quarta-feira, 6 de abril de 2005

Má notícia

O Esplanar está a desfazer-se aos bocados.

terça-feira, 5 de abril de 2005

Pano para mangas

Como é que lida com a arquitectura do português Siza Vieira, que é mediterrânica e modernista, muito precisa e metódica?

Acho que qualquer arquitecto que tenha imaginação já foi influenciado por ele. Qualquer um nessas condições admira-o e excita-se com as suas obras. Ainda me lembro da primeira obra de Siza que vi - acho que foi o projecto das piscinas [de Leça] - e fiquei espantado. Acho que a obra de Siza é o detalhe, e ainda que nós também sejamos detalhe, somo-lo de uma forma completamente diferente. Pessoalmente, quando entro nos seus edifícios, consigo ver realmente que são edifícios portugueses.

Rem Koolhaas, em entrevista ao JN

Eis porque de vez em quando o melhor mesmo é estar calado (ou o descanso do guerreiro)

Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, ensembles, coros. Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilhéu do Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações.

Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibéis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.

Falam os médicos, os notários, os empreiteiros, os varredores, os motoristas, os professores e toda a lista de profissões da estatística e não há corporação que fique de fora neste zunzunar do paleio, vendedores de automóveis, mediadores de seguros, sapateiros que passam a vida a cantar, empregados de mesa, agentes da autoridade, doentes dos hospitais, operadores imobiliários, empregados forenses, e também engenheiros, sem-abrigo, vagabundos, telefonistas, padeiros, patinadores, engraxadores e vândalos. Imigrantes provindos de países sombrios aprendem aqui a soltar as línguas, aderem ao velho ofício de dar à taramela, por isto e por aquilo, por tudo, nada. Passam-se dias, meses, anos, remoem as depressões, adejam os perigos e o país a falajar, falajar, falajar.

Fantasia Para Dois Coronéis e uma Piscina, Mário de Carvalho

domingo, 3 de abril de 2005

O próximo?

Não vale a pena fazer expeculações, dizem. Discordo. Vale a pena toda não tanto especular mas lançar desejos. É isso que faço hoje, é isso que venho fazendo há uns tempos. Confesso que na minha situação o problema é biográfico, correndo por isso o risco de estar a ser interesseiro. Mas todos o somos, portanto perco a vergonha.

O próximo Papa será o próximo Papa. É importante lembrar isto quando todos falam numa figura que parece eclipsar-se como o sucessor de João Paulo II. Nada diz que depois de um Papa forte não possa vir um Papa ainda mais forte. E se João Paulo II fez quase tudo o que havia para fazer (agora) nalgumas áreas, noutras parece ter deixado o convite aberto. Diálogo inter-religioso? Abertura geográfica? Distanciamento político? Karol Wojtyla deixou bem vincadas as pegadas: é só uma questão de saber segui-las.

A minha geração católica define-se por um fundamentalismo moral que não existia há uns anos. João Paulo II muito para isso contribuiu. Quando se fala nos jovens deste papado fala-se naqueles que disseram sim e se entregaram totalmente a uma fé que foi gerida pelo cardeal Ratzinger. Falo por exeperiência própria: à minha volta as águas foram-se separando. De um lado os que evangelizaram a abstinência e a santidade; do outro os que se abstiveram de confrontos, colocando-se a uma distância confortável. O espaço para aqueles que, como eu, se sentem desconfortáveis com algumas das exigências morais da fé (reforçadas nos últimos 20 anos) foi sendo aos poucos reduzido. Ou estás a favor, ou estás contra, ouvi eu várias vezes, a fazer lembrar o discurso de Bush no pós-11 de Setembro. Poucos mas bons, pode ser outra das expressões que se adequa para descrever estes jovens.

E agora lanço os meus desejos, tão concretos quanto possível. Eu quero ver o próximo Papa resolver (porque sinto que é algo que necessita de resolução) o que está por resolver. A minha adesão a esta Igreja passa por ver as mulheres ordenadas, pela simples razão que nada parece justificar a actual situação (mesmo teologicamente o argumento, porque é só um, é incrivelmente frágil). Passa pela revisão por parte do Vaticano da sua posição sobre o planeamento familiar e a contracepção, não só por causa da SIDA mas também pela saudável permanência na fé daqueles que não se revêem na abstinência nem na extrema falibilidade e pouca conveniência dos chamados "métodos naturais". Passa pelo fim da perseguição aos divorciados, que só serve para marginalizar vítimas e forçar a continuidade de casamentos infelizes. Passa também pela maior participação dos leigos nas celebrações. Passa pelo reposicionamento dos movimentos ultra-conservadores no local que lhes é próprio: de minoria. Passa pelo fim da incompreensão face à homossexualidade, encarando-a não como um problema, mas como diferença.

O que faço não é uma ameaça. O que faço é aquilo que qualquer católico faz: desejar para a sua Igreja o melhor. Se o faço com tanta determinação é porque não quero pertencer a uma segunda (ou terceira) geração de vencidos do catolicismo. Não me quero afastar devido à impossibilidade de chamar meus certos princípios de vida. Porque não quero ser também um católico selectivo, que decide abaçar a prestações uma fé exigente.

João Paulo II deixou-nos saudades. Mas deixou-nos também várias portas por abrir. Não escondo que tenho grandes expectativas para os próximos anos.

P.S: Nem arrisco nomes. Parece-me no entanto que o escolhido deve ser, ao contrário do que se instalou como senso comum, um europeu, porque só um europeu terá condições para reformar estas posições. E portanto não me descontentaria o cardeal Godfried Danneels, se bem que se eu participasse no conclave o meu candidato falaria português. Sem sotaque.

Forma vs. Conteúdo

Digam de vossa justiça.

«Sprechen sie Deutsche would hardly make sense»

I know nothing, don't know much
I think my education's gone out to lunch
I can's remember, I cannot think
what is the difference between iron and zinc

I can listen, I can speak
But my conversational skills are gobblety-geek
I know Harold in 1066
Got shot in the eye with a long pointy stick

Revolutions and World War Two is it true what they say
That Charles de Gaulle was a hero and Churchill's a Nero
I threw that away

I get up when I like
Wear anything I like
Don't keep up with the cool
I make up my own rules
Don't have to eat my greens
Or keep my bedroom extra tidy
'Cause nobody is around to tell me off
I can lounge about in my house 'cause lounging about is...good

I know all i need to know
Why talk Sahili if it's where i won't go
Latin is clever and sexy is French
Sprechen sie Deutsche would hardly make sense

Inquisitions and missionaries seem fairly bizarre
Do I follow commandments from Moses or petals off roses
I am the Czar

I get up when I like
(...)

Revolutions and World War Two is it true what they say
That Charles de Gaulle was a hero and Churchill's a Nero
I threw that away

I get up when I like
(...)

Lounge, Dogs Die in Hot Cars

*****



à atenção destes senhores.

sábado, 2 de abril de 2005

Obrigado

Sou daqueles que se devidem na incontornável avaliação. De um lado o viajante, o entusiasta do diálogo inter-religioso, o muro de berlim, a abertura, os quatro cantos do mundo. Do outro o desnecessário conservadorismo, o apoiante da opus dei e da comunhão e libertação, o moralista (como se os Papas pudessem não o ser). Toda a minha vida foi vivida com ele. Não sei o que será a partir de agora. Mas hoje digo, obrigado.

20h37

Não, eu não tenho um post preparado.

Duas coisas que aprendi com a Sábado desta semana

1. Uma Thurman gosta de bikinis grandes.
2. Cavaco, em férias, levanta-se às 7.00 da manhã.

Eufemismos

«Estamos a acompanhar o estado de saúde», «Esperamos o boletim clínico», «Continuamos com o acompanhamento da situação delicada que se vive no Vaticano», etc, etc.

Aquilo que ainda vamos ter que sentir

Jorge Figueira hoje no Público, a propósito do Pritzker de Thom Mayne, lembra que o pós-modernismo quase não passou por Portugal:

É um bom pretexto para redescobrir uma arquitectura que decorre de uma certa cultura arquitectónica dos anos 80 - como acontece com Zaha Hadid, não por acaso a premiada em 2004 - e acertarmos o passo com um debate que mal chegou a pousar em Portugal. O "desconstrutivismo" não entrou cá, e, no entanto, já lá vão dois prémios Pritzker e outros virão com a mesma natureza.
Se aceitarmos que a abordagem do pós-modernismo na arquitectura se fez com uma face "historicista" e outra "desconstrutivista", dir-se-ia que Portugal só se reviu na primeira, por reflexo público da obra e discurso de Tomás Taveira.

Já no último número do Jornal dos Arquitectos (217 - Outubro, Novembro, Dezembro 2004), Jorge Figueira aborda esse mesmo tema:

No nosso tempo e contexto, o "contemporâneo" é uma espécie de transe, um espelho baço para todos os relativismos. Em Portugal ainda estamos a decidir se alguma vez fomos modernos, e já o "contemporâneo" nos entra em casa como umtsunami.
Pessoalmente, interessa-me o momento "onde as coisas se precipitaram", como diz Eduardo Prado Coelho: "Podemos ser tentados a saltar etapas, e talvez não haja alternativa para isso, mas não podemos deixar de tentar recuperar o que havia de positivo e de enriquecedor nas etapas que foram saltadas: porque doutro modo perdemos em todos os tabuleiros".
É nesse sentido que eu quero invocar Aldo Rossi: como uma etapa que saltámos; como uma angústia e um sorriso que se esvaiu nas cores do "pós-modernismo"; como aquilo que ainda vamos ter de sentir.

Sou particularmente sensível a este tema. O que aconteceu em Portugal foi uma rejeição à partida do pós-moderno. Talvez por razões económicas (o "desconstrutivismo" é coisa cara). No entanto, o pós-modernismo coincidiu (pelo menos o seu arranque) no tempo com outra reacção ao moderno: o "regionalismo crítico", isto é, a tentativa de não abandonar o moderno adaptando-o, reinterpretando-o, à luz do(s) contexto(s) histórico(s) e geográfico(s). Acontece que, feliz ou infelizmente, essa atitude acabou por vingar em Portugal, e os nomes mais influentes foram (e são) mestres. A começar por Távora e Teotónio, passando por Taínha e Siza (este percursor do "neo-modernismo"), todos eles sempre fizeram declarações de fé ao moderno. O pós-modernismo acabou por não ter espaço para aparecer. Taveira, de facto, conseguiu-o, mas fica como prova que teve ser "à força", impondo-se, chocando, gritando. No entanto considero que há outros nomes com obra feita em Portugal que arriscam o rótulo: Hestenes Ferreira, por exemplo. Mas de facto se queremos ver obra pós-moderna feita por portugueses temos necessariamente de sair do país. Por muito que não goste do título, Manuel Vicente sempre navegou nas águas pós-modernistas, sob forte influência de Venturi (enquanto que Hestenes Ferreira respira mais directamente a influência de Kahn.) Também Pancho Guedes, ainda mais marginalizado do que Manuel Vicente, é um pós-moderno - mas neste caso um pós-moderno quase surreal, desalinhado, independente. Também Manuel Graça Dias e Egas José Vieira se podem ler à luz desse "movimento". Ainda assim fica claro que essa "etapa" é muito ténue em Portugal e que, claramente, as consequências estão à vista, fruto da influência fortíssima que tiveram (e têm) Siza Vieira e Souto Moura, este último introduzindo a componente miesiana que faltava ao moderno português.

P.S: A actual direcção do JA (liderada por Graça Dias) cessou funções com este número. Ficam dois desejos: que a próxima consiga manter a elevadíssima qualidade actual; e que Graça Dias não deixe a actividade editorial, noutro sítio qualquer.

P.S.2: O "nosso" blogosférico jmac, a continuar assim, arrisca-se também a fazer uma entrada directa para tabela dos pós-modernos.

sexta-feira, 1 de abril de 2005

«Vá por mim que sou barbeiro»

Ontem ouvi um verdadeiro e genuíno comentário racista. Eu ando a dizer isto há muito tempo: aquele sítio devia ser embalsamado, preservado e mostrado ao público em geral.

Substitutos

No fim, todos queremos ser compreendidos. Que o outro saiba o que sentimos.

do post em baixo

Sms, msn, skype, blogger, ftp, mp3, jpg. Carta, postal, pombo correio.

Crónica #5

A palavra perfeita

Heidegger debruçou-se muito sobre o problema e, talvez como nenhum outro, soube explicá-lo numa expressão feliz - a busca do ser humano é uma procura incessante pela palavra-mestra.

É claro que a maioria das pessoas não pensará nestes termos - “De que diabo está este tipo a falar?”, devem dizer. Mas a verdade é que tudo quanto fazemos na vida é um esforço de comunicação. Esse é o grande abismo que nos separa dos animais ou das plantas. Porque não nos basta existir. Por muito que nos achemos realistas quando dizemos que o importante são outras coisas, o prazer e a dor que alcançamos ou de que fugimos, no limite, o que nos deixa à beira do céu ou do inferno é o sucesso ou o fracasso de um acto de comunicação.
No fim, todos queremos ser compreendidos. Que o outro saiba o que sentimos. Porque, por muitos filhos que tenhamos e família e amigos e colegas e amantes, estamos sempre irremediavelmente sozinhos a cada momento do universo.
Os artistas têm muito esta pose: de não quererem a compreensão, de dispensarem isso. Mas é por demais evidente que são quem mais procura o contrário: querem ser ouvidos, lidos, entendidos. De contrário, estavam quietos, em silêncio, na mudez do seu bastidor.
Eu quero que o outro saiba a minha dor, o meu amor, a minha alegria; quero que o outro pressinta como vejo o mundo, a angústia que se alimenta do meu interior.
Do “logos” grego ao “verbo” latino que, no começo do Evangelho, estava com Deus e era Deus e lhe mostrava o mundo, a tradição do pensamento compreendeu cedo o problema. Cada vida humana é uma tentativa de resposta a essa questão. A palavra-mestra, a palavra final que leve em si a própria coisa de que fala e não seja uma mera representação. A palavra perdida do Arquitecto para os maçons. O que quer que eu ande aqui a fazer, escrevendo diaramente estas crónicas, sem saber onde ecoam.

Alexandre Borges