay colaborou em Macau, quer da iraniana Zaha Hadid, em cujo escritório londrino Cristina Veríssimo trabalhou. No Cartaxo convocam-se estas duas personagens tutelares. Retoma-se a tendência pós-moderna de Vicente na identidade performativa dos espaços e, de Hadid, explora-se o uso acentuado de geometrias menos "puras". (...)
E agora, sem mais delongas, hei-lo:
Como é que a influência da Zaha Hadid se sente se o período em que o projecto foi desenvolvido foi o período em que a Cristina Veríssimo esteve a fazer o mestrado em Harvard?...
Infelizmente o comentário não está assinado.
(...) Sente-se a presença, quer de Manuel Vicente, com quem Diogo Burnay colaborou em Macau, quer da iraniana Zaha Hadid, em cujo escritório londrino Cristina Veríssimo trabalhou. No Cartaxo convocam-se estas duas personagens tutelares. Retoma-se a tendência pós-moderna de Vicente na identidade performativa dos espaços e, de Hadid, explora-se o uso acentuado de geometrias menos "puras". (...)
E agora, sem mais delongas, hei-lo:
Como é que a influência da Zaha Hadid se sente se o período em que o projecto foi desenvolvido foi o período em que a Cristina Veríssimo esteve a fazer o mestrado em Harvard?...
Infelizmente o comentário não está assinado.
terça-feira, 28 de junho de 2005
Follow the leader
Nas discussões entre católicos chega sempre e inevitavelmente o momento em que alguém excumunga o seu interlocutor. Perante a impossibilidade de ambas as perspectivas serem admissíveis, aquele que defende a situação mais parecida com o discurso oficial da hierarquia dá a conversa por terminada invocando ser apenas porta-voz daquilo que é certo e que está escrito. Já aconteceu comigo várias vezes. Na base desta intolerância está um ressentimento de quem não consegue moldar a sociedade à sua imagem e precisa de sentir um grupo unido, dê por onde der, para enfrentar o exterior agressivo. E por isso é que os membros da própria classe, os próprios católicos, são muitas vezes o alvo escolhido (ver o exemplo do anúncio público do padre Serras Pereira onde ameaçava recusar a comunhão aos católicos que estivessem em pecado, no caso pecados relativos ao comportamento sexual dos fiéis). Aqueles que escolhem ser absolutamente seguidores das tomadas de posição do Vaticano não admitem outro modo de estar na Igreja que não seja esse, que de certa maneira é uma atitude de combate. Sentem-se traídos por quem partilha a sua fé mas não comunga das suas opções morais, especialmente na área sexual. A dinâmica de grupo tem aqui um papel muito forte. Como em qualquer grupo minoritário tem de existir um elemento agregador que represente uma dimensão sobre-humana capaz de transformar a falta de número em força. Nos católicos mais fundamentalistas essa figura tem sido, não Cristo, mas o Papa. Por uma razão muito simples: as palavras de Jesus são demasiado ambíguas (as parábolas) para servirem de arma de arremesso, enquanto que as cartas e encíclicas papais são bastante mais normativas. Por isso é que «os teológos e mesmo os santos andam a discutir tudo e mais alguma coisa (por vezes com grande violência) há vinte séculos». Foi este ambiente que se tem vindo a gerar dentro da Igreja Católica (e aqui não falo no Vaticano) que fez com que muitos ficassem desiludidos (incluindo eu) com a eleição de Ratzinger, ele que foi durante as duas últimas décadas a principal origem de uma moral dura e conservadora («exigente», nas palavras de quem a segue) estruturada num conjunto de textos muito coerentes. Acima de tudo foi um sinal, uma orientação, uma vitória daqueles que formam a task force mais purista. É por isso que ando angustiado, angústia essa que não pode durar muito tempo.
O que eu quis dizer é que César das Neves não está sozinho. Longe disso.
O que eu quis dizer é que César das Neves não está sozinho. Longe disso.
Um escape, hein?
Desde que o Francisco José Viegas se pôs a ler Paulo Coelho o Aviz apresenta uma taxa de postação muito acima do normal. Quase desesperada, diria.
Mãe, estou na blogosfera
Ver o Pedro Mexia escrever um longo texto usando as palavras que gostávamos de ter escrito sobre César das Neves e a relação entre o catolicismo e a sexualidade, é motivo de satisfação que baste. Agora ver o texto ser-nos dedicado é algo que entra no capítulo do surreal. Obrigado Pedro.
(Como é que era? «O nosso ego passou a corpo celeste». Sim, é isso.)
(Como é que era? «O nosso ego passou a corpo celeste». Sim, é isso.)
segunda-feira, 27 de junho de 2005
João César das Neves
(...) A opressão actual da condição feminina é fácil de demonstrar. Quais as principais vítimas da degradação da família? Da liberalização do aborto? Da banalização da pornografia? Objectivamente, a nossa cultura de ambição, violência e competição é, em múltiplos aspectos, diametralmente oposta aos valores femininos. A mulher foi influente em épocas que preferiam a honra ao sucesso, a estabilidade ao progresso, a beleza à eficácia, a tradição à novidade. (...)
A liberdade que mata a liberdade, in DN
Realmente esta sociedade que valoriza o sucesso, o progresso, a eficácia e a novidade só pode estar perdida.
A liberdade que mata a liberdade, in DN
Realmente esta sociedade que valoriza o sucesso, o progresso, a eficácia e a novidade só pode estar perdida.
Mrs. Smith
Fui ao cinema ver o Mrs. Smith, um filme com boas piadas mas com tiros a mais. É a história dos problemas que uma mulher tem no seu casamento por ser assassina profissional e não poder contar isso ao marido. A Mrs. Smith, que dá o nome ao filme, aparece vestida de várias maneiras diferentes ao longo do filme, o que faz cair por terra aquela ideia de que os filmes americanos de acção são «todos iguais». Dá também toda uma nova dimensão à expressão «dar uma passa», imortalizada recentemente por Artur Albarran. Reparem como nem a menção ao nome «Artur Albarran» faz desaparecer toda a carga erótica que perpassa por estas linhas. Sim, porque a Mrs. Smith é Angelina Jolie. Só estou para perceber como é que eles apagam as tatuagens...
P.S: O rapazote que faz o papel de marido não me é nada estranho. Tenho a impressão de já o ter visto num sítio qualquer. Já sei! É aquele tipo dos óculos retro que está ao lado do Gehry e da Zaha Hadid (e doutro tipo qualquer, esse não sei mesmo quem é). Ah memória que nunca falhas...
P.S: O rapazote que faz o papel de marido não me é nada estranho. Tenho a impressão de já o ter visto num sítio qualquer. Já sei! É aquele tipo dos óculos retro que está ao lado do Gehry e da Zaha Hadid (e doutro tipo qualquer, esse não sei mesmo quem é). Ah memória que nunca falhas...
Sonhando acordado com locais distantes 39
À distância perde-se muito tempo a explicar minudências do discurso. O diz que disse, diz que não disse, não era isso, era aquilo. Coisas que as palavras atrapalham. Revelam-se absolutamente incapazes para cumprir a singela tarefa de ser transporte de uma mensagem. Como num ciclo viciado o significante passa a significado, e vice-versa. Já ninguém sabe onde nasceu a erva-daninha que está a emperrar a máquina. Dá vontade de mandar as palavras à merda e substitui-las por outros meios de comunicação. Mas, como disse aqui em baixo, sou um rapaz com pudor, logo deixo à vossa imaginação a descoberta desses «outros meios de comunicação». Não que seja preciso uma imaginação muito fértil, claro está.
Sonhando acordado com locais distantes 38
Não tivesse eu pudor e fazia disto uma rúbrica ilustrada. Vontade não me falta. Como um templo.
domingo, 26 de junho de 2005
Rititi, diga lá outra vez
Gostei de ver a Rititi no programa do Francisco, ontem. A moça (cá está, o português antigo) tem graça e é muito divertida. Guardei um momento especial: quando a Rititi falou das suas opções políticas. O Francisco lançou-lhe a questão dizendo que era algo estranho que esta personagem, a Rititi, esta mulher moderna exilidada em Madrid, esta mulher aberta a tudo, se dissesse de direita. A resposta, que aqui cito fazendo uso da minha memória débil, não andou longe disto:
Pois é. Acho que eu sempre quis ser de esquerda mas não consigo. A esquerda está demasiado chata, demasiado mole. Quer resolver tudo com paz e amor, como a intervenção de Zapatero na ONU sobre a questão do terrorismo, em que falou do «encontro de civilizações». Francamente, há que ter o mínimo de sentido de estado! Acho que devia fundar um partido só meu, onde tudo fosse permitido.
Lá nos encontraremos, disse prontamente o Francisco. Daqui revelo que também estou pronto para assinar onde for preciso.
Pois é. Acho que eu sempre quis ser de esquerda mas não consigo. A esquerda está demasiado chata, demasiado mole. Quer resolver tudo com paz e amor, como a intervenção de Zapatero na ONU sobre a questão do terrorismo, em que falou do «encontro de civilizações». Francamente, há que ter o mínimo de sentido de estado! Acho que devia fundar um partido só meu, onde tudo fosse permitido.
Lá nos encontraremos, disse prontamente o Francisco. Daqui revelo que também estou pronto para assinar onde for preciso.
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