domingo, 10 de maio de 2009
Sei que sou
Nos antípodas emocionais de Summer of '69 está outra das presenças assíduas nas bodas, Serafim Saudade, uma epopeia pimba que versa sobre uma vida dura que deu em final feliz e que arranca, logo a abrir, um verso impossível: «Aqui estou e na verdade sei que sou o que sonhei». É um verso impossível porque só aos simples admitimos a sinceridade de serem aquilo que sonharam; nós nunca seremos aquilo que sonhámos, nunca admitiremos que os nossos sonhos sempre foram assim tão modestos. Exige-se, ao menos, ambição nas ambições. Faltará sempre qualquer coisa, qualquer conquista, qualquer triunfo que nos impedirá de vestir a peruca e sair cantando aqui estou e na verdade sei que sou o que sonhei. Mas gostávamos, ó se gostávamos.
O Verão do
E depois há aquelas canções que ouvimos muito há muito tempo e que só voltamos a ouvir nas festas de casamento (faz muita falta uma distinção portuguesa entre «marriage» e «wedding»). Summer of '69, do simpático mas desinspirado Bryan Adams, é uma delas e vai assim:
I got my first real six-string
Bought it at the five-and-dime
Played it till my fingers bled
It was the summer of '69
Me and some guys from school
Had a band and we tried real hard
Jimmy quit and Jody got married
I shoulda known we'd never get far
Oh when I look back now
That summer seemed to last forever
And if I had the choice
Ya - I'd always wanna be there
Those were the best days of my life
Ain't no use in complainin'
When you got a job to do
Spent my evenin's down at the drive-in
And that's when I met you
Standin' on your mama's porch
You told me that you'd wait forever
Oh and when you held my hand
I knew that it was now or never
Those were the best days of my life
Back in the summer of '69
Man we were killin' time
We were young and restless
We needed to unwind
I guess nothin' can last forever - forever, no
And now the times are changin'
Look at everything that's come and gone
Sometimes when I play that old six-string
I think about ya wonder what went wrong
Standin' on your mama's porch
You told me it would last forever
Oh the way you held my hand
I knew that it was now or never
Those were the best days of my life
Os sucessos comerciais nunca são misteriosos. Summer of '69 é um dos temas mais lucrativos da história da música pop porque todos nós passámos por um Verão de 69 e sabemos que fomos felizes no Verão de 69 e que é triste revisitar o Verão de 69. A chave da canção está nos versos tristes que olham com alguma condescendência para o compromisso emocional que foi feito naquela adolescência tardia cuja ingenuidade permitia sonhar com o prolongamento eterno daquela irresponsabilidade inocente. Inevitavelmente, Adams interroga-se sobre o que correu mal:
Sometimes when I play that old six-string
I think about ya wonder what went wrong
Nada correu mal, Bryan, foi só a idade adulta. Tu cresceste, nós crescemos, e se tudo correu bem durante o processo olharemos sempre para trás pensando no que correu mal, porque aqueles terão que ter sido os melhores dias da nossa vida. Bryan Adams escreveu uma carta de amor à sua adolescência e nós gostámos e levámo-lo em ombros. Mas depois veio o insucesso e a amargura. Bryan Adams passou da idade adulta à meia-idade e começou a dar coices ao mundo. Em 2008, ele interpretou assim o seu hit de 1984:
«I think 'Summer of '69' - i think it's timeless because it's about making love in the summertime. There is a slight misconception it's about a year, but it's not. '69' has nothing to do about a year, it has to do with a sexual position.
Out of all the people who hear that song, how many do you think realize that as they listen to it?
I don't know. At the end of the song the lyric says that it's me and my baby in a 69. You'd have to be pretty thick in the ears if you couldn't get that lyric.»
Yeah, right, ninguém cai nessa, ó trapaceiro. Mas há que admirar essa fabulosa metamorfose que é transformar o Verão de 69 no Verão do 69.
I got my first real six-string
Bought it at the five-and-dime
Played it till my fingers bled
It was the summer of '69
Me and some guys from school
Had a band and we tried real hard
Jimmy quit and Jody got married
I shoulda known we'd never get far
Oh when I look back now
That summer seemed to last forever
And if I had the choice
Ya - I'd always wanna be there
Those were the best days of my life
Ain't no use in complainin'
When you got a job to do
Spent my evenin's down at the drive-in
And that's when I met you
Standin' on your mama's porch
You told me that you'd wait forever
Oh and when you held my hand
I knew that it was now or never
Those were the best days of my life
Back in the summer of '69
Man we were killin' time
We were young and restless
We needed to unwind
I guess nothin' can last forever - forever, no
And now the times are changin'
Look at everything that's come and gone
Sometimes when I play that old six-string
I think about ya wonder what went wrong
Standin' on your mama's porch
You told me it would last forever
Oh the way you held my hand
I knew that it was now or never
Those were the best days of my life
Os sucessos comerciais nunca são misteriosos. Summer of '69 é um dos temas mais lucrativos da história da música pop porque todos nós passámos por um Verão de 69 e sabemos que fomos felizes no Verão de 69 e que é triste revisitar o Verão de 69. A chave da canção está nos versos tristes que olham com alguma condescendência para o compromisso emocional que foi feito naquela adolescência tardia cuja ingenuidade permitia sonhar com o prolongamento eterno daquela irresponsabilidade inocente. Inevitavelmente, Adams interroga-se sobre o que correu mal:
Sometimes when I play that old six-string
I think about ya wonder what went wrong
Nada correu mal, Bryan, foi só a idade adulta. Tu cresceste, nós crescemos, e se tudo correu bem durante o processo olharemos sempre para trás pensando no que correu mal, porque aqueles terão que ter sido os melhores dias da nossa vida. Bryan Adams escreveu uma carta de amor à sua adolescência e nós gostámos e levámo-lo em ombros. Mas depois veio o insucesso e a amargura. Bryan Adams passou da idade adulta à meia-idade e começou a dar coices ao mundo. Em 2008, ele interpretou assim o seu hit de 1984:
«I think 'Summer of '69' - i think it's timeless because it's about making love in the summertime. There is a slight misconception it's about a year, but it's not. '69' has nothing to do about a year, it has to do with a sexual position.
Out of all the people who hear that song, how many do you think realize that as they listen to it?
I don't know. At the end of the song the lyric says that it's me and my baby in a 69. You'd have to be pretty thick in the ears if you couldn't get that lyric.»
Yeah, right, ninguém cai nessa, ó trapaceiro. Mas há que admirar essa fabulosa metamorfose que é transformar o Verão de 69 no Verão do 69.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
O crime perfeito
Qualquer que seja a verdadeira origem do «mal entendido» entre José Saramago e o DN, não vejo outra consequência deste episódio que não seja a legitimação do plágio: basta que, a posteriori, se venha alegar uma «falha técnica» que omitiu «as aspas», fazer a devida referência (curiosamente também omissa na versão original) e endereçar um «pedido de desculpas» ao autor plagiado. Parece-me o crime perfeito.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Manuela
Lembram-se? Há uns meses, curtos, já em pleno freeportgate, Sócrates iria cavalgar suavemente para a maioria absoluta. Manuela era um desastre, um flop, um erro de casting de quem todas as redacções se riam. Era mulher, velha, e dizia «piquenas». Hoje já só se fala na «ingovernabilidade» do país, na divisão do poder, no «bloco central». E ainda faltam seis meses de sonsagens.
O nosso Mainardi
Aproveito o embalo do tema dos media e aproveito para dizer que o A Torto e a Direito (TVI24), que agora está online, é muito melhor do que aquilo que por aí li e ouvi, pelo menos nesta versão Francisco Teixeira da Mota (não vi nenhuma das edições Fernanda Câncio). E João Pereira Coutinho conseguiu transpor a sua persona escrita para a televisão com um sucesso assinalável, conquistando de vez o lugar de «nosso Mainardi».
U ee
Na minha curta vida vi nascer dois jornais sérios: o Sol e o i. O Sol nunca foi outra coisa que não uma cópia do chinês do Expresso, um exercício de ressentimento e vingança que não trouxe nada de novo a um modelo que já apresenta sinais de cansaço. O i é um jornal que aparece no meio de uma crise que ameaça extinguir boa parte da imprensa e que se anuncia como «inovador» em quase tudo: no grafismo, nos conteúdos, na relação com a internet, no nome absolutamente suicida («o i» soa a «uuií», «oui», «uweeee», «danone de morango»). A boa notícia é que parece ter pernas para andar: o primeiro número anuncia um produto híbrido entre jornal e revista, um «magazine» diário que pode muito bem ser a solução. Particularmente bem sucedida é a secção «Zoom» (não perguntem) que apresenta uma selecção de notícias onde se nota que há investigação e cuidado na escrita. As principais notas negativas são a ausência da «cultura» (duas páginas sobre o StarTrek e mais duas sobre tatuagens não cumprem os mínimos) e as traduções do New York Times. Vamos a ver.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Filha-da-putices
O jogo da década (Manchester United vs. Barcelona) merecia um prelúdio assim, uma tragédia grega, uma ópera bufa, uma sacanagem norueguesa de todo o tamanho (segundo os relatos in loco, estou à espera que comece o resumo na RTP.) Para bem de Tom Henning Øvrebø é bom que Tom Henning Øvrebø já tenha visto o Big Ben e a Torre de Londres e o British Museum e a Tate Modern e Westminster e tudo porque, no que toca à sua biografia, o capítulo «Londres» fechou-se hoje. E o que dizer do pé esquerdo do Essien? Meu Deus, o pé esquerdo do Essien, que fez aquilo aos 9 minutos e não conseguiu mandar a bola para longe aos 93: definitivamente, o pé esquerdo do Essien não vai dormir hoje.
O «património»
Quando é que decidimos que todas as tias velhas são simpáticas e bonitas e bem-cheirosas e charmosas só porque são tias velhas?
A um passo da anarquia
O Fim do Estado? Ou, na versão de Paulo Rangel, um «Estado a caminho do declínio»? Infelizmente, não me parece.
terça-feira, 5 de maio de 2009
Riscar o que não interessa
«Eu sentir-me-ia confortável com qualquer solução em que eu acredite (...)»
A subtileza do domínio da língua portuguesa por parte de Manuela Ferreira Leite passa ao lado dos brutos que são contratados para interpretar as suas palavras. E o mais simples é isto: não é preciso «interpretar» nada, está lá tudo. Se prestarmos atenção aos tempos verbais, veremos nesta frase a desacreditação da ideia do «bloco central»: basta conjugarmos o condicional do primeiro verbo com o presente do segundo. Quem viu nestas palavras uma porta aberta a uma coligação pós-eleitoral com o PS deu uma prova acabada da sua incompetência linguística; ou da sua má-fé. É riscar o que não interessa.
A subtileza do domínio da língua portuguesa por parte de Manuela Ferreira Leite passa ao lado dos brutos que são contratados para interpretar as suas palavras. E o mais simples é isto: não é preciso «interpretar» nada, está lá tudo. Se prestarmos atenção aos tempos verbais, veremos nesta frase a desacreditação da ideia do «bloco central»: basta conjugarmos o condicional do primeiro verbo com o presente do segundo. Quem viu nestas palavras uma porta aberta a uma coligação pós-eleitoral com o PS deu uma prova acabada da sua incompetência linguística; ou da sua má-fé. É riscar o que não interessa.
A TV da nossa vida
O Pedro Adão e Silva (provavelmente o melhor surfista-comentador-político português) passou-me aquela corrente das séries «da nossa vida» (que deveriam ser 15, mas estas coisas do coração não se medem aos palmos). Seguindo uma cronologia biográfica, é mais ou menos isto:
- Dartacão, que me fez querer ser um cão com uma espada e um chapéu e uma capa;
- Os Três Duques, que me fez querer ter um carro cor-de-laranja sem portas;
- Bonanza, que me fez querer ter pistolas, embora na idade em que vi Bonanza toda a minha vida se centrasse na vontade de ter pistolas;
- Duarte & C.a, que me fez querer ser gordo;
- Tom Sawyer, que me fez querer ser um maltrapilho do Mississippi;
- O Poirot do David Suchet, que me fez querer ser belga e germofóbico;
- MacGyver, que quase me fez querer ser escuteiro (MacGyver não bebe, não fuma, não fode, e, last but not the least, o canivete);
- O «Kitt» (naquela altura era impossível pronunciar «The Knight Rider», e «O Justiceiro» nunca foi uma hipótese), que me fez querer ser o David Hasselhoff e desenvolveu em mim uma atracção pela antropomorfização de objectos inanimados;
- Baywatch, que me fez querer ser o David Hasselhoff e desenvolveu em mim uma atracção pela antropomorfização de «objectos» inanimados;
- The West Wing, que me fez querer ser qualquer coisa na Casa Branca, incluindo ser pai do Charlie Sheen;
- The Wire, que me faz querer ser, todos os dias, o David Simon.
Passo esta corrente ao Tiago, ao Rogério, ao Bruno, ao João, e ao David.
- Dartacão, que me fez querer ser um cão com uma espada e um chapéu e uma capa;
- Os Três Duques, que me fez querer ter um carro cor-de-laranja sem portas;
- Bonanza, que me fez querer ter pistolas, embora na idade em que vi Bonanza toda a minha vida se centrasse na vontade de ter pistolas;
- Duarte & C.a, que me fez querer ser gordo;
- Tom Sawyer, que me fez querer ser um maltrapilho do Mississippi;
- O Poirot do David Suchet, que me fez querer ser belga e germofóbico;
- MacGyver, que quase me fez querer ser escuteiro (MacGyver não bebe, não fuma, não fode, e, last but not the least, o canivete);
- O «Kitt» (naquela altura era impossível pronunciar «The Knight Rider», e «O Justiceiro» nunca foi uma hipótese), que me fez querer ser o David Hasselhoff e desenvolveu em mim uma atracção pela antropomorfização de objectos inanimados;
- Baywatch, que me fez querer ser o David Hasselhoff e desenvolveu em mim uma atracção pela antropomorfização de «objectos» inanimados;
- The West Wing, que me fez querer ser qualquer coisa na Casa Branca, incluindo ser pai do Charlie Sheen;
- The Wire, que me faz querer ser, todos os dias, o David Simon.
Passo esta corrente ao Tiago, ao Rogério, ao Bruno, ao João, e ao David.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
O bloco central
Não é possível governar-se sem maioria absoluta, dizem os arautos da besta que é o «bloco central». Não é possível? Claro que é; eles é que não gostam. Como se nunca tivessem feito parte de um condomínio; como se nunca tivessem sido casados. Sem maioria absoluta é preciso ceder-se de vez em quando, é só isso. Quem não está disposto a isto não merece ser eleito para nada.
sábado, 2 de maio de 2009
Fuck the Falklands
This is England é também um testemunho geracional que faz o melhor possível por escrever uma carta de amor aos anos 80, que não foram meigos com ninguém, sobretudo para quem teve de crescer e fazer-se homem durante aquela década que foi uma espécie de limbo desnorteado, desmotivado e desesperado (e por isso bem mais interessante, por exemplo, do que a molengona década de 90), e sobre a tragédia que é a inevitabilidade de vermos a memória da nossa juventude ficar refém do mundo que nos rodeou e que sugámos como uma esponja sem critério. O movimento skinhead foi o que calhou estar no caminho da puberdade de Shane Meadows e ele mostra-nos isso com uma ternura imensa.
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Livin' on the edge
Ontem à noite numa Bica relativamente vazia mas surpreendentemente cheia de figuras públicas (um comentador político da televisão, um arquitecto famoso, um actor do The Wire), a conversa foi parar a um tema que não tem sido objecto da merecida atenção por parte da sociedade em geral e dos media em particular: o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Talvez mais por respeito à discussão e menos por uma filiação ideológica objectiva, dei por mim a defender a posição que sustenta a diferença de natureza entre uma união de pessoas de sexos diferentes e uma união de pessoas do mesmo sexo, utilizando para isso um tom de voz mais alto do que aquele estritamente necessário. Gosto de viver perigosamente.
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